JOHN STEINBECK

A LESTE DO PARASO



Ttulo da edio original: EAST OF EDEN

Autor: JOHN STEINBECK

Traduo: JOO B. VIEGAS
Reviso: MOURA VITRIA
Capa: A. PEDRO

Copyright (C) 2001 by Livros do Brasil
Reservados todos os direitos pela legislao em vigor

ltima Edio - Lisboa - Outubro de 2001

ISBN 972-38-0003-9

VENDA INTERDITA
NA REPBLICA FEDERATIVA DO BRASIL

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COLECO DOIS MUNDOS



JOHN STEINBECK

A LESTE DO PARASO


VOLUME II

Traduo de
JOO B. VIEGAS

EDIO LIVROS DO BRASIL LISBOA
Rua dos Caetanos, 22


Digitalizao e Arranjo
A. R. M.




CAPITULO XXV

1

        O Inverno passou pelo vale do Salinas, diluviano mas espln-
        dido. As chuvas empaparam a terra, mas no houve cheias.
        A erva j estava crescida em Janeiro; em Fevereiro, todas as
        pastagens estavam magnficas e o gado mostrava-se gordo e
        ndio. Em Maro a chuva branda continuou a cair e cada aguacei-
        ro esperava delicadamente que o anterior tivesse ensopado o solo
        para cair. Depois, o calor invadiu o Vale e a terra desabrochou em
        amarelo, azul e oiro.
        Tom vivia sozinho no rancho, e at a colina poeirenta estava
        verde, e os slices escondiam-se sob a erva, e as vacas dos Hamil-
        ton estavam gordas, e os carneiros dos Hamilton rebolavam-se
        na erva.
        Ao meio-dia de 15 de Maro, Tom sentou-se no banco diante
        da forja. De manh fizera sol, mas nuvens pardas vindas do Oce-
        ano passavam por cima das montanhas e as suas sombras cor-
        riam na terra luzidia.
        Tom ouviu um barulho de cascos e avistou um garoto de co-
        tovelos afastados que empurrava um cavalo cansado em direc-
        o  casa. Tom levantou-se e dirigiu-se para a estrada. O garoto
        deteve-se diante da casa, tirou o barrete, atirou um sobrescrito
        amarelo para o cho, deu meia volta ao cavalo e partiu a galope.
        Tom esboou um gesto para o chamar, depois baixou-se com
        ar desanimado e apanhou o telegrama, indo sentar-se novamente
        no banco com o papel na mo. Ento, olhou as colinas e a velha
        casa, como que para preservar alguma coisa, antes de rasgar o
envelope e ler as quatro palavras inevitveis: o nome e o apelido,
o acontecimento e a data. Tow dobrou lentamente o telegrama
em dois, depois em quatro, depois em oito, e continuou a dobr-lo
at o papel ficar do tamanho dum selo. Encaminhou-se para casa,
atravessou a cozinha, a sala minscula, e entrou no quarto. Tirou
do armrio o fato preto, uma camisa branca e uma gravata preta e
colocou-os no espaldar duma cadeira. S ento se estendeu na
cama e virou a cara para a parede.


2

        As caleas e os cabriols tinham deixado o cemitrio de Sali-
        nas. A famlia e os amigos regressaram a casa de Olive, na Cen-
        tral Avenue, para comer, beber caf, ver como encaravam a coi-
        sa, e para fazer e dizer o que se faz e diz naquelas ocasies.
        George ofereceu um lugar a Adam Trask na sua tipia de
        aluguer, mas Adam recusou. Ficou errando no cemitrio e acabou
        por se sentar no degrau de cimento que rodeava o jazigo duma
        certa famlia Williams. Em redor do cemitrio, gemiam os cipres-
        tes sombrios, tradicionais, e violetas brancas cresciam a esmo
        nas leas. Algum trouxera um vaso e as sementes, dispersadas
        pelo vento, tinham germinado aqui e acol.
        O vento frio soprava sobre as tumbas e chorava nos cipres-
        tes. Havia muitas sepulturas sobrepujadas por uma estreia de bron-
        ze que designava os mortos do Grande Exrcito, e em cada estre-
        la estava espetada uma bandeira rasgada pela ventania e que ali
        fora posta no Decoration Day do ano anterior.
        Adam contemplou as montanhas a leste de Salinas e o pico
        Frmont que as dominava. O ar estava cristalino, anunciando chu-
        va. No tardou que comeasse a cair uma chuvada, se bem que o
        cu no estivesse totalmente encoberto.
        Adam chegara no comboio da manh. Primeiro, no quisera
        vir, mas sentira-se empurrado por uma fora irresistvel. No po-
        dia acreditar que Samuel tivesse morrido, ouvia ainda a bela voz
lrica, a sua toada cantante, a msica curiosa das palavras estra-
nhas, sempre diferentes daquelas por que se esperava. Na maioria
dos homens, no custa nada adivinhar a palavra que vo proferir.
        Adam vira Samuel no caixo e no quisera aceitar essa morte.
        E como o rosto no se parecia com o de Samuel, Adam fora-se
        embora, levando a imagem do vivo.
        Tivera de ir ao cemitrio porque assim o exigiam as conven-
        es, mas mantivera-se sempre afastado o bastante para no ouvir
        as palavras e, quando os filhos atiraram terra para cima da urna,
        distanciou-se e perdeu-se nos caminhos onde desabrochavam as
        violetas brancas.
        O cemitrio estava deserto e o murmrio lgubre do vento
        curvava as silhuetas dos ciprestes. O aguaceiro redobrou de vio-
        lncia.
        Adam ergueu-se, todo arrepiado, caminhou lentamente pelo
        meio das violetas brancas e passou diante do novo coval. As flo-
        res tinham sido dispostas de modo a cobrirem o montculo de ter-
        ra recentemente revolvida mas o vento j desfolhara as flores e
        atirara com os ramalhetes para a lea. Adam apanhou-os e tor-
        nou a p-los em cima da sepultura.
        Saiu do cemitrio, empurrado pelo vento; no prestava aten-
        o  chuva que lhe ensopava e atravessava o fato preto. Romie
        Lane estava lamacenta e cheia de poas de gua. A aveia brava e
        a mostarda cresciam  beira da estrada, os nabos silvestres atin-
        giam propores inesperadas e as cabeas dos cardos verme-
        lhos dominavam o verde luxuriante da Primavera hmida.
        A lama de barro preto cobria os sapatos de Adam e sujava-lhe
        a bainha das calas. A estrada de Monterey ficava quase a uma
        milha de distncia. Adam estava completamente enlameado e
        encharcado quando l chegou e cortou para leste para entrar na
        cidade de Salinas. A gua depositara-se na aba enrolada do cha-
        pu e o colarinho molhado parecia uma rodilha.
        Depois de John Street, a estrada virava e passava a chamar-
        -se Main Street. Adam sacudiu a lama dos sapatos assim que
        chegou ao pavimento. As casas detinham o vento e, quase instan-
        taneamente, ps-se a tremer de frio. Acelerou o passo. Quase no
        fim de Main Street, entrou num bar. Pediu um conhaque, bebeu-o
        de um trago e ps-se a tremer ainda com mais violncia.
O Sr. Lapierre, atrs do balco, viu-o tremer.
        - Devia tomar outro - disse ele. - Vai apanhar uma consti-
        pao das boas. Quer um grogue? No h nada melhor.
- Pois sim - disse Adam.
        - Olhe, beba outro conhaque enquanto eu vou arranjar gua
        quente.
        Adam pegou no copo e foi sentar-se a uma mesa. No se
        sentia bem na roupa molhada. O Sr. Lapierre voltou da cozinha
        com uma chaleira de gua a ferver, ps o copo com a bebida
        numa bandeja e levou-a para a mesa.
        - Beba o mais quente que puder - disse ele. - Isto at
        tirava as tremuras a uma faia. (Puxou uma cadeira, sentou-se,
        mas tornou logo a levantar-se). Est-me a fazer frio - disse ele. -
        Vou preparar um tambm para mim. (Voltou a sentar-se em frente
        de Adam). - Faz logo efeito - disse ele. - Estava to plido
        quando entrou que me meteu medo. O senhor no  daqui?
- Vivo perto de King City - respondeu Adam.
- Veio ao enterro?
- Vim, vim, era um velho amigo meu.
- Bonito enterro?
- Ah! pois.
        - No admira. Tinha muitos amigos. Foi pena que no esti-
        vesse bom tempo. Devia beber mais outro e ir deitar-se.
        -  o que vou fazer - disse Adam. - Sinto-me confortado e
        sereno.
        - J  alguma coisa. Quem sabe se, ainda por cima, no
        evitou uma pneumonia?
        Depois de ter servido outro grogue, o Sr. Lapierre foi atrs do
        balco buscar um trapo molhado.
        -- Tome, para limpar a lama - disse ele. - Um enterro J no
         alegre e, ento, quando chove, ainda fica mais triste.
        - S choveu depois - disse Adam. - Foi na volta que fiquei
        encharcado.
        - Porque no dorme aqui? Mete-se na cama, mando-lhe um
        grogue ao quarto e, amanh, j nem se lembra de nada.
-  o que vou fazer - disse Adam.
        Sentia o calor subir-lhe  cara e o sangue latejar debaixo dos
        braos, como se um lquido escaldante lhe percorresse as veias.
Depois o calor penetrou na parte mais fria da cabea, no sitio onde
escondia os pensamentos proibidos, que principiaram a derreter-se
e a impregnar o resto do crebro. Adam pegou no pano molhado e
inclinou-se para a frente para limpar as calas. O sangue comeou
a latejar atrs dos olhos.
- Apetecia-me tomar outro grogue - disse ele.
O Sr. Lapierre respondeu:
        - Se  para a constipao, j chega, mas se  s para beber
        qualquer coisa, tenho rum da Jamaica. Aconselho-o a que o tome
        puro. Cinquenta anos de idade! A gua mata o gosto.
- Apetece-me beber - disse Adam.
        - Fao-lhe companhia. H meses que no abro a garrafa, 
        coisa que no tem muita sada. Aqui preferem o usque.
        Adam limpou os sapatos e deixou a rodilha no cho. Bebeu
        um golo de rum escuro e tossiu. A bebida forte exalou um perfume
        agradvel e atingiu-o na base do nariz, como se lhe desse uma
        pancada. A casa pareceu baloiar e, depois, recuperar o equil-
        brio.
        -  bom, hem? - perguntou o Sr. Lapierre.-  capaz de
        derrear um homem. Mais vale contentar-se com o primeiro, a no
        ser, evidentemente, que queira ficar derreado. H pessoas que
        gostam disso.
        Adam fincou os cotovelos na mesa, sentindo-se invadido por
        uma necessidade de falar que o deixou assustado. A sua voz no
        se assemelhava  sua voz, e as palavras pasmaram-no.
- Eu no conheo bem a terra - disse ele. - Sabe onde fica
a Kate?
        - Jesus! Este rum ainda  melhor do que eu julgava - dis -
        se o Sr. Lapierre.
E acrescentou:
-  Trask.
Vive no campo?
- Vivo, sim, tenho um rancho perto de King City. O meu nome
- Muito prazer. Casado?
- J no sou.
- Vivo?
- Sim.
- V  casa da Jenny. Deixe a Kate sossegada, no  coisa
que lhe convenha. A Jenny fica a dois passos. V l que encontra o
que procura.
- A dois passos?
        - Corte  direita e, no segundo quarteiro, torne a virar  
direita.
        Qualquer pessoa lhe dir onde fica a rua.
        - Adam sentia a lngua entaramelada.
        - Qual  o defeito da Kate?
        - V  casa da Jenny - respondeu o Sr. Lapierre.


3

        Era uma noite medonha. Castroville Street parecia um atoleiro
        e, no bairro chins, a lama era tanta que os habitantes tinham 
posto
        pranchas na rua que separava as cabanas. As nuvens coladas no
        cu nocturno eram cor de plo de rato. A atmosfera no estava
        hmida, mas abafadia. Julgo que a diferena  a seguinte: enquanto
        a humidade desce, o ar abafado, produto da podrido e da
        fermentao, sobe da terra. O vento da tarde amainara, deixando o
        ar spero e cortante. O frio era suficiente para dissipar os vus 
que
        o rum tecera no esprito de Adam, sem contudo o devolver  sua
        natural timidez. Adam caminhava rapidamente no passeio de terra
        batida, com os olhos pregados no cho para no tropear nas
        pedras. A dupla fila de casas era fracamente iluminada pela 
lanterna
        da passagem de nvel e por um pequeno globo de filamento de
        carvo aceso  porta da Jenny.
        Adam informara-se bem. Contou duas casas, mas ia falhan-
        do a terceira, dissimulada por uma alta sebe, escura e muito
        frondosa. Atravs do porto, deitou uma olhadela  entrada antes
        de enveredar pelo carreiro cheio de erva. Na meia escurido con-
        seguiu distinguir a porta desconjuntada e os degraus carcomidos.
        Todos os vestgios de pintura tinham desaparecido h muito
        tempo das paredes e nunca nenhum jardineiro se interessara pelo
        jardim. Se no fosse a nesga de luz que enquadrava os estores,
        Adam teria prosseguido o seu caminho, supondo que a casa esti-
vesse desabitada. Receou que os degraus cedessem sob o seu
peso e as tbuas do patamar rangeram quando as pisou.
A porta abriu-se e apareceu uma silhueta confusa.
- Entra, anda - disse uma voz aveludada.
        A sala de espera estava frouxamente iluminada por pequenos
        globos tapados com abajures cor-de-rosa. Adam sentiu um espesso
        tapete debaixo dos ps. Mveis encerados luziam sob quadros com
        molduras doiradas. Respirava-se uma atmosfera de bem-estar e de
        ordem.
- Devias ter trazido uma gabardina - disse a voz suave. -
s conhecido?
- No - disse Adam.
- Vens da parte de quem?
- Uma pessoa do hotel.
        Adam lanou um olhar indagador  rapariga vestida de preto
        e sem adornos. Um rosto matreiro - bonito e matreiro. Tentou
        lembrar-se do animal nocturno e sorrateiro com que ela se pare-
        cia. Era um desses animais predatrios e misteriosos.
Ela disse:
- Se quiseres, posso aproximar-me da luz.
- No.
Ela riu-se.
        - Senta-te a. Vieste c para alguma coisa, no  verdade?
        Se me disseres o que queres, arranjo-te a pequena que te con-
        vm.
        A voz grave parecia um instrumento cortante. A rapariga es-
        colhia as palavras como se escolhem flores num jardim, e era
        com todo o vagar que o fazia.
Adam sentia-se desajeitado. Por fim, conseguiu dizer:
- Queria ver a Kate.
- A menina Kate est agora ocupada. Marcaste encontro?
- No.
- Posso atender-te, sabes?
- Eu quero ver a Kate.
- Posso saber de que se trata?
- No.
        A voz da rapariga tornou-se cortante como uma lmina aca-
        bada de afiar.
        - Ela no pode receb-lo, est ocupada. Se no  uma pe-
        quena, nem outra coisa que procura, o melhor  ir-se embora.
- No se importa de lhe dizer que estou aqui?
- Ela conhece-o?
        - No sei. (Sentia a coragem abandon-lo, reconhecia o frio
        que o invadia). No sei. Faa o favor de lhe dizer que o Adam Trask
        desejava v-la. Ela logo saber se me conhece ou no.
- Est bem. Vou dizer-lhe.
        Dirigiu-se silenciosamente para uma porta  direita e abriu-a.
        Adam ouviu murmurar umas palavras e um homem meteu a cabea
        pela porta. A rapariga deixou a porta aberta para que Adam
        percebesse que no estava s. Numa parede da sala, espessos
        reposteiros escuros dissimulavam uma abertura. A rapariga afas-
        tou os pesados reposteiros e desapareceu. Adam sentou-se nova-
        mente. Sem mexer os olhos, viu que o homem tornara a espreitar
        pela porta e desaparecera.
        O quarto de Kate fora concebido para trabalhar confortavel-
        mente e j no se assemelhava em nada ao quarto onde Faye
        vivera. As paredes eram forradas de seda cor de aafro e os
        cortinados duplos eram verde-ma. Havia uma atmosfera sedo-
        sa: profundas poltronas com almofadas forradas de seda, cande-
        eiros com abajures de veludo e um grande leito no fundo do quarto,
        coberto com uma resplandecente colcha de cetim branco sobre a
        qual se erguia uma enorme montanha de almofadas. Nem quadros
        nas paredes, nem fotografias, nem objectos pessoais. No tampo
        de bano do toucador, junto da cama, no se viam frascos nem
        boies. O espelho de trs faces apenas reflectia a nudez da 
madeira.
        O tapete chins era antigo e fofo: drages verde-garrafa em fundo
        aafro. Um canto da sala era o quarto propriamente dito, o centro
        destinava-se a receber os visitantes e o outro canto estava 
reservado
        aos negcios: estantes de castanho encerado, um grande cofre-
        forte preto com pinturas a dourado, e uma secretria de tampo mvel
        tendo em cima um candeeiro duplo com quebra-luz verde; uma pol-
        trona giratria atrs da secretria e uma cadeira ao lado.
        Kate estava sentada  secretria. Ainda era bonita. O cabelo
        readquirira o loiro natural, os lbios firmes soerguiam-se nas co-
        missuras, como dantes, mas o corpo estava mais cheio. Os om-
        bros tinham engordado e as mos magras comeavam a enrugar.
A cara estava bochechuda e a pele debaixo do queixo era flcida.
Continuava a ter pequenos seios que se apagavam sobre um rolo
de gordura no lugar do estmago. As ancas eram estreitas, mas as
pernas e os ps tinham engordado a ponto de os tornozelos extra-
vasarem dos sapatos sem salto. Sob as meias, adivinhavam--se
vagamente as ligaduras elsticas que continham as varizes.
        Apesar disso, ainda tinha boa aparncia. S as mos haviam
        de facto envelhecido. As palmas e os dedos ainda estavam lisos,
        mas as costas tinham rugas e manchas castanhas.
        O vestido era de um negro severo, com mangas compridas, e
        s os tufos de renda branca no peito e nos punhos formavam
        contraste.
        O trabalho dos anos fora subtil. Se algum tivesse vivido du-
        rante todo esse tempo ao lado de Kate,  provvel que nunca
        desse pela mudana. O rosto parecia cheio, os olhos vivos e sem
        olheiras, o nariz delicado, e os lbios firmes e finos. Mal se 
adivi-
        nhava a cicatriz da testa, escondida sob uma camada de p cor
        de pele.
        Kate examinava um mao de fotografias, todas do mesmo
        formato, tiradas pelo mesmo aparelho,  luz violenta do magnsio.
        Se bem que os pares diferissem, a pose era rigorosamente
        idntica em todas as fotografias - A cara das mulheres nunca
        estava virada para a objectiva.
        Kate dividiu as fotografias em quatro lotes que guardou em
        quatro espessos envelopes. E quando bateram  porta, meteu-os
        numa gaveta da secretria.
- Entre! Oh! Entra, Eva. Ele est a?
        A rapariga aproximou-se da secretria antes de responder. Sob
        a luz mais forte, tinha o rosto contrado e os olhos dilatados.
-  um desconhecido. Diz que quer v-la.
-Tenho muita pena, Eva, mas bem sabes por quem espero.
        - Disse-lhe que estava ocupada, mas ele diz que julga co-
        nhec-la.
Como  ele?
 um tipo alto, um pouco tonto. Chama-se Adam Trask.
        Kate no estremeceu nem emitiu nenhum som, mas Eva sen-
        tiu que a atingira no alvo. A mo direita de Kate dobrou-se 
devagar,
        enquanto a esquerda se esticava, como um gato magro, para se
enclavinhar na borda da secretria. Kate ficou imvel, como se con-
tivesse a respirao. Eva ficou atarantada e pensou logo na caixa 
da seringa que guardava numa gaveta da cmoda.
Finalmente, Kate disse:
- Senta-te nessa cadeira, Eva, e v se sossegas um instante. 
Como a rapariga no se mexia, Kate chicoteou-a com uma 
palavra:
- Sentada!
Domada, Eva dirigiu-se para a cadeira.
- No brinques com as unhas - disse Kate.
As duas mos separaram-se e foram crispar-se nos braos
da cadeira.
Kate olhou para a frente e os seus olhos fixaram-se no abajur 
verde do candeeiro. Depois, fez um movimento to rpido que 
Eva se sobressaltou e os seus lbios estremeceram. Kate abriu a 
gaveta da secretria e tirou um papel dobrado.
- Toma, vai para o teu quarto e v se te recompes. No 
tomes tudo... No, no confio em ti. (Kate desdobrou o papel, ras-
gou-o ao meio, dividiu o p branco que continha e fez duas novas 
embalagens, estendendo uma delas a Eva). - Agora, despacha-
te. Quando tornares a descer, diz ao Ralph que v para o p da 
porta. Ele que se aproxime o bastante para poder ouvir a campa-
inha, mas que se afaste o suficiente para no ouvir as vozes. No 
te esqueas de o vigiar. Ele que se livre de subir os degraus para 
me espiar. Se ele ouvir a campainha... No, mais vale... No. Ele 
que faa como quiser. Depois -, mandas entrar o Sr. Adam Trask.
- No haver novidade, menina Kate?
Kate deixou-a afastar-se e, depois, voltou a cham-la.
- Quando ele se for embora, dou-te a outra metade. Agora, 
despacha-te.
Assim que a porta se fechou, Kate abriu a gaveta da direita da 
secretria e tirou um revlver de cano curto. Verificou se estava 
carregado e colocou-o em cima da secretria, dissimulando-o com 
uma folha de papel. Em seguida, apagou um dos candeeiros e 
instalou-se na poltrona, com as mos juntas em cima da secret-
ria.
Quando bateram  porta, Kate disse, mal remexendo os lbi-
os:
- Entre!
Eva tinha os olhos hmidos e mostrava-se descontrada. 
- Ei-lo - disse ela.
E afastou-se para dar passagem a Adam.
Adam deitou uma vista de olhos  sala antes de ver Kate cal-
mamente sentada  secretria. Contemplou-a com espanto, an-
tes de avanar lentamente para ela.
Kate descruzou as mos, e a direita dirigiu-se para o papel. O 
olhar frio e desprovido de expresso no se desprendia dos olhos 
de Adam.
Ele viu o cabelo, a cicatriz, os lbios, a garganta enrugada, os 
braos, os ombros, e os seios lisos, e suspirou profundamente. 
A mo de Kate tremeu ao de leve.
- Que queres tu? - perguntou ela.
Adam sentou-se numa cadeira. Apetecia-lhe gritar o seu al-
vio, mas disse apenas:
- Nada, por enquanto. Queria ver-te. O Sam Hamilton disse-
-me que estavas aqui.
Assim que ele se sentou, ela deixou de tremer. 
- Ento no sabias?
- No - respondeu ele -, no sabia. A notcia deixou-me 
um pouco zonzo, mas agora j estou melhor.
Kate descontraiu-se. Sorriu e mostrou os dentinhos com os 
caninos mais compridos.
- Assustaste-me - disse ela.
- Porqu?
- No sabia o que farias.
- Tambm eu no - respondeu Adam.
E continuou a fit-la como se fosse uma figura de cera.
- Esperei muito tempo por ti e, quando vi que no aparecias,
esqueci-te.
- Eu no te esqueci - disse ele. - Mas a partir de hoje, j o 
poderei fazer.
- Porqu?
Ele soltou um riso divertido.
- Porque te estou a ver. O Samuel tinha-me dito que eu nun-
ca te vira, e  verdade. Recordo-me da tua cara, mas nunca a 
tinha visto. Agora, j a posso esquecer.
Kate contraiu os lbios e semicerrou os olhos.
- Achas que sim?
- Sei que posso.
Ela mudou de atitude.
        - Talvez no seja necessrio - disse ela. - Compreendeste
        tudo, podemos entender-nos.
- No me parece - disse Adam.
        - Que grande imbecil tu foste - disse ela. - Um autntico
        garoto. No sabias o que havias de fazer de ti. Agora, j te posso
        ensinar, tens o ar de um homem.
- J me ensinaste - disse ele. - Foi uma dura lio.
- Queres beber alguma coisa?
- Pois sim.
- Pelo teu hlito, j bebeste rum.
        Kate ergueu-se e foi buscar uma garrafa e dois copos a um
        armrio. Ao voltar-se, reparou que ele lhe examinava os torno-
        zelos avolumados. Sentiu-se invadida por uma clera fugaz, mas
        continuou a sorrir.
        Encaminhou-se para a mesa redonda e encheu os dois co-
        pos de rum.
- Vem para aqui - disse ela.-  mais confortvel.
        Na altura em que ele se levantava para se ir sentar numa grande
        poltrona, Kate viu que ele no desviava os olhos do seu estmago
        proeminente. Ela estendeu-lhe o copo, sentou-se e cruzou as mos
        em cima da barriga.
Adam ficou de copo na mo e ela disse:
        - Bebe.  um rum muito bom. (Ele sorriu-lhe com um sorriso
        que ela nunca lhe vira). - Quando a Eva me disse que tu estavas
        c, a minha primeira reaco foi mandar-te pr na rua.
        - Teria voltado - disse ele. -Tinha que te ver, no por falta
        de confiana no Samuel, mas porque precisava de o demonstrar a
        mim mesmo.
- Bebe.
Adam olhou o copo.
- No penses que te ia envenenar...
Deteve-se, furiosa por ter dito aquilo.
        Ele continuou a fitar o copo com um sorriso. A fria descomps
        as feies de Kate, que ergueu o copo e o levou  boca.
        - O lcool pe-me doente - disse ela -, nunca bebo. Para
        mim,  pior que veneno.
        Fechou a boca e os dentinhos afiados morderam o lbio in-
        ferior.
Adam continuava a sorrir.
        Kate despejou o copo de um trago, tossiu, chorou e limpou os
        lbios com as costas da mo.
- No pareces confiar muito em mim - disse ela.
- Pois no.
- No posso beber mais -- disse ela, aflita.
- Ningum te obriga. Vou beber s mais este antes de me ir
- embora.
        --- O lcool queimava a garganta de Kate e libertava aquela
        fora que a assustava. Bebeu o segundo copo.
- Tu no me metes medo, Ningum me mete medo.
        - Nada tens que recear de mim - disse Adam. -- Agora,
        podes esquecer-me. Alis, foi o que j se deu, tu assim o disseste.
        (Adam sentia-se protegido, maravilhosamente bem, to bem como
        nunca estivera h muitos anos). - Fui ao enterro do Sam Hamil-
        ton. Era um homem de bem. Vai fazer-me muita falta. Lembras-te,
        Cathy? Foi ele quem ajudou a nascer os gmeos.
        O lcool produzia os seus efeitos no corpo de Kate. Ela ten-
        tava disfarar, mas tinha a cara contrada.
- Que h? - perguntou Adam.
-  o lcool, eu bem te disse que ele me punha doente.
        - Eu no podia correr o risco de confiar em ti - disse ele
        calmamente. - Acho-te capaz de tudo depois daquele tiro.
- Capaz de qu?
- Ouvi falar em coisas nojentas...
        Kate teve um momento de distraco e os vapores do lcool
        penetraram pela brecha. Perdera a batalha. A vontade cedeu. Uma
        crueldade imprudente substituiu o medo. Kate empunhou a garra-
        fa e encheu o copo.
        Adam teve de se levantar para encher o dele. Sentia-se habi-
        tado por um sentimento que lhe era completamente estranho. Re-
        gozijava-o o espectculo que lhe oferecia a mulher, apetecia-lhe
        um castigo mais forte, mas mantinha-se na expectativa. Aten-
        o, no convm falar.
Adam disse em voz alta:
        - O Sam Hamilton era o meu melhor amigo. Vai fazer-me
        falta.
        Ela levou o copo desajeitadamente  boca e o liquido escorreu
        pelo canto dos lbios.
- Eu odiava-o - disse ela.-
- Porqu? Ele foi bom para ns.
- Ele olhava... ele rebuscava em mim.
- Fez o mesmo comigo e ajudou-me.
- Odeio-o - disse ela. - Ainda bem que morreu.
- Se algum te tivesse ajudado a compreender o que havia
        em ti, talvez no tivssemos chegado a este ponto - disse Adam.
Os lbios de Kate fizeram um esgar escarninho.
        - Tu s um idiota - disse ela. - A ti no te odeio, no pas-
        sas dum pobre idiota.
T-lo-ia matado se pudesse.
Quanto mais ela se excitava mais Adam se sentia senhor de
si.
        - Isso, senta-te e ri de lado! - berrou ela. - Com que en-
        to, julgas-te livre? Uma pinga de lcool e j te tomas por um
        homem! Se eu quisesse, bastava-me levantar um dedo para tu te
        arrastares de joelhos e te pores a suplicar. (Desencadeara-se a
        sua necessidade de domnio. Perdera por completo a prudncia
        de raposa). - Eu bem te conheo - disse ela. - Tens alma de
        covarde.
        Adam continuou a sorrir. Bebeu um golo, o que incitou Kate a
        encher outro copo. O gargalo da garrafa telintou.
        - Tu foste-me til quando fiquei ferida - disse ela -, mas
        tua pieguice enjoava-me. Quando deixei de precisar de ti, tentaste
reter-me. Acaba com esse sorriso, que me enerva!
- Gostava de saber o que  que tu odeias tanto nas pessoas.
        - Queres saber? Mas no  dio,  apenas desprezo! Mida,
        ainda, j sabia que os meus pais no passavam de seres preten-
        samente bondosos - uns autnticos parvos! - de quem eu fazia o
        que me apetecia. Sempre fiz o que me apeteceu das pessoas. At
        arrastei um homem ao suicdio. Esse tambm se armava em vir-
        tuoso, mas o que queria era dormir comigo, com uma rapariguinha.
        - Disseste que se matou. Devia ter um desgosto muito gran-
        de por qualquer motivo.
- Um parvo. Ouviu-o suplicar  nossa porta. Ri toda a noite.
Adam disse:
- No gostaria que me pesasse uma morte na conscincia.
        - Tu no passas dum sentimental. Recordo-me do que dizi-
        am as pessoas: Ela  to bonita, to meiga, to delicada. Nn-
        gum me conhecia. Eu obrigava-os a saltarem atravs de arcos e
        no davam por nada.
        Adam despejou o copo. Na sua lucidez etlica, via nascer e
        ziguezaguearem os impulsos de Cathy, como filas de formigas em
        marcha.
        - Pouco se me d que no tenhas gostado do Sam Hamil-
        ton. Eu sempre o achei um homem inteligente. Ele disse-me uma
        vez que as mulheres que afirmam conhecer os homens s conhe-
        cem, afinal, uma parte, e no concebem que exista outra coisa. O
        que no implica que essa outra coisa no exista.
        - Era um mentiroso e um hipcrita - vociferou Kate. - So
        os mentirosos que eu odeio, e todos so mentirosos. Apetece-me
        esfregar-lhes o nariz nas porcarias que fazem.
Adam ergueu as sobrancelhas.
- Ento julgas que neste mundo s existe vcio e loucura?
- Exactamente.
- Pois eu no sou dessa opinio - disse, calmamente Adam.
Ela imitou-o:
        - Tu no s dessa opinio! Tu no s dessa opinio! Queres
        que te prove?
-  impossvel - respondeu ele.
        Kate ergueu-se de um salto, correu  secretria e pegou nos
        envelopes.
- V isto - disse ela.
- No quero.
        - Hs-de v-las de qualquer maneira. (Pegou numa fotogra-
        fia). Olha,  um senador estadual! Est convencido que vai para o
        Congresso. Olha-me para esta barriga! Tem seios como uma
        mulher e gosta do chicote. Esta mancha clara, aqui,  uma marca
        do chicote. V bem a expresso do rosto. Tem mulher e quatro
        filhos e vai candidatar-se ao Congresso. Ali! No queres acredi-
        tar! Pois, olha, olha! Esta alforreca esbranquiada  um conse-
        lheiro municipal. Este pacote de banha  um sueco que tem um
rancho perto de Blanco. Olha este, olha!  um professor de Ber-
keley. Calcorreia essa distncia toda at aqui para lhe despejarem
um penico na cara, e  um professor de filosofia! V, v, guardei a
melhor para o fim!  um ministro da Santssima Trindade, um
irmozinho de Jesus. Antigamente, tinha de incendiar uma casa
para ter um espasmo. Ns conseguimos isso de outra maneira.
Ests a ver este fsforo que lhe queima as costelas?
- No quero ver isso - disse Adam.
        - Mas sempre viste! Ah! no queres acreditar! Se eu quiser,
        hs-de me suplicar que te deixe entrar aqui. Hs-de uivar como
        um co  Lua. (Ela tentava comunicar-lhe a sua vontade, mas viu
        que ele se mantinha afastado, livre). - Ningum me escapa
- disse ela em voz baixa.
        Kate tinha os olhos frios mas rasgava o tecido na poltrona
        com as unhas, como um galo.
Adam suspirou.
        - Se eu tivesse essas fotografias e esses homens o soubes-
        sem, no dava muito pela minha vida -- disse ele.---Imagino que
        uma s dessas provas bastaria para arruinar uma existncia. No
        tens medo do risco?
- Pensas que sou alguma criana? - perguntou ela.
        - Agora j no - disse Adam. - Comeo a crer que s um
        ser perverso sem nada de humano.
Kate sorriu.
        - Acertaste em cheio - concordou ela. - Como se pode
desejar ser humano? Olha para estas fotografias! Preferia ser uma
cadela, mas no sou. E sou mais esperta do que os humanos.
Ningum consegue atingir-me. No te rales, no arrisco nada.
(Apontou uma estante com o dedo). - Tenho uma centena de
lindssimas imagens ali dentro. E as pessoas que representam
sabem que se me acontecesse alguma coisa, cem cartas, cada
umacom suafotografia, seriam postas no correio no mesmodia e
que no deixariam de chegar onde podem causar mais mal.
Descansa, que no receio coisa nenhuma!
- Mas supe que sofres um acidente...
- Isso no tem importncia nenhuma. (Aproximou-se dele).
-         Vou confiar-te um segredo que esses homens ignoram. Daqui a
        alguns anos, vou-me embora. E no dia da minha partida os enve-
lopes sero postos no correio, apesar de tudo.
Kate atirou-se para trs e desatou a rir.
        Adam estremeceu, observando-a minuciosamente. A expres-
        so e o riso eram pueris e inocentes.
        Ergueu-se e serviu-se de meio copo de rum. A garrafa estava
        quase vazia.
        - Tu odeias nesses homens o que no podes compreender, e
        no o que h de mau neles. Odeias essa parte que lhes  prpria e
        que tu no podes atingir. Porque fazes isso? Com que fim?
        - Terei todo o dinheiro que quiser e irei para Nova York antes
        de ser velha. Comprarei uma casa num belo bairro e terei criados.
        Irei depois  procura de algum e, se ele ainda estiver vivo, 
arran-
        car-lhe-ei a vida a pouco e pouco, muito devagar, com toda a cau-
        tela para que o sofrimento no o mate de repente. Se tiver cuida-
        do, h-de enlouquecer antes de morrer.
Adam bateu no cho com o p.
        - Que disparate! - exclamou ele. - Nada disso  verdade.
         uma loucura. No acredito, no pode ser verdade.
        - Recordas-te da primeira vez em que me viste?- pergun-
        tou ela.
Adam ps-se carrancudo.
- Deus meu, se me recordo!
        - Recordas-te do meu maxilar fracturado, da boca esmagada
        e dos dentes partidos?
- Recordo-me perfeitamente, mas prefiro esquecer.
        - O meu maior prazer ser tornar- a encontrar o homem que
        me fez isso. Depois... depois passarei a outros prazeres.
- Tenho de me ir embora - declarou Adam.
        - No vs j, meu querido - disse ela.- Fica um pouco
        mais, meu amor. Os meus lenis so como seda, quero que o
        teu corpo sinta os meus lenis.
- Tu s doida?
        - Oh! meu amor! Tu no sabes amar, mas eu quero ensinar-
        -te, hei-de ensinar-te.
        Levantou-se a cambalear e ps a mo no brao de Adam. O
        rosto parecia fresco e jovem. Adam baixou a vista e viu a mo,
        enrugada como a dum macaco. Teve um gesto de repulsa.
Kate viu o gesto, compreendeu e torceu a boca.
        - No compreendo - disse ele. - Sei que  verdade, mas
        no consigo acreditar. Sei muito bem que amanh de manh serei
        incapaz de acreditar. Ter sido um pesadelo. Mas no pode ter
        sido, no pode ser um pesadelo, pois sei que tu s a me dos
        meus filhos. No me pediste notcias deles e s a me dos meus
        filhos.
        Kate descansou os cotovelos nos joelhos, entalou o queixo
        nas palmas das mos e os seus dedos tocaram nos lbulos das
        orelhas. Tinha um olhar de triunfo. Propositadamente, falou em
        voz baixa:
        - Um imbecil mostra sempre o ponto fraco - disse ela. -
        Aprendi isso quando era mida. Sou a me dos teus filhos, sou.
        Os teus filhos? Eu sou a me, mas tu tens a certeza de ser o pai?
- Que pretendes tu dizer, Cathy?
        - O meu nome  Kate. Escuta-me, querido. Tenta reunir as
        tuas recordaes. Quantas vezes deixei que te aproximasses de
        mim o suficiente para que me fizesses um filho?
- Tu estavas ferida - disse ele -, tremendamente ferida.
- Uma vez - disse Kate -, s uma vez.
        - Passaste muito mal durante a gravidez - protestou ele.
- Eu no podia insistir.
Kate endereou-lhe um meigo sorriso.
- Eu no estava ferida para o teu irmo.
- O meu irmo?
- J te esqueceste do Charles?
Adam riu-se.
        - Tu s um demnio - disse ele, mas no me fazes acre-
        ditar que o meu irmo seria capaz duma coisa dessas.
Bem se me d que tu no acredites.
- No acredito, j te disse.
        - Acabars por acreditar. A princpio, interrogar-te-s, de-
        pois, logo viro as dvidas. Hs-de voltar a pensar no Charles e
        em tudo o que ele era. Eu teria podido gostar do Charles. At certo
        ponto, ramos parecidos.
-  falso!
        - Vers que te recordas - disse ela. - Talvez te volte um
        dia  lngua o gosto amargo duma certa chvena de ch. Tu be-
        beste o meu remdio por distraco. Dormiste como uma pedra e
acordaste tarde e com a cabea pesada.
- Tu no estavas em estado de imaginar uma coisa dessas.
        - Eu sou capaz de tudo -- disse ela.- E agora, despe-te,
        meu amor. Vou mostrar-te os meus talentos.
        Adam fechou os olhos e sentiu que a cabea lhe fugia. Reabriu
        logo as plpebras.
        - - Isso no tem importncia nenhuma, mesmo que seja ver-
        dade. No tem importncia nenhuma.
        E, de sbito, ps-se a rir, pois acabava de compreender que
        era verdade. Levantou-se com demasiada rapidez e teve de se
        agarrar s costas da cadeira para no perder o equilbrio.
Kate ergueu-se dum salto e segurou-o pelo cotovelo.
- Anda, vou ajudar-te a despires-te.
        Adam soltou-se torcendo-lhe a mo e dirigiu-se para a porta a
        cambalear.
        Nos olhos de Kate relampejou um dio feroz. Soltou um grito,
        longo, agudo, como o de um animal. Adam voltou-se para ela. A
        porta abriu-se. O guarda-costas deu trs passos, tomou balano
        e atirou-se com todo o peso para cima de Adam, atingindo-o de-
        baixo da orelha. Adam caiu no cho.
Kate berrou:
- A cabea! Esborracha-lhe a cabea!
        Ralph aproximou-se do homem estendido no cho e levantou
        o p. Os olhos arregalados de Adam no se afastavam dele. Hesi-
        tante, voltou-se para Kate.
Ela ordenou-lhe friamente:
- J te disse para lhe dares com as botas! Parte-lhe a cara!
        - Mas ele no se defende, no se quer defender - disse
        Ralph.
        Kate sentou-se. Arquejava e respirava pela boca. As mos
        crisparam-se nos joelhos.
        - Odeio-te - disse ela.- Adam, pela primeira vez odeio-te.
        Ests a ouvir-me, Adam, odeio-te.
        Adam tentou sentar-se, caiu para o lado e fez uma nova ten-
        tativa. Assim que se sentou, olhou Kate.
        - No tem importncia - disse ele. - Absolutamente nenhu-
        ma. (Ps-se de joelhos e descansou alguns instantes de gatas).
- Sabes que foste a coisa que mais amei no mundo?  verdade.
Um amor to forte que quase no consegui destru-lo.
- Hs-de voltar de rastos - disse ela -, hs-de vir suplicar 
de rastos.
- Quer que lhe parta a cara agora, Menina Kate? - perguntou 
Ralph.
Ela no respondeu. Adam encaminhou-se lentamente para a 
porta, segurando-se a cada passo. A mo teve dificuldade em fazer 
girar a maaneta da porta.
Kate chamou:
- Adam!
Ele voltou-se devagar e sorriu-lhe, como a uma recordao. 
Depois, saiu e fechou a porta de mansinho. 
Kate ficou a olhar para a porta. Parecia desolada.




CAPTULO XXVI


No comboio que o levava de volta a King City, Adam Trask 
apenas tinha uma vaga percepo de formas, sons e cores.
O crebro humano deve ter um mecanismo secreto que joeira 
os pensamentos, retendo-os ou deixando-os passar, mesmo quan-
do so desconhecidos da prpria pessoa. No  raro adormecer-
-mos cheios de dores e acordarmos bem dispostos no dia seguinte, 
num mundo lmpido, acolhedor, libertos das impurezas pelo traba-
lho da noite. A alegria ferve no sangue, o peto incha, tudo nos 
parece perfeito e, contudo, nada houve que pudesse causar ou 
justificar tal mudana.
O enterro de Samuel e a visita a Kate s deveriam ter des-
pertado em Adam tristeza e amargura. Afinal, deu-se o contrrio. 
Ele julgava vogar numa nuvem de xtase. Sentia-se jovem, livre e 
cheio duma alegria voraz. Desceu do comboio em King City e, em 
vez de ir logo buscar o carro ao alquilador, dirigiu-se para a nova 
garagem de Will Hamilton.
Will estava sentado atrs da divisria de vidro do seu escri-
trio. Assim, vigiava os mecnicos sem ser perturbado pelo es-
trondo das mquinas. A julgar pela barriga, Will devia estar rico.
Will examinava um prospecto descrevendo as vantagens de 
uns charutos preparados e enviados directamente de Cuba. Julgava 
estar de luto pelo falecido pai, mas no era verdade. Estava leve-
mente preocupado por causa de Tom que, mal acabara o funeral, 
fora para San Francisco. Will acreditava que era mais decente 
trabalhar para esquecer como ele tencionava fazer do que beber 
para esquecer, como o Tom.
Ergueu os olhos quando Adam entrou no escritrio e indicou--
lhe uma larga poltrona de coiro onde costumava sentar os clientes 
a quem destinava contas chorudas.
Adam sentou-se.
- No sei se lhe dei os meus psames - disse ele.
- Custou-nos muito. Esteve no enterro?
- Estive - respondeu Adam. - No sei se sabe que eu esti-
mava muito o seu pai. Ele ensinou-me coisas que nunca esquece-
rei.
- Era muito estimado - disse Will. - Estavam mais de du-
zentas pessoas no cemitrio... mais de duzentas.
- Um homem como ele no morre - disse Adam. (Acabava 
de o descobrir). - No posso crer que esteja morto. Talvez esteja 
ainda mais vivo do que antes.
-  isso mesmo - anuiu Will.
Mas no acreditava nem uma palavra. Para Will, Samuel es-
tava bem morto.
- Lembro-me do que ele dizia - continuou Adam. - No lhe 
prestava muita ateno, mas agora  como se estivesse a ouvi-lo e 
a v-lo outra vez.
-  isso mesmo - disse Will. - Eu estava precisamente a 
pensar o mesmo. Vai para o rancho?
- Vou, sim, mas vim v-lo porque tenciono comprar um auto-
mvel.
Uma mudana subtil operou-se em Will.
- De todos os homens do Vale, sempre julguei que fosse o
senhor o ltimo a comprar um automvel.
Atravs dos olhos semicerrados, observou a reaco de Adam. 
- Tem toda a razo - disse Adam a rir. - Talvez seja o seu
pai o responsvel pela minha mudana de atitude. 
- Porque diz isso?
- No sei se seria capaz de explicar-lhe. Falemos antes de 
automveis.
- Para ser franco, tenho enorme dificuldade em obter o n-
mero suficiente de carros para satisfazer as encomendas. A lista 
de inscries  bastante comprida.
- Ah! sim? Ento, nesse caso, inscreva-me na lista.
- Com todo o prazer, Sr. Trask. (Fez uma ligeira pausa.) -
O senhor  to amigo da minha famlia que, se houvesse uma de-
sistncia, teria todo o gosto em lhe dar a preferncia...
-  muita amabilidade sua - disse Adam.
- Que modalidade deseja escolher?
- No percebo.
- Quer pagar em prestaes mensais? 
- Assim no ser mais caro?
- Bom, h os juros e as despesas, mas h pessoas que 
preferem essa modalidade.
- Eu prefiro pagar a pronto - disse Adam. - No tenho ne-
cessidade nenhuma de desperdiar dinheiro. 
Will riu-se.
- Nem toda a gente pensa como o senhor - disse ele. - E 
h-de vir uma poca em que eu perderei dinheiro se vender s a 
pronto.
- No tinha pensado nisso - disse Adam. - Ento, fica en-
tendido, pe-me na lista?
Will inclinou-se para ele.
- Sr. Trask, vou p-lo  cabea da lista. O primeiro carro que 
chegar  para si.
- Muito obrigado.
- No tem nada que agradecer.
Adam perguntou:
- E a sua me? Como vai suportando o golpe?
Will encostou-se  cadeira, com um sorriso afectuoso nos 
lbios.
-  uma mulher notvel - disse ele -, slida como uma 
rocha. Como sabe, tivemos tempos muito difceis. O meu pai no 
era um homem prtico, andava sempre nas nuvens ou mergulha-
do nos livros. Tenho a impresso de que foi graas  minha me 
que os Hamilton no acabaram no asilo.
-  uma excelente mulher - disse Adam.
- No  s uma excelente mulher, tambm sabe onde pe 
os ps.  uma mulher de armas. O senhor foi a casa da Olive 
depois do enterro?
- No fui, no.
- Estavam l mais de cem pessoas. Pois bem! foi a minha 
me quem fritou todos os frangos e quem teve o cuidado de ver
se todos tinham ficado bem servidos.
- No me diga?        a,
-  verdade! E tratava-se do marido!
- Uma mulher notvel - disse Adam, repetindo a frase de 
Will.
- Uma mulher prtica! Tinha gente a quem dar de comer e 
deu-lhe de comer.
- Espero que se resigne, mas foi uma grande perda para 
ela.
- H-de se resignar - disse Will. - Aquela amostra de mu-
lher h-de nos enterrar a todos.
No regresso ao rancho, Adam apercebeu-se de que reparava 
em coisas que j no via h anos: as flores silvestres na erva alta e 
as vacas ruas que pastavam no flanco da colina,  beira dos 
caminhos. Ao chegar  sua herdade, Adam sentiu um prazer fugaz 
mas to intenso que procurou determinar-lhe a causa. E, de sbito, 
surpreendeu-se a cantar em voz alta, ao ritmo dos cascos do cavalo.
- Sou livre, sou livre. J no tenho preocupaes. Sou livre. 
Ela saiu de mim, foi-se embora. Oh! Cristo Todo-Poderoso, sou 
livre!
Estendeu o brao e apanhou um p de artemsia. Esmagou 
as folhas e encheu os pulmes com o cheiro penetrante. Estava 
satisfeito por voltar a casa. Queria ver se os gmeos tinham 
crescido durante aqueles dois dias... Tinha vontade de ver os 
gmeos.
- Sou livre, ela saiu da minha vida - cantava ele em voz 
alta.
Lee saiu de casa e segurou as rdeas do cavalo enquanto 
Adam descia do cabriol.
- Como esto os meninos? - perguntou Adam.
- Esto ptimos. Fiz-lhes arcos e flechas e foram caar coe-
lhos para o p da ribeira. Mas no garanto que se coma coelho  
caadora esta noite.
- No houve novidade nenhuma?
Lee olhou-o com espanto, esteve prestes a fazer um coment-
rio, mas mudou de ideia.
- Como se passou o enterro?
- Havia muita gente. O Samuel tinha muitos amigos. No h
maneira de me convencer de que j morreu.
- No meu pas, os enterros fazem-se ao som dos tambores. 
Atiramos estalinhos  roda do caixo para assustar os demnios e, 
nas sepulturas, em vez de flores, pomos leites assados. Ns so-
mos um povo prtico e esfomeado. Para mais, os nossos demni-
os no so l muito espertos. Deixam-se enganar, o que j repre-
senta um progresso.
- Parece-me que o Samuel gostaria de ser enterrado  vos-
sa moda - disse Adam. - Havia de interess-lo. (Reparou que 
Lee o observava.) - V guardar o cavalo, Lee, e traga-nos ch, 
preciso de falar consigo.
Adam foi ao quarto e despiu o fato preto impregnado do odor 
adocicado do rum. Ps-se nu e esfregou-se com sabo azul at 
fazer desaparecer o cheiro. Vestiu uma camisa lavada, azul, e um 
macaco amaciado pelas lavagens e pudo nos joelhos pelo uso. 
Lentamente, barbeou-se e penteou-se.
Na cozinha, Lee atiava o lume. Adam dirigiu-se para a sala. 
Lee colocara uma chvena e um aucareiro na mesa, em frente 
da grande poltrona. Adam olhou em redor. As flores estampadas 
das cortinas tinham perdido a cor, os tapetes estavam gastos e,  
entrada da porta, o oleado tinha uma faixa escura. Tudo aquilo era 
novidade para ele.
Quando Lee entrou com o bule, Adam disse-lhe:
- Traga uma chvena para si, Lee. E se ainda tiver restos do 
seu licor, no me importava de beber. A noite passada embria-
guei-me.
Lee disse:
- O senhor, embriagado? At custa a acreditar.
- Pois  verdade, e quero falar-lhe nisso. Reparei que me 
estava observando.
- A srio? - perguntou Lee.
E foi  cozinha buscar a chvena, os copos e a garrafa de ng-
ka-py.
Ao voltar, disse:
- As nicas vezes em que o bebi durante todos estes anos, 
foi com o senhor e com o Sr. Hamilton.
-  a mesma garrafa daquele dia em que pusemos nomes 
aos gmeos?
- Precisamente a mesma.
Lee deitou o ch a ferver nas chvenas e fez uma careta ao ver 
que Adam punha duas colheres de acar na sua.
Adam mexeu o ch e observou os pequenos turbilhes do 
aucar que se derretia.
- Fui v-la - disse ele.
- Fez bem - disse Lee. - S no sei como pde esperar 
tanto tempo.
- Talvez eu j no fosse um homem. 
- Cheguei a duvidar. Como a achou? 
Adam respondeu devagar:
- No sou capaz de a compreender. No consigo acreditar 
que possa haver uma tal criatura na terra.
- O defeito dos ocidentais  no terem demnios para expli-
car o inexplicvel. Foi depois disso que se embriagou?
- No, foi antes e durante. Acho que foi para consolidar a 
coragem.
- Agora parece estar bem.
- Claro que estou bem - disse Adam. - Era nisso que lhe 
queria falar. Se fosse o ano passado, teria corrido para o Sam 
Hamilton.
- Talvez ambos tenhamos herdado alguma coisa dele - dis-
se Lee. - Quem sabe se a imortalidade no  isso mesmo?
- Tenho a sensao de sair dum sonho - disse Adam. - 
Abriram-se-me os olhos e parece que fui aliviado dum peso.
- O senhor utiliza palavras que soam s do Sr. Hamilton - 
disse Lee. - Tenho de arquitectar uma teoria e apresent-la aos 
meus venerveis parentes.
Adam bebeu o licor negro e passou a lngua pelos lbios.
- Sou livre - disse ele.- E no posso passar sem o dizer a 
algum. Agora, vou poder viver com os meus filhos. At poderei 
olhar para uma mulher. Compreende o alcance do que lhe estou 
dizendo?
- Perfeitamente. Os seus olhos e o seu corpo dizem a mes-
ma coisa.  um sentimento que custa a disfarar. Vai ver que gosta 
dos seus rapazes.
- Seja como for, vou tentar viver. No se importa de tornar a 
encher as chvenas?
Lee serviu o ch e levou a chvena  boca.
- No percebo como faz para no se escaldar - disse Adam.
Lee sorria interiormente. Adam, ao olh-lo, descobriu que Lee 
j no era um rapaz. A pele do rosto estava enrugada nuns lados 
e lisa e brilhante noutros. Em torno dos olhos, tinha uma orla 
avermelhada. Lee contemplou a fina porcelana, sorrindo a uma 
recordao.
- Se  livre, talvez me possa libertar... 
- Que quer dizer, Lee?
- Importa-se que me v embora?
- Claro que se pode ir embora. Ento no se sente feliz aqui? 
- Creio nunca ter sabido o que  aquilo a que chamam feli-
cidade. Ns procuramos a satisfao, o que talvez seja negativo. 
Adam disse:
- Chame-lhe o que quiser. Ento no est satisfeito?
- No me parece que um homem o possa estar quando lhe 
restam certas coisas a fazer.
- Que coisas?
- Para a primeira, j  muito tarde. Gostaria de ter tido mu-
lher e filhos. Talvez desejasse adquirir essa estupidez a que cha-
mam a sabedoria dos pais, e obrigar os meus filhos indefesos a 
tirarem o respectivo proveito.
- Mas voc ainda no est velho.
- Oh! fisicamente acho que sou ainda capaz de procriar, mas 
no  isso o que me detm. J estou farto da companhia do 
candeeirinho da mesa de cabeceira. Sabe que j fui casado, Sr. 
Trask? Imaginei uma mulher, como o senhor, mas a minha no 
existia fora da minha imaginao. Era a agradvel companheira 
do meu quartinho solitrio. Eu falava-lhe e ela escutava, depois 
era ela quem falava e me contava o que lhe acontecera durante o 
dia. Era muito bonita e dava-se muito s pequenas vaidades. Hoje, 
no sei se teria pacincia para atur-la. Ora eu no quereria que a 
minha mulher se sentisse triste ou abandonada. Por isso renun-
ciei  minha primeira ideia.
- E qual  a segunda?
- Falei no assunto ao Sr. Hamilton. Gostaria de abrir uma 
livraria no bairro chins de San Francisco. Viveria nas traseiras da 
loja e passaria os dias em longas discusses. Venderia desses
pequenos blocos de tinta solidificada que tm a forma dum drago 
e datam da dinastia dos Sung. As caixas so rodas pelo bicho e a 
tinta  fabricada com fuligem de abeto e uma cola  base de pele de 
onagro. Quando se pinta, com essa tinta, pode parecer preta mas, 
na realidade, sugere  vista todas as cores do mundo. Talvez entrasse 
algum pintor na loja e nos pusssemos a conversar e a discutir o 
preo.
Adam perguntou:
- No est a inventar tudo isso?
- No estou, no. Se o senhor est livre e se sente bem, 
gostaria de poder abrir finalmente a minha livraria. E tambm gos-
taria de nela morrer.
Adam manteve-se em silncio, enquanto mexia o ch morno. 
Depois, disse:
-  engraado, estava a desejar que fosse escravo para lhe 
recusar a liberdade. Mas pode-se ir embora se quiser. E empresto-
-lhe dinheiro, caso precise.
- Dinheiro, j eu tenho h muito tempo.
- Nunca imaginei que se pudesse ir embora - disse Adam.
- Convenci-me de que ficava c at ao fim da vida. 
Adam endireitou-se.
- Importa-se de adiar um poucochinho a partida? 
- Para qu?
- Quero que me ensine a conhecer os meus filhos. Quero pr 
o rancho em ordem, ou talvez vend-lo ou arrend-lo. Queria saber 
quanto dinheiro me resta e o que poderei fazer com ele.
- No estar a querer armar-me um lao? - perguntou Lee. 
- A minha vontade j no  to forte como dantes. Sinto que 
poderia deixar-me dissuadir ou, o que  pior, poderia deixar-me 
ficar se verificasse que precisam de mim. - Veja se no precisa de 
mim.  o isco mais atraente para um homem solitrio.
Adam disse:
- Um homem solitrio! Devo ter descido muito baixo para 
no ter pensado nisso antes.
- O Sr. Hamilton sabia - disse Lee.
Ergueu a cabea e as plpebras semicerradas deixaram entre-
ver apenas duas centelhas.
- Ns, os Chineses - disse ele -, sabemos dominar-nos.
Nunca mostramos emoo. Eu gostava muito do Sr. Hamilton. Se 
me der licena, irei amanh a Salinas.
- Faa o que lhe apetecer - disse Adam. - S Deus sabe o 
que j fez por mim.
- Irei atirar estalinhos - disse Lee -, e pr um leito assado 
na sepultura do meu pai.
Adam levantou-se, apressadamente, entornando a chvena, 
e saiu, deixando Lee sozinho.



CAPITULO XXVII

1

Naquele ano a chuva caiu com tal regularidade que no hou-
ve cheias no Salinas. As guas lmpidas corriam, quase preguio-
sas, no fundo do largo leito de areia parda.
Os salgueiros estavam verdes e as amoreiras silvestres desfe-
riam os braos em todas as direces.
Fazia j muito calor para um ms de Maro e o vento do sul 
torcia as folhas que mostravam o reverso prateado.
No meio duma clareira rodeada de moitas, perfeitamente abri-
gada, um coelhinho bravo aquecia-se sossegadamente ao sol, 
secando o plo molhado pelo orvalho do pequeno almoo. De vez 
em quando, o coelho franzia o focinho e espetava as orelhas para 
captar tudo o que pudesse ameaar a vida dum coelho bravo. Sentiu 
debaixo das patas uma vibrao ritmada do solo, prestou ateno e 
franziu o focinho, mas as vibraes cessaram. Depois, houve um 
estalido nos ramos dum salgueiro.
Ainda se ouviram rudos interessantes, mas no ameaado-
res: uma pancada e um assobio que se assemelhava ao voo dum 
pombo bravo. O coelho espreguiou uma pata. Produziu-se ento 
um novo estalido, um assobio e um trovo. O coelho ficou comple-
tamente imvel e com o olhar esgazeado. Uma flecha de bambu 
atravessara-lhe o peito e pregava-o ao cho. Caiu de lado, as patas 
pedalaram desenfreadamente no ar e, por fim, imobilizou-se.
Duas crianas saram gatinhando de debaixo do salgueiro. Na 
mo tinham um arco e levavam ao ombro um carcs de onde 
emergiam as penas das flechas. Vestiam fato-macaco e camisas 
de um azul desbotado. Na testa, ostentavam uma grande pena de 
peru segura por uma fita.
Aproximaram-se com cautela, como se fossem ndios nos tri-
lhos de guerra. Os ltimos sobressaltos da morte j tinham agitado 
o coelho quando os dois rapazes se debruaram para a vtima.
- Em cheio no corao - disse Cal, como se no pudesse 
ser doutra maneira.
Aron baixou os olhos e no disse nada.
- Eu direi que foste tu - continuou Cal -, no me interessa
colher os louros. Direi at que foi um tiro difcil. 
- E foi mesmo - disse Aron.
- Ouve, vou dizer ao Lee e ao pap que foste tu.
- Porqu? No percebo - disse Aron. - Vamos antes fazer 
assim: se matarmos outro, diremos que cada um acertou no seu. 
E se no matarmos outro, diremos que disparmos ao mesmo 
tempo e que no sabemos qual foi a flecha que acertou.
- No queres ser tu? - perguntou Cal.
- Prefiro dividir contigo.
- No fim de contas, foi a minha flecha - disse Cal. 
- Ah! isso  que no foi!
- Repara nas penas, ests a ver esta tarja?  a minha seta. 
- Ento porque estava na minha aljava? No me recordo de 
ter visto nenhuma tarja.
- Isso no tem importncia. Para mais, vou dizer que foste
tu.
Aron disse com um ar de gratido:
- No, Cal, no quero. Diremos que atirmos ao mesmo tem-
po.
- Como quiseres. Mas supe que o Lee descobre que  a 
minha seta?
- Diremos que estava na minha aljava.
- Julgas que pega? Pensa logo que ests a mentir. 
Aron conformou-se:
- Se ele julgar que foste tu que o mataste, pronto! deix-lo 
julgar.
- Eu s te queria prevenir- disse Cal.
Arrancou a flecha fazendo-a passar atravs do corpo do coelho 
e as penas brancas tingiram-se de sangue. Cal guardou a flecha no 
carcs.
- Podes levar o coelho - concedeu ele, magnnimo.
- Devamos voltar para casa - disse Aron. - O pap j deve 
ter chegado.
Cal props:
- Podamos assar o coelho, com-lo e passar a noite fora de 
casa.
- Est muito frio, Cal. No te esqueas de que tiveste arre-
pios esta manh.
- Eu nunca tive frio.
- Menos esta manh.
-  mentira. Estava a gozar-te fingindo que tremelicava como
uma criana de colo. Ests a chamar-me mentiroso?
- No - disse Aron. - No quero jogar  pancada. 
- Tens medo de jogar  pancada? 
- No, mas no quero.
- E se eu te dissesse que tens medo, eras capaz de me 
chamar mentiroso?
- Claro.
Aron afastou-se devagar, deixando o coelho no cho. Tinha 
grandes olhos azuis muito afastados e uma boca carnuda e mei-
ga. Todo o seu rosto reflectia uma inocncia anglica. O sol pare-
cia cintilar nos belos cabelos doirados.
Cal saa mais ao pai. O cabelo era castanho-escuro. Mais 
forte que o irmo, tinha maior arcaboio, ombros mais volumosos 
e herdara de Adam a maxila quadrada e os olhos castanhos. O 
olhar era vivo com reflexos de diamante. As mos eram muito 
pequenas em relao ao resto do corpo, com dedos compridos e 
finos, e unhas delicadas. Cal preocupava-se muito com as mos. 
Raramente chorava, mas um corte num dedo fazia-lhe vir as l-
grimas aos olhos. No aventurava as mos e nunca se servia de-
las para tocar num insecto ou apanhar uma cobra e, quando luta-
va, era  pedrada ou  paulada.
Ao ver o irmo afastar-se, sorriu com um ar satisfeito.
- Aron, espera por mim - gritou ele.
Quando chegou ao p do irmo, estendeu-lhe o coelho.
- Podes lev-lo - disse com afabilidade. (E passou o brao
pelo ombro do irmo.) - No fiques zangado. 
- Andas sempre a querer jogar  pancada. 
- No ando nada, era s para te desfrutar.
- A srio?
- Srio. Toma, pega no coelho e vamos j para casa, se qui-
seres.
Aron acabou por sorrir. Sentia sempre um grande alvio quan-
do o irmo punha termo s hostilidades. Os dois irmos saram da 
vala da ribeira e treparam pelo carreiro. O sangue do coelho pingava 
nas calas de Aron.
Cal disse:
- Eles vo ficar admirados quando virem que matmos um 
coelho. Se o pap j estiver de volta, damos-lhe o coelho, ele gos-
ta de coelho  caadora.
- Est bem - disse Aron com alegria. - Ouve, vamos os 
dois e no dizemos quem o matou.
- Como quiseres - disse Cal.
Caminharam um longo momento em silncio, at que Cal dis-
se:
- Toda esta terra at muito para l da ribeira nos pertence. 
- Pertence ao pap.
- Pois , mas quando ele morrer ficar para ns. 
Aron nunca pensara nisso.
- Que queres tu dizer com quando ele morrer?
- Toda a gente morre - disse Cal. - Como o Sr. Hamilton, 
que morreu.
- Ah!, pois - disse Aron. -  verdade, morreu.
No conseguia estabelecer uma relao entre o Sr. Hamilton 
morto e o pai vivo.
- Metem-nos numa caixa, abrem um buraco e pem a caixa 
l dentro - explicou Cal.
- Bem sei.
Aron preferia mudar de assunto e pensar noutra coisa. 
- Eu conheo um segredo - disse Cal. 
- Que segredo ?
- Tu vais contar!
- No conto se me pedires.
- No sei se devo dizer-te.
- Diz - suplicou Aron.
- No o vais repetir?
- Onde julgas que est a nossa me? - perguntou Cal.
- A me morreu.
- Isso  o que tu imaginas.
- Garanto-te que morreu.
- A me fugiu - disse Cal. - Ouvi contar a umas pessoas. 
- Eram mentirosos.
- J te disse que fugiu. Tu no vais repetir?
- No acredito - disse Aron. - O pap disse que ela esta-
va no cu.
Cal disse calmamente:
- Um destes dias vou  procura dela e hei-de traz-la comigo. 
- Essas pessoas disseram-te onde estava? 
- No disseram, mas hei-de encontr-la.
- Est no cu - repetiu Aron. - Porque havia o pap de
mentir?
Olhou o irmo, pedindo-lhe silenciosamente que aquiesces-
se. Cal no respondeu.
- No acreditas que ela esteja no paraso com os anjos? - 
insistiu Aron.
E vendo que Cal no lhe replicava: 
- A quem foi que ouviste dizer?
- A umas pessoas, na estao dos correios de King City.
No sabiam que estava a escutar, mas eu tenho bom ouvido. O
Lee at diz que eu era capaz de ouvir a erva a crescer.
- Porque se teria ela ido embora? - perguntou Aron. 
- Sei l!? Talvez por no gostar de ns. 
Aron analisou esta heresia.
- No, - disse ele. - As tais pessoas no passavam de men-
tirosos. O pap disse que ela estava no cu e tu bem sabes que 
ele no gosta que se fale nela.
- Justamente, talvez seja por ela se ter ido embora.
- No, eu perguntei ao Lee e sabes o que ele me respon-
deu? A vossa me gostava de vocs e ainda gosta. E mostrou-
-me uma estrela, dizendo que talvez fosse a nossa me e que ela 
gostaria de ns enquanto essa estrela brilhasse. No me vais dizer 
que o Lee  um mentiroso, pois no?
Por entre as lgrimas que brotavam, Aron podia ver a expresso 
dos olhos de Cal, duros e determinados. No havia lgrimas nos 
olhos dele.
Cal estava encantado. Encontrara outro instrumento secreto 
que poderia utilizar na primeira oportunidade. Observou Aron e viu-
-he os lbios trmulos e as narinas frementes. s vezes, excitado 
pelas lgrimas, Aron lutava. E quando chorava e lutava ao mesmo 
tempo, tornava-se perigoso. Ficava insensvel e nada o podia deter. 
Certa vez, o Lee segurara-o  fora no colo e ele tentara inutilmente 
bater-lhe, s se acalmando depois de porfiados esforos. Nessa 
ocasio, tambm tinha as narinas frementes.
Cal resolveu arrumar o novo instrumento. Poderia empreg-lo 
quando lhe apetecesse. Sabia que acabara de descobrir a mais 
bela arma da sua panplia; examin-la-ia quando estivesse mais 
sossegado e, ento, determinaria a altura em que deveria aplic-
-la.
Mas a deciso j chegara um pouco tarde. Aron atirou-se para
a frente e o corpo mole do coelho morto foi esborrachar-se na
cara de Cal, que deu um salto para trs e gritou:
- Era a brincar, juro-te, Aron, eu estava a brincar! 
Aron no se moveu. O rosto reflectia o espanto e a dor. 
- No aprecio essas brincadeiras - disse ele. 
Depois, fungou e limpou o nariz com a manga. 
Cal aproximou-se dele e beijou-o na cara. 
- No torno - disse ele.
Os rapazes prosseguiram a caminhada em silncio. A luz do 
dia comeava a baixar. Cal olhou por cima do ombro uma nuvem 
negra que roava o alto da serra, empurrada pelo vento.
- Vem a uma tempestade - disse ele -, uma tempestade 
danada.
- Tens a certeza de ter ouvido essas pessoas? - perguntou 
Aron.
- Talvez tivesse sonhado - disse Cal apressadamente. - 
Oh! olha para a nuvem.
Aron voltou-se para ver o monstro negro. A nuvem parecia 
um balo a referver arrastando uma longa cauda de chuva. Subita-
mente, estrondeou e lanou chispas. Levado pelo vento, o trovo foi 
repercutir nas colinas molhadas, do outro lado do Vale, e, no 
regresso, veio abalar as terras planas. Os dois rapazes puseram-
-se em fuga, perseguidos pela nuvem tonitruante e pelos relm-
pagos que rasgavam o ar. O monstro conseguiu apanh-los e as
primeiras gotas de chuva esmagaram-se no cho. Enquanto cor-
riam, os rapazes respiravam o cheiro de ozone das descargas.
Na altura em que enveredaram pela estrada que levava a casa, 
a tromba despenhou-se sobre eles. A chuva jorrava em colunas, 
empapando-os at aos ossos. Os cabelos colavam-se  testa, 
escondendo-lhes os olhos, e as penas de peru vergavam ao peso 
da gua.
J que no se podiam molhar mais, os rapazes deixaram de 
correr. Olharam um para o outro e desataram a rir. Aron pegou no 
coelho, atirou-o ao ar e apanhou-o; a seguir, atirou-o a Cal, que o 
ps ao pescoo, com a cabea e as patas traseiras reunidas de-
baixo do queixo. Dobrados ao meio, riam como doidos. A chuva 
tamborilava nos carvalhos e o vento descompunha-lhes a altiva 
dignidade.


2

Os gmeos chegaram  vista dos edifcios do rancho no mo-
mento em que Lee, envolvido num poncho de oleado amarelo, 
metia na cocheira um cavalo e um cabriol de rodas de borracha.
- Temos visitas - disse Cal. - Viste o carro?
Puseram-se a correr porque gostavam de visitas. No entanto, 
quando chegaram  entrada afrouxaram o passo e deram a volta 
 casa, pois sentiam um leve receio dos desconhecidos. Entra-
ram na cozinha e pararam, escorrendo gua. Chegaram-lhes vo-
zes da sala, a do pai e a de outro homem. Depois, a terceira voz 
fez passar-lhes um arrepio pela espinha. Era uma voz de mulher. 
No estavam habituados s mulheres. Na ponta dos ps, dirigi-
ram-se para o quarto e interrogaram-se com um olhar.
- Quem supes tu que seja? - perguntou Cal.
Aron parecia fulminado. A vontade dele seria gritar:
- Talvez seja a mam, talvez ela tenha voltado.
Mas lembrou-se de que ela estava no cu e que  um stio de 
onde no se volta. Por isso, apenas respondeu:
- No sei. Vou mudar de roupa.
Vestiram roupas enxutas que eram rplicas exactas das que 
acabavam de despir. Livraram-se das penas de peru e pentearam o 
cabelo com os dedos. Continuavam a ouvir as vozes, a maior parte 
das vezes baixas, mas dominadas aqui e alm pela voz mais agu-
da da mulher. De repente, ficaram petrificados, ao reconhecerem 
uma voz de criana, uma voz de rapariga. E era to emocionante 
que nem sequer trocaram uma palavra.
Silenciosamente, percorreram o corredor que levava ao ves-
tbulo e dirigiram-se com pezinhos de l para a entrada da sala. Cal 
girou a maaneta muito devagar para que no fizesse o menor rudo. 
Abrira-se apenas uma nesga da porta, quando Lee surgiu vindo dos 
fundos e despindo o poncho.
- Mininos  espleita - disse ele em pidgim.
Cal largou o fecho da porta e o trinco deu um estalido. Lee 
disse apressadamente:
- O vosso pai j chegou. Vo cumpriment-lo. 
Aron murmurou:
- E os outros?
-  gente de passagem. Entraram para se abrigarem do tem-
poral.
Lee girou a maaneta e abriu a porta.
- Os mininos j chegalam!- disse ele. 
E deixou-os ali, expostos aos olhares.
Adam exclamou:
- Entrem, meus filhos, entrem.
Os gmeos entraram de cabea baixa e olhar assustado. Na 
sala estavam um homem de trajo de passeio e uma senhora com 
o mais lindo vestido que j tinham visto. Numa cadeira ao lado, 
colocara o chapu e o casaco. A senhora estava coberta de seda 
e rendas pretas da cabea aos ps. At no pescoo tinha uma fita 
preta. Para um dia, j chegava de emoes, mas ainda havia mais. 
Ao lado da senhora, sentava-se uma rapariga, talvez um pouco 
mais nova que os gmeos. Na cabea tinha um chapu azul de 
aba larga, adornado de rendas. O vestido era todo florido e, preso  
cintura, tinha um avental com algibeiras. A saia estava levantada, 
deixando ver outra saia de l encarnada, enfeitada com motivos 
geomtricos. Os rapazes no lhe podiam ver a cara por causa do 
chapu, mas as mos estavam cruzadas nos joelhos e brilhava um
anel de oiro no terceiro dedo. Nenhum dos dois gmeos recobrara a 
respirao e comeavam a ver discos vermelhos danando diante 
dos olhos.
- Os meus filhos - disse Adam. - So gmeos. Meninos, 
apertem a mo aos nossos convidados.
Os rapazes avanaram de cabea baixa e mos erguidas, 
numa atitude de abandono e desespero. O cavalheiro, seguido da 
senhora de rendas, sacudiu-lhes a mo e Aron, que ia  frente, no 
se aproximou do chapu azul.
- Ento tu no cumprimentas a minha filha? - perguntou a 
dama.
Aron estremeceu e, depois, estendeu a mo s cegas em 
direco  rapariga com a cara oculta. Nada sucedeu. Os dedos 
no foram agarrados, nem torcidos ou apertados, nem sacudi-
dos...
A mo ficou simplesmente estendida no ar. Aron olhou  
sorrelfa para ver o que se passava.
Ela tambm tinha a cabea baixa, mas escudava-se no cha-
pu. Tambm estendera a mo direita onde brilhava o anel, mas 
mantinha-a rgida.
Aron lanou um olhar  senhora, que sorria de boca aberta. A 
sala parecia esmagada pelo peso do silncio. Aron ouviu Cal sol-
tar um risinho atrs de si.
Desesperado, atirou a mo para a frente e agarrou a da me-
nina, sacudindo-a trs vezes. Era to macia como um punhado de 
ptalas. Sentiu-se invadido por um clido prazer. Largou a mo e 
enfiou a sua no bolso. Na altura em que batia apressadamente 
em retirada, viu Cal que avanava e apertava cerimoniosamente a 
mo, perguntando: Como est? Aron, que se esquecera de o 
fazer, pronunciou a frase aps o irmo, soando-lhe de forma es-
tranha. Adam e as visitas riram-se.
Adam disse:
- O Sr. e a Sr.a Bacon foram surpreendidos pela tempestade. 
- Tivemos sorte em nos perdermos para estes lados - disse
o Sr. Bacon. - Andvamos  procura do rancho dos Long.
- Fica mais longe. Deviam ter cortado  esquerda quando
saram da estrada do Vale.
Adam dirigiu-se aos filhos:
- O Sr. Bacon  conselheiro comunal.
- No percebo porqu, levo muito a srio as minhas funes 
- disse o Sr. Bacon.
E dirigiu-se aos dois rapazes no tom empregado pelos adul-
tos para falarem s crianas:
- A minha filha chama-se Abra. No  um nome engraado? 
Depois, voltou-se para Adam e recitou os dois primeiros ver-
sos do poema:

Chamei por outra e Abra acorreu: 
Foi a primeira que me apareceu.

- So de Matthew Prior. No nego que preferia um rapaz, mas 
a Abra tem sido um grande conforto para ns. Levanta a cabea, 
querida.
Abra no se moveu, conservando as mos cruzadas nos joe-
lhos. O pai repetiu:
- Pois  verdade: Foi a primeira que me apareceu.
Aron viu que o irmo lanava um olhar audacioso ao chapu, 
e disse com a voz rouca:
- No acho que Abra seja um nome esquisito.
- Quando o meu marido disse que era um nome engraado, 
no era nesse sentido - explicou a Sr.a Bacon. - Ele pretendia 
dizer que era um nome curioso.
E voltando-se para Adam:
- O meu marido acha nos livros as coisas mais estranhas. 
No sero horas de nos irmos embora, querido? 
Adam protestou:
- No se vo j embora. O Lee vai servir-nos ch,  bom 
para aquecerem.
- Mas que gentileza! - disse a Sr.a Bacon. 
E acrescentou:
- J no chove, meus filhos. Vo brincar l para fora.
A voz tinha uma tal autoridade que saram logo os trs, Aron  
frente, seguido de Cal e de Abra.


3

O Sr. Bacon traou as pernas.
- Parece uma bela propriedade. Tem muito terreno?
- Bastante - respondeu Adam -,  tudo meu at ao outro
lado do rio. No conjunto,  um bom pedao de terra.
- Ento tudo o que est do outro lado da estrada tambm 
seu?
- , sim, e tenho quase vergonha de confessar que deixei 
tudo ao abandono. Talvez seja por ter trabalhado de mais no cam-
po quando era novo.
O Sr. e a Sr.a Bacon olharam Adam e ele compreendeu que 
devia explicar porque tinha deixado a terra ao abandono.
- Devo ser preguioso - disse ele -, o meu pai prestou-me 
um mau servio deixando-me dinheiro bastante para poder viver 
sem trabalhar.
Baixou os olhos, mas compreendeu que os Bacon tinham fica-
do aliviados. Como era rico, no se tratava de preguia. S os 
pobres so preguiosos. Do mesmo modo que s os pobres so 
ignorantes. Um homem rico que nada faz  pervertido ou inde-
pendente.
- Quem cuida dos seus filhos? - perguntou a Sr.a Bacon. 
Adam riu-se.
- O pouco caso que fazem deles est a cargo do Lee. 
- Do Lee?
Adam principiava a sentir-se ligeiramente irritado.
- No tenho mais ningum - disse ele com secura. 
- O qu, aquele chins?
A Sr.a Bacon ficara chocada. Adam sorriu-lhe. A principio, ela
assustara-o mas, agora, sentia-se mais  vontade.
- Foi o Lee quem criou os pequenos e tratou de mim.
- Ento nunca tiveram uma mulher que cuidasse deles? 
- Nunca.
- Pobres cordeirinhos - disse ela.
- So um pouco selvagens, mas tm sade - disse Adam. 
Tenho a impresso de que nos tornmos todos mais ou menos
selvagens, como a terra. Agora o Lee vai deixar-me e eu no sei o
que hei-de fazer.
O Sr. Bacon empurrou cuidadosamente o pigarro para que no 
lhe estragasse o efeito das palavras.
- J pensou na educao dos seus filhos? 
- Para falar com franqueza... ainda no. 
A Sr.a Bacon afirmou:
- O meu marido acredita nas virtudes da educao. 
-  a chave do futuro - disse o Sr. Bacon. 
- Que espcie de educao? - perguntou Adam. 
O Sr. Bacon prosseguiu:
- O homem de saber tem tudo a seu favor.  como lhe digo, 
eu acredito na luz da cincia.
Inclinou-se para a frente e a voz saiu mais confidencial.
- J que no explora o rancho, porque no o arrenda e vai
viver para a cidade, onde no faltam escolas? 
Adam ainda teve vontade de lhe responder: 
Porque no se mete antes na sua vida? 
Mas contentou-se em perguntar:
- Acha que seria uma boa ideia?
- Eu poderia arranjar-lhe um bom arrendatrio - disse o Sr. 
Bacon. - Se no viver nesta terra, ser natural que ela lhe d um 
bom rendimento.
Lee fez muito barulho ao trazer o ch. Ouvira o bastante atrs 
da porta para saber que Adam considerava aquelas pessoas bas-
tante maadoras. Lee tinha a certeza de que no gostavam de 
ch e se, por acaso, gostassem, haviam de ficar um pouco admi-
rados com a beberagem que lhes preparara. Mas o casal Bacon 
bebeu o ch e fez-lhe tantos elogios que Lee compreendeu ime-
diatamente que no passavam de refinados hipcritas. Tentou 
captar o olhar de Adam, mas Adam parecia embevecido na con-
templao do tapete.
A Sr.a Bacon ia dizendo: O meu marido fez parte do conse-
 lho escolar durante vrios anos quando Adam deixou de a ouvir. 
 sua frente, via uma espcie de globo terrestre branco que 
baloiava na ponta dum ramo dum dos seus carvalhos e, depois, 
sem razo aparente, o globo foi substitudo pelo pai dele, claudi-
 cando em cima da perna de pau e batendo-lhes com a bengala para 
os meter na ordem. Adam via o homem severo e marcial, coman-
 dando os filhos que levavam grandes pesos s costas para desen-
volverem as espduas. A voz da Sr.a Bacon servia de contraponto. 
Adam sentiu nos ombros o saco cheio de pedras. Viu a cara de 
Charles e o seu sorriso sardnico, Charles, o irmo, mau, violento e 
brutal. Subitamente, Adam sentiu desejos de ver Charles. Faria a 
viagem e levaria os filhos. Alegremente, bateu na coxa.
- Como? - exclamou o Sr. Bacon.
- Desculpe, mas acabo de me lembrar de uma coisa que me 
esqueci de fazer.
Os dois Bacon esperaram paciente e delicadamente por uma 
explicao. Adam pensava:
E porque no? No me interessa ser conselheiro municipal. 
No fao parte de nenhum conselho escolar. Porque no? 
E disse aos convidados:
- Acabo de me lembrar que no escrevo ao meu irmo h 
dois anos.
Os Bacon tiveram um sobressalto e trocaram um olhar.
Lee acabava de encher novamente as chvenas. Adam viu-lhe
as bochechas inchadas e ouviu-o estoirar de riso no corredor.
Os Bacon no fizeram nenhum comentrio. Discutiriam o as-
sunto quando estivessem ss.
Lee previu como as coisas se passariam. Atrelou o cavalo ao 
cabriol de rodas de borracha e trouxe-o logo para a porta.


4

Quando Abra, Cal e Aron saram, ficaram  porta vendo a 
chuva que gotejava dos grandes carvalhos. O temporal afastara-se 
e s se ouvia um longnquo trovejar. Mas a chuva parecia estar para 
durar.
Aron perguntou:
- Porque foi que a senhora nos disse que j no chovia? 
Abra respondeu-lhe com sagacidade: 
-  que no olhou. Quando fala, nunca olha. 
Cal perguntou:
- Que idade tens?
- Vou fazer onze anos - disse Abra.
- Ora! - disse Cal. - Ns j temos quase doze.
Abra atirou o chapu para trs. Circundava-lhe a cabea como 
uma aurola. Era bonita, de cabelos escuros, penteados em duas 
tranas. Tinha a testa redonda e saliente e as sobrancelhas for-
mavam uma linha recta. O nariz viria a ser bonito mas, por en-
quanto, parecia um boto. Mas o rosto j tinha feies definitivas: 
o queixo firme e a boca bonita como uma flor, muito larga e rosa-
da. Os olhos cor de avel tinham um olhar penetrante, inteligente 
e audacioso. Abra fitou os dois rapazes, um aps outro. J no 
era a menina paralisada pela timidez que tinham visto na sala.
- Ningum diria que so gmeos - disse ela. - No se 
parecem nada.
- Mas somos - disse Cal.
- Somos, pois - disse Aron.
- H gmeos que no so parecidos - teimou Cal.
- H mesmo muitos - insistiu Aron. - O Lee j nos expli-
cou: se uma senhora tiver um ovo, os gmeos so parecidos; se 
tiver dois ovos, no so.
- Ns somos dois ovos - disse Cal.
Os mitos daqueles camponeses despertaram o sorriso de 
Abra.
- Ovos - disse ela.- Com que ento, ovos!
No pronunciou as palavras com fora, nem com maldade, mas 
a teoria de Lee vacilou e desmoronou-se. Abra aplicou-lhe um golpe 
fatal.
- Qual de vocs  estrelado e qual  cozido?
Os rapazes trocaram um olhar preocupado. Era a primeira 
vez que enfrentavam a inexorvel lgica feminina que  imper-
turbvel, mesmo - e, talvez, sobretudo - quando  falsa. Aquilo 
era novo para eles, e interessante, mas assustador.
Cal disse:
- O Lee  chins.
- Ah! ento  isso! - disse amavelmente Abra. - J devi-
am ter dito h mais tempo. Se calhar so ovos chineses?
Deixou que o veneno penetrasse e produzisse efeito. Viu que 
lutavam e que acabavam por se render. Abra tomara a situao em 
mos, s lhe restava comandar.
Aron sugeriu:
- Vamos brincar para a casa velha. Chove l dentro mas  
bonita.
Correram sob os carvalhos gotejantes para a velha residncia 
dos Sanchez e entraram pela porta aberta que rangia nos gonzos 
enferrujados.
A casa vivia o seu segundo perodo de decadncia. O salo 
estava meio estucado e a parte branca detinha-se no stio onde os 
operrios tinham abandonado o trabalho dez anos antes. As jane-
las com caixilhos novos continuavam sem vidraas. O novo soa-
lho estava manchado pelas infiltraes da gua. 0 cho estava 
juncado de papis e, num canto, um punhado de pregos acabava 
de enferrujar.
Na altura em que as crianas entravam, levantou voo um 
morcego. A forma cinzenta esvoaou duma parede  outra antes 
de desaparecer pela porta.
Os rapazes mostraram a casa a Abra. Abriram os armrios 
para que visse os lavatrios e os candelabros ainda embrulha-
dos, aguardando a vez de serem instalados. No ar havia um 
cheiro a bafio e a papel molhado. As trs crianas caminhavam 
no bico dos ps e sem trocar palavra, com receio de despertar 
o eco.
De regresso  sala, os gmeos interrogaram a convidada: 
- Gostaste? - perguntou Aron, baixinho. 
- Hum!... gostei - admitiu ela, hesitante.
-A gente s vezes vem brincar para aqui. Tu tambm podes
vir quando quiseres - props Cal com audcia.
-- Eu moro em Salinas - disse Abra.
Os gmeos compreenderam que estavam a braos com um
ser superior a quem se ofereciam prazeres mais requintados. 
Abra percebeu que menosprezava o seu mais belo tesoiro.
J conhecia os pontos fracos dos rapazes, mas gostava deles e,
depois, era uma pessoa bem-educada.
- Sempre que puder passar por aqui, virei brincar com vo-
cs... um bocadinho - disse ela, amavelmente.
Ambos se sentiram cheios de gratido.
- Vou dar-te o meu coelho - disse subitamente Cal.- Que-
ria oferec-lo ao meu pai, mas prefiro dar-to de presente.
-Que coelho?
- O que ns matmos hoje. Uma seta mesmo em cheio no 
corao. Quase que no estrebuchou.
Aron sentiu-se lesado.
- Era o meu...
Cal interrompeu-o:
- Vamos dar-to para o levares para casa.  muito grande. 
Abra respondeu:
- Que querem que eu faa dum coelho velho todo sujo e 
cheio de sangue?
Aron sugeriu:
- Vou lav-lo, met-lo numa caixa e at-la com uma guita. 
Se no quiseres com-lo, podes enterr-lo... em Salinas.
- Eu vou a enterros a valer - disse Abra.- Ainda ontem vi 
um em que havia flores at  altura do tecto.
- Ento no te interessa o nosso coelho? - perguntou Aron.
Abra contemplou os cabelos loiros encaracolados pela chu-
va, os olhos a que assomavam as lgrimas, e sentiu arder-lhe no 
peito essa melancolia atenta que anuncia o amor. Teve vontade 
de tocar em Aron e tocou-lhe. Ps-lhe a mo no brao e Aron 
estremeceu.
- Se for numa caixa, fico com ele - disse ela.
Abra, triunfante, examinou as suas conquistas. Nada de mas-
culino a ameaava j. Parecia que o corao se lhe derretia ao ver 
os gmeos nos macacos usados e remendados. Abra recordou- - 
-se dos contos de fadas.
- Pobres pequenos, o vosso pai bate-lhes? - perguntou ela. 
Ambos abanaram a cabea. Estavam fascinados e estupefactos. 
- So muito pobres?
- Pobres, como? - perguntou Cal.
- Vocs sentam-se ao borralho e so obrigados a ir buscar 
gua e lenha?
- Que lenha? - perguntou Cal.
Abra iludiu a resposta.
- Pobrezinhos - murmurou.
Na mo, tinha a varinha mgica terminada por uma estrela 
cintilante.
- A vossa madrasta deve odi-los e querer mat-los?
- Ns no temos madrasta - disse Cal.
- No temos coisa nenhuma - disse Aron. - A nossa me 
morreu.
A histria que Abra estava arquitectando deixou de formar senti-
do, mas ela inventou logo outra. J no tinha a varinha de condo, 
mas usava agora um grande chapu com uma pluma de avestruz e 
levava um enorme cesto de onde saiam as patas de um peru.
- Pobres rfozinhos sem me - disse ela com meiguice 
- nesse caso serei eu a vossa me. Pegar-vos-ei ao colo, emba-
lar-vos-ei e contarei histrias.
- J somos muito grandes para isso - disse Cal -, ias 
abaixo com o nosso peso.
Abra ignorou esta brutalidade intempestiva. Aron estava fas-
cinado pela histria, sorriam-lhe os olhos e parecia, de facto, que 
se deixava embalar. Abra sentiu uma nova vaga de amor por ele e 
perguntou-lhe com afabilidade:
- A vossa me teve um bonito enterro?
- No nos lembramos - disse Aron -, ainda ramos muito 
pequenos.
- Onde est enterrada? Tem de se pr flores na sepultura.  o 
que fazemos  av e ao tio Albert.
- A gente no sabe - disse Aron.
O olhar de Cal tinha um claro de triunfo. Num tom de inge-
nuidade, disse:
- Vou perguntar ao pap onde ela est para lhe levarmos flores. 
- Eu vou contigo - disse Abra. - Sei fazer coroas, hei-de 
mostrar-te como .
Abra reparou que Aron se mantinha calado. 
- Tu no queres aprender a fazer coroas? 
- Quero, sim - disse ele.
Ela sentiu novamente vontade de lhe tocar. Passou-lhe a mo 
pelo ombro e deu-lhe uma palmadinha na cara.
- A tua mam ficar contente - disse ela. - Mesmo no 
paraso, eles conseguem ver-nos. Foi o papa quem me disse. Ele 
at conhece um poema que fala nisso.
Aron disse:
- Vou embrulhar o coelho e met-lo na caixa onde vieram as 
minhas calas.
E saiu da velha casa a correr. Cal acompanhou-o com o olhar 
sorridente.
- Porque ests a sorrir? - perguntou Abra. 
- Por nada.
E Cal fitou-a nos olhos. Abra procurou obrig-lo a desviar o 
olhar. Era perita na matria, mas Cal nem sequer pestanejou. De 
comeo, sentira uma certa timidez, mas j se livrara dela e ria de 
prazer s  ideia de a domar. Como toda a gente, ela preferia o 
irmo, Aron o loirinho, Aron que atraa, com os seus modos mei-
gos e francos, todas as simpatias. Cal dissimulava profundamente 
as emoes, sempre pronto ao ataque ou  retirada. Como ela 
preferia o irmo, resolveu castig-la. J se familiarizara com tais 
reaces. Nunca perdia uma ocasio de se vingar desde o dia em 
que descobrira que tal era possvel. O castigo tornava-se uma 
funo criadora.
A melhor maneira de descrever os dois irmos talvez seja por 
esta imagem: se Aron descobria um formigueiro numa clareira, 
deitava-se de barriga para baixo e observava a vida das formigas, 
o transporte dos gneros alimentcios e dos ovos esbranquiados, 
as conversas entre membros da comunidade por meio das ante-
nas. Era capaz de ficar horas a observar o mundo dos insectos.
Mas se Cal descobria o mesmo formigueiro, destrua-o a pon-
taps e divertia-se com a fuga das formigas desvairadas pelo cata-
clismo. Aron sentia-se feliz por fazer parte do mundo, mas Cal 
desejava transform-lo.
Cal no estava interessado em saber porque admiravam o 
irmo, mas no podia suportar tal preferncia.
Na altura em que o admirador se mostrava, Cal desferia o 
golpe e a vtima era apanhada de surpresa. Da, advinha-lhe uma 
sensao de poderio que lhe causava profunda alegria. Era a 
emoo mais pura e mais forte que conhecia. No odiava Aron, 
antes pelo contrrio, amava-o, pois era ele a causa dos seus triun-
fos. Esquecera-se - talvez nunca o tivesse sabido - de que se 
vingava porque gostaria de ser amado como Aron. J fora to 
longe neste sentido que preferia ser o que era, a ser o que era o 
irmo.
Abra pusera o mecanismo em movimento ao tocar em Aron e 
ao dirigir-se-lhe com doura. A reaco de Cal foi automtica. Procu-
rou o ponto fraco de Abra e era to esperto que o descobriu logo 
pela maneira que ela tinha de se exprimir. Certas crianas resolvem 
ficar infantis, enquanto outras preferem ser adultas. Poucas so as 
que se contentam com a prpria idade. Abra queria ser uma pessoa 
crescida. Ia buscar as palavras, as atitudes e as reaces a essa 
idade adulta. Se j deixara muito para trs a extrema infncia, tambm 
no tinha ainda idade para brincar aos adultos. Cal compreendeu-o 
e forjou um instrumento para destruir o novo formigueiro.
Sabia de quanto tempo precisava o irmo para encontrar a caixa, 
lavar o sangue do coelho, procurar a guita e atar o embrulho com 
laadas. Cal pressentiu que a vitria mudava de campo. A calma 
segurana de Abra principiava a oscilar e surgira a oportunidade de 
tirar proveito da situao.
Abra baixou os olhos e acabou por perguntar:
- Que mania  essa de fitares as pessoas nos olhos?
Cal esmiuou-a da ponta dos ps  cabea, como se fosse
um mvel. Sabia que aquilo at irritava os adultos. 
Abra no se conteve:
- Nunca viste?
- Tu vais  escola? - perguntou Cal. 
- Claro que vou.
- Em que classe ests?
- Na quinta.
- Que idade tens?
- Vou fazer onze anos.
Cal soltou uma gargalhada.
- Que mal tem isso? - perguntou ela. 
Cal no respondeu.
- Dize l, dize.
Cal manteve-se em silncio.
- Julgas-te esperto?
Como ele continuasse a rir, ela ficou preocupada.
- Gostava de saber porque  que o teu irmo se demora 
tanto. Olha, j parou de chover.
Cal disse:
- Deve andar  procura.
- De qu? Do coelho?
- Ah! no. O coelho est morto. Mas talvez no consiga apa-
nhar o outro. Foge sempre.
- Apanhar o qu? O que  que foge?
- Ele ficava zangado se eu te dissesse. Quer fazer-te uma 
surpresa. Apanhou-o na sexta-feira passada e foi mordido. 
- Que histria  essa?
- Logo vs quando abrires a caixa - disse Cal. - Aposto 
que ele te vai pedir para no a abrires logo.
Esta ltima parte da frase no era inveno, pois Cal conhe-
cia bem o irmo.
Abra compreendeu que estava a perder no s a batalha como 
toda a guerra. Odiava aquele mido. Passou em revista todas as 
armas de que dispunha, mas p-las de parte uma aps outra, veri-
ficando que seriam inteis. Resolveu acobertar-se no silncio e, 
depois, dirigiu-se para a porta, lanando um olhar em direco  
casa onde estavam os pais.
- Parece-me que me vou embora - disse ela. 
- Espera - disse Cal.
Abra voltou-se na altura em que Cal chegava junto dela.
- Que queres? - perguntou ela com frieza.
- No te zangues comigo! - disse ele. - Tu no sabes o
que se passa nesta casa. Se tu visses as costas do meu irmo! 
Abra ficou surpreendida com esta mudana de atitude. Ele
resolvera persegui-la no prprio terreno e compreendera perfeita-
mente que Abra se sentia  vontade nas situaes romanescas.
Cal falara em tom de segredo e ela tambm baixou a voz.
- Que queres tu dizer? O que  que ele tem nas costas? 
- Tem verges e cicatrizes - disse Cal. - Foi o chins. 
Abra estremeceu e encheu-se de curiosidade. 
- Que lhe fez ele? Bateu-lhe?
- Pior - disse Cal.
- Porque no se queixaram ao vosso pai?
- No temos coragem. Sabes o que acontecia se lhe conts-
semos?
- No. O que era?
Cal abanava a cabea.
- No. - (Pareceu reflectir profundamente.) - No. Tenho 
medo de te dizer.
Nesse momento, Lee saiu da cocheira, conduzindo o cavalo
atrelado ao cabriol de rodas de borracha. O Sr. e a Sr.a Bacon 
surgiram  porta de case e ergueram a cabea para o ar num con-
junto perfeito.
Cal disse:
- No posso dizer-te, o chins percebia logo. 
A Sr.a Bacon chamou:
- Abra, despacha-te que nos vamos embora.
Lee segurava o cavalo inquieto enquanto a Sr.a Bacon era 
empurrada para o carro.
Aron apareceu a correr sobraando uma caixa de carto cheia 
de laos, que entregou a Abra.
- Toma - disse ele.- No a abras seno depois de chega-
res a casa.
Cal observou a repugnncia no rosto de Abra. As mos 
recusaram-se a pegar na caixa.
- Pega nisso, minha querida - disse o pai.- Vamos de-
pressa, que j  tarde.
E meteu-lhe a caixa,  fora, nas mos. 
Cal esgueirou-se at junto dela.
- Escuta. - (Falou-lhe ao ouvido.) - Tu fizeste chichi nas 
calas.
Abra corou e enterrou o chapu na cabea. A Sr. Bacon pe-
gou-lhe pelos braos e sentou-a no carro.
Lee, Adam e os gmeos ficaram a olhar para o cavalo que 
metia a trote.
Antes da primeira curva, a mo de Abra ergueu-se e deitou 
fora a caixa. Cal olhou para o irmo e viu que tinha estampada no 
rosto toda a tristeza do mundo. Assim que Adam voltou para casa 
e que Lee foi tratar das galinhas, Cal passou o brao pelos om-
bros do irmo e estreitou-o afectuosamente.
- Eu queria casar com ela - disse Aron. - Tinha metido 
uma carta com o pedido na caixa.
- No fiques triste - disse Cal. - Eu empresto-te a minha 
espingarda.
A cabea de Aron rodopiou.
- Que espingarda? Tu no tens espingarda. 
- Ah! no? - disse Cal. - Tens a certeza?



CAPTULO XXVIII

1


Foi durante o jantar que os rapazes descobriram a transforma-
o operada no pai. At ali, ele no passara duma presena, de 
orelhas que escutavam sem ouvir, de olhos que viam mas no 
notavam nada. Era uma nuvem de pai. Os filhos nunca tinham 
aprendido a confiar-lhe as suas descobertas ou as suas necessi-
dades. Lee fora o trao de unio com o universo adulto.
Criara, alimentara, vestira e disciplinara os gmeos, incutira-
-lhes o respeito pelo pai. Adam constitua um mistrio para os fi-
lhos e ditava-lhes as suas leis por intermdio de Lee que, natural-
mente, as elaborava e imputava a Adam.
Cal e Aron comearam por ficar admirados e, depois, senti-
ram-se incomodados quando viram que Adam os escutava, lhes 
fazia perguntas, os ouvia e os observava. A modificao intimi-
dou-os.
- Parece que vocs hoje foram  caa.
Os rapazes escudaram-se numa certa prudncia, como todo 
o ente humano que defronta uma nova situao. Aps uma pau-
sa, Aron admitiu:
- Fomos, sim, pap.
- Apanharam alguma coisa?
Seguiu-se uma pausa ainda maior e, depois: 
- Fomos, sim, pap.
- O que foi?
- Um coelho.
- Com arco e flechas? Quem lhe acertou?
Aron disse:
- No sabemos, matmos ao mesmo tempo.
- Ento no distinguem as flechas de cada um?- admirou--
-se Adam. - No meu tempo, pnhamos marcas nas flechas. 
Desta vez, Aron preferiu no responder para evitar compli-
caes. Foi Cal quem, aps ter esperado, disse:
- A seta era minha, mas acho que estava na aljava do Aron. 
- Porque julgas tu isso?
- No sei, mas suponho que foi o Aron quem matou o coelho. 
Aron desviou a direco do olhar.
- E tu, que pensas?
- Talvez fosse eu, mas no tenho a certeza.
- Seja como for, parecem estar senhores da situao.
Os dois rapazes deixaram de se sentir inquietos. No se tra-
tava duma armadilha.
- Onde est o coelho? - perguntou Adam. 
- O Aron ofereceu-o  Abra.
- Ela deitou-o fora - disse Aron. 
- Porqu?
- No sei. Eu tambm queria casar com ela. 
- Srio?
- A srio, pap.
- E tu, Cal?
- No me importo que o Aron fique com ela.
Adam soltou uma gargalhada e era a primeira vez que os filhos 
o ouviam rir.
- Achaste-a bonita? - perguntou ele.
- Achei, pois - disse Aron. -  bonita e muito boa. 
- Muito bem! Antes assim, se vier a ser minha nora. 
Lee levantou a mesa, arrumou a loia e voltou. 
- So horas de irem para a cama - disse ele. 
Os gmeos protestaram com o olhar. Adam disse: 
- Sente-se, Lee. Deixe-os ficar mais um bocado.
- J fiz as contas, poderemos examin-las quando quiser
disse Lee.
- Que contas, Lee?
- As contas do rancho e da casa. No disse que queria saber 
em que paravam as modas?
- As contas de dez anos?
- O senhor nunca as quis fazer.
- Tem toda a razo. Sente-se. O Aron queria casar com a 
menina que esteve c hoje.
- Esto noivos? - perguntou Lee.
- Ela ainda no deu o consentimento - respondeu Adam.-
E isso ainda pode levar bastante tempo.
Cal, que comeara por ficar desorientado com esta mudana 
de atmosfera, acabara por se recompor a breve trecho e entreti-
nha-se a observar o novo formigueiro, perguntando a si mesmo 
onde e quando deveria atacar. Rapidamente, tomou uma deciso.
- Ela era de facto muito simptica - disse ele.- Gostei 
muito dela. Sabes porqu? Disse-nos para te perguntar onde era 
a sepultura da mam para l ir pr flores.
- Ela prometeu ensinar-nos a fazer coroas - acrescentou 
Aron.
Adam procurou apressadamente uma soluo. Era um fraco 
mentiroso. Assustou-o a ideia que lhe passou pela mente mas, 
afinal, ouviu-se dizer:
- Seria uma ptima ideia, meus filhos, mas devo dizer-lhes 
que a sepultura da vossa me fica muito longe daqui. 
- Porqu? - perguntou Aron.
- Porque certas pessoas gostam de ser enterradas no lugar 
onde nasceram.
- Como foi que ela voltou para to longe? - perguntou Cal. 
- Metemo-la no comboio e mandmo-la para a terra dela, 
no  verdade, Lee?
Lee confirmou:
- Connosco d-se o mesmo. Quase todos os chineses pe-
dem para serem enterrados na China.
- Bem sei - disse Aron -, tu j nos tinhas dito. 
- De verdade?
- Claro - disse Cal.
Adam mudou rapidamente de assunto.
- O Sr. Bacon sugeriu-me esta tarde uma coisa, e queria 
falar-lhes nisso, meus filhos. Ele acha que seria preferivel para vocs 
que fssemos morar para Salinas. As escolas l so melhores e 
vocs teriam muitos mais camaradas.
A proposta deixou os gmeos estupefactos. Cal perguntou: 
- Ento... e o rancho?
- Ficvamos com ele para o caso de nos apetecer voltar para
c.
Aron disse:
- A Abra vive em Salinas.
E isso bastava-lhe. Esquecera j a caixa deitada fora, apenas 
se lembrava dum avental, do chapu e dos dedinhos muito maci-
os.
Adam disse:
- Pensem no assunto. E, agora, so horas de irem dormir.
Porque no foram vocs hoje  escola?
- A professora est doente - disse Aron.
- A menina Culp est doente h trs dias - esclareceu Lee.
- Eles s voltam  escola na segunda-feira. Meninos, toca a andar! 
Os gmeos seguiram-no obedientemente.


2

Adam sorriu vagamente ao candeeiro e ps-se a tamborilar com
a ponta do dedo no joelho, at ao regresso de Lee. 
- Sabero eles alguma coisa? - perguntou. 
- No sei.
- Bom, talvez fosse apenas a mida.
Lee foi  cozinha e voltou com uma grande caixa de carto. 
- Aqui tem as contas. Esto todos os anos separados. Revi tudo 
e no falta nada.
- O qu? Todas as contas?
Lee respondeu:
- H um livro para cada ano e as facturas liquidadas. O se-
nhor queria saber qual era a sua situao financeira. Aqui tem o 
balano. Tenciona realmente partir?
- Acho que sim.
- No haveria maneira de contar a verdade s crianas? 
- No convm macular o amor que eles dedicam  me.
- J pensou no outro perigo?
- Que perigo?
- Suponha que eles descobrem a verdade? H muita gente 
que sabe.
- Talvez lhes possa explicar melhor quando forem mais cres-
cidos.
- No me parece - disse Lee. - Mas isso ainda no  o 
pior.
- No percebo.
- Estou a pensar na mentira que lhes contou. Pode infectar o 
resto. Se desconfiam de que lhes mentiu a este respeito, perdero 
toda a confiana em si.
- Estou a ver, estou. Mas que quer que lhes diga? Toda a 
verdade?
- Apenas uma parte, o bastante para que no sofra se eles 
vierem a descobrir o resto.
- Tenho de pensar nisso a srio.
- Se for para Salinas, o perigo tornar-se- ainda maior. 
- Vou pensar no caso.
Lee insistiu:
- O meu pai falou-me na minha me quando eu era ainda 
muito pequeno e no me poupou.  medida que eu ia crescendo, 
repetiu-me inmeras vezes a histria. Era diferente, mas horrvel. 
No entanto, sinto-me feliz por ele me ter contado tudo. Digo-lhe 
mais: lamentaria no a saber.
- Quer contar?
- No, no fao empenho nisso. Mas talvez o convena a 
falar aos seus filhos. Poderia dizer-lhes, por exemplo, que ela se 
foi embora, mas que no sabe onde est.
- Mas se eu sei!
- A  que est o mal.  preciso dizer toda a verdade ou uma 
meia mentira. Eu no posso obrig-lo.
- Vou pensar no assunto - disse Adam. Qual  a histria da 
sua me?
- Est mesmo interessado em ouvi-la? 
- S se no se importar.
- Vou ser breve - disse Lee. - Ns vivamos numa cabana 
escura, no meio dum batatal, e o meu pai contava-me a histria da
minha me.  esta a minha primeira recordao. O meu pai falava 
cantons, mas quando contava a histria exprimia-se em alto e rico 
Mandarim. Bom, devo dizer-lhe...
E Lee recuou no tempo.
- Devo comear por lhe dizer que os vossos caminhos de 
ferro do Oeste foram construdos por chineses, milhares de chi-
neses que fizeram os aterros, colocaram as chulipas e assenta-
ram as vias. Era um trabalho terrvel, mas os homens eram mal 
pagos, trabalhavam a valer e, se morressem, ningum se preocu-
pava. Na maioria dos casos, eram cantoneses, fortes, resistentes 
e pacatos.
Depois de contratados, embarcavam-nos para a Amrica e  
muito provvel que a histria do meu pai seja um caso tpico.
Como deve saber, os Chineses so obrigados a liquidar to-
das as dividas antes ou no prprio dia da festa do Ano-Novo. Se o 
no fizerem, perdem a boa reputao, e no h desculpa que lhes 
valha.
- No me parece m ideia - disse Adam.
- Boa ou m, era assim que as coisas se passavam. O meu 
pai teve azar: no conseguiu pagar uma dvida. A famlia reuniu-se e 
discutiu o assunto. Ningum tinha culpa de o meu pai ter azar, mas 
no havia dvida que a dvida pertencia a toda a famlia. A famlia 
pagou, portanto, pelo meu pai, que se comprometeu a reembols-
-la. O que era quase impossvel.
Os agentes recrutadores das companhias ferrovirias adian-
tavam uma pequena quantia quando se assinava o contrato. Foi 
assim que apanharam no lao muitos homens endividados.
At aqui tudo  razovel e honroso. Mas o meu pai era um 
rapaz recm-casado e estava ligado  mulher por um sentimento 
profundo, muito forte e muito belo. Ela tambm o amava perdida-
mente. Despediram-se cerimoniosamente na presena dos che-
fes da famlia, como pessoas bem-educadas. Tenho pensado com 
frequncia que as maneiras delicadas so um bom remdio para 
a dor da separao.
O rebanho de homens foi amontoado no fundo dum poro 
sombrio e s tornou a ver a luz do dia em San Francisco, seis 
semanas depois. Pode imaginar o que foi a viagem. Como a mer-
cadoria tinha de ser entregue em estado de trabalhar, no a mal-
tratavam. Por outro lado, os da minha raa aprenderam atravs 
dos sculos a viver em comunidade, a manter-se limpos e a alimen-
tar-se em condies que se tornam intolerveis para muitos ou-
tros.
Estavam no mar h uma semana quando o meu pai descobriu 
a minha me. Vestia  homem e entranara o cabelo. Mantendo-se 
muito sossegada e sem nunca falar, conseguira evitar ser descoberta 
e, como pode imaginar, nessa poca no existiam os exames fsicos 
nem as vacinas obrigatrias. A minha me pegou na enxerga e 
estendeu-a ao lado da do meu pai. S podiam falar s escuras, 
com a boca colada ao ouvido. O meu pai estava zangado por ela ter 
desobedecido mas, ao mesmo tempo, sentia-se feliz.
O contrato condenava-os a cinco anos de trabalhos forados. 
Nunca lhes passou pela cabea fugirem assim que chegassem  
Amrica, pois eram pessoas honradas que tinham assinado um 
contrato. - (Lee fez uma pausa.) - Como  evidente, podia con-
tar-lhe isto em poucas palavras, mas  preciso que fique a saber a 
razo das coisas. Vou buscar um copo de gua. Tambm quer?
- Quero, sim - respondeu Adam -, mas h uma coisa que 
eu no entendo. Como  que uma mulher podia executar esse 
trabalho?
- Volto j - disse Lee.
E foi  cozinha buscar dois copos de gua que colocou em 
cima da mesa.
- O que era que queria saber? - perguntou ele.
- Como  que a sua me podia fazer um trabalho de ho-
mem?
Lee sorriu.
- O meu pai dizia que ela era forte e eu creio que uma mu-
lher pode ser mais forte do que um homem quando est apai-
xonada. A mulher que ama  quase indestrutvel.
Adam fez uma careta.
Lee disse:
- H-de ver, um dia h-de ver.
- Eu no sinto nenhuma amargura - disse Adam. - Alis, 
como seria possvel, aps uma nica experincia? Prossiga.
- Houve uma coisa que a minha me no segredou ao meu 
pai durante a longa travessia e como muitos deles sofriam hor-
rivelmente de enjoo, ningum estranhou que ela tivesse vmitos e 
nuseas.
- No me diga que estava grvida? - exclamou Adam.
- Estava, sim - confirmou Lee -, mas ela no queria sobre-
carregar o meu pai com mais preocupaes.
- Ela j sabia quando embarcou em Canto?
- No, no sabia. Eu vim ao mundo no momento mais ino-
portuno. E a histria  mais comprida do que eu supunha.
- Agora j no pode parar - disse Adam.
- Pois no. Em San Francisco, o gado foi carregado em va-
ges e as locomotivas rebocaram-no para as montanhas. Iam ni-
velar colinas e perfurar tneis. A minha me foi separada do meu 
pai e ele s tornou a v-la no acampamento, instalado num pla-
nalto. O stio era muito bonito, todo cheio de verdura e de flores, 
no meio das montanhas cobertas de neve. Foi nessa altura que 
ela informou o meu pai da minha existncia.
As obras iniciaram-se. Os msculos das mulheres enrijecem 
como os dos homens, e a minha me tinha uma vontade de ferro. 
Pegou na p e na picareta e fez o trabalho pelo qual lhe pagavam, 
o que deve ter sido horrvel. Mas logo se encheram de medo quando 
comearam a pensar na maneira como nasceria a criana.
Adam disse:
- Porqu? Ento ela no podia ir ter com o capataz, dizer-lhe 
que era mulher e que estava grvida? Com certeza que tratavam 
dela.
- No - disse Lee. - No est a compreender e a culpa  
minha por no ter sido devidamente explcito. O gado humano era 
importado apenas com um nico objectivo: o trabalho. Assim que 
a tarefa terminava, devolviam os sobreviventes para a China. S 
os machos eram importados. Nada de fmeas. O pas no queria 
que tal gente se reproduzisse. Um homem, uma mulher e um filho 
agarram-se  terra, constroem um lar de que  difcil arranc-los, 
enquanto que um rebanho de homens inquietos, excitados e ator-
mentados pela falta de mulheres ir para qualquer lado e, muito 
especialmente, para o lugar donde veio. A minha me era a nica 
mulher no meio daqueles brutos.  medida que o tempo passava, 
mais a febre aumentava. Para os guardas, j no se tratava de 
seres humanos, mas de animais perigosos se no fossem vigia-
dos. Est a compreender agora porque  que a minha me no quis 
pedir auxlio? Teria sido expulsa do acampamento e, quem sabe?, 
talvez a tivessem abatido e enterrado como uma vaca contagiosa. 
Uma vez, foram abatidos quinze homens por causa duma simples 
revolta. Os guardas faziam respeitar a ordem da maneira que lhes 
tinham ensinado. Suponho que haver outras maneiras de o fazer, 
mas continuamos a empregar sempre o mesmo sistema- o chicote, 
a corda e a espingarda. J estou arrependido de lhe ter comeado 
a contar isto.
- Porqu? - perguntou Adam.
- Estou a ver a cara do meu pai quando me contava a mes-
ma histria.  uma recordao lamentvel, dilacerante e doloro-
sa. Sempre que chegava a este ponto, o meu pai era obrigado a 
recobrar coragem. Quando dava novamente inicio  narrativa, fa-
lava com secura e empregava palavras duras e cortantes como 
se se quisesse magoar.
Para ficarem juntos, disseram que ela era o sobrinho do meu 
pai. Os meses passaram e, felizmente, a minha me no engor-
dou demasiado. Continuava a cumprir a obrigao no meio do 
maior sofrimento. O meu pai auxiliava-a um pouco, desculpando-a: 
O meu sobrinho  ainda muito novo e franzino. Mas no tinham 
planos nenhuns e no sabiam o que haviam de fazer.
Foi ento que o meu pai imaginou um plano. Fugiria para as 
altas montanhas, para um planalto mais elevado, e,  beira dum 
lago, arranjariam uma choa para a minha me dar  luz. O meu 
pai, depois, voltaria ao acampamento para receber castigo e assi-
nar um novo contrato de cinco anos em substituio do sobrinho 
fugitivo. Por miservel que fosse, este plano era o nico que podiam 
executar e que os satisfazia. Mas eram necessrias duas condi-
es: fugir no momento propcio ao parto e levar comida suficiente. 
Os meus pais... - (Lee deteve-se, sorriu ao empregar estas palavras 
que pareciam reconfort-lo.) - os meus queridos pais comearam 
a fazer os preparativos. Puseram de lado uma parte da rao diria 
de arroz, que esconderam debaixo das tarimbas. O meu pai, com 
uma guita e um pedao de arame, fez um anzol para apanhar as 
trutas do lago de montanha. Deixou de fumar para guardar os 
fsforos. A minha me reuniu todos os trapos que conseguiu 
encontrar, rasgou uma parte da prpria roupa para obter linhas, e
coseu todos os trapos com um grande espinho, para fazer o meu 
enxoval. Gostaria de a ter conhecido.
- Tambm eu - disse Adam. - Chegou a contar isso ao 
Sam Hamilton?
- No, mas devia t-lo feito, pois ele sempre gostou de cele-
brar a alma humana. Esta histria teria sido para ele como que uma 
espcie de triunfo pessoal.
- Espero que tenham conseguido o que queriam - disse 
Adam.
- Pois . Quando o meu pai chegava a este ponto da narra-
tiva eu pedia-lhe sempre: V se chegas ao lago, v se consegues 
l chegar com a minha me e construir uma casa de troncos de 
abeto. O meu pai, ento, tornava-se muito chins e respondia-me 
H mais beleza na verdade, mesmo que seja uma verdade medonha. 
Os mendigos que contam histrias s portas da cidade mascaram 
to bem a vida que ela acaba por parecer boa e fcil aos preguiosos, 
aos teimosos e aos covardes, o que s pode concorrer para lhes 
agravar as enfermidades. Por esse processo nada se aprende, nada 
se cura, e o corao nunca se abre.
- Continue - disse Adam com irritao.
Lee levantou-se, dirigiu-se para a janela e acabou a 
histria,contemplando as estrelas. L fora, soprava o vento de Maro.
- Certo dia, desprendeu-se um pequeno rochedo e foi partir a 
perna do meu pai. Trataram-no e deram-lhe um trabalho de doente: 
endireitar pregos em cima duma pedra com um martelo. Ento, 
devido ao trabalho ou  angstia - no  isso o que interessa - a 
minha me sentiu as primeiras dores. Os homens, semi loucos, 
compreenderam - e perderam a razo. Um desejo ateou outro. 
Um crime ocultou o crime precedente, e todos os crimes cometidos 
contra esses homens famintos alimentaram uma enorme fogueira 
de loucura.
O meu pai ouviu o grito: Uma mulher!, e compreendeu logo. Tentou 
correr, tornou a partir a perna e arrastou-se pela vereda 
que conduzia ao sitio onde se desenrolava aquela cena de horror. 
Quando l chegou, o cu parecia oculto por uma espcie de 
tristeza e os homens de Canto fugiam em silncio para se escon-
 derem, para esquecerem que os homens tambm podem ser aqui-
 lo. A minha me estava estendida num monte de pedras. J nem
sequer tinha olhos para ver, mas ainda mexia a boca e conseguiu 
articular as instrues necessrias. O meu pai arrancou-me da carne 
esfacelada da minha me com as prprias mos. Ela morreu nessa 
tarde em cima do monte de pedras.
Adam respirava com dificuldade. Lee prosseguiu numa voz 
ritmada:
- Antes de odiar esses homens, fique sabendo isto que o 
meu pai acrescentava sempre no fim que nunca houve nenhuma 
criana que fosse tratada como eu. Todo o acampamento quis ser 
minha me.  belo, duma beleza atroz. E, agora, boa noite. J no 
posso falar mais.


3

Adam abriu todas as gavetas, procurou em todas as prate-
leiras, levantou as tampas de todas as caixas, rebuscou toda a 
casa e acabou por chamar Lee e perguntar-lhe:
- Onde esto a tinta e a caneta?
- No h - disse Lee. - H anos que no escreve uma 
linha. Se quiser, posso emprestar-lhe as minhas.
Foi ao quarto e voltou com um frasco de tinta, uma caneta, 
um bloco de papel e um sobrescrito que colocou sobre a mesa.
Adam perguntou:
- Como sabia que eu ia escrever uma carta?
- Vai tentar escrever ao seu irmo, no  assim? 
- Pois .
- H-de custar, depois de tanto tempo.
E custou. Adam garatujou, roeu a ponta da caneta e torceu a 
boca. Escrevia uma frase, rasgava a folha e recomeava. Coou 
a cabea com a caneta.
- Lee, se eu fosse ao Leste, tomava conta dos meninos at 
eu voltar?
-  mais fcil viajar do que escrever - disse Lee. - Claro que 
podia contar comigo.
- No, vou antes escrever.
- Porque no pede ao seu irmo que venha c?
- Boa ideia, Les. No tinha pensado nisso. 
- E  um bom pretexto para escrever.
A carta surgiu ento com facilidade. Depois de a emendar,
passou-a a limpo. Em seguida, leu-a devagar para si mesmo antes
de a meter no envelope.

Querido irmo Charles,
Vais ficar admirado de receberes noticias minhas aps 
um silncio to prolongado. Pensei muitas vezes em escre-
ver-te, mas tu sabes como so estas coisas, adiamos de 
um dia para o outro e acabamos por no o fazer.
Gostava de saber como te ir encontrar esta carta. De 
boa sade, espero. s capaz de j estar com cinco ou dez 
filhos. Ah! Ah! Eu tenho dois gmeos. A me no vive 
connosco. Como no gostava da vida no campo, foi viver 
para uma cidade prxima onde a vou visitar de vez em quan-
do.
Eu tenho um belo rancho, mas  com vergonha que te 
confesso que no fao caso dele. Talvez agora passe a inte-
ressar-me por ele. Boas intenes nunca me faltam. H alguns 
anos que ando bastante em baixo, mas agora vou indo 
melhor.
Como ests tu? Gostaria de te ver. Porque no me vens 
visitar! O sitio  maravilhoso e tu poderias ficar tambm por 
c.
Aqui, os Invernos no so frios, o que  bem agradvel 
para uns velhos como ns. Ah! Ah!
Espero, portanto, que reflictas no assunto e que me 
respondas. A viagem fazia-te bem. Tenho vontade de te ver. 
Tambm tenho muitas coisas para te contar, mas que no 
posso escrever.
Escreve-me, meu caro Charles, e d-me notcias da 
nossa terra. Deve-se ter passado muita coisa e,  medida 
que envelhecemos, tudo o que se ouve dizer das pessoas  
que morreram. Assim  a vida. Escreve-me depressa e diz-
-me se vens. Teu irmo, Adam. 
Ficou sentado, segurando a caneta com a mo.  sua frente, 
via desenhar-se o rosto sombrio com a testa atravessada por uma 
cicatriz. Via o brilho intenso dos olhos castanhos, a boca arrega-
nhada mostrando os dentes e o animal selvagem querendo atacar. 
Sacudiu a cabea para afastar a viso, e tentou recordar-se do 
rosto sorridente e da testa sem cicatriz, mas teve de desistir. De-
pois, pegou na caneta e escreveu sob a assinatura:

P. S. - Charles, apesar de tudo, nunca te odiei. Sem-
pre gostei de ti porque s meu irmo.

Adam dobrou a carta e vincou as dobras com a unha do pole-
gar. Fechou o sobrescrito e calcou-o com o punho. 
- Lee! - chamou ele. -  Lee! 
O chins acorreu  porta.
- Lee, que tempo leva uma carta a chegar ao Leste? 
- No sei - disse Lee -, talvez quinze dias.



CAPTULO XXIX

1


Depois de ter enviado ao irmo a primeira carta que escrevera 
em dez anos, Adam ficou aguardando impacientemente pela 
resposta. Perdera a noo do tempo que se passara. A carta ain-
da ia a caminho e j ele andava  volta de Lee com perguntas:
- Porque ser que ele no me responde? Talvez esteja zan-
gado comigo. Mas ele tambm nunca escreveu.  certo que no 
tinha a minha direco. Talvez se tenha mudado?
E Lee respondia:
- S escreveu h meia dzia de dias. D tempo ao tempo.
Ter ele realmente vontade de vir? - perguntava Adam a si 
mesmo. - E ele, tinha vontade de tornar a ver o Charles? Agora 
que a carta fora expedida, Adam receava que Charles aceitasse o 
convite. Parecia uma criana ociosa que no sabia em que entreter 
as mos, e estava sempre a meter-se com os gmeos, fazendo-
-lhes perguntas:
- O que foi que aprenderam hoje? 
- Nada.
- Essa  boa, devem ter aprendido alguma coisa. Fizeram 
leitura?
- Fizemos, sim, pap.
- O que era?
- A velha histria da cigarra e da formiga.
- Mas  uma histria muito interessante.
- Tambm h uma da guia que arrebatou uma criana.
- Ah! pois. Estou-me a lembrar, mas j no me recordo do 
fim.
- Ainda l no chegmos, s vimos os bonecos.
Os rapazes andavam enfastiados. Cal aproveitara um momen-
to de ternura intempestiva do pai para lhe pedir emprestado o cani-
vete, na esperana de nunca mais o devolver; mas era a poca em 
que os salgueiros se cobriam de novos ramos e Adam pediu o 
canivete para ensinar aos filhos como se faziam apitos. Lee j o 
fizera trs anos antes e, para cmulo, Adam esquecera a maneira 
de praticar a inciso, de forma que o apito no emitia nenhum som.
Certo dia,  hora do almoo, Will Hamilton chegou ao volante 
dum Ford novo, barulhento e sacolejante. O motor em primeira 
produzia um rudo assustador e a capota muito alta torcia-se como 
um barco na tempestade. Tanto o radiador como o depsito de 
Prestolite, colocado no estribo, cegavam a vista de tanto brilha-
rem.
Will apertou o travo, desligou o contacto e encostou-se no 
assento de coiro. O carro, mesmo desligado, ainda deu alguns 
estoiros por estar sobreaquecido.
- C est ele! - gritou Will com falso entusiasmo.
Alimentava pelos Ford um dio mortal, mas era  custa deles
que estava fazendo a sua fortuna.
Adam e Lee debruaram-se para as entranhas do automvel 
enquanto Will Hamilton, arquejando devido  gordura, explicava o 
funcionamento dum mecanismo que ele prprio no conseguia 
entender.
Actualmente  impossvel imaginar como era ento difcil fa-
zer arrancar e manter um automvel em linha recta. No s era 
muito mais complicado do que hoje, como era necessrio apren-
der toda a teoria desde o princpio. A criana moderna aprende no 
bero os mistrios e as idiossincrasias dos motores de combus-
to interna mas, naquela poca, havia a intima convico de que 
a coisa no andaria, o que s vezes acontecia. Hoje, para pr a 
funcionar um motor de automvel, bastam dois gestos: introduzir 
uma chave e carregar no contacto. O resto  automtico. Outrora, 
era muito mais complicado. Alm duma boa memria, eram neces-
srios um carcter anglico, uma musculatura de atleta e uma f 
cega, sem falar j num certo conhecimento das prticas de magia.
No era raro ver-se um homem que se preparava para dar  manive-
la do seu modelo T, cuspir no cho e murmurar uma frmula 
cabalstica.
Will Hamilton explicou o funcionamento do carro, fez uma pau-
sa e voltou ao princpio. O auditrio estava de olhos esbugalhados, 
mais parecendo um gato fascinado pelo pssaro. Mas quando viu 
que teria de voltar a explicar tudo pela terceira vez, Will compreendeu 
que estava a malhar em ferro frio.
- Oiam uma coisa - props ele. - Como sabem, isto no  
a minha especialidade. S queria que o vissem e ouvissem antes 
de proceder  entrega definitiva. Agora, vou voltar para a cidade e, 
amanh, o carro torna a vir com um homem entendido. Aprendero 
mais com ele num minuto do que comigo numa semana. Eu s 
queria que o vissem.
Will esquecera uma parte das suas prprias instrues. De-
pois de ter dado  manivela um bom bocado, acabou por pedir a 
Adam que lhe emprestasse um cabriol e um cavalo e foi-se em-
bora prometendo enviar o mecnico no dia seguinte.


2

Nem sequer pensaram em mandar os gmeos para a escola, 
pois eles teriam recusado. O Ford, severo, alto e arredio, conti-
nuava debaixo do carvalho onde Will o deixara. Os novos proprie-
trios andavam em torno dele e tocavam-lhe de vez em quando, 
como se faz a um cavalo perigoso para o acalmar.
Lee disse:
- No sei se conseguirei habituar-me.
- Habitua-se, sim - disse Adam sem convico. - Vai ver
que qualquer dia j passeia nele por toda a regio.
- Farei o possvel por compreend-lo - disse Lee. - Mas l
gui-lo, isso  que nunca!
Os gmeos entravam no automvel para mexerem em qual-
quer coisa e tornavam logo a sair.
- O que  isto, pap?
- No lhe toques.
- Para que serve?
- Sei l. Mas no lhe mexas, nunca se sabe o que pode 
acontecer.
- Aquele senhor que c esteve no te explicou?
- J no me lembro. Se no deixam o carro sossegado, vo 
para a escola. Ests a ouvir-me, Cal? No abras isso.
Tinham-se levantado muito cedo e vestido mais depressa do 
que era hbito. Por volta das onze horas j a histeria reinava em 
todo o rancho. O mecnico chegou  hora do almoo. Usava sapa-
tos de duas cores, calas Duchess, e o casaco, muito 
enchumaado nos ombros, caa-lhe at aos joelhos. No cabriol, 
trazia o saco da ferramenta. Tinha dezanove anos, mascava taba-
co e, desde que passara trs meses numa escola de mecnica, 
professava um profundo desprezo pelo resto da humanidade. 
Depois de cuspir, estendeu as rdeas a Lee.
- Arruma-me esta carroa de palha - disse ele. - Nem se 
distingue a parte dianteira da traseira.
E desceu do cabriol como um embaixador dum comboio
especial. Fez uma careta aos rapazes e dirigiu-se a Adam.
- Espero no ter chegado atrasado para o almoo.
Lee e Adam trocaram um olhar. Tinham-se esquecido por
completo do almoo.
O semideus dignou-se aceitar o que lhe puderam arranjar: 
po, queijo, carne fria, uma torta e um bolo de chocolate acom-
panhado duma chvena de caf.
- Em geral, s costumo comer comida quente. Agora, um 
conselho. Se no querem ficar sem automvel afastem os mi-
dos.
Aps uma curta sesta  sombra, o mecnico pegou no saco e 
subiu ao quarto de Adam. Alguns minutos depois, reapareceu 
envergando um fato-macaco s riscas e um barrete na cabea, 
com a palavra Ford.
- Ento - perguntou ele -, j estudou?
- Estudei o qu? - perguntou Adam.
- No leu o folheto que est debaixo do banco? 
- No sabia que havia um folheto - disse Adam. 
- Valha-me Deus! - exclamou o jovem.
Reunindo todas as suas foras morais, o mecnico avanou 
para o carro com deciso.
- O melhor  comearmos j - disse ele. - S Deus sabe o 
tempo que ser preciso, se no estudou! 
Adam disse:
- O Sr. Hamilton no conseguiu p-lo a trabalhar ontem  
tarde.
- Ele tem a mania de querer arrancar s com o magneto 
- explicou o sbio. - Bom, bom, vamos a isto. Conhece os prin-
cpios do motor de combusto interna?
- No - respondeu Adam.
- Virgem Santssima!
Ergueu a tampa do motor.
- Aqui tem um motor de combusto interna. 
Lee comentou placidamente:
- To novo e to erudito!
O rapaz voltou-se, franzindo as sobrancelhas. 
- Que foi que disseste?
Depois, dirigindo-se a Adam:
- Que foi que disse o china?
Lee estendeu as mos e arvorou um sorriso idiota:
- Mim disse lapaz muito inteligente, muito instludo! Deve 
tle andado na escola.
- Chama-me Joe - disse o rapaz, sem nenhuma justifica-
o. E acrescentou:
- Na escola! O que  que se aprende na escola? A afinar 
uma vela? A desentupir um carburador? Na escola!
E cuspiu um comentrio desdenhoso e negro para o cho. 
Os gmeos contemplaram-no com admirao e Cal comeou a 
juntar saliva para se treinar.
Adam disse:
- O Lee est a admirar os seus conhecimentos.
O rapaz tomou um ar magnnimo.
- Trata-me por Joe - disse ele. - Vejam o espanto! Pois se 
fui aluno da escola automobilstica de Chicago. Essa, sim,  que  
uma escola a valer! Tem l comparao com essas escolas que 
h para a. - (Depois duma pausa, acrescentou): - O meu ve-
lhote est-me sempre a dizer que se arranjarmos um china, mas
um bom, hem?, no h nada que se lhe compare. E depois, so 
honestos.
- Excepto os maus - disse Lee.
-  evidente. No me refiro a uma certa canalha, mas aos 
bons chinas.
- Espero fazer parte destes ltimos.
- Tu tens boa pinta. Trata-me, por Joe.
Adam estava estupefacto com o aspecto tomado pela conver-
sa, mas os gmeos no se mostravam surpreendidos. Cal disse a 
Aron:
- Trata-me por Joe.
E Aron remexeu os lbios, tentando repetir: 
- Trata-me por Joe.
O mecnico readquiriu o tom profissional mas com uma certa 
amabilidade. O desprezo fora substitudo por uma simpatia di-
vertida.
- Aqui tm - disse ele - um motor de combusto interna. 
Todos se debruaram para a horrvel confuso metlica com 
uma certa admirao.
Ento, o rapaz ps-se a falar com tal rapidez que parecia en-
toar um hino  glria da nova era.
- O princpio reside na exploso dos gases num espao fe-
chado. A fora da exploso exerce-se num pisto que pe em 
movimento uma biela, a qual, por sua vez, faz girar uma cambota 
que transmite o movimento s rodas traseiras. Compreenderam?
Aquiesceram silenciosamente com receio de deterem a tor-
rente.
- H duas espcies de motores: a dois tempos e a quatro 
tempos. Este  a quatro tempos. Compreenderam?
Aquiesceram de novo e os gmeos, que o olhavam com adora-
o, abanaram a cabea por seu turno.
-  muito interessante - disse Adam. 
O Joe continuou a toda a velocidade:
-A diferena principal entre um automvel Ford e os outros 
est numa transmisso planetria baseada num princpio re-vo-lu-
-ci-o-n-ri-o.
Fez uma pausa com a cara contrada pelo esforo. E assim 
que os quatro auditores tornaram a abanar a cabea, preveniu-os:
- Mas no julguem que j sabem tudo. No esqueam que o 
sistema planetrio  re-vo-lu-ci-o-n-ri-o! Tratem de estud-lo no li-
vro. E agora, se realmente compreenderam, passemos ao captulo 
Como-Pr-a-Funcionar-um-Automvel.
O mecnico anunciou aquilo como se lesse um ttulo a oito 
colunas. Era incontestvel que se sentia feliz por ter acabado a 
primeira parte do discurso, mas os auditores no se sentiam me-
nos felizes. O esforo deixara-os exaustos e, aqui  puridade, no 
tinham percebido patavina.
- Aproximem-se - disse o rapaz. - Esto a ver isto?  a 
chave de ignio. Quando se lhe d uma volta, o carro fica pronto 
a andar. Depois, puxa-se aquilo para a esquerda,  a ligao  bate-
ria. Ali onde diz BAT, quer dizer bateria.
Todos enfiaram a cabea dentro do carro. Os gmeos trepa-
ram para o estribo.
- No, esperem. Estou a andar muito depressa. Primeiro 
tem de se retardar a centelha e avanar o gs; de contrrio, po-
dem ficar sem um brao. Isto aqui  a centelha. Empurra-se para 
cima. Compreenderam? Para cima. Afastem-se. E isto  o gs. 
Puxa-se para baixo. Agora vou fazer tudo enquanto explico. Si-
gam-me com ateno. Os midos  melhor cavarem que esto a 
tapar-me a luz. Saiam da, que diabo!
Os gmeos desceram contrariados. 
O jovem respirou profundamente.
- Esto prontos? Centelha retardada, gs avanado. Cen-
telha para cima, gs para baixo. Agora, ligar a bateria para a es-
querda. No se esqueam, para a esquerda.
Parecia que uma abelha gigantesca ficara prisioneira no mo-
tor.
- Esto a ouvir?  o contacto na bobina. Se no ouvirem isto 
 preciso afinar os platinados e at lim-los, caso seja necessrio.
O mecnico viu a consternao estampada no rosto de Adam.
- Depois logo estuda isso no folheto com mais descanso 
- disse ele com amabilidade.
E foi postar-se em frente do carro.
- Isto  a manivela. Esto a ver este arame a sair do radia-
dor?  o arranque. Agora prestem bem ateno. Mete-se a mani-
vela assim at se prender. Vem o meu polegar voltado para baixo?

Se pegasse doutra maneira e a manivela desse um coice, l se ia o 
dedo. Toparam?
No ergueu a vista, mas percebeu que toda a gente fazia que 
sim.
- Agora - prosseguiu ele -, muita ateno! Empurro a ma-
nivela e levanto-a at sentir compresso. Nessa altura, puxo o 
arame do arranque e dou devagar  manivela para admitir os gases. 
Esto a ouvir este barulho de sugar?  o arranque. Mas no puxem 
demasiado para no afogarem o carburador. Neste momento, largo 
o arame e dou  manivela com toda a fora. Assim que comear a 
roncar, corro ao painel e avano a centelha e retardo o gs. E assim 
que puder ligo o magneto, vem?, onde est escrito MAG. E pronto.
O auditrio estava esgotado. E, dizer que no fim daquilo tudo 
s se tinha posto o motor a trabalhar!
O mecnico continuou:
- Agora vo repetir comigo para decorarem: centelha para 
cima, gs para baixo.
Todos repetiram em coro:
- Centelha para cima, gs para baixo. 
- Ligar a bateria.
- Ligar a bateria.
- Manivela em compresso com o polegar para baixo. 
- Manivela em compresso com o polegar para baixo. 
- Puxar o arranque devagarinho.
- Puxar o arranque devagarinho.
- Manivela.
- Manivela.
- Centelha para baixo, gs para cima. 
- Centelha para baixo, gs para cima. 
- Ligar o magneto.
- Ligar o magneto.
- Agora, vamos recomear do princpio. Tratem-me por Joe. 
- Tratem-me por Joe.
- No  isso. Centelha para cima, gs para baixo.
Adam sentia uma espcie de prostrao  medida que entoa-
vam a ladainha pela quarta vez. Tudo aquilo lhe parecia ridculo. 
Grande foi, pois, o seu alvio quando viu surgir Will Hamilton ao 
volante dum enorme e vermelho modelo desportivo. O jovem mec-

nico observou o veculo que se aproximava.
- Dezasseis vlvulas - disse ele. - Rico trabalho. 
Will debruou-se do carro.
-Como vai isso?- perguntou ele.
- Vai bem - respondeu o mecnico. - Eles aprendem de-
pressa.
- Roy, tem de vir comigo. Partiu-se uma pea do novo auto 
fnebre. Se quisermos que ele esteja pronto amanh, para o funeral 
da Sr.a Hawks, teremos de trabalhar pela noite adiante.
Roy assumiu um ar entendido:
- Vou vestir-me - disse ele.
E correu para casa. Na altura em que saa com o saco da 
ferramenta, Cal atravessou-se no caminho.
- Ouve l - perguntou-lhe Cal -, eu julgava que tu te cha-
mavas Joe?
- Ora essa, porqu?
- Estavas sempre a dizer tratem-me por Joe. Mas o Sr. 
Hamilton chamou-te Roy.
Roy soltou uma gargalhada e pulou para a espada.
- Sabes porque foi que disse que me chamassem Joe? 
- No, porque foi?
- Porque me chamo Roy.
Subitamente, parou de rir e olhou para Adam com severidade. 
- Pegue no livro que est debaixo do assento e estude-o. 
Percebeu?
- Perfeitamente - disse Adam.




CAPTULO XXX

1


Tal como nos tempos bblicos, tambm naquela poca se 
produziam milagres. Uma semana aps a lio, o Ford entrou na 
rua principal de King City e deteve-se com estardalhao diante da 
estao dos correios. Adam conduzia, Lee ia sentado ao lado dele 
e os gmeos pavoneavam-se no assento de trs.
Adam olhou para os pedais e todos cantaram em unssono:
- Puxar o travo, avanar o gs, cortar o contacto.
O motorzinho rabujou e calou-se. Adam, estafado mas radian-
te, descansou um bocado antes de descer.
O empregado dos correios olhou atravs das grades doiradas
do guich.
- J vejo que comprou um desses pavores.
- A gente tem de acompanhar o tempo - respondeu Adam. 
- Tempos viro, Sr. Trask, em que o cavalo desaparecer da
superfcie da terra.
-  muito possvel.
- Vo estragar-nos a paisagem, empestar-nos, e enlouquecer-
-nos - continuou o empregado. - Ns j notamos a diferena. 
Gente que vinha ao correio uma vez por semana, passou a vir todos 
os dias e at duas vezes por dia. J no tm pacincia para esperar 
pelo correio. Andam sempre cheios de pressa, cada vez tm mais 
pressa.
O homem exibia um desprezo to violento que Adam com-
preendeu que se tratava de cimes, por no ter ainda conseguido 
comprar um Ford.
- Por nada deste mundo queria um automvel - disse o ho-
mem.        ,@
Aquilo significava que a mulher o atazanava para comprar um. 
O automvel representava um lugar mais elevado na escala social.
O empregado pegou com raiva numa carta que estava no 
compartimento dos T e estendeu-a a Adam.
- Logo nos vemos no hospital - acrescentou ele com mal-
dade.
Adam sorriu-lhe e saiu.
Um homem que raramente recebe correio no o trata com
ligeireza. Se recebe uma carta, toma-lhe o peso, l o nome do
remetente e o endereo, examina a letra e decifra o carimbo dos
correios e a data. Adam especou-se no passeio, diante do Ford,
para se entregar a todas aquelas operaes. No canto esquerdo
do envelope estava impresso Bellows & Harvey, solicitadores..
A carta vinha da cidade natal de Adam, no Connecticut.
Adam comentou em ar desprendido:
- Conheo bem estes Bellows e Harvey, conheo-os mes-
mo muito bem. Gostava de saber o que me querem. 
Examinou o envelope que tornou a voltar.
- Como teriam eles descoberto a minha morada? 
Lee observava-o, sorrindo.
- Talvez a dentro esteja a resposta s suas perguntas. 
-  natural - respondeu Adam.
E tomou a deciso. Pegou no canivete, abriu a lmina maior, 
procurou uma abertura para a introduzir, no a encontrou, ergueu 
a carta contra o sol para ter a certeza de que no estragava a 
mensagem, sacudiu o envelope, fez uma inciso numa das extremi-
dades, soprou l para dentro e tirou a carta com dois dedos. De-
pois, leu com a maior ateno:
Ex.mo Sr. Adam Trask, King City, Califrnia. 
Prezado Senhor,
H seis meses que tentamos inutilmente pr-nos em 
contacto com V Ex.a Publicmos, at, anncios nos jornais, 
sem qualquer resultado. Apenas conseguimos localizar V.

Ex.a quando os servios dos correios nos transmitiram a car-
ta que endereou a seu irmo.
Adam depreendeu que eles tinham ficado levemente irritados. 
O pargrafo seguinte era de teor nitidamente diferente:
Cumprimos o doloroso dever de lhe participar o faleci-
mento do seu irmo Charles Trask. Morreu devido a uma 
congesto pulmonar, ocorrida em 12 de Outubro, aps uma 
doena de duas semanas. O corpo repousa no cemitrio 
municipal. A sepultura no se encontra assinalada por ne-
nhuma lpide, mas presumimos que V. Ex.a desejar encar-
regar-se de to penoso dever.
Adam respirou profundamente e conteve o ar enquanto relia 
o pargrafo. Ao termin-lo, expirou devagar para no fazer baru-
lho.
- Morreu o meu irmo Charles - disse.
- Os meus sentidos psames - disse Lee. 
-  o nosso tio? - perguntou Cal.
- Era o teu tio Charles - disse Adam. 
- Tambm era meu tio? - perguntou Aron. 
- Tambm.
- No sabia que tinha um tio - disse Aron. - Talvez a gente 
possa ir pr-lhe flores na sepultura. A Abra ajudava-nos. Ela gosta 
muito dessas coisas.
- Mas  muito longe, na outra ponta do pas.
Aron, que se debatia com uma violenta emoo, exclamou: 
- Achei: quando formos levar flores  mam, iremos tam-
bm ver o tio Charles.
Depois, acrescentou com certa tristeza:
- Gostava muito de o ter conhecido antes de ter morrido. 
Aron achava que j havia muitos mortos na famlia. 
- Ele era simptico? - perguntou.
- Muito simptico - respondeu Adam. - Era meu irmo, 
assim como o Cal  teu irmo.
- Tambm eram gmeos?
- No, no ramos.
- Ele era rico? - perguntou Cal.
- Claro que no era - disse Adam. - Mas que lembrana a
tua!
- Se fosse rico, a fortuna ficava para ns, no ficava? 
Adam respondeu com severidade:
- Quando se fala na morte, no se fala em dinheiro. Deve-
mos estar todos tristes por ele ter morrido.
- Porque  que eu hei-de estar triste? - perguntou Cal. 
- Nunca o vi.
Lee levou a mo  boca para disfarar o sorriso. Adam voltou 
a mergulhar na leitura. Ao novo pargrafo, correspondia uma nova 
mudana de estilo.
Na nossa qualidade de executores testamentrios do 
extinto, temos o prazer de informar V. Ex.a que o seu irmo, 
graas a um labor honesto e perseverante, amassou uma 
fortuna considervel que, em terrenos, imveis e disponibi-
lidades, excede largamente a quantia de cem mil dlares. O 
testamento, feito e assinado neste cartrio, ser enviado a 
V Ex.a caso o solicite. De acordo com a vontade do defun-
to, todo o dinheiro, os terrenos e os imveis devero ser 
divididos em partes iguais entre V. Ex.a e a sua Esposa. No 
caso de falecimento de sua Esposa, reverte para V. Ex.a a 
totalidade dos bens legados. O testamento tambm estipu-
la que, no caso de falecimento de V. Ex.a, reverteria para sua 
Esposa a totalidade dos bens. Deduzimos pela sua carta 
que ainda se encontra no nmero dos vivos, pelo que 
tomamos a liberdade de lhe apresentar as nossas felicita-
es.
Vossos servos dedicados,
por/ Bellows & Harvey: George B. Harvey.

No fundo da carta havia um Post scriptum:

Meu Caro Adam: No te esqueas dos teus servos nos 
teus dias de prosperidade. O Charles era um somtico que 
nunca desperdiava um ceitil. Espero que tu e a tua mulher 
faam melhor uso desse dinheiro. Haver pora futuro para

um bom advogado? Refiro-me a mim mesmo. Teu velho 
amigo,
Geo. Harvey.

Adam baixou a carta e olhou os gmeos e Lee. Todos aguar-
davam alguma coisa, mas Adam fechou a boca, dobrou a carta,
meteu-a no envelope e escondeu tudo no bolso interior do casaco. 
- Alguma complicao? - perguntou Lee. 
- Parecia preocupado.
- No estou, no. Estou apenas triste por causa do meu irmo.
Adam tentou arranjar lugar na cabea para o que acabava de 
saber, mas a coisa era to irrequieta como uma galinha a ajeitar-
-se no ninho. Compreendeu que precisava de ficar s. Subiu para o 
carro e deitou um olhar vago ao painel dos instrumentos. No se 
recordava absolutamente de nada.
Lee perguntou:
- Precisa de ajuda?
-  curioso - disse Adam -, j no sei por onde comear. 
Lee e os gmeos recitaram em coro:
- Centelha para cima, gs para baixo, ligar a bateria.
- Pois claro,  isso mesmo! Mas que cabea a minha!
Quando a abelha gigantesca se ps a zumbir na bobina, Adam 
precipitou-se para a manivela, depois voltou a correr para avanar 
a centelha, retardar o gs e ligar o magneto.
No regresso, quando passavam debaixo dos carvalhos, Lee 
exclamou subitamente:
- Esquecemo-nos de comprar a carne.
-  verdade. No h mais nada em casa? 
- S h ovos e presunto.
- Isso chega.
- Amanh, quando for pr a resposta no correio, poder com-
prar a carne.
- Pois claro.
Enquanto Lee preparava o jantar, Adam ficou  espera com o 
olhar ausente. Sabia que precisava do auxlio de Lee, mesmo que 
fosse s o auxlio dum homem que s escuta enquanto os nossos 
pensamentos se vo clarificando.
Cal arrastara o irmo para a cocheira onde estava guardado o

Ford. Abriu a porta e sentou-se ao volante. 
- Aron, sobe tambm.
Aron protestou:
- O pap no quer.
- Ele no sabe. Vem.
Aron subiu timidamente e sentou-se no banco. Cal empunhou 
o volante.
- P! P! - disse ele.
E depois:
- Sabes o que julgo? O tio Charles era rico. 
- No era.
- Quanto queres apostar que era? 
- Achas que o pap mentiu?
- No estou a dizer isso. Aposto que ele era rico. 
Mantiveram-se em silncio durante um momento. Cal fazia 
curvas vertiginosas.
- Aposto que sou capaz de descobrir - disse ele finalmen-
te.
- O qu?
- Que queres apostar?
- Nada - disse Aron.
- E se fosse o teu apito de osso? Aposto o meu abafador contra 
o teu apito em como nos mandam deitar logo a seguir ao jantar. 
Combinado?
- Est bem - disse Aron. - Mas no percebo porqu.
- O pap vai conversar com o Lee e eu ponho-me  escuta. 
- No te atreves.
- Achas que no?
- E se eu te denunciar?
Pelo rosto de Cal passou uma sombra. Inclinou-se para o ir-
mo e murmurou:
- No me vais denunciar porque, se o fizeres, digo-lhe quem 
lhe roubou o canivete.
- Ningum lhe roubou o canivete. Foi com ele que abriu a 
carta.
Cal sorriu.
- Isso foi hoje. Mas, amanh?
Aron compreendeu que no havia nada a fazer. Cal previra tudo.
Cal viu a confuso e a impotncia no rosto de Aron. Sentiu-se 
poderoso e feliz. Podia pensar e fazer o que quisesse muito antes 
de o irmo vir a descobrir. At com o pai poderia fazer o mesmo.
Com Lee era diferente porque o chins se adiantava sempre a 
Cal e ficava  espera, compreensivo, para lhe dizer no ltimo 
momento: No faas isso!
Cal respeitava e temia Lee, mas Aron, indefeso, era um boca-
do de barro malevel. Cal sentiu de sbito um amor profundo pelo 
irmo, a necessidade de o proteger, e passou-lhe o brao pelos 
ombros.
Aron no tugiu nem mugiu. Apenas recuou o suficiente para 
ver a cara de Cal.
Cal disse:
- Porque me ests a olhar?
- No compreendo porque fazes isso.
- Isso o qu?
- Todas essas coisas e esses segredinhos.
- Que coisas?
- Aquilo que fizeste com o coelho. Tenho a certeza de que 
disseste alguma coisa  Abra. Foi por tua culpa que ela deitou fora 
a caixa.
- Ora vejam! - exclamou Cal.- Queres saber o que se pas-
sou?
Mas sentia-se embaraado.
Aron respondeu devagar:
- No, no quero. O que me interessa saber  porque o fizes-
te? Andas sempre a tramar alguma coisa e eu gostava de saber 
porqu? Que prazer  que isso te d?
Cal sentiu uma dor no corao. O projecto j lhe parecia vil e 
sem interesse. O irmo acabava de o desarmar. Estava deso-
rientado e no sabia que fazer. Sentiu vontade de ser amado pelo 
irmo.
Aron abriu a porta do Ford, desceu e saiu da cocheira. Cal 
tentou ainda imaginar que guiava o carro a velocidades fants-
ticas, mas depressa se aborreceu e encaminhou-se por sua vez 
para casa.


2

Depois do jantar, quando Lee acabou de lavar a loia, Adam 
disse:
- J so horas de irem para a cama, meus filhos.
Aron deitou uma olhadela a Cal e tirou da algibeira o apito de 
osso.
- No quero - disse Cal.
- Pertence-te - respondeu Aron. 
- J no quero. Fica com ele.
Aron ps o apito em cima da mesa: 
- Guarda-o quando te apetecer.
Adam interrompeu-os:
- Que discusso  essa? J lhes disse para se irem deitar. 
Cal afivelou a expresso de beb inocente.
- Porqu? - perguntou. - Ainda  muito cedo para nos ir-
mos deitar.
Adam respondeu:
- Pois , no h dvida, mas eu quero falar com o Lee. Como 
est muito escuro e vocs no podem ir l para fora, peo-lhes 
que se vo deitar ou, pelo menos, que se metam no quarto. Com-
preenderam?
Os gmeos responderam:
- Sim, pap.
E Lee acompanhou-os at ao quarto. Depois, j com as cami-
sas de dormir vestidas, vieram despedir-se do pai.
Lee, quando regressou  sala, fechou a porta. Em seguida, 
pegou no apito, observou-o e tornou a coloc-lo no seu lugar.
- Gostava de saber o que se passou.
- O qu, Lee?
- Eles fizeram uma aposta antes de jantar, o Aron perdeu e
pagou. Em que  que ns estvamos a falar?
- Eu tinha-lhes dito para se irem deitar.
- Talvez a gente ainda venha a compreender - disse Lee.
- Tenho a impresso de que voc d muita importncia s ques-
tes dos midos. Aquilo, provavelmente, no significava nada. 
- Havia de significar alguma coisa. 
E acrescentou:
- Sr. Trask, julga que os pensamentos das pessoas ganham 
importncia com a idade? As suas sensaes sero mais agudas 
e as ideias mais claras do que quando tinha dez anos? Ver da 
mesma maneira? Ouvir da mesma maneira? Ter a sua vitalidade 
aumentado?
- No h dvida que tem razo - disse Adam.
- Um dos maiores erros que se podem cometer - disse Lee 
-  fazer acreditar aos homens que os anos podem trazer-lhes 
outra coisa que no seja velhice e tristeza.
- E recordaes.
- Ah! pois, as recordaes. Sem elas o tempo no disporia 
de armas para nos atacar. Que era que me queria dizer?
Adam tirou a carta do bolso e p-la em cima da mesa.
- Vai ler isto com todo o cuidado para depois discutirmos o 
assunto.
Lee pegou nos culos, foi sentar-se debaixo do candeeiro e 
leu a carta.
- Ento? - perguntou Adam.
- Haver algum futuro para um advogado?
- O qu? Ah! j percebi, est a brincar.
- De forma nenhuma - disse Lee. - Limitei-me a dar-lhe a 
entender,  minha maneira oriental, que preferia conhecer a sua 
opinio antes de lhe dar a minha.
- No estar a ser demasiado brusco comigo?
- Estou, sim - disse Lee. - Tanto pior para os meus mo-
dos orientais. Estou a tornar-me velho, rabugento e impaciente. 
Nunca ouviu dizer que os criados chineses, apesar de se mante-
rem fiis, se tornam insuportveis  medida que envelhecem?
- No pretendia ofend-lo.
- Nem eu me ofendi. Queria falar nessa carta, no queria? 
Pois, ento, fale. S depois disso ficarei a saber se lhe poderei dar 
uma opinio honesta ou se ser prefervel abraar a sua.
- No compreendo nada disto - disse Adam desorientado.
- Se o senhor, que conhecia o seu irmo, no compreende 
nada, o que farei eu, que nunca o vi.
Adam levantou-se, abriu a porta e no viu a sombra que se 
esgueirava. Dirigindo-se ao quarto, voltou com um daguerretipo 
que ps em cima da mesa.
- Aqui tem o meu irmo Charles - disse ele, enquanto tor-
nava a fechar a porta.
Lee examinou a placa de metal brilhante, inclinando a cabea 
para evitar os reflexos.
- Este retrato foi feito antes de eu ir para a tropa - disse 
Adam.
Lee aproximou o retrato dos olhos.
-  difcil de ajuizar, mas pela expresso parece-me que o 
seu irmo no tinha um feitio muito alegre.
- Ele nunca se ria - respondeu Adam.
- No era isso precisamente o que eu pretendia dizer. Ao ler 
o testamento, pensei c para comigo que ele devia ser um homem 
dotado dum sentido particularmente brutal do humor. Ele gostava 
de si?
- No sei - disse Adam. - Houve ocasies em que che-
guei a crer que sim. Certa vez, tentou matar-me. 
Lee disse:
- Est escrito na cara. O dio e o amor transformaram-no num 
avarento. O avarento no passa dum homem assustado que se 
esconde numa fortaleza de dinheiro. Ele conhecia a sua mulher?
- Conhecia.
- E gostava dela?
- Odiava-a.
Lee suspirou.
- Isso, alis, no tem importncia. No  a que reside o seu 
problema.
- Pois no.
- Est disposto a denunci-lo e a analis-lo? 
- Era o que eu queria fazer.
- Vamos a isso.
- Tenho tudo baralhado na cabea.
- Quer que seja eu a faz-lo? A um estranho no custa tan-
to.
- Faa favor.
- Muito bem. - (De sbito, Lee grunhiu e pareceu admirado. 
Com a mo magra, ps-se a acariciar o queixo.) - Mas que sari-
lho! E eu que nem pensei nisso.
Adam estava sobre brasas:
- Fazia-lhe muita diferena se mostrasse o seu jogo?
Lee sacou do bolso um cachimbo de longo cabo de bano 
terminado por um pequeno cadinho de cobre. Encheu-o com um 
tabaco muito miudinho, acendeu-o, deu quatro grandes fumaas e 
deixou apagar o cachimbo.
-  pio? - perguntou Adam.
- No - respondeu Lee. -  um tabaco chins muito bara-
to, que sabe muito mal.
- Porque o fuma, ento?
- No sei - respondeu Lee. - Talvez por me recordar qual-
quer coisa  que  sinnimo de claridade. - (Semicerrou as plpe-
bras.) - Mos  obra. Vou tentar expor os seus pensamentos 
como tripas que se pem a secar ao sol. Essa mulher continua a 
ser a sua mulher e ainda est viva. Pelo que diz a carta, ela herda 
cerca de cinquenta mil dlares, o que representa muito dinheiro. 
Com tal quantia pode fazer-se imenso bem ou imenso mal. O seu 
irmo, se soubesse o que ela  e o que ela faz, desejaria que ela 
entrasse na posse desse dinheiro? Em caso de litgio, a justia 
gosta de se conformar aos desejos do testador.
- O meu irmo no quereria uma coisa dessas - disse Adam.
Mas, logo a seguir, recordou-se das visitas peridicas do ir-
mo  estalagem.
- Tem de se pr no lugar do seu irmo - disse Lee. - O 
que a sua mulher faz no  bom nem mau. H santos em toda a 
parte. Talvez ela pudesse praticar ptimas aces com esse di-
nheiro. No h nada como uma m conscincia para levar  filan-
tropia.
Adam estremeceu.
- Ela j me explicou o que faria se tivesse dinheiro.  uma 
coisa que se parece mais com um assassinato do que com uma 
obra de caridade.
- Acha, portanto, que ela no deve dispor desse dinheiro? 
- Ela disse que arrastava logo ao suicdio uma srie de pes-
soas de excelente reputao.
- J estou a ver - disse Lee.- E sinto-me feliz por poder 
observar tudo isso de muito longe. Pelo que calculo, as calas da 
reputao desses senhores devem estar cheias de buracos. Por-
tanto, moralmente, nunca lhe entregaria o dinheiro?
- Pois no!
- Ento, considere isto: ela no tem nome e  ignorada pela 
sociedade. No passa duma prostituta. Se tivesse conhecimento 
do testamento e quisesse exigir a sua parte, s o poderia fazer 
com o seu auxlio.
- Evidentemente. No podia passar sem o meu auxlio.
Lee tornou a pegar no cachimbo, limpou-o com um alfinete de 
cobre e encheu-o. Voltou a dar as quatro fumaas, ergueu o olhar 
e observou Adam.
-  um problema moral muito delicado - disse ele. - Se me 
der o seu consentimento, irei submet-lo  sagacidade dos meus 
venerveis parentes. Sem citar nomes, claro. Ho-de pass-lo a 
pente fino, como o menino que caa as pulgas dum co. Era capaz 
de jurar que obtero excelentes resultados. - (Descansou o ca-
chimbo na mesa.) - Mas o senhor, o senhor no pode escolher, 
no  verdade?
- Que quer dizer? - perguntou Adam.
- Ser possvel que ainda se conhea menos do que eu o 
conheo a si?
- No sei que fazer - disse Adam. - Vou ter que pensar no 
assunto.
Lee disse com raiva:
- Estou a ver que perdi o meu tempo. Estar a mentir a si 
prprio ou s a mim?
- No me fale nesse tom - pediu Adam.
- E porque no? Sempre detestei ficar desiludido. O seu 
caminho est traado e o que h-de fazer j est escrito, escrito 
nos mnimos pormenores. Falarei como me apetecer. H muito 
que adquiri esse direito. J sinto areia sob a pele, sinto j o ignbil 
odor dos velhos livros e o suave aroma do pensamento. Colocado 
perante duas morais, o senhor seguir aquela que lhe ensinou a 
sua educao e no  aquilo a que chama pensar que modificar 
a sua deciso. Nem o facto de a sua mulher se prostituir em Sali-
nas contribuir para o fazer mudar de ideias.
Adam levantou-se. Estava furioso.
- Est a ser insolente porque se vai embora - gritou ele.-
Digo-lhe e repito que no sei ainda o que irei fazer a respeito desse 
dinheiro.
Lee suspirou profundamente. Ergueu-se apoiando as mos nos 
joelhos, encaminhou-se com ar cansado para a porta, voltou-se, 
sorriu a Adam e disse-lhe em tom amistoso:
- Seu puritano!
Depois, saiu e fechou a porta atrs de si.


3

Cal percorreu silenciosamente o corredor e subiu para o quar-
to. Adivinhou a cabea do irmo em cima do travesseiro, mas no 
conseguiu perceber se Aron dormia. Sem fazer barulho, meteu-se 
na cama, virou-se de mansinho, entalou os dedos debaixo da ca-
bea e fitou as mirades de pontinhos coloridos que formam a obs-
curidade. A cortina da janela inchava com o vento antes de cair 
com um ligeiro rudo.
Apossava-se dele uma calma melancolia. Como lamentava 
que o irmo no tivesse ficado com ele no Ford, como lamentava 
ter escutado  porta da sala! Agitou os lbios no escuro e, se bem 
que no emitisse nenhum som, ouviu as suas palavras.
Meu Deus - disse ele -, faz que eu seja como o Aron. No 
me faas mau. Eu no quero ser mau. Se fizeres com que toda a 
gente goste de mim, dar-te-ei tudo o que quiseres. E se no o 
tiver, irei busc-lo onde estiver. Eu no quero ser mau e no quero 
ficar sozinho. men.  Lgrimas escaldantes deslizavam-lhe pelo 
rosto. Os msculos estavam contrados. Tentou chorar em siln-
cio.
Aron murmurou:
- Tu ests com frio, estiveste a tremer.
Estendeu a mo e sentiu sob os dedos o brao rijo de Cal. 
- O tio Charles sempre tinha dinheiro? - perguntou Aron
em voz baixa.
- No - respondeu Cal.
- Tu ficaste l muito tempo. O que  que o pap queria di-
zer?
Cal manteve-se imvel para recuperar a calma.
- No queres dizer-me? - perguntou Aron. - Muito bem! 
Podes ficar com o segredo..
- Vou dizer-te - murmurou Cal. (Voltou-se de costas para o 
irmo.) - O pap vai mandar uma coroa para a mam, uma formi-
dvel coroa de cravos.
Aron sentou-se na cama, profundamente comovido.
- Srio? Como  que ele a vai mandar para to longe? 
- Pelo comboio. No fales to alto. 
Aron baixou de novo a voz.
- Mas como  que chega l fresca?
- Com gelo. Vo met-la numa caixa com gelo - respondeu 
Cal.
Aron perguntou:
- Ser preciso muito gelo?
- Uma quantidade fantstica - disse Cal. - Agora, dorme. 
Aron manteve-se calado, at que disse: 
- Espero que no chegue murcha. 
- No tenhas medo - disse Cal.
E continuava a gritar para si mesmo: Faze que eu no seja 
mau, faze que eu no seja mau. 



CAPITULO XXXI

1


Adam vagueou pela casa toda a manh e, ao meio-dia, foi ter 
com Lee que revolvia um pedao de terra na horta e plantava os 
legumes da Primavera - cenouras e beterrabas, nabos, ervilhas, 
vagens, rutabagas e repolhos. As fileiras eram marcadas com um 
cordel esticado e, em cada extremidade, para identificao, estava 
espetada uma estaca com o envelope que contivera as sementes. 
No fundo da horta, em local abrigado, estavam as mudas de tomates, 
pimentes e couves aguardando o fim das primeiras geadas para 
serem transplantadas.
Adam disse:
- Portei-me como um estpido.
Lee, sem largar a enxada, ergueu os olhos para Adam. 
- Quando parte? - perguntou.
- No comboio das duas e quarenta, e regresso no das oito 
horas.
- Podia escrever uma carta - disse Lee.
- Tambm pensei nisso. Se fosse voc, fazia-o?
- No, tem toda a razo. Eu  que estou a ser estpido.
Nada de cartas.
- Tenho de l ir - disse Adam. - J estudei todas as solu-
es, mas no h nenhuma que seja boa.
Lee disse:
- O senhor poder ser desonesto de muitas maneiras, mas 
nunca na maneira como escolhe. Felicidades. Fico ansioso por 
saber o que ela vai dizer e fazer.
- Eu vou levar o cabriol - disse Adam - e deix-lo em King 
City. No gosto de guiar o Ford quando ando s.
Eram quatro e um quarto quando Adam bateu  porta de Kate. 
Foi um homem quem abriu, mas no era o mesmo da ltima vez; 
agora era um finlands com ar de bruto, sem casaco nem gravata. 
Elsticos de seda encarnada sustinham-lhe as mangas. Deixou 
Adam  porta e voltou logo em seguida para o conduzir  casa de 
jantar.
Era uma grande sala despida, com as paredes e os madeira-
mentos pintados de branco. No meio, estava uma comprida mesa 
rectangular, tapada com um oleado branco, tambm, e j posta 
para o jantar: pratos, chvenas e pires, com as chvenas voltadas 
ao contrrio nos pires.
Kate estava sentada numa extremidade da mesa, com um 
livro de contas aberto  sua frente: Vestia com severidade. Tinha 
uma pala verde na testa e os dedos brincavam distraidamente 
com um lpis amarelo. Deitou um olhar interessado a Adam que 
ficara na ombreira da porta.
- Que mais queres tu? - perguntou ela.
O finlands no saa de trs de Adam.
Adam no respondeu. Aproximou-se da mesa e colocou a
carta diante de Kate, em cima do livro de contas.
- O que  isto? - (Sem esperar pela resposta, ela leu rapi-
damente a carta.) - Sai e fecha a porta - disse ela ao finlands. 
Assim que a porta se fechou, Kate perguntou:
- Ser uma brincadeira? No, tu no s desse gnero. -
(Depois, pareceu reflectir.) - Talvez seja uma brincadeira do teu
irmo. Tens a certeza de que morreu?
- Tudo o que sei est nessa carta - respondeu Adam. 
- Que queres que eu faa?
Adam encolheu os ombros.
Kate disse:
- Se queres que assine alguma coisa, ests a perder o teu 
tempo. Podes falar  vontade.
Adam introduziu o dedo entre o feltro e a fita do chapu e 
deu-lhe uma volta completa.
- Porque no tomas nota da morada do notrio e no lhe 
escreves tu mesma?
- Falaste-lhes em mim?
- No, escrevi ao Charles e disse-lhe que vivias noutra cida-
de. Ele j estava morto quando a carta chegou. Foram os notrios 
que a abriram.  tudo quanto sei.
- Aquele que escreveu o post-scriptum tem ar de ser um dos 
teus amigos. Que foi que lhe respondeste?
- Ainda no respondi.
- E que tencionas responder?
- A mesma coisa. Que tu vives noutra cidade.
- No podes dizer que nos divorcimos. Ns nunca nos divor-
cimos.
- Nunca me passou isso pela cabea.
- Sabes quanto ters de dar para me comprares? Quarenta e 
cinco mil dlares, nem menos um chavo.
- No.
- No, o qu? No me digas que te vais pr a regatear?
- No estou interessado em regatear. Tu leste a carta e j
sabes tanto como eu. Portanto, faze o que te apetecer. 
- Pareces sentir-te muito seguro.
- E sinto.
Ela olhou-o atravs da pala verde, de onde pendiam pequenos 
caracis como a vinha virgem num telhado.
- Tu no passas dum imbecil, Adam. Se tivesses guardado 
segredo, ningum viria a saber que estava viva. 
- Mas eu sei.
- Ah! sim? Se calhar pensavas que tinha medo de reclamar 
dinheiro? Saste-me um bom parvo se acreditaste nisso. 
Adam disse:
- No me interessa o que fizeres.
Ela riu-se com cinismo.
- Ora vejam! E se eu te disser que no gabinete do xerife 
existe uma ordem de expulso para ser posta em vigor assim que 
eu me servir do teu nome ou que disser que sou tua mulher? Achas 
que te faria arranjo?
- Fazer-me arranjo para qu?
- Para te livrares de mim e meteres todo o dinheiro na 
algibeira.
- Trouxe-te a carta - disse Adam, armando-se de pacincia.
- Quero saber porqu?
- H s uma coisa que conta: o Charles legou-te esse dinhei-
ro por testamento e no imps nenhuma clusula restritiva. Eu no 
vi o testamento, mas tenho a certeza de que ele queria que tu 
herdasses.
- Ests a jogar um jogo perigoso com cinquenta mil dlares 
- disse ela -, mas no julgues que me comes as papas na ca-
bea. Ainda no percebi onde est a marosca, mas hei-de desco-
bri-la.
E Kate acrescentou:
- Quem  o teu conselheiro?
- Ningum.
- E o chins? Ele no  parvo nenhum.
- Ele no me deu conselho nenhum.
Adam sentia-se interessado pela prpria impassibilidade. No
tinha a impresso de ali estar. Olhou para Kate e ficou surpreen-
dido ao ver-lhe na cara qualquer coisa que nunca tinha visto. Kate
estava com medo, com medo dele. Mas porqu? 
Ela recomps-se rapidamente.
- Tu fazes isso porque s honesto, hem? Onde  que j se 
viu um anjinho assim?
- Talvez eu seja um anjinho - disse Adam -, mas trata-se 
do teu dinheiro e eu no sou um ladro. Tanto se me d o que tu 
possas pensar.
Kate empurrou a pala para o alto da cabea.
- Queres fazer-me crer que me vinhas dar cinquenta mil 
dlares de mo beijada? Descansa que eu hei-de descobrir onde 
queres chegar. Ou pensavas que eu era capaz de engolir uma 
histria dessas?
- Onde  que costumas receber o teu correio? 
- Que tens tu com isso?
-  que vou escrever ao notrio pedindo-lhe para se pr em 
comunicao contigo.
- Nem penses nisso! - atalhou ela. (Kate pegou na carta e 
meteu-a no livro de contas, que fechou.) - Fico com isto,  um 
documento legal que me h-de servir. Vou consultar um advogado. 
No penses que no sou capaz de o fazer.
- Fazes tu muito bem. Quero que fiques com o que te per-
tence. No quero para nada o dinheiro que o Charles te legou. 
- Hei-de descobrir a marosca, ai no, que no descubro. 
Adam disse:
- Parece-me que no s capaz de compreender. Alis, no
me interessa. H tantas coisas que eu tambm no compreendo...
Porque foi que me feriste, porque foi que abandonaste os teus filhos,
como  que tu ou outra pessoa qualquer pode viver desta maneira... 
Adam designou a casa com um gesto. 
- Quem te pediu que compreendesses? 
Adam levantou-se e pegou no chapu.
- Est tudo dito - disse ele. - At qualquer dia.
Enquanto se encaminhava para a porta, ela atirou-lhe:
- Ests muito mudado, Joo Rato. Ters tu acabado por
arranjar uma mulher?
Adam deteve-se e fitou-a com uma expresso pensativa.
- No tinha pensado nisso antes - disse. (E aproximou-se 
tanto de Kate que ela teve de levantar a cabea para o ver.) - Eu 
disse-te que no compreendia - prosseguiu ele -, mas acabo 
agora de descobrir o que  que tu no compreendes.
- E o que  que eu no compreendo, Joo Rato?
- Tu s compreendes o lado feio das pessoas. Eu vi as foto-
grafias. S te sabes servir dos instintos mais reles e das fraque-
zas do homem, e Deus sabe quanto abundam!
- Cada um...
Adam continuou, espantado pela descoberta:
- Mas tu nada sabes do resto. No acreditas que tenha tra-
zido a carta porque no quero ficar com esse dinheiro. No acre-
ditas que tenha podido amar-te. Quanto aos homens que vm ter 
contigo - esses das fotografias - no acreditas que haja neles 
alguma bondade ou beleza. Tu s s capaz de ver um dos lados e 
julgas - direi mais, tens a certeza - que  o nico lado que exis-
te.
Kate imitou com a boca o cacarejo duma galinha.
- Sim, senhor! O meu Joo Rato fala pelos cotovelos. Por-
que no me pregas um sermo?
- No, seria escusado porque te falta qualquer coisa. Certas 
pessoas no distinguem a cor verde e so at capazes de morrer 
sem dar por isso. Tu no s um ser humano completo e o remdio
no est nas minhas mos. Mas gostava de saber se j alguma vez 
sentiste que h qualquer coisa invisvel  tua roda. Seria pavoroso 
se soubesses que existe essa coisa e no pudesses tocar-lhe, 
seria simplesmente pavoroso.
Kate afastou a cadeira e levantou-se. Tinha as mos crispadas 
nas ancas, dissimuladas nas pregas do vestido, e fez um esforo 
para no gritar.
- O Joo Rato gosta de brincar aos filsofos - disse ela 
- mas  to mau filsofo como o  nas outras coisas. J ouviste falar 
em alucinaes? Se h coisas que eu no consigo ver, no pensas 
que possam ser produto do teu crebro doentio?
- No - volveu Adam -, no creio. E tu tambm no.
Voltou-se, atravessou a sala e saiu.
Kate sentou-se e olhou fixamente para a porta que acabava 
de se fechar. Inconscientemente, ps-se a tamborilar no oleado 
da mesa, enquanto os olhos ficavam embaciados pelas lgrimas 
e o corpo era agitado por uma coisa que se assemelhava  clera 
e, tambm,  dor.


2

Quando Adam saiu de casa de Kate, ainda faltavam duas horas 
para a partida do comboio para King City. Movido por um impulso, 
enveredou pela Main Street e caminhou at ao nmero cento e 
trinta da Central Avenue, onde se erguia a casa branca de Ernest 
Steinbeck. Era uma casa acolhedora e imaculada sem pretenses, 
posta em cima dum relvado bem cuidado e rodeada por uma cerca 
branca. Roseiras e madressilvas trepavam pelas paredes.
Adam atravessou o jardim, deteve-se junto  varanda e tocou. 
Olive, com Mary e John ao lado, abriu a porta.
Adam tirou o chapu.
- No me conhecem. Eu sou o Adam Trask. O seu pai era 
meu amigo. Desejava apresentar os meus respeitos  Sr.a Hamil-
ton. Foi ela quem ajudou a nascer os meus dois gmeos.
- Pois claro - exclamou Olive. (E abriu a porta de par em
par.) - Temos ouvido falarem si. Faa o favor de esperar um ins-
tante, que a mam est no quarto. - (Olive bateu a uma porta e 
chamou): - Mam! Est aqui um amigo para te ver.
Olive abriu a porta e mandou entrar Adam para o agradvel 
quarto onde vivia Lizza.
- Peo desculpa, mas tenho de deix-lo - disse Olive a 
Adam. - A Catrina est a assar uma galinha e precisa de ser vigi-
ada. John, Mary, venham da.
Lizza parecia mais pequena do que nunca e muito velha, muito 
velhinha na sua cadeira de balano. Usava um vestido de alpaca 
preta de saia muito rodada e tinha ao pescoo uma medalha de oiro 
com a palavra Mam gravada.
O quartinho-saleta estava recheado de fotografias, frascos de 
perfume, almofadas de renda, escovas, pentes e todos os presen-
tes que tinha recebido nos numerosos aniversrios e festas de Natal.
Na parede estava pendurada uma grande fotografia colorida de 
Samuel, mas os sais de prata apenas tinham captado uma fria e 
altiva dignidade, um ar vago e composto que nada tinha a ver com o 
que ele fora em vida. O retrato no sorria nem piscava o olho. Estava 
encaixilhado numa enorme moldura doirada e, com grande 
consternao das crianas, o olhar seguia-as por todo o quarto.
Numa mesa de verga, ao lado de Lizza, estava a gaiola de 
Polly, o papagaio. Tom comprara o papagaio a um marinheiro. Era 
um pssaro muito velho, com mais de cinquenta anos, dizia-se, 
que levara uma vida aventurosa e aprendera a fala pitoresca dos 
embarcadios. Apesar de todos os seus esforos, Lizza no con-
seguira ensinar-lhe nenhum salmo para substituir a linguagem vi-
gorosa aprendida na juventude.
Polly inclinou a cabea, observou Adam e coou com uma 
unha certeira as penas junto ao bico.
- Cava da, minha besta! - disse Polly sem a menor emo-
o.
Lizza franziu o cenho.
- Polly - disse ela com severidade -, no sejas malcriado. 
- Grande besta - acrescentou Polly. 
Lizza fingiu que no ouvia e estendeu a mo pequenina.
- No calcula o prazer que tenho em o ver, Sr. Trask - disse
ela. - Sente-se.
- Passei por aqui e resolvi entrar para lhe apresentar as mi-
nhas condolncias.
- Ns recebemos as suas flores.
Passado tanto tempo, ainda se lembrava de todas as flores. 
Adam enviara um ramo de perptuas.
- A senhora deve ter dificuldade em se adaptar a esta nova 
vida.
Lizza baixou os olhos e fechou apressadamente a boca para 
disfarar a fraqueza.
Adam acrescentou:
- Talvez no devesse diz-lo, mas ele faz-me muita falta. 
Lizza desviou a cabea.
- Como vo as coisas l para os seus lados?
- Este ano vai tudo bem. Houve muita chuva e os pastos j 
esto crescidos.
- O Tom escreveu-me - disse ela.
- Cala a boca! - disse o papagaio.
Lizza deitou-lhe o mesmo olhar que costumava deitar aos filhos
quando eles se portavam mal.
- O que foi que o trouxe a Salinas, Sr. Trask? - perguntou 
ela.
- Vim c por causa duns negcios - (Adam sentou-se numa 
cadeira de verga que rangeu com o peso.) - Tenciono vir morar 
para c. H-de ser prefervel para os meus filhos, que se abor-
recem no rancho.
- Ns no nos aborrecamos no rancho - disse ela com 
secura.
- Eu pensei que as escolas daqui deveriam ser melhores. 
Sempre seria uma vantagem para os pequenos.
- A minha filha Olive foi professora em Peach Tree, em Pleyto 
e em Big Sur.
Pelo tom da voz, deviam ser aquelas as trs melhores esco-
las. Adam sentiu-se dominado por uma calorosa admirao.
- Tudo isto no passa dum projecto - disse ele.
- As crianas educadas no campo so mais saudveis. (Era 
esta a lei. A prova estava nos filhos. Depois, Lizza desviou a aten-
o para Adam.) - Anda  procura duma casa em Salinas?
- Ando, sim.
- Ento, v ter com a minha filha Dessie. Ela quer ir viver para 
o rancho com o Tom. Ela tem uma bonita casinha no cimo da rua, 
ao lado da padaria Reynaud.
- L irei - disse Adam. - Vou mesmo l de seguida. Muito 
folgo por ver que tem passado bem.
- Muito obrigada - disse ela. - Comodidades no me fal-
tam.
Adam dirigiu-se para a porta, mas Lizza deteve-o:
- Sr. Trask, tem visto o meu filho Tom?
- No, no tenho. Eu nunca saio do rancho.
- Gostava que fosse visit-lo - disse ela apressadamente.
- Tenho a impresso de que ele se sente muito s.
Mas calou-se logo, horrorizada por se ter trado.
- Esteja descansada que irei v-lo. At qualquer dia, minha
senhora.
Ao fechar a porta, ouviu o papagaio que dizia: Cala o bico, 
minha besta!, logo seguido da voz de Lizza: Polly! se no te 
calas, levas uma bofetada.
Adam saiu e subiu a rua at  padaria francesa Reynaud. A 
casa de Dessie era ao lado, ao fundo dum pequeno jardim. A ve-
getao era to exuberante que mal se distinguia o edifcio. Em 
cima da porta, via-se uma tabuleta pintada: Dessie Hamilton, 
modista.
O restaurante San Francisco ficava  esquina da Main Street 
e da Central Avenue. Adam entrou para jantar. Will Hamilton esta-
va sentado a um canto, devorando um bife.
- Sente-se  minha mesa - disse ele a Adam. - Veio a 
negcios?
- Vim, sim - disse Adam.- Fui visitar a sua me. 
Will descansou o garfo.
- S tenho uma hora para c estar. No fui ver a minha me 
porque fica muito cansada e a minha irm Olive teria virado a casa 
de pernas ao ar para me arranjar um jantar extravagante. No 
quis incomod-las e, depois, tenho de me ir embora. Mande vir 
um bife, que so excelentes. Como est a mam?
- Ela tem imensa coragem - disse Adam. - Sempre que a 
vejo, aumenta a minha admirao por ela.
- L isso, coragem no lhe falta! S gostava de saber como
foi que ela no conseguiu perder a cabea connosco e com o meu 
pai.
- Um bife bem passado - disse Adam, ao criado. 
- Com batatas?
- No... Sim, fritas. A sua me est preocupada com o Tom. 
- Como est ele?
Will tirou a gordura ao bife e p-la de lado.
- Ela tem razo para se preocupar - disse ele. - H qual-
quer coisa que no me cheira. Ele anda para a to aparvalhado 
como um boi.
- Ele devia depender muito de Samuel.
- At de mais - disse Will. - Ele nunca se recomps. O 
Tom no passa duma criana crescida.
- Eu irei v-lo. A sua me disse-me que a Dessie tencionava 
voltar para o rancho.
Will ps a faca e o garfo em cima da toalha e fixou Adam. 
- No consinto - disse ele com violncia. - No consenti-
rei que ela faa isso.
- Porqu?
Will respondeu com mais calma:
- Porque ela tem aqui um bom negcio e ganha a vida muito 
bem. Seria um disparate deitar tudo pela janela fora.
Pegou na faca e no garfo, cortou um bocado de gordura e 
levou-a  boca.
- Eu volto para casa no comboio das oito - disse Adam. 
- Tambm eu - disse Will.
No lhe apetecia conversar mais.




CAPTULO XXXII

1


Desie era o benjamim da famlia. Mollie a bonequinha, Olive a 
resoluta e Una a estranha, eram amadas, mas Dessie era a bem-
amada. Toda ela resplandecia, o seu riso contagiava-se como a 
varicela. S ela tinha aquela alegria que ilumina os dias e os seres, 
nunca mais deles se apartando.
Eu exemplifico: vejamos a Sr.a Clarence Morrison, Church 
Street, 122, Salinas, que tem trs filhos e um marido comerciante. 
Suponhamos que Agnes Morrison diz certa manh: Depois do 
almoo vou provar um vestido a casa de Dessie Hamilton.
As crianas manifestam logo a sua alegria dando grandes 
pontaps na mesa at que as metam na ordem.O Sr. Morrison 
esfrega as mos e dirige-se para a loja, esperando que nesse dia 
passe por l um caixeiro viajante. Se o caixeiro viajante aparecer, 
faz-lhe uma encomenda importante. Talvez que, no ntimo, nem 
as crianas nem o Sr. Morrison saibam explicar porque acham 
que est um rico dia.
A Sr.a Morrison entra na casa ao lado da padaria Reynaud s 
duas horas e l fica at s quatro. Quando sai, traz os olhos chei-
os de lgrimas e o nariz encarnado. De regresso a casa, vai 
empoando o nariz e enxugando os olhos, mas, sempre que se 
lembra, desata a rir.  muito possvel que a Dessie tenha transfor-
mado a pregadeira dos alfinetes num ministro baptista e o tenha 
obrigado a pregar um sermo furibundo; talvez tenha contado a 
histria do velho Taylor que compra todas as casas velhas e as leva 
para um terreno vago, at juntar tantas que aquilo mais parece um
Mar dos Sargaos seco; quem sabe se no recitou um poema fa-
zendo momices? Fosse o que fosse, no importa. Foi to cmica 
que as pessoas quase rebentaram a rir.
Quando os filhos dos Morrison regressam da escola, no de-
param com dores de cabea, nem com ralhos ou dramas doms-
ticos. Se fazem barulho, no  um escndalo, e se se sujam, nin-
gum lhes diz nada. Podem mesmo rir s gargalhadas, que a me 
no faz caso e at se ri com eles.
O Sr. Morrison, quando regressa  noite, fala da loja e  escu-
tado, o que nem sempre acontece. Encoraja-se e tenta repetir as 
anedotas do caixeiro viajante - enfim, algumas delas. O jantar 
est delicioso, a omeleta no ficou muito passada, os bolos tinham 
a leveza de bales, os biscoitos no mirraram e no h como a 
Agnes para temperar um assado. Depois do jantar, quando as 
crianas, estafadas de tanto rir, vo para a cama sem se fazerem 
rogadas, o Sr. Morrison toca no ombro de Agnes como h muito, 
muito tempo no fazia, e ambos se vo deitar e ser felizes nos 
braos um do outro.
Uma visita a casa de Dessie produzia efeito ainda durante 
dois dias e, depois, a pouco e pouco, tudo voltava  mesma. As-
sim era a Dessie, tal era o seu poder. A alegria morava-lhe no 
corao, como em Samuel, e era a predilecta, a bem-amada de 
toda a famlia.
Dessie no era bela - talvez nem fosse bonita - mas irra-
diava a luz que obriga os homens a seguirem certas mulheres na 
esperana de captarem alguns dos seus reflexos. Seria lcito pen-
sar que, com o tempo, ela tivesse esquecido o primeiro amor e 
que outro o substitusse, mas nada disso aconteceu. Os Hamilton 
podiam ser versteis, mas no em questes de amor. Nenhum 
deles parecia capaz de amar  ligeira.
Dessie nunca se resignou. Foi muito pior. Continuou a ser o 
que havia sido, mas sem a chama. Os amigos sofreram ao v-la 
assim e tentaram ajud-la.
Os amigos de Dessie eram bons e leais, mas tambm eram 
seres humanos que detestavam o espectculo da dor. Com o tem-
po, todas as Sr.as Morrison invocaram pretextos para no voltarem  
casinha junto da padaria. No eram infiis: custava-lhes ficarem 
tristes quando apenas desejavam sentir-se felizes.  sempre fcil
encontrar justificaes virtuosas e lgicas para no se fazer o que  
aborrecido.
Os negcios de Dessie principiaram a declinar. E as mulheres, 
que julgavam necessitar de vestidos, nunca compreenderam que 
apenas iam buscar a felicidade. Os tempos mudaram e o fato feito 
entrava nos costumes. J no era uma vergonha us-los. E se o Sr. 
Morrison vendia roupa pronta a vestir, era natural que Agnes Morrison 
tambm a usasse.
A famlia comeou a andar apoquentada por causa de Dessie, 
mas que se podia fazer? Ela no queria admitir que sofresse e 
apenas se queixava de pontadas nos lados, bastante violentas, mas 
espaadas e fugazes.
Quando Samuel morreu, o mundo estilhaou-se como um 
prato. Os filhos, as filhas e os amigos tentaram juntar os cacos e 
recompor um mundo que se parecesse com alguma coisa.
Dessie resolveu trespassar o negcio e regressar ao rancho 
para viver com Tom. No era muito o que tinha para vender. Lizza, 
estava a par, assim como Olive, e escrevera a Tom. Mas Will, 
sentado  mesa do restaurante San Francisco, no fora informado. 
A fria foi-se avolumando a pouco e pouco, at que fez o guardanapo 
numa bola e se levantou.
- Esqueci-me duma coisa - disse ele. - Encontramo-nos 
logo no comboio.
Will atravessou a rua, penetrou no jardim luxuriante de Des-
sie e bateu  porta.
Dessie estava a jantar sozinha e veio abrir com o guardanapo 
na mo.
- Olha, o Will! - exclamou ela. (E estendeu-lhe a face para 
que a beijasse.) - Quando chegaste?
- Estou s de passagem - disse ele. - Preciso de te falar.
Dessie conduziu-o para a cozinha-casa de jantar, uma acolhe-
dora salinha forrada de papel com flores. Encheu uma chvena 
de caf e p-la  frente de Will, assim como um aucareiro e uma 
leiteira.
- Viste a mam? - perguntou ela.
- No tive tempo - resmungou ele. - Dessie,  verdade 
que queres voltar para o rancho?
- Penso faz-lo.
- Eu no quero que vs para l.
- Porqu? Que mal tem isso? O Tom aborrece-se sozinho. 
- Mas tu tens aqui um bom negcio - disse Will. 
- O negcio j no d nada; julgava que soubesses.
- Eu no quero que te vs embora - repetiu ele, com tei-
mosia.
Dessie esboou um sorriso de desencanto e fez o que pde 
para mostrar um ar divertido.
- O meu mano est a ser muito autoritrio. Quer dizer  Dessie 
porqu?
- Aquilo l  muito triste.
- Sendo dois, torna-se menos triste.
Will apertou o lbio inferior entre o polegar e o indicador. Depois, 
disse muito depressa:
- O Tom j no  o mesmo. No podes ficar s com ele. 
- Ele est doente? Precisa de auxlio? 
Will disse:
- Eu no queria dizer-te, mas acho que o Tom nunca se 
recomps da... da morte... Anda esquisito. 
Dessie sorriu afectuosamente.
- Will, tu sempre o achaste esquisito, principalmente quan-
do se recusava a tornar-se negociante.
- No era a mesma coisa. Agora ele v tudo negro. Nunca
fala e vai passear sozinho de noite para os montes. Fui visit-lo
outro dia... ele escreve poemas... tinha a mesa coberta de folhas. 
- Tu nunca escreveste poemas, Will? 
- No.
- Pois eu escrevi. Folhas e folhas at encher a mesa. 
- No quero que vs para l.
- Deixa-me decidir - disse ela calmamente. - Perdi qual-
quer coisa e quero ver se a torno a encontrar. 
- No digas disparates.
Dessie deu a volta  mesa e passou os braos pelo pescoo 
do irmo.
- Meu querido maninho - disse ela -, deixa-me ser eu a 
decidir.
Furioso, Will saiu de casa e foi por um triz que no perdeu o 
comboio.


2

Tom foi esperar Dessie  estao de King City, Do seu com-
partmento, ela viu-o a espreitar para dentro das carruagens que 
iam passando. Tom estava mais queimado e escanhoara-se tanto 
que a pele brilhava como madeira encerada. O bigode ruo estava 
aparado. Usava um chapu Stetson de copa chata e uma casaca 
Norfolk apertada na cintura por um cinto com fivela de madreprola. 
Os sapatos deviam ter sido limpos com o leno justamente na altura 
da chegada do comboio, pois faiscavam ao sol do meio-dia. Um 
colarinho engomado aprisionava-lhe o pescoo forte e vermelho. Na 
gravata azul-clara tinha espetado um alfinete em forma de ferradu-
ra. Tom procurava disfarar a emoo mantendo as mos unidas  
sua frente.
Dessie agitou a mo  portinhola, enquanto gritava: Estou 
aqui, Tom, estou aqui.  Mas o irmo no a ouviu porque a voz foi 
abafada pelo estrondo das rodas quando a carruagem passou di-
ante dele. Dessie desceu do compartimento e avistou o irmo pro-
curando-a freneticamente na direco oposta. Sorriu e aproximou-
-se dele.
- Desculpe, cavalheiro - disse ela-, por acaso no conhe-
ce o Sr. Tom Hamilton?
Tom girou sobre os calcanhares, corou de prazer, ergueu-a 
no ar e f-la rodar em torno de si. Com um brao, manteve-a no ar 
enquanto lhe aplicava um aoite cordial com a mo livre. Dessie 
sentiu o bigode a picar-lhe a cara. Tom ps a irm no cho, segu-
rou-a pelos ombros e olhou-a. Ambos atiraram a cabea para trs, 
desatando a rir.
O chefe da estao debruou-se  janela, fincou os cotovelos 
no parapeito e lanou ao telegrafista, por cima do ombro:
- Estes Hamilton, mesmo assim! Olhe-me para aquilo!
Tom e Dessie, segurando no dedo mnimo um do outro, en-
tregavam-se a uma quadrilha, cantando e danando alegremente. 
Quando acabaram, abraaram-se novamente.
Tom olhou para ela.
- A senhora no  Dessie Hamilton? Creio recordar-me de 
si. Mas est muito mudada. Que fez s suas tranas? 
Tom levou um tempo enorme a pedir-lhe as senhas da baga-
gem, a perd-las nos bolsos, a ach-las e a levantar uma bagagem 
que no pertencia a Dessie. Por fim, l conseguiu descobrir as 
malas, que empilhou no assento traseiro do carro. Os dois cavalos 
baios escarvavam o cho e empinavam-se, fazendo ranger os varais. 
Os arreios estavam reluzentes e os cobres brilhavam como se fos-
sem oiro. Tanto o chicote como a crina e a cauda dos animais 
estavam enfeitados com laos encarnados.
Tom ajudou Dessie a subir e fingiu que lhe olhava  sorrelfa 
para os tornozelos. Depois, fez estalar as rdeas, desenrolou o 
chicote e os cavalos deram uma curva to apertada que as rodas 
at chiaram.
Tom props:
- Queres dar uma volta por King City? Olha que  uma bela 
cidade.
- No - respondeu ela. - Ainda me lembro muito bem dela. 
Tom virou  esquerda e rumou ao sul, enquanto os cavalos se 
entregavam a um trote rpido.
Dessie perguntou:
- Onde est o Will?
- No sei - resmungou ele.
- Ele falou-te?
- Falou, sim, para me dizer que tu no devias vir.
- Ele tambm me disse a mesma coisa, at pediu ao George 
para me escrever nesse sentido.
- Se sentias vontade de vir, porque no haverias de vir? dis-
se Tom com raiva. - Que tem o Will a ver com isso? 
Ela pegou-lhe no brao.
- Ele julga que tu ests doido porque escreves poemas.
O rosto de Tom tornou-se sombrio.
- Ele deve ter entrado em casa quando eu no estava. Mas 
porque se mete ele onde no  chamado? Ele no tem o direito de 
andar a vasculhar os meus papis.
- Calma! - disse Dessie. - No te esqueas que o Will  
nosso irmo.
- Que diria ele se eu andasse a remexer nos seus papis?
- No h o perigo de isso acontecer - disse Dessie com 
secura. - Ele tem os papis fechados num cofre. No estrague-
mos este dia.
- Est bem - disse ele. - S Deus sabe o esforo que eu 
fao, mas ele enerva-me. L porque no quero viver como ele enten-
de, chama-me doido.
Dessie mudou de conversa.
- Passou-se qualquer coisa antes da minha partida - disse 
ela. - A mam queria vir. Tu j viste a mam chorar, Tom?
- Que me recorde, no. Ela nunca teve a lgrima fcil.
- Pois fica sabendo que chorou. No foi quase nada, mas j 
era muito para ela. Tinha a voz embargada, fungou e assoou-se, 
limpou os culos e fechou a boca como a tampa dum relgio.
- Meu Deus! - exclamou Tom.- No imaginas a satisfao 
que me d a tua vinda, at parece que me fez bem.  como se 
estivesse convalescente duma doena.
Os cascos dos cavalos martelavam a estrada municipal.
- O Adam Trask comprou um Ford - disse Tom-, ou an-
tes, foi o Will quem lhe vendeu um Ford.
- No sabia - disse Dessie. -  ele quem vai comprar a 
minha casa. Sabes que fiz um bom negcio? - (Riu-se.) - Eu 
tinha-lhe pedido um preo elevado, julgando que ele ia regatear mas, 
afinal, aceitou logo. At fiquei desorientada.
- Ento como resolveste o assunto?
- Disse-lhe que tinha pedido um preo alto para poder bai-
x-lo. Ele no pareceu fazer muito caso.
Tom disse:
- Peo-te o favor de nunca contares isso ao Will, se no 
queres que ele te mande internar.
- Mas a casa no valia o preo que eu pedia.
- Acredita no que te digo, no contes nada ao Will. Porque  
que o Adam quer comprar a tua casa?
- Ele vai morar para l que  para os gmeos poderem ir  
escola em Salinas.
- E que faz ao rancho?
- No sei, no me disse.
- Gostava de saber o que teria acontecido se o nosso pai 
tivesse um rancho como o dele em vez do nosso monte de poeira. 
- No digas mal do nosso rancho.
-  um stio maravilhoso para se morrer de fome. 
Dessie perguntou com fervor:
- J conheceste alguma famlia mais feliz do que a nossa? 
- No, mas a culpa  da famlia e no do rancho.
- Tom, lembras-te daquele dia em que tiraste o canap para
levar a Jenny e a Belle Williams ao baile?
- A mam nunca me perdoou. E se ns convidssemos a
Jenny e a Belle para nos virem visitar?
- Tenho a certeza de que viriam.
Quando abandonaram a estrada municipal para se entranha-
rem nas colinas, Dessie disse:
- Fazia delas uma ideia diferente. 
- Mais ridas?
- Talvez. H tanto pasto, Tom!
- Tenho vinte cabeas de gado para o comer. 
- Ento deves estar rico.
- No estou, no. Quando o ano  bom, o preo da carne 
desce. Gostava de saber o que faria o Will.  o homem da escas-
sez. Ele est sempre a repetir:  preciso jogar com a escassez.  
O Will  um espertalho.
A estrada pouco mudara. Os trilhos estavam mais fundos e 
as pedras sobressaiam mais. O resto conservava-se na mesma. 
Dessie perguntou:
- O que  aquela folha de papel espetada naquela moita? 
Ao passarem, arrancou a folha de papel e leu o que estava 
escrito: Bem-vinda seja. 
- Foste tu, Tom?
- No, foi algum que se nos adiantou.
De cinquenta em cinquenta metros, surgiram outros cartazes 
pendurados nas moitas, pendentes das rvores ou espetados no 
tronco dum castanheiro. Todos diziam Bem-vinda e Dessie co-
rava de prazer a cada nova descoberta.
Finalmente, atingiram o alto da colina que dominava a de-
presso onde se aninhava a velha casa dos Hamilton. Tom parou 
o carro para que a irm pudesse apreciar a vista. Na colina opos-
ta, escritas em pedras caiadas, Dessie leu as palavras: Bem-
-vinda, Dessie.  Descansou a cara nos joelhos do irmo e ps-se a 
rir e a chorar ao mesmo tempo.
Tom tinha um olhar espantado.
- Quem ter feito isto? J um homem no pode sair de casa.
De madrugada, Dessie foi despertada pela dor. O sofrimento 
produzia-lhe uma sensao de ameaa. A dor nascia no flanco, 
atravessava o abdmen e tornava-se mais aguda, parecendo que 
uma garra lhe torcia as entranhas. Quando a garra afrouxava o aperto, 
ficava uma espcie de formigueiro. A dor no durava muito mas, 
enquanto durava, era como se o mundo exterior deixasse de existir.
A manh prateada entrou pela janela. Dessie aspirou o ar 
matutino que inchava as cortinas, trazendo um aroma de erva, de 
razes e de terra molhada. Depois, chegaram os sons: os pardais 
que piavam; uma vaca de mugido montono que repelia um vitelo 
esfomeado; um gaio azul emitindo gritos de falso jbilo; o apelo 
agudo da codorniz e a resposta sussurrada da fmea, ali perto, na 
erva alta. No galinheiro reinava a desordem. Uma enorme galinha 
Rhode Island, que pesava mais de dois quilos, protestava hipocri-
tamente contra as intenes lbricas dum galo desplumado que 
teria podido desfazer com uma pancada da asa.
O arrulho dos pombos veio acordar as recordaes. Dessie 
lembrou-se do pai sentado  cabeceira da mesa e a dizer:
Disse ao Rabbit que ia criar pombos e sabem o que ele me 
respondeu? - No os compres brancos. - Ora essa, por-
qu? - Porque do azar. Se comprares pombos brancos, a 
tristeza e a morte entram-te em casa. Compra-os antes cinzen-
tos.  - Mas eu gosto deles brancos.  - Compra-os cinzen-
tos, j te disse.  Nem que a terra se me abra debaixo dos ps, 
hei-de compr-los brancos. 
E Lizza dissera com a maior pacincia:
Porque hs-de estar sempre a querer tentar o destino, Sa-
muel? Os pombos cinzentos tm o mesmo gosto e so maiores.  
Samuel respondera:
No obedecerei a supersties ridculas. 
Ento Lizza retorquira com a sua implacvel simplicidade: 
Tu s obedeces ao teu orgulho, Samuel, tu tens a teimosia
duma mula. 
E Samuel dissera num tom melanclico:
-  preciso que haja algum para fazer estas coisas. Se, de
vez em quando, no aparecesse algum que fizesse uma negaa
ao destino, a humanidade ainda viveria empoleirada nas rvores.  
E, como  evidente, Samuel comprara pombos brancos, aguar-
dando a tristeza e a morte a p firme. Os pombos que arrulhavam 
naquela manh eram os tetranetos dos pombos de Samuel. Quan-
do voavam, formavam uma grinalda branca em torno da casa.
Enquanto Dessie ia evocando o passado, surgiram as vozes e 
a casa povoou-se. A tristeza e a morte, reflectiu ela, a morte e a 
tristeza - s aquilo e o atordoamento da dor. Basta ter a pacincia 
de esperar, para que cheguem a morte e a tristeza.
Ouviu o assobio do ar nos grandes foles da forja e o martelo a 
bater na bigorna. Ouviu Lizza a abrir a porta do forno e o barulho da 
massa caindo nas lajes quentes. Depois, passou Joe, procurando 
os sapatos nos stios mais variados at os encontrar onde os deixara 
na vspera, isto , debaixo da cama. Ouviu a voz meiga de Mollie 
que lia a orao da manh na Bblia, enquanto Una lhe corrigia os 
erros.
E dizer que o Tom operara a Mollie com o canivete e fora 
vomitar quando dera pela coragem do que tinha feito!
- Querido Tom! - exclamou ela.
A coragem de Tom s emparceirava com a sua covardia, como 
acontece com todos os homens dignos deste nome. Tanto tinha 
de violento como de terno e ele era o campo espezinhado onde as 
suas prprias foras tinham travado batalha. Tom sentia-se de-
samparado, mas Dessie podia indicar-lhe o caminho a seguir, do 
mesmo modo que um cavaleiro dirige um puro-sangue e o ajuda a 
saltar o obstculo.
O dia estava a ficar cada vez mais claro. Dessie, acordada 
pelas dores, no conseguia expulsar as brumas nocturnas. Lem-
brou-se de repente que a Mollie ia abrir o grande baile do Quatro 
de Julho pelo brao do senador Harry Forbs. E ela que ainda no 
cosera as rendas no vestido da Mollie! Fez um esforo para se 
levantar. Tinha tanto que fazer e deixava-se ficar para ali a diva-
gar.
- Hei-de acab-lo, Mollie - gritou ela.
Ergueu-se, atirou um casaco pelas costas e atravessou de 
ps descalos a casa povoada de Hamiltons. Mas eles tinham 
desaparecido do corredor e haviam-se refugiado nos quartos, e 
tinham desaparecido dos quartos com as camas muito bem feitas 
para se refugiarem na cozinha, e tinham desaparecido da cozinha 
para se esfumarem. Tristeza e morte. A nvoa do sonho desfez-se,
deixando-a bem acordada.
A casa estava limpa, esfregada e imaculada. As cortinas esta-
vam lavadas e as vidraas brilhavam de asseio. Mas notava-se a 
mo do homem: as cortinas passadas a ferro no caam a direito; 
os vidros tinham fiapos de pano agarrados; quando se tirava um 
livro de cima da mesa, ficava um rectngulo formado pela poeira.
O fogo estava aceso; atravs das grelhas adivinhava-se a 
chama cor de laranja, que se engolfava na chamin com um rudo 
surdo de trovo. O pndulo do relgio faiscava atrs do vidro e o seu 
tiquetaque assemelhava-se a um martelo batendo numa caixa de 
madeira vazia.
Do exterior veio um assobio agudo e selvagem, que ritmava 
uma melodia estranha. Depois, soaram os passos de Tom que 
entrou com um braado de toros de carvalho, to grande que lhe 
tapava a cara, e que ele atirou para o caixote da lenha.
- J ests levantada? - perguntou ele. -  pena. Estava a 
fazer este barulho todo para te acordar.
A alegria resplandecia-lhe no rosto.
-  uma manh em que a preguia no se deve apoderar de 
ns.
- Tu falas como o pap - disse Dessie. 
E ambos se riram.
A alegria de Tom adquiriu um tom selvagem.
- Sim - continuou ele, elevando a voz -, e os tempos dele 
ainda ho-de voltar. Tenho andado a rastejar na tristeza como uma 
serpente com a espinha partida. Agora compreendo porque  que 
o Will me achava doido, mas tu voltaste e eu' hei-de mostrar-te. 
Sinto-me renascer para a vida. Ests a ouvir-me? Vou fazer res-
suscitar esta casa.
- Ento, ainda bem que vim - disse ela.
E pensou com desolao que, sob aquela couraa, batia um
corao frgil. Ele precisava de ser protegido.
- Tu deves ter trabalhado dia e noite para limpar a casa -
observou ela.
- Isso  o que tu pensas! - disse Tom. - Ficou tudo pronto 
num abrir e fechar de olhos.
- Pois sim -tornou ela-, mas tiveste de pegar num balde e 
numa escova e pr-te de joelhos, a no ser que tenhas inventado
alguns ps de perlimpimpim ou aprendido a domesticar o vento.
- A propsito de-invenes, ontem inventei um novo processo 
de prender uma gravata a um colarinho engomado.
- Mas tu nunca usas gravata.
- Usei ontem. Foi por isso que inventei o novo processo. E as 
galinhas! Vou criar milhares de galinhas em galinheiros espalhados 
por todo o rancho, com argolas no telhado para as mergulhar num 
banho de cal, e os ovos ho-de chegar at aqui num tapete rolante.
- Ento v se me inventas tambm um pequeno almoo - 
disse Dessie. - s capaz de me arranjar um ovo com presunto?
- Isso  para j! - exclamou ele.
Tom abriu o fogo e atiou o lume to de perto que ficou com 
os plos da mo chamuscados. Meteu mais lenha na fornalha e 
recomeou a assobiar.
Dessie disse:
- At pareces um stiro com uma flauta numa montanha da 
Grcia.
- E o que  que tu pensas que eu sou? - atirou-lhe ele.
Dessie perguntou a si mesma: Se a alegria dele  verda-
deira, porque  que eu no sinto o corao mais leve? Porque  
que no consigo sair do atoleiro onde me meti? Mas hei-de sair. 
Se ele pode, eu tambm posso.
- Tom!
- O que ?
- Quero um ovo encarnado.



CAPTULO XXXIII

1


As colinas mantiveram-se verdes at ao fim do ms de Junho 
e, s ento, se tornaram amarelas. A aveia brava tinha tantas 
sementes que os caules vergavam com o peso. Os riachos s 
secaram quando o Vero j ia adiantado. O gado mal se tinha nas 
pernas com tanta gordura e andava de barriga cheia. Era um da-
queles anos em que os habitantes do Vale esqueciam os anos 
secos. Os lavradores compravam terras que nem sequer podiam 
cultivar e calculavam os futuros lucros.
Tom Hamilton trabalhou como um gigante, com os braos vi-
gorosos e as mos calosas, com o corao cheio de alegria. Na 
forja, j se ouvia soar de novo a bigorna. A velha casa foi pintada 
de branco e todos os anexos foram caiados. Tom foi a King City 
para estudar um modelo de autoclismo que copiou e construiu 
com um bocado de folha-de-flandres e madeira. Como o riacho 
tinha um caudal muito fraco, instalou ao lado da casa um depsito 
de madeira que se enchia por meio dum moinho de vento to bem 
concebido que girava ao mnimo sopro de ar. Tom fez ainda mode-
los reduzidos das duas invenes com o intento de as mandar 
brevetar no Outono.
Mas no era tudo - Tom trabalhava por gosto e com alegria. 
Dessie tinha de se levantar muito cedo para evitar que Tom fizes-
se o trabalho todo. Mas ela no se deixava enganar: aquele entu-
siasmo devorador no se assemelhava ao de Samuel. Tinha a 
mesma aparncia e o mesmo ardor, mas era fabricado, to bem 
fabricado que quase induzia em erro.
Dessie, que era quem mais amigos possua no Vale, no tinha 
a quem se confiar. No falara a ningum na sua doena e guardava 
segredo.
No dia em que Tom descobriu a irm s voltas com uma crise, 
exclamou:
- Dessie, que tens tu?
Ela disfarou o sofrimento e respondeu:
-  uma dorzinha, uma dorzinha sem importncia. J me 
sinto melhor.
Da a pouco, j ambos se riam.
Riam muito e com frequncia, como que para se tranquilizarem. 
S quando se ia deitar  que Dessie reencontrava a solido e o mal 
insuportvel. Tom, por seu lado, na escurido do quarto, sentia-se 
indefeso como uma criana. Ouvia bater o corao, esforava-se 
por no pensar e desviava a ateno para os projectos, para os 
desenhos, para as mquinas.
s vezes, subiam ao alto da colina para contemplarem os 
reflexos do sol nas montanhas e para respirarem a brisa que vi-
nha do Vale. Geralmente, mantinham-se calados e gozavam a paz 
da tardinha. Eram tmidos e nunca falavam de si mesmos. Nada 
sabiam um do outro.
Foi por isso que ambos ficaram admirados quando, certa noi-
te, Dessie exclamou de sbito:
- Porque  que tu no te casas, Tom?
Ele olhou para a irm e, depois, desviou a vista: 
- Quem  que me havia de querer? 
- Ests a brincar ou pensas isso a srio?
- Quem  que me havia de querer? - repetiu ele. - Quem 
que havia de querer uma pessoa como eu?
- Tu pareces-me sincero! - disse ela, alarmada. 
E resolveu violar logo a mtua conveno: 
- J estiveste apaixonado?
- No.
- Eu queria saber - disse ela, como se no o tivesse ouvi-
do.
Desceram em silncio para o rancho mas, diante da porta, 
Tom disse subitamente:
- Tu aborreces-te aqui, tu no queres c ficar.
Aguardou um instante, e depois:
- Responde, anda.  verdade, no ?
- Estou melhor aqui do que em qualquer outro stio. 
A seguir, ela perguntou:
- Costumas ir ver as mulheres? 
- Costumo.
- E sentes-te melhor, depois? 
- Nem por isso.
- Ento, que tencionas fazer? 
- No sei.
Entraram silenciosamente em casa. Tom acendeu o candeeiro
da velha sala. O canap que ele tinha consertado estava encostado
 parede e, entre as portas, os passos haviam pudo o tapete. 
Tom sentou-se ao lado da mesa redonda e Dessie no canap.
Viu que o irmo ainda estava embaraado com a ltima frase que
pronunciara, e pensou: Como ele  puro, como  incapaz de vi-
ver num mundo que eu prpria conheo melhor do que ele.  No
passava dum destruidor de drages, dum salvador de donzelas
em perigo, e os pecados pareciam-lhe to grandes que se sentia
indigno. Dessie desejou que o pai estivesse ali; ele soubera des-
cobrir a grandeza existente em Tom e talvez tivesse sabido liber-
t-la e dar-lhe asas. Dessie procurou outro meio de atear uma
aparncia de chama.
- J que estamos a falar de ns, j alguma vez pensaste
que o nosso horizonte  limitado pelo Vale, que nunca de c sa-
mos seno para ir a San Francisco ou a San Lus Obispo?
-  verdade - disse Tom. 
- No achas ridculo? 
- No somos s ns.
- No  razo. Podamos ir a Paris, a Roma, a Jerusalm.
Eu gostava tanto de ver o Coliseu.
Tom deitou-lhe um olhar suspeitoso, desconfiando de alguma
partida.
- Como havia de ser?  preciso muito dinheiro para isso. 
- No me parece - disse ela.- Ns no temos preciso de
ir para os places. Podamos viajar nos barcos menos caros e
nas classes mais baratas. Foi assim que o pai veio da Irlanda. At
podamos ir  Irlanda.

Ele mantinha-se na defensiva, mas surgira-lhe uma chama no 
olhar.
Dessie prosseguiu:
- Podamos trabalhar durante um ano, e economizar todos os 
tostes. Eu posso fazer costura em King City. O Will ajudava-nos. 
Chegado o Vero, vendamos o gado e amo-nos embora. No te-
mos nada que nos prenda.
Tom levantou-se e saiu. Ergueu os olhos para as estrelas de 
Vero, Vnus a azul e Marte a vermelha. Tinha as mos pendentes; 
abriu-as e fechou-as vrias vezes. Depois, tornou a entrar em casa. 
Dessie no se movera.
- Tu ests realmente disposta a partir, Dessie? 
-  o que mais desejo.
- Ento, partiremos.
- E tu, queres ir?
-  o que mais desejo - disse ele. - O Egipto... j pensaste 
no Egipto?
- Atenas - disse ela.
- Constantinopla.
- Belm.
- Belm, pois. (E Tom acrescentou logo a seguir): - Vai-te 
deitar, anda. Temos um ano de trabalho  nossa frente. Vai des-
cansar. Eu vou pedir dinheiro emprestado ao Will para comprar um 
cento de leites.
- E com que  que os vais engordar?
- Com bolota - disse Tom.- Vou inventar uma mquina de 
apanhar bolota.
Assim que ficou s no quarto, Tom ps-se a andar dum lado 
para o outro e a falar em voz baixa. Dessie debruou-se  janela e 
contemplou a noite estrelada. Sentia-se feliz mas perguntava a si 
mesma se ela e o irmo tinham realmente vontade de partir. Esta-
va entregue a estas reflexes quando surgiram os primeiros sinto-
mas da pontada.
Quando se levantou no dia seguinte de manh, Tom j estava 
sentado diante da prancha de desenho, resmungando e dando 
punhadas na testa. Dessie espreitou por cima do ombro do irmo.
-  a mquina de apanhar bolotas?
- No custava nada a fazer - afirmou Tom - se no fosse a
questo de evitar que apanhasse tambm os ramos e os calhaus.
- Eu bem sei que tu  que s o inventor, mas eu j inventei. O 
melhor apanhador de bolotas do mundo, e est pronto a funcionar.
- Que queres tu dizer?
- A crianada - respondeu ela. - Todas essas mozinhas 
que no podem estar quietas.
- No fariam isso, nem que lhes pagassem.
- Fariam, se houvesse prmios a ganhar. Haver prmios para 
todos e um grande prmio no valor de cem dlares para o vencedor. 
No ficava uma bolota no Vale. Queres que experimente?
Tom coou a cabea.
- Porque no? Mas como  que reunamos a colheita?
- A miudagem trazia tudo para aqui - disse Dessie. - Deixa 
o caso comigo. Espero que os celeiros tenham espao que che-
gue.
- Tu queres explorar a mocidade?
- Claro que quero! Quando tinha a loja, explorava as raparigas 
que queriam aprender costura, mas elas tambm me exploravam. 
Parece-me que vou pr-lhe o nome de Grande Concurso de Apanha 
de Bolotas do Condado de Monterey. E no vou autorizar toda a 
gente a participar. Talvez pudssemos oferecer bicicletas como 
prmio? Tu no apanhavas bolota se tivesses a esperana de ganhar 
uma bicicleta, Tom?
- Ai no, que no apanhava! - respondeu ele.- Mas ns 
no podamos pagar-lhes tambm?
- Com dinheiro, no - disse Dessie.-O divertimento trans-
formava-se em trabalho e toda a gente se esquiva ao trabalho, 
quando pode. At eu.
Tom endireitou-se e riu.
-  como eu. Bom. Tu encarregas-te das bolotas e eu encar-
rego-me dos porcos.
Dessie disse:
- Tom, no achas que teria piada se acabssemos por ga-
nhar dinheiro?
- Tu no ganhaste em Salinas?
- No ganhei muito, mas promessas no me faltavam. Se 
me tivessem pago todas as contas, no precisaramos dos porcos 
e poderamos partir para Paris amanh mesmo.
- Vou estar com o Will - disse Tom. (Afastou a cadeira e 
largou a prancha de desenho.) - Queres vir comigo?
- No, preciso de fazer os preparativos para o Grande Con-
curso de Apanha de Bolotas.


2

De regresso ao rancho, j no fim da tarde, Tom vinha triste e 
deprimido. Como de costume, Will despejara-lhe um balde de gua 
fria no entusiasmo. Will escutara-o beliscando o lbio, esfregando 
as plpebras e coando o nariz; depois, limpara os culos e perde-
ra um tempo infinito a cortar e a acender um charuto. O negcio 
dos porcos tinha muitos pontos vulnerveis e Will pusera-os logo a 
todos em evidncia.
Quanto ao Concurso de Apanha de Bolotas, estava votado a 
um malogro completo, mas Will no explicou porqu. Todo o pro-
jecto se mostrava vacilante, principalmente nos tempos que cor-
riam. O mais que Will podia prometer era voltar a pensar no as-
sunto.
A certa altura da conversa, Tom sentiu vontade de lhe expor 
os seus planos de viagem, mas acabou por desistir. Para Will, a 
ideia de se ir vadiar para a Europa, a no ser, evidentemente, que 
uma pessoa se tivesse retirado dos negcios com um bom ren-
dimento, teria constitudo uma loucura dez vezes mais perigosa do 
que o negcio dos porcos. Tom no disse nada e deixou Will para 
que voltasse a pensar no assunto, sabendo de antemo que o 
veredicto seria contrrio aos porcos e s bolotas.
O pobre Tom no sabia, e era incapaz de aprender, que a 
dissimulao  uma das alegrias criadoras do homem de negci-
os. Mostrar entusiasmo teria sido ridculo. Will tencionava, real-
mente, voltar a pensar no assunto, pois sentia-se fascinado por 
uma parte do projecto. O Tom descobrira uma coisa interessante. 
Comprar leites a crdito, engord-los com um alimento que no 
custava quase nada, vend-los, reembolsar o emprstimo e guar-
dar os lucros: no havia dvida, tratava-se duma rica operao. Will
no tencionava roubar o irmo, pois estava disposto a dar-lhe uma 
parte dos lucros. Mas o Tom era um sonhador em quem no se 
podia confiar para pr de p um negcio slido. Entre outras coi-
sas, ele ignorava o preo de venda da carne de porco. Se o projecto 
se realizasse, Will estava disposto a oferecer ao Tom um belo pre-
sente, talvez at um Ford. E porque no propor um Ford como nico 
e primeiro prmio do concurso? Todo o Vale se atiraria s bolotas.
Conduzindo o cabriol pelas colinas, Tom pensava na maneira 
de dizer  Dessie que o projecto no era vivel. Se ao menos tivesse 
qualquer outra coisa para sugerir em seu lugar... Como se poderia 
ganhar num ano o dinheiro suficiente para ir  Europa? Subitamente, 
verificou que nem sequer sabia de quanto dinheiro precisavam. 
Ignorava o preo das passagens martimas e de todas as outras 
despesas. O melhor que tinham a fazer era passarem o sero a 
fazer as contas.
Tom esperava que Dessie viesse a correr ao seu encontro. 
Preparou-se, portanto, para disfarar a desiluso e para dizer uma 
graa. Mas Dessie no saiu de casa. Deve estar a descansar, 
pensou. Deu de beber aos cavalos, levou-os para a estrebaria e 
preparou-lhes a rao de aveia.
Quando Tom entrou, Dessie estava estendida no canap.
- Ests a passar pelas brasas? - (E, ao ver-lhe a cor da 
cara):- Mas que tens tu?
Ela juntou todas as foras de que dispunha. 
- Di-me o estmago.
- Ah! bem - disse Tom.- Credo! que susto me meteste! 
Para isso posso eu arranjar o remdio.
Foi  cozinha e voltou com um copo cheio dum liquido efer-
vescente que estendeu  irm.
- O que  isto, Tom?
-  a velha receita da famlia. Os sais so um pouco vio-
lentos, mas fazem-te bem.
Dessie bebeu e fez uma careta.
- Recordo-me deste gosto, era o remdio que a mam cos-
tumava usar na poca das mas verdes.
- Agora, estende-te  vontade - disse Tom. - Eu vou fazer o 
jantar.
Ela ouviu-o s voltas na cozinha. As dores consumiam-na. Ti-
nha medo. O remdio queimava-lhe o estmago. Arrastou-se at  
nova retrete com autoclismo e tentou vomitar. O suor escorria-lhe 
pela testa e causava-lhe ardor nos olhos. Quis levantar-se, mas os 
msculos do abdmen estavam contrados. Encolhendo-se toda, 
voltou a deitar-se.
Quando Tom trouxe um prato com ovos mexidos, ela abanou a 
cabea.
- Obrigada - disse. - Prefiro ir-me deitar.
- Os sais devem estar quase a produzir efeito - garantiu
Tom. - Vais sentir-te melhor. - (Ajudou-a a deitar-se.) - Que ters
tu comido que te fizesse mal?
Dessie, deitada em cima da cama, lutava com todas as foras 
para dominar a dor, mas, por volta das dez horas, deixou-se vencer 
e gritou:
- Tom! Tom! - (Ele abriu a porta. Numa das mos, segurava
o World Almanac. ) - Tom, desculpa, mas no posso aguentar mais. 
Ele sentou-se  beira da cama, na semiobscuridade. 
- Di-te assim tanto?
-  horrvel!
- Queres vomitar?
- No posso.
- Vou buscar um candeeiro e ficar ao p de ti. Talvez con-
sigas adormecer. Amanh de manh j no tens nada.  s dar 
tempo aos sais para agirem.
A fora de vontade voltou a prevalecer e Dessie tentou man-
ter-se calma enquanto Tom lhe lia passagens do Almanac. Sus-
pendeu a leitura quando julgou que ela tivesse adormecido e dei-
xou-se amodorrar na cadeira.
Foi acordado por um grito. Aproximou-se dos lenis sob os 
quais o corpo se debatia. Dessie tinha os olhos baos, desvaira-
dos, como os dum cavalo enraivecido. O rosto estava arroxeado e 
a espuma irrompia-lhe da boca. Tom meteu a mo debaixo da 
roupa e sentiu os msculos retesados, duros como pedras. De 
sbito, ela aquietou-se. A cabea caiu para o lado e os olhos semi-
cerrados brilharam  luz do candeeiro.
Tom no perdeu tempo a selar o cavalo e ps-lhe apenas as 
rdeas. Partiu a galope, arrancando o cinto com a mo para chi-
cotear o animal assustado.
Os Duncan, que dormiam na casa de dois pisos  beira da 
estrada municipal, no ouviram as pancadas  porta, mas ouviram 
o estrondo formidvel que ela fez ao ser arrancada com gonzos e 
ferrolhos. Quando Red Duncan desceu armado de espingarda, 
deparou com Tom a berrar no telefone de parede para a central de 
King City.
-O Dr. Tilson! Procurem-no! Quero l saber! Procurem-no!
Red Duncan apontava-lhe a espingarda a bocejar.
O Dr. Tilson respondeu: J sei, j sei,  o Tom Hamilton. O 
que  que ela tem? Tem a barriga muito dura? Que foi que fez? 
Sais! Masque grande besta!
O mdico acabou por dominar a fria. Tom, Tom, meu rapaz, 
veja se se acalma. Volte para casa e aplique-lhe compressas frias, 
o mais frias que puder. No tm gelo, pois no? Est bera, v 
mudando as compressas. Eu vou j a correr. Est-me a ouvir? Tom, 
est a ouvir?
Desligou o aparelho e vestiu-se. Furioso e desanimado, abriu 
um armrio e foi tirando escalpelos, pinas, esponjas e fio de su-
tura. Abanou o petromax para ver se estava cheio e guardou na 
maleta um frasco de ter e uma mscara. A mulher, de camisa e 
barrete de dormir, entrou na sala. O Dr. Tilson disse-lhe:
- Vou  garagem. Telefona ao Will Hamilton e diz-lhe que 
preciso que me v levar ao rancho do pai. Se ele comear a dis-
cutir, diz-lhe que a irm est a morrer.


3

Tom voltou ao rancho uma semana aps o enterro da irm. 
Cavalgava muito empertigado na sela, com a cabea erguida e o 
olhar fixo, como um guarda num desfile. Tom fizera tudo devagar 
e com perfeio. O cavalo fora almofadado, e escovado; o chapu 
Stetson repousava-lhe dignamente na cabea. Nem o prprio 
Samuel teria sido capaz de tanta dignidade. Um falco, que picava 
como uma flecha sobre uma galinha, nem sequer lhe fez voltar a 
cabea.

Chegado a casa, apeou-se, deu de beber ao cavalo, prendeu-o 
e ps cevada na manjedoura. Em seguida, tirou-lhe a sela e virou a 
manta ao contrrio para que secasse. Quando o cavalo acabou de 
comer, Tom levou-o para fora e soltou-o, para que pastasse  vonta-
de pelos prados do mundo.
Em casa, os mveis, as cadeiras, o fogo pareceram recuar 
quando o viram. Um banco afastou-se dele quando entrou na sala. 
Os fsforos estavam molhados e foi com uma sensao de ver-
gonha que se dirigiu  cozinha para procurar outros. S o candeeiro 
da sala parecia amistoso. Ao primeiro fsforo, a torcida inflamou-se 
e espalhou uma bela claridade.
Tom sentou-se e olhou em torno, evitando reparar no canap. 
Um ligeiro rudo de ratos na cozinha fez-lhe virar a cabea e viu na 
parede uma sombra com um chapu na cabea. Tirou-o.
Sentado sob o candeeiro, deixou vaguear o esprito, mas sabia 
que iam chamar pelo seu nome e que teria de sentar-se no banco 
da infmia, para ser julgado por si prprio, perante o jri dos seus 
crimes.
Uma voz estridente apregoou o seu nome. Tom aproximou-se 
dos acusadores: a Vaidade - ele andava mal vestido, sujo, e era 
ordinrio; o Desejo - ele dera dinheiro s prostitutas; a Desones-
tidade - ele dera a entender que tinha talento; a Preguia e a Gula, 
de brao dado. Mas Tom sentia-se reconfortado porque os acusa-
dores ocultavam o maior de todos os seus crimes, sentado l no 
fundo  espera. Desesperado, fazia apelo aos pecados menores, 
como se fossem virtudes que o pudessem salvar: a Inveja - Will e 
o seu dinheiro; a Traio - ao Deus da sua me; o Roubo - do 
tempo e da esperana.
A voz ponderada de Samuel encheu a sala. S bom, s puro, 
s grande, s Tom Hamilton.
Mas Tom no fez caso do pai e disse: Preciso de receber os 
meus amigos. E cumprimentou com a cabea a Indelicadeza e a 
Fealdade, e o Mau Amor Filial, e as Unhas Sujas. Depois, voltou  
Vaidade. Nessa altura, o maior de todos os crimes abriu passa-
gem e acercou-se. J era demasiado tarde para se esconder atrs 
dos pecados menores. O maior de todos os crimes era o Assassi-
nato.
Tom sentiu o vidro frio na palma da mo e viu o liquido eferves-
cente e os cristais que se dissolviam rodopiando, e as bolhas de ar 
que subiam e repetiu em voz alta na sala vazia, vazia: Os sais so 
um pouco violentos, mas fazem-te bem. Era o que ele tinha dito. E 
as paredes e as cadeiras e o candeeiro tinham-no ouvido e estavam 
ali para testemunhar. J no havia  face da terra um s stio onde 
Tom Hamilton pudesse viver. No se poupara a canseiras para des-
cobri-lo, virara todas as possibilidades como se fossem cartas de 
jogar. Londres? No. O Egipto? H pirmides no Egipto, e a Esfin-
ge. No. Paris? No. No entanto, dizem que por l se cultiva o 
pecado. No. Bom, tentemos outra coisa. Belm? Por amor de 
Deus, no! Um estranho deve sentir- -se l muito s.
Custa muito recordar quando e como se morre. Uma sobran-
celha que se ergue, um murmrio, talvez seja isso. Ou uma noite 
confusa, um fervilhar de chumbo derretido que descobre o segredo 
do ser e se injecta nas veias.
Tom Hamilton tinha morrido e s lhe restavam algumas coi-
sinhas decentes a fazer para que tudo ficasse arrumado.
O canap emitiu um estalido de crtica. Tom olhou para ele e 
para o candeeiro fumarento a que o canap se tinha querido refe-
rir. Obrigado, disse Tom ao canap. No tinha reparado. E bai-
xou a torcida para que o candeeiro no deitasse fumo.
A mente de Tom ps-se a dormitar. O Assassinato esbofe-
teou-o para o acordar. Tom, o sanguinolento Tom, estava muito 
cansado para se matar.  um acto que exige deciso e que talvez 
cause algum sofrimento e a ida para o Inferno.
Lembrou-se de que a me nutria uma profunda repugnncia 
pelo suicdio, sntese das trs coisas que ela desaprovava com 
mais violncia: a m educao, a covardia e o pecado. Era quase 
to pavoroso como o adultrio ou o roubo, talvez at mais pavo-
roso. Devia haver uma maneira de evitar a desaprovao de Lizza.
J Samuel no estranharia tanto. Mas tambm no se podia 
evitar Samuel, pois ele enchia o espao. Tom tinha portanto de lhe 
dizer.: Desculpa, pai. A culpa no  minha. Tu  que me deste 
sempre mais valor do que eu merecia, tu  que te enganaste. 
Gostaria de poder justificar o amor e o orgulho que em mim depo-
sitaste. Talvez tu conseguisses achar uma soluo. Eu no consi-
go. j no posso viver. Matei a Dessie e quero dormir.
E o seu esprito respondeu pelo pai ausente: Compreendo
muito bem, meu filho. H tantas maneiras de regressar  terra. Mas 
temos de ver como te havemos de arranjar as coisas com a tua me. 
Porque ests tu to impaciente?
 porque j no posso esperar mais, disse Tom.  s por 
isso, por no poder esperar mais.
Podes, sim, meu filho, meu querido filho. J cresceste como 
eu tinha previsto, a  que est. Abre a gaveta da mesa e utiliza 
esse nabo a que chamas a tua cabea.
Tom abriu a gaveta e viu um bloco de papel de linho, envelopes 
a condizer, dois lpis rodos e alguns selos a um canto. Ps o 
bloco em cima da mesa e aparou os lpis com o canivete.
Em seguida, escreveu:

Minha querida mam, desejo que estejas passando 
bem. Vou ver se consigo passar mais tempo junto de ti. A 
Olive convidou-me para a festa da Aco de Graas e eu 
prometo-te que irei. A nossa Olive sabe assar perus to bem 
como tu, mas tu nunca hs-de dar o brao a torcer. Acabo 
de aproveitar uma pechincha. Comprei um cavalo por quinze 
dlares. No lhe falta nada e parece mesmo um puro-san-
gue. Saiu-me barato por ser um animal que no gosta das 
pessoas. O primeiro dono passou mais tempo no cho do 
que em cima dele. Devo confessar que  bastante mau. J 
atirou comigo a terra duas vezes, mas eu sou teimoso e, se 
conseguir domestic-lo, ficarei comum dos melhores cava-
los do condado. E garanto-te que hei-de dom-lo, nem que 
tenha de perder todo o Inverno. No percebi ainda bem por-
que  que me encarnio tanto, mas talvez seja por causa 
duma coisa engraada que me disse o homem que o ven-
deu: Este cavalo  to mau que era capaz de comer o cava-
leiro.  Lembras-te do que o pap dizia quando costumva-
mos ir  caa? Volta com o teu escudo ou deitado nele.  
Portanto, at ao Dia de Aco de Graas. Teu filho, Tom.

Perguntou a si mesmo se aquilo chegaria, mas sentia-se muito 
cansado para recomear e apenas acrescentou:

P. S. - Parece que o Polly continua muito ordinrio.
Esse papagaio at me faz corar de vergonha. 
Noutra folha de papel escreveu:

Caro Will, podes pensar tudo o que quiseres, mas peo-
-te que me ajudes. Peo-te, por amor da nossa me. Eu fui 
morto por um cavalo - deitou-me ao cho e espezinhou-
-me. Suplico-te... Teu irmo,
Tom.

Selou os envelopes, meteu-os no bolso e, depois, perguntou a 
Samuel: Est bem assim?
No quarto, abriu uma caixa nova de balas, introduziu uma no 
tambor do seu Smith & Wesson 38 e rodou-o de forma que a cma-
ra carregada ficasse um furo  esquerda do detonador.
O cavalo esperava-o junto  cerca e apareceu logo que lhe 
assobiou. Tom selou-o.
Eram trs da manh quando Tom ps as cartas no correio de 
King City. Em seguida, fez rumo ao Sul, s colinas ridas dos Ha-
milton.
Tom era um galante cavaleiro.





QUARTA PARTE



CAPTULO XXXIV


Uma criana poder perguntar: Qual ser a histria do mun-
do? Um adulto interrogar-se-:  Que direco tomar o mundo? 
Qual ser o seu fim e - enquanto c estivermos - qual ser a sua 
histria?
H um conflito, um s, que sempre nos aterrorizou e nos inspi-
ra. Ns vivemos um folhetim em que cada episdio se assemelha 
ao precedente e em que a resposta  sempre a mesma: continua 
no prximo nmero. Os Humanos so apanhados - nas suas 
vidas, nos seus pensamentos, nos seus apetites e nas suas ambi-
es, na sua avareza e na sua crueldade, assim como na sua 
generosidade e na sua bondade - nas redes do bem e do mal.  a 
sua histria, a nossa, uma histria que se repete em todos os 
domnios dos sentidos e da inteligncia. A virtude e o vcio formaram 
a trama e o fio da nossa primitiva conscincia e ho-de formar o 
material da nossa derradeira conscincia, apesar de todas as mo-
dificaes que infligirmos  terra, aos seus rios e s suas serras,  
sua economia e aos seus costumes. Depois de se ter desem-
baraado do p e dos gravetos da sua vida, o homem ter sempre 
de enfrentar esta pergunta, dura e destituda de ambiguidade: 
Pratiquei o bem ou o mal? Agi bem ou mal?
Herdoto descreve, nas Guerras Prsicas, a maneira como 
Creso, o rei mais rico e mais privilegiado do seu tempo, fez a Slon 
de Atenas uma pergunta capital. Ele no teria feito a pergunta, se 
a resposta no o preocupasse: Quem, perguntou,  o homem 
mais feliz do mundo? Ele devia estar sequioso de obter uma cer-
teza. Slon citou-lhe os nomes de trs homens que tinham sido 
felizes no passado  mais do que certo que Creso nem sequer o 
escutou, pois o nico nome que ansiava ouvir era o seu. Por isso, 
quando viu que Slon no o mencionava, Creso, sentiu-se obrigado 
a perguntar: Ento no me consideras um dos afortunados?
Slon respondeu sem hesitar: Como te posso responder se 
ainda no morreste?
Tal resposta deve ter obcecado Creso quando viu desapa-
recer a felicidade, as riquezas e o seu reino. E ao subir  fogueira, 
evocou o nome de Slon, compreendendo a verdade da resposta e 
a inutilidade da pergunta feita.
Na nossa era, se morre um homem que possua fortuna, in-
fluncia, poderio e todos os demais atributos que despertam a inveja, 
e se os vivos fazem o inventrio da vida desse homem, logo surge 
naturalmente a pergunta: A sua vida foi boa ou foi m?, o que 
consiste em dar outra frmula  pergunta de Creso. Morta a inveja, 
o padro usado  o seguinte: Foi amado ou odiado? A sua morte 
foi uma perda, ou s  motivo de jbilo?
Lembro-me perfeitamente da morte de trs homens. O pri-
meiro era o homem mais rico do seu sculo. O caminho para a 
fortuna abrira-o ele espezinhando as almas e os corpos, mas pas-
sara numerosos anos tentando resgatar o amor que trara. Pres-
tara, assim, enormes servios  humanidade e talvez tivesse feito 
pender a balana para o bom lado. Eu andava no mar quando ele 
morreu e a notcia foi inserida no boletim de bordo. Quase toda a 
gente a recebeu com prazer e numerosos foram os que disseram: 
Graas a Deus, aquele filho da me j morreu.
O segundo, esperto como o diabo, ignorava a dignidade hu-
mana e conhecia bem de mais as fraquezas e as perversidades 
do homem, utilizando-se de toda a sua cincia para perverter, com-
prar, corromper, ameaar e seduzir, at que alcanou o poder, 
dissimulando os verdadeiros objectivos sob a capa da virtude. 
Perguntei a mim mesmo se ele saberia que no h presente que 
consiga comprar o amor dum homem cujo amor-prprio foi ferido. 
O corrompido s pode odiar o seu corruptor. Quando esse ho-
mem morreu, toda a nao lhe fez o elogio mas, ao mesmo tem-
po, suspirou de alvio.
O terceiro talvez tenha praticado numerosos erros, mas vo-
tou toda a vida ao servio do homem, a transmitir-lhe coragem, 
dignidade e bondade, numa poca em que o homem tinha medo e 
em que as foras do mal se tinham desencadeado no mundo para 
explorar os terrores do homem. Quando morreu, o povo chorou nas 
ruas e soltou este grito: Que iremos fazer agora? Como pode-
remos viver sem ele?
No meio de tanta incerteza h uma coisa de que tenho a cer-
teza: sob as mais espessas camadas da sua fragilidade, os ho-
mens desejam ser bons e querem ser amados. Se enveredam pelo 
vcio  porque julgaram ter tomado por um atalho que os levaria ao 
amor. Quando um homem chega s portas da morte, pouco im-
portam o seu talento, o seu poder ou o seu gnio. Se morrer odiado, 
a sua vida foi um malogro e a morte um glido horror.
Creio que, se qualquer de ns tiver de escolher entre dois cami-
nhos, de pensamento ou aco, o dever fazer sempre tendo a 
morte em vista e procurando viver de forma que essa mesma morte 
no possa constituir um prazer para ningum.
Ns s temos uma histria. Todos os romances e todos os 
poemas se baseiam na luta incessante travada dentro de ns pe-
las foras do bem e do mal. O mal tem de ser constantemente 
ressuscitado, enquanto que o bem e a virtude so imortais. O vcio 
oferece sempre um semblante jovem e cheio de frescura, enquanto 
que a virtude  o que de mais venervel existe no mundo.



CAPTULO XXXV


Lee ajudou Adam e os gmeos a mudarem-se para Salinas, o 
que significa que foi ele quem fez todo o trabalho. Acondicionou 
tudo o que tinha de ser levado, foi pr os volumes no comboio, 
empilhou as malas no assento traseiro do Ford, desembrulhou 
tudo quando chegaram a Salinas e instalou a famlia na casinha 
de Dessie. S depois de ter dado os passos necessrios para que 
ficassem confortavelmente instalados  que pediu, certa noite, uma 
audincia a Adam, depois de os gmeos se terem ido deitar. Adam 
deve ter compreendido logo do que se tratava ao ver o ar compas-
sado de Lee.
- J esperava por isso - disse Adam.- Diga ento l de 
sua justia.
Este intrito tornou intil o discurso que Lee preparara e que 
comeava assim: Durante muitos anos, tenho-o servido o me-
lhor que me tem sido possvel e, hoje...
- Tenho adiado esta ocasio o mais possvel - disse Lee. 
- At preparei um discurso. Quer ouvi-lo? 
- Apetece-lhe diz-lo?
- No - disse Lee -, mas olhe que era um belo discurso. 
- Quando deseja abalar? - perguntou Adam.
- Assim que puder. Receio fraquejar-me o nimo se no o
fizer j. Prefere que espere at que tenha encontrado um subs-
tituto?
- No - disse Adam -, bem sabe como sou vagaroso. Podia 
levar muito tempo e era at capaz de nunca me resolver a isso.
- Nesse caso, vou-me embora amanh.
- Isso vai custar muito aos rapazes - disse Adam. - No 
sei o que ser deles. Talvez seja melhor ir-se embora sem lhes 
dizer nada. Eu depois logo lhes dava a notcia.
- As reaces das crianas so sempre surpreendentes - 
observou Lee.
E foram-no. Na manh do dia seguinte, ao pequeno almoo, 
Adam disse:
- Meus filhos, o Lee vai-se embora.
- Ah! sim? - volveu Cal.- Esta tarde h um desafio de
bsquete. A entrada custa dez cntimos. Podemos ir?
- Podem. Mas no ouviram o que eu lhes disse?
- Claro que ouvimos - respondeu Aron. - Disseste que o
Lee se ia embora.
- Ele j no volta.
- Para onde vai?- perguntou Cal.
- Vai viver para San Francisco.
- Ah! - exclamou Aron. - H um homem  esquina da rua 
que tem um fogareiro onde coze salsichas e depois mete-as num 
papo-seco. Custa um cntimo e pode-se pr a mostarda que nos 
apetecer.
Na cozinha, Lee sorriu a Adam.
Assim que os gmeos pegaram nos livros para irem para a 
escola, Lee disse-lhes:
- Ento, adeus, meninos.
Eles gritaram adeus e correram para a rua.
Adam mergulhou a cabea na chvena e disse como que a 
desculpar-se:
- Mas que brutinhos! Aqui tem a recompensa de dez anos 
de servios.
- Foi melhor assim - disse Lee. - Se eles tivessem fingido 
um grande desgosto, no teria acreditado. Eu nada represento para 
eles. Talvez venham a pensar algumas vezes em mim sem nada 
dizerem. E eu no quero que eles fiquem tristes. Espero no ter a 
alma suficientemente mesquinha para desejar deixar um vazio. - 
Lee colocou uma moeda de cinquenta cntimos em cima da mesa, 
ao lado de Adam.) - Quando eles forem esta tarde ao bsquete, 
d-lhes isto da minha parte e diga-lhes que comprem salsichas.
Talvez o meu presente de despedida lhes provoque uma dor de 
barriga.
Adam olhou para o grande cesto que Lee trouxera para a sala. 
-  essa toda a sua bagagem, Lee?
- Toda, excepto os livros. Esses ficaram encaixotados na 
cave. Se no lhe fizer diferena, mand-los-ei buscar ou virei eu 
mesmo depois de estar devidamente instalado.
- Ora essa, faa o que quiser. Vai fazer-me muita falta, Lee, 
quer queira quer no. Tenciona realmente abrir uma livraria?
-  o que tenciono fazer.
- No se esquece de me dar notcias suas?
- No sei. Terei de pensar nisso. Dizem que uma ferida pro-
funda se cura mais depressa. Acho que no h nada mais triste do 
que uma amizade que apenas se mantm graas  cola dos selos. 
Quando j se no pode ver, ouvir ou tocar num homem, mais vale 
cortar as amarras.
Adam levantou-se.
- Vou acompanh-lo  estao.
- No - disse Lee com vigor. - No, de forma nenhuma. 
Adeus, Sr. Trask, adeus, Adam.
Saiu to depressa de casa, que o adeus de Adam apa-
nhou-o nos degraus da entrada e o escreva-nos j foi abafado 
pelo rudo da porta que se fechava.
Depois do jogo de bsquete, Cal e Aron comeram cada um
deles cinco salsichas e foi quanto ganharam, pois Adam esque-
cera-se de fazer o jantar. Quando voltaram a casa, os gmeos
falaram pela primeira vez na partida de Lee.
- Gostava de saber porque se foi ele embora - disse Cal. 
- Ele j tinha prevenido que se ia embora. 
- Que achas que vai ser dele sem ns? 
- No sei. Aposto que ainda volta - disse Aron.
- Que ests tu para a a dizer? - O pap contou-nos que
ele ia abrir uma livraria. Deve ser pndego, uma livraria chinesa. 
- Vais ver que volta - disse Aron.- H-de ter saudades
nossas.
- Aposto dez cntimos que no volta. 
- At quando?
- Nunca mais.
- Apostado - anuiu Aron.
Aron teve de esperar exactamente um ms e seis dias para 
ganhar a aposta.
Lee chegou no comboio das dez e quarenta e entrou em casa 
com a chave prpria. Havia luz na casa de jantar, mas Lee foi dar 
com Adam na cozinha, entretido a raspar com um abre-latas uma 
crosta escura no fundo duma frigideira.
Lee largou o cesto.
- Tem de se deixar de molho toda a noite - explicou ele.
- Ah! sim? Tenho queimado a comida toda. H um tacho de 
beterrabas no jardim. Cheirava to mal que toda a casa tresandava. 
No h coisa pior... Lee! - exclamou ele. (Depois):- Que foi que 
houve, Lee?
Lee tirou a frigideira das mos de Adam, meteu-a no lava-loia 
e encheu-a de gua.
- Se tivssemos um desses novos foges de gs, poda-
mos fazer caf num instante - disse ele. - Vou acender o lume.
- O fogo no acende - disse Adam.
Lee examinou o fogo.
- Tem despejado as cinzas?
- Que cinzas?
- Ah! - exclamou Lee. - V para a sala enquanto eu fao o 
caf.
Adam aguardou impacientemente, mas no desobedeceu. Da 
a pouco, Lee ps duas chvenas de caf em cima da mesa.
- Fi-lo num fogareiro para demorar menos. - (Inclinou-se 
para o cesto, desfez os ns e tirou a botija de pedra.) - Absinto 
chins - disse ele.- O ng-ka-py talvez ainda me dure dez anos. 
Esqueci-me de lhe perguntar se tinha arranjado um substituto.
- Deixe-se de rodeios - disse Adam.
- Tem razo. Eu tambm sei que o melhor  irmos direito ao 
assunto e livrar-nos dele.
- Perdeu o seu dinheiro no jogo do fan-tan?
- No. Antes fosse assim. Ainda tenho o dinheiro. A porcaria 
da rolha est partida. Tenho de empurr-la pelo gargalo abaixo. - 
(Deitou um pouco do lquido escuro no caf.) - Nunca o tinha 
bebido desta maneira - disse ele. - No  nada mau.
- Sabe a mas podres - disse Adam.
- Pois sabe, mas lembre-se de que o Sam Hamilton costu-
mava dizer que era um gosto de boas mas podres.
- Quando tenciona dizer-me o que lhe aconteceu?
- No me aconteceu nada - disse Lee. - Apenas me senti 
s. No acha que chega?
- E a sua livraria?
- No me interessa. Creio que j o sabia antes de subir para 
o comboio, mas queria ter a certeza.
-  o seu ltimo sonho que se vai por gua abaixo...
- Deix-lo ir! - (Lee parecia atacado de histeria.) - Sinh
Tlask, palece que cliado china vai apanh uma bebedeila. 
Adam ficou alarmado.
- Mas afinal o que  que voc tem, Lee?
O chins levou a garrafa  boca, emborcou uma grande golada 
e soprou o ardor que sentia na garganta.
- Adam - disse ele -, sinto-me incomparavelmente, incri-
velmente, terrivelmente feliz por ter voltado. Nunca na minha vida 
passei por uma solido to estuporada.




CAPTULO XXXVI

1

Salinas tinha duas escolas secundrias, enormes edifcios ama-
relos com altas janelas severas e portas sorumbticas. Chamavam-
-lhes respectivamente East End e West End. Da primeira no falarei 
por ficar muito longe, do outro lado da cidade, e s ser frequentada 
pelas crianas que moravam a leste da Main Street.
A West End era constituda por um comprido edifcio que se 
escondia atrs dum renque de salgueiros nodosos e que se er-
guia entre os recreios das raparigas e dos rapazes. A escola era 
prolongada por uma paliada destinada ainda a separar os dois 
sexos. Ao fundo, o recreio era delimitado por um charco onde cres-
ciam juncos e espadanas. A escola de West End leccionava da 
terceira  oitava classe. Os alunos da primeira e da segunda iam  
escola elementar, a pouca distncia dali.
Havia uma aula para cada classe: terceira, quarta e quinta, 
no rs-do-cho; sexta, stima e oitava no primeiro andar. Todas, 
as aulas estavam mobiladas com as clssicas carteiras, um es-
trado com uma grande secretria quadrada para o professor, um 
relgio, e um quadro - assunto da reproduo identificava a clas-
se. A influncia pr-rafaelita era opressiva. Galaaz, enfiado na sua 
armadura, indicava o caminho aos da terceira. Atalanta,  desfila-
da, arrastava os da quarta e assim sucessivamente at Catilina, 
denunciado, que enviava os alunos da oitava classe para a Univer-
sidade, com uma perfeita noo das altas virtudes cvicas.
Cal e Aron foram parar  stima classe por causa da idade, e 
examinaram at aos mnimos pormenores o quadro que a distin-
guia: Laocoonte completamente envolvido pelas serpentes.
Os gmeos ficaram estupefactos com o tamanho do edifcio,
em comparao com a escola rural de aula nica, e profundamente 
impressionados por haver um professor para cada classe. Aquilo 
parecia-lhes um desperdcio. Mas, como era natural, depois de fi-
carem banzados no primeiro dia, mostraram-se admirados no se-
gundo e, ao terceiro, j no davam pela diferena.
A professora era uma bonita morena. Os gmeos estavam 
tranquilos porque Cal tinha inventado um sistema judicioso para 
saber quando deviam ou no levantar a mo.
- Repara na maioria dos midos - disse ele a Aron. - S 
levantam a mo quando sabem a resposta. Quando no sabem, 
escondem-se atrs da carteira. Sabes o que vamos fazer?
- No, o que ?
- A professora no pergunta sempre aos que levantam a mo. 
Em geral, pergunta a outro e ele espalha-se. 
- Tens razo - disse Aron.
- Muito bem. Pois ento, na primeira semana, vamos estudar 
que nem uns danados, mas no levantamos a mo. Ela com certe-
za que nos interroga, mas ns sabemos as respostas. H-de ficar 
admirada. Na segunda semana, - no estudamos nada e levan-
tamos a mo, mas ela no nos interroga. Na terceira semana, no 
nos mexemos e ela h-de ficar sempre sem saber se estudmos 
ou no. At que nos h-de deixar em paz. No deve estar disposta 
a perder o seu tempo fazendo perguntas a quem sabe as respos-
tas.
O mtodo de Cal mostrou ser excelente. Dentro de pouco tem-
po, os gmeos adquiriram uma reputao invejada. Na realidade, o 
sistema era intil, visto os dois rapazes no terem dificuldade ne-
nhuma em aprender.
Cal tornou-se campeo de berlinde e ganhou todos os ber-
lindes e abafadores que rolavam pelo recreio. Terminada a poca 
do berlinde, trocou todos os trofeus ganhos por pies. Chegou a 
possuir quarenta e cinco pies de todos os tamanhos e feitios, 
incluindo algumas peas raras e de estimao.
Quem quer que visse os gmeos notava logo como eram dife-
rentes, o que para toda a gente constitua motivo de espanto. Cal 
estava cada vez mais escuro, tanto de pele como de cabelo. Era 
um rapaz vivo, senhor do seu nariz e pouco demonstrativo. Mes-
mo que quisesse, seria incapaz de esconder a inteligncia. Os
adultos ficavam incomodados e ligeiramente assustados perante 
aquilo a que chamavam uma maturidade precoce. Cal no era mui-
to estimado, mas receavam-no e respeitavam-no. Se bem que no 
tivesse amigos, era sempre acolhido com solicitude pelos colegas 
e ocupava, por direito natural, o lugar de chefe no ptio de recreio.
Se dissimulava a sensibilidade, tambm escondia os desgos-
tos e todos o consideravam um rapaz insensvel, duro e at cruel.
Aron atraa as amizades. Parecia tmido e delicado. A pele 
rosada e branca, os cabelos loiros e os grandes olhos azuis des-
pertavam a ateno. A sua beleza acarretara-lhe alguns inimigos 
no recreio, mas depressa se descobriu que Aron era um comba-
tente rijo, hbil e que desconhecia o medo, especialmente quando 
chorava. A notcia correu de boca em boca e os reis do recreio 
aprenderam a respeit-lo. Aron no tentava dissimular o seu carc-
ter, pois bastava o aspecto fsico para o dissimular. Quando tomava 
uma deciso no havia nada que o demovesse. Era simples e pouco 
verstil. Tinha o corpo to insensvel  dor como o esprito s 
subtilezas.
Cal conhecia o irmo e era capaz de o manobrar provocando-
-lhe o desequilbrio, mas isto s at certo ponto. Cal sabia quando 
devia esquivar-se e fugir. Uma mudana de direco desorientava 
Aron, mas nada mais. Ele traava o seu caminho, seguia-o e no 
via nem se interessava pelo que no fizesse parte do itinerrio. 
Comovia-se muito raramente, mas a valer. O seu rosto anglico 
definia-o e dispensava-o de responsabilidades.


2

No primeiro dia, Aron aguardou com impacincia a hora do 
recreio. Assim que a campainha tocou, dirigiu-se ao ptio das ra-
parigas para falar a Abra. Um bando de raparigas aos berros no 
foi suficiente para o afugentar e tornou-se necessria a interveno 
duma professora para que se fosse juntar aos rapazes.
 hora do almoo, no conseguiu falar com ela, porque o pai 
a foi buscar no cabriol de grandes rodas para a levar para casa.
Aron resolveu esper-la  porta, quando acabaram as aulas.
Abra saiu, rodeadapelas colegas. Resolvera compor uma ati-
tude e fingiu que no via Aron. Ela era a aluna mais bonita, mas  
pouco provvel que Aron o tivesse notado.
O pequeno bando ps-se em marcha. Aron seguia atrs, a 
trs passos de distncia, paciente e nada embaraado com as 
piadas que as midas lhe atiravam de vez em quando. O grupo 
acabou por desfazer-se e Abra, quando chegou  porta branca da 
sua casa, s ia acompanhada por trs colegas. As raparigas medi-
ram Aron dos ps  cabea, soltaram umas risadinhas e prosse-
guiram o seu caminho. Abra entrou em casa.
Aron sentou-se  beira do passeio. Passados alguns minutos, 
a porta de casa abriu-se e Abra surgiu. Atravessou o passeio e 
contemplou Aron.
- Que  que tu queres?
Aron ergueu para ela os seus grandes olhos. 
- Tu no ests noiva?
- Palerma - disse ela.
Ele fez um esforo para se levantar.
- Ainda teremos de esperar muito para nos podermos casar 
- observou ele.
- Quem falou em casamento?
Aron no respondeu. Talvez no tivesse ouvido. Puseram-se 
a andar lado a lado.
Abra avanava com passo firme e seguro, olhando para a 
frente; Aron no afastava os olhos do rosto calmo e meigo, de 
expresso pensativa.
Passaram silenciosamente pela escola elementar. A partir dali 
a rua deixava de ser pavimentada. Abra voltou  direita e envere-
dou por um campo semeado de feno. Os torres de barro preto 
desfaziam-se debaixo dos ps.
Na outra extremidade do campo, erguia-se uma fonte. Ao lado, 
lamuriava um choro, nutrido pela humidade do local.
Abra afastou a cortina de ramadas e entrou na casa de fo-
lhas. Do interior, podia ver-se atravs dos ramos. Reinava uma penum-
bra acolhedora e segura. O sol da tarde enfiava os raios amarelos 
pelos interstcios irrequietos.
Abra sentou-se no cho ou, antes, pareceu enterrar-se no
cho, com a saia aberta em corola. Depois, cruzou as mos em 
cima dos joelhos, como se fosse rezar.
Aron sentou-se ao lado dela.
- Ainda teremos de esperar muito para nos podermos casar 
- repetiu ele.
- Nem tanto como isso - disse Abra. 
- Quem me dera que pudesse ser j.
- Pouco falta - disse Abra.
Aron perguntou:
- Achas que o teu pai dar o consentimento?
Ela nunca tinha pensado nisso. Voltou-se e olhou para Aron. 
- Talvez no precise de lhe pedir.
- E a tua me?
- Deixa l os pais em sossego - disse ela. - Achavam logo 
que no estava bem ou que era esquisito. Tu no s capaz de 
guardar um segredo?
- Est visto que sou. No h como eu para guardar segredos. 
J tenho alguns.
- Ento pe este ao p dos outros.
Aron quebrou um raminho e traou um risco na terra negra. 
- Abra, sabes como  que nascem os meninos? 
- Sei - disse ela. - Quem foi que te explicou?
- Foi o Lee. Ele contou-me tudo. Acho que teremos de espe-
rar muito para poder ter meninos.
Abra sorriu com condescendncia.
- No tanto como tu pensas.
- Um dia, havemos de ter a nossa casa - disse Aron. - 
Entramos, fechamos a porta e ficamos  vontade. Mas ainda falta 
muito tempo.
Abra estendeu a mo e tocou-lhe no brao.
- No te preocupes com o tempo. Isto aqui  como se fosse 
uma casa. Podemos fazer de conta que vivemos aqui, enquanto 
tivermos de esperar. Tu sers o meu marido e poders tratar-me 
por minha mulher.
Aron remexeu os lbios e, depois, pronunciou em voz alta: 
- Minha mulher.
- Assim sempre nos vamos treinando - disse Abra.
O brao de Aron estremeceu sob a mo dela. Abra retirou a
mo e colocou-a em cima do joelho com a palma virada para cima. 
- Enquanto nos vamos treinando, talvez pudssemos fazer 
outra coisa - lembrou Aron, de sbito.
- O qu?
- Talvez tu no gostes disso.
- Mas o que ?
- Podamos fazer de conta que tu s a minha me. 
- Isso no custa nada - disse ela. 
- No te aborrecias?
- No, de forma nenhuma. Queres comear j?
- Est bem - aprovou Aron. - Como  que fazemos? 
- Vou mostrar-te.
Abra comeou a falar em voz mimalha:
- Vem, meu amor. Deita a tua cabecinha nos joelhos da mam. 
Anda, meu filhinho, para a mam te embalar.
Enquanto dizia isto, segurava-lhe na cabea e Aron no se 
conteve, desatando a chorar. Chorou de mansinho e Abra ia-lhe 
fazendo festas na cara e enxugando as lgrimas com a bainha da 
saia.
O Sol desaparecia ao longe, para l de Salinas, e um pssa-
ro ps-se a cantar maravilhosamente no meio do campo dourado. 
No mundo nunca houvera nada to belo como aquilo ali, debaixo 
do choro.
A pouco e pouco foram secando as lgrimas de Aron, dei-
xando-lhe uma sensao de felicidade.
- Meu bebezinho adorado - disse Abra -, anda c que  
para a tua mam te pentear.
Aron endireitou-se e disse com uma certa raiva:
- Eu s costumo chorar quando estou furioso. No percebo 
porque  que chorei.
Abra perguntou:
- Ainda te lembras da tua me?
- No, ela morreu quando eu era muito pequeno. 
- No sabes como ela era?
- No.
- Nunca viste nenhum retrato dela?
- No, j te disse. No temos retrato nenhum. Eu perguntei 
ao Lee e ele disse-me que no havia. Espera, parece-me que foi
antes o Cal quem perguntou ao Lee.
- Quando foi que a tua me morreu?
- Logo depois de o Cal e eu termos nascido. 
- Como se chamava?
- O Lee disse-me que se chamava Cathy. Porque me per-
guntas tudo isso?
- Como era a pele dela? - continuou Abra calmamente. 
- Como?
- Era loira ou morena?
- No sei.
- O teu pai nunca te disse?
- Ns nunca lhe perguntmos.
Abra manteve-se em silncio e Aron ficou inquieto. 
- O que foi? Perdeste a lngua?
Abra contemplava o pr do Sol.
Aron perguntou, extremamente embaraado:
- Ficaste zangada comigo? - (E acrescentou, para ver a 
reaco): - Minha mulher.
- No, no estou zangada contigo. Estava s a magicar numa 
coisa.
- O que ?
- Uma coisa.
- O rosto de Abra estava contrado e reflectia um conflito 
interior.
- Qual  a impresso que se sente quando no se tem me? 
- perguntou ela, finalmente.
- No sei. A gente no d por isso.
- Ento tu no notas a diferena?
- Onde queres tu chegar? At parece uma adivinha. 
Abra continuou, imperturbvel:
- Gostavas de ter me?
- Mas que parvoce - disse Aron. - Claro que gostava. Toda 
a gente gostava. Estars tu a ver se me magoas? - Cal j o tem 
tentado e, depois, pe-se a rir.
Abra desviou o olhar do Sol poente. Manchas violetas dan-
avam  sua frente.
- Tu disseste-me que eras capaz de guardar um segredo. 
- Pois claro que sou.
- E no ters nenhum no gnero: quem este segredo contar 
ao inferno vai parar?
- Tenho, tenho um.
- Ento diz-me o que , Aron.
E, a palavra Aron parecia uma carcia. 
- Digo-te o qu?
- O maior segredo que tu tiveres.
Aron recuou, inquieto.
- No posso - disse ele. - Com que direito mo pedes? 
Nunca o direi a ningum.
- Vamos, meu filho, conta tudo  mam - sussurrou ela. 
Os olhos de Aron embaciaram-se de lgrimas, de lgrimas de 
raiva.
- J no tenho a certeza de querer casar contigo - disse ele. 
- Acho que vou para casa.
Abra ps-lhe a mo no pulso e ali a deixou ficar. Quando falou, 
a voz readquirira o tom normal.
- Era para te experimentar. J vi que sabes guardar um segre-
do.
- Porque fizeste isso? Agora fiquei furioso. At me di o co-
rao.
- Tenho a impresso de que te vou confiar um segredo - 
disse ela.
- Ora vejam! - escarneceu ele. - Ento eu  que no sa-
bia guardar segredos?
- Eu estava a ver se me resolvia - disse ela.- Mas acho
que te vou dizer porque te faz bem. Hs-de ficar contente. 
- E quem foi que te pediu para no contares? 
- Ningum. Eu  que tinha resolvido. 
- Isso j  outra coisa. Ento o que ?
O Sol encarniado dardejava um ltimo raio, por detrs da
casa dos Tollot, na estrada de Blanco, e a chamin parecia um
polegar negro apontado para o cu.
Abra disse docemente:
- Lembras-te daquele dia em que fomos a tua casa? 
- Ai no, que no me lembro!
- Pois fica sabendo que adormeci no cabriol e, depois, tor-
nei a acordar, mas os meus pais no deram por nada. Os meus
pais iam a conversar e disseram que a tua me no tinha morrido, 
que se tinha ido embora. Ouvi-lhes dizer que lhe devia ter acon-
tecido alguma coisa m e que ela fugira.
Aron disse em voz rouca:
- A minha me morreu.
- Mas era bem bom se no tivesse morrido.
- O meu pai diz que ela morreu e ele no  mentiroso ne-
nhum.
- Talvez ele julgue que ela morreu.
- Ele havia de saber.
Mas a voz de Aron era incerta.
Abra continuou:
- No seria estupendo se a pudssemos encontrar? Supe 
que ela perdeu a memria ou qualquer coisa assim? J li uma his-
tria no gnero. Podiam tornar a encontr-la e faz-la recuperar a 
memria.
Abra deixara-se empolgar pelo maravilhoso do romance. 
Aron disse:
- Hei-de perguntar ao meu pai!
- Aron - observou ela em tom severo -, o que eu te contei 
 segredo.
- Quem disse que era?
- Fui eu. E agora repete comigo: Ao inferno irei parar, se 
este segredo contar. 
Ele hesitou um instante e, depois, repetiu:
- Ao inferno irei parar, se este segredo contar.
- Agora, cospe na mo... Assim... Pronto. Agora, d-me a 
tua mo... Ests a ver? Agora misturamos o nosso cuspo e lim-
pamos a mo ao cabelo.
Executado o ritual, Abra disse com a maior solenidade:
- Conheo uma rapariga que contou um segredo depois 
duma jura igual a esta e morreu queimada num celeiro.
O Sol desaparecera, levando a sua luz doirada. Vnus cinti-
lava por cima do monte Toro. Abra disse:
- Eles vo esfolar-me viva. Anda, despacha-te. O meu pai 
deve estar  minha espera com a trela do co para me bater. 
Aron olhou-a, incrdulo.
- Para te bater? Costumam bater-te?
- O que  que julgas?
Aron exclamou, apaixonadamente:
- Eu que os apanhe! Se eles te quiserem bater, diz-lhes que 
os hei-de matar.
Os grandes olhos azuis lanavam chispas.
- Ningum tem o direito de bater na minha mulher.
Na meia obscuridade que reinava debaixo do choro, Abra
passou os braos pelo pescoo de Aron e beijou-lhe a boca aberta. 
- Gosto muito de ti, meu marido - disse ela. 
Depois voltou-se e saltou, levantando as saias acima do joelho
e mostrando a renda da combinao que esvoaou quando largou a
correr para casa.


3

Aron tornou a entrar na casa de verdura, sentou-se no cho e 
encostou-se ao tronco do choro. Sentia-se confuso e doa-lhe o 
estmago. Procurou definir o mal-estar e dividi-lo em pensamen-
tos e imagens. Era difcil. O seu lento raciocnio no conseguia 
armazenar ao mesmo tempo tantos pensamentos e tantas emo-
es. A porta ficara fechada. S restava a dor fsica. Passados 
instantes, a porta entreabriu-se e deixou penetrar uma coisa, de-
pois, outra, e outra, at que tudo foi absorvido. Mas, atrs da por-
ta, havia algo que barafustava para entrar. Aron impediu-lhe a pas-
sagem enquanto pde.
Primeiro, entrou Abra e ele examinou-lhe o vestido, a cara, a 
mo macia, o cheiro que deitava, feito de leite e de erva ceifada. 
Viu-a, tocou-lhe, ouviu-a, tornou a cheir-la. Reparou que ela ti-
nha as mos e as unhas limpas, que, era completamente dife-
rente das outras parvas do recreio.
Depois, pela ordem dos acontecimentos, pensou nas suas 
lgrimas infantis, nas suas lgrimas de desespero. At certo pon-
to, desejara alguma coisa e obtivera-a. Talvez tivesse chorado por 
isso.
Depois, pensou na prova a que ela o submetera. Perguntou a 
si mesmo qual seria a reaco dela se lhe tivesse revelado um
segredo. Qual dos segredos lhe poderia confiar? No se recordava 
de nenhum, excepto daquele que batia  porta para entrar.
Depois, foi a pergunta concreta: Qual  a impresso que se 
sente quando no se tem me?  que entrou.
Procurou a resposta: no se d por isso. Mas d-se, sim. Na 
escola, pelo Natal ou no fim do ano, quando vinham as mes dos 
outros rapazes, ele chorava silenciosamente. Ento, no se dava 
por isso?
Salinas estava rodeada de charcos onde cresciam juncos e 
se escondiam milhares de rs. Quando anoitecia, o coaxar era to 
intenso que dir-se-ia um silncio estrepitoso. Era um vu, uma at-
mosfera e, se desaparecesse subitamente, como o silncio aps o 
trovo, seria surpreendente. Se uma noite as rs deixassem de 
coaxar, toda a Salinas teria despertado julgando ouvir um grande 
estrondo. O coro dos milhares de rs parecia obedecer a um ritmo, 
mas talvez seja o ouvido que lhe d a cadncia, assim como a vista 
faz cintilar as estrelas.
Estava escuro debaixo do choro. Aron perguntou a si mesmo 
se estaria preparado para acolher a coisa monstruosa e, enquanto 
fazia a pergunta, a coisa entrou.
A me estava viva. Muitas vezes a imaginara, deitada debaixo 
da terra, fria, imvel e incorrupta. Mas no era assim. Ela estava 
em qualquer lado onde se movia, falava, fazia gestos com as mos 
e tinha os olhos abertos. Mas quele rio de prazer veio desaguar 
uma torrente de tristeza e ele teve a sensao de haver perdido 
qualquer coisa. Aron sentia-se desorientado. Quis saber porqu. 
Se a me estava viva, o pai no passava dum mentiroso. A res-
surreio redundava numa morte. Debaixo da rvore, Aron disse 
em voz alta:
- A minha me j morreu e ficou enterrada num stio qual-
quer do Leste.
Na obscuridade que o rodeava, viu a cara de Lee e ouviu-lhe 
a falinha mansa. - Lee soubera arquitectar as coisas. Amigo como 
era da verdade, no admirava que desprezasse a mentira. Ele sou-
bera fazer-se entender pelos gmeos. Se se ignora uma coisa que 
no  verdade, trata-se dum erro. Mas quando se sabe que algo  
verdadeiro e o transformamos numa mentira, passamos a ser des-
prezveis.
A voz de Lee disse:
Eu sei muito bem que s vezes se faz uso da mentira para 
no magoar, mas no creio que isso possa ter um efeito benfico. 
A dor fulgurante da verdade dissipa-se, enquanto que a dor lan-
cinante da mentira fica para sempre.  um mal que nos vai con-
sumindo. 
Lee trabalhara pacientemente, lentamente e conseguira trans-
formar Adam no centro, na base, na essncia da verdade.
Aron abanou a cabea na obscuridade em sinal de negao.
- Se o meu pai  um mentiroso, o Lee tambm .
Estava perdido. No tinha ningum  quem perguntar. Cal era 
um mentiroso, mas a educao de Lee fizera dele um hbil menti-
roso. Aron compreendeu que algo teria de morrer: a me ou o seu 
mundo.
A soluo surgiu-lhe subitamente. A Abra no mentira. Ela 
repetira-lhe apenas o que ouvira e os pais tinham-se limitado tam-
bm a ouvir a histria a algum. Aron ps-se de p e empurrou a 
me para o tmulo.
Chegou atrasado para jantar.
- Estive com a Abra - explicou Aron.
Depois da refeio, Adam estava sentado na sua nova pol-
trona e lia o Salinas Index, quando sentiu uma mo no ombro. 
- Que se passa, Aron? - perguntou. 
- Boa noite, pap - disse Aron.
148




CAPTULO XXXVII

1

O ms de Fevereiro em Salinas traz sempre consigo a humi-
dade, o frio e um sem nmero de misrias.  a poca das chuvas 
mais abundantes e, se o rio tem de trasbordar,  nesse ms que o 
faz. Em 1915, Fevereiro foi muito chuvoso.
Os Trask tinham-se instalado confortavelmente em Salinas. 
Assim que renunciou ao sonho da livraria, Lee criou um autntico 
lar na casinha ao lado da padaria Reynaud. No rancho, nunca 
chegara a desencaixotar por completo os seus bens, pois sempre 
pensara em ir para outro lado. Mas ali, pela primeira vez na vida, 
instalou-se para ficar e o mais aconchegadamente possvel.
Destinaram-lhe o quarto grande junto  porta da rua. Lee en-
trou nas economias. At ento, nunca gastara intilmente um ceitl, 
pois todo o seu dinheiro estava reservado para a livraria. Resol-
veu comprar uma cama dura e uma secretria. Mandou colocar 
estantes nas paredes, desencaixotou os livros, contemplou-se a 
si prprio com um tapete e pendurou gravuras nas paredes. Ao 
lado duma confortvel e profunda poltrona Morris, disps o me-
lhor candeeiro de leitura que conseguiu encontrar. Por fim, adqui-
riu uma mquina de escrever e dedicou-se  sua aprendizagem.
Tendo acabado com os seus hbitos espartanos, entregou-
-se  tarefa de mobilar luxuosamente a casa dos Trask, sem qual-
quer oposio de Adam. A cozinha foi equipada com um fogo de 
gs, vindo logo a seguir a electricidade e o telefone. Lee despendeu 
o dinheiro de Adam sem olhar para trs: mveis, carpetes, esquen-
tador a gs e um grande frigorfico. Dentro em pouco, era a casa
149

mais bem posta de Salinas. Lee explicou a Adam.
- O senhor tem muito dinheiro e seria uma pena no o gozar.
- Mas eu no me queixo - protestou Adam. - S queria era 
comprar tambm alguma coisa.
Lee props-lhe:
- Ento v  loja do Logan. J chegaram os novos gramofones. 
- Boa ideia - disse Adam.
E comprou um fongrafo elctrico Victor, parecido com uma 
capela gtica. Depois, costumava ir regularmente  loja para se 
informar das novidades em discos.
A agitao do novo sculo contribua para abrir o casulo em 
que Adam se escondera. Fez-se assinante do Atlantic Monthly e 
da National Geographic. Filiou-se na Maonaria e via com muito 
agrado os Alces.
Fascinado pelo novo frigorfico, comprou um manual de refri-
gerao e estudou-o.
Adam sentia necessidade de trabalhar. Terminado o longo torpor,
precisava de gastar as foras acumuladas.
- Vou dedicar-me aos negcios - disse ele a Lee.
-  escusado. - O senhor tem que chegue para viver. 
- Mas eu gostava de fazer qualquer coisa.
- Nesse caso,  diferente - disse Lee.- Tem alguma ideia?
No me parece que tenha grande vocao para os negcios. 
- Porque diz isso?
-  c uma ideia minha - disse Lee.
- Gostava que lesse um artigo onde se explica a maneira 
como foi desenterrado um mamute na Sibria. O animal permane-
ceu enterrado no gelo durante milhares de anos e a carne ainda 
estava boa.
Lee sorriu.
- O senhor anda com uma ideia ferrada. O que  que tm 
dentro aquelas chvenas todas que guardou no frigorfico? 
- Diversas coisas.
- Tenciona vend-las? Algumas delas cheiram muito mal.
-  uma ideia que no me sai da cabea - disse Adam. 
- No consigo livrar-me dela. Estou convencido de que se pode 
conservar tudo o que quisermos, desde que se consiga obter o frio 
necessrio.

- Espero que no seja preciso guardar carne de mamute no 
frigorfico - disse Lee.
Se a cabea de Adam estivesse cheia de ideias, como a de 
Sam Hamilton, talvez elas se tivessem evaporado. Mas ele s tinha 
uma ideia e no fazia outra coisa seno pensar no mamute conge-
lado. Resolveu, portanto, continuar a guardar chvenas de frutos, 
de bolos, de carne crua ou cozida, dentro do frigorfico. Comprou 
todos os livros existentes sobre as teorias bacterianas e assinou 
todas as revistas susceptveis de conterem artigos cientficos. Como 
em geral acontece aos homens que s tm uma ideia, a ideia trans-
formou-se em obsesso.
Salinas possua uma fabriqueta de gelo sem importncia, mas 
suficiente para acudir s necessidades dos particulares e dos ven-
dedores de gelados. A carroa do gelo todos os dias dava a volta  
cidade.
Adam foi visitar a fbrica e passou a meter as chvenas nas 
cmaras de congelao. Chegava a desejar que Sam Hamilton ainda 
fosse vivo para discutir o problema com ele. Sam era homem para 
estudar o problema a fundo e resolv-lo duma penada, pensava ele.
Adam regressava a casa numa tarde de chuva, a pensar em 
Sam Hamilton e depois de ter estado na fbrica de gelo, quando 
viu Will Hamilton entrar no Bar Abbot. Seguiu-o e sentou-se ao 
balco, ao lado dele.
- Venha jantar comigo esta noite; dava-nos muito prazer.
- Lamento muito - respondeu Will -, mas ando s voltas 
com um negcio que me convinha liquidar. Se me despachar a 
tempo, irei com muito gosto. - O assunto  muito importante?
- Para falar verdade, no sei. Tive uma ideia e gostava de 
conhecer a sua opinio.
Sempre que surgia um negcio, Will Hamilton acabava por 
ser consultado, mais dia, menos dia. Will podia ter invocado uma 
desculpa, mas lembrou-se de que Adam era rico. Uma ideia era 
uma coisa, mas, apoiada pelo dinheiro, era outra coisa.
- No estaria interessado em vender o seu rancho?
- Os gmeos, especialmente o Cal, gostam da terra. Acho 
que vou ficar com ele.
- Posso arranjar-lhe um comprador.
- No, est arrendado e at os impostos so de conta do

arrendatrio. Prefiro ficar com ele.
- Se no puder ir jantar, irei logo a seguir.
A reputao de Will estava solidamente firmada. Ningum sa-
bia a quantos carrilhos comia, mas afirmava-se que era homem de 
cabea e relativamente rico. Naquela noite, no tinha compromisso 
nenhum, mas a sua linha de conduta proibia-lhe que se mostrasse 
ocioso.
Jantou sozinho no Bar Abbot. Quando lhe pareceu conveniente, 
deu a volta  esquina da Central Avenue e bateu  porta de Adam 
Trask.
Os gmeos estavam deitados. Lee, com um cesto de costura 
no colo, passajava as compridas meias pretas que os rapazes usa-
vam na escola. Adam acabava de ler o Scientific American. Man-
dou entrar Will e ofereceu-lhe uma poltrona. Lee foi buscar caf e 
embrenhou-se novamente na sua tarefa.
Will sentou-se na cadeira, tirou um grande charuto preto e 
acendeu-o. Depois, aguardou que Adam jogasse a primeira car-
tada.
- O tempo est bom, para variar - disse este ltimo.- Como 
est a sua me?
- Bem, obrigado. Cada vez parece mais nova. Os seus fi-
lhos j devem estar muito crescidos.
- Ah! pois esto. O Cal vai representar na pea da escola.  
um bom actor. O Aron faz progressos. O Cal pretende dedicar-se 
 agricultura.
-  um futuro interessante. O pas precisa de ideias novas.
Will continuava a esperar, embaraado. Perguntou a si mes-
mo se, por acaso, no teriam exagerado a fortuna de Adam. Iria 
ele pedir-lhe dinheiro emprestado? Will calculou rapidamente quan-
to poderia emprestar pelo rancho e quanto lhe poderiam depois 
emprestar a ele. As quantias no eram as mesmas, nem as taxas 
de juros. E o Adam que no havia maneira de fazer a proposta! 
Will impacientou-se:
- No posso demorar-me muito. Tenho um encontro mar-
cado para daqui a pouco.
- Tome outra chvena de caf - sugeriu Adam.
- No, obrigado. Faz-me perder o sono. No desejava falar-
-me acerca de qualquer coisa?
Adam respondeu:
- Estive a pensar no seu pai e lembrei-me de que gostaria de 
falar com um Hamilton.
Will ps-se mais  vontade na cadeira.
- O meu pai era um grande tagarela.
- A tagarelice dele s nos fazia bem - disse Adam. 
Lee olhou por cima do ovo de costura:
- O homem que verdadeiramente sabe cultivar a arte da con-
versao  aquele que obriga o interlocutor a falar. 
Will disse:
- Que impresso me faz ouvi-lo falar assim! Era capaz de 
jurar que empregava o pidgim.
- Empreguei-o, em tempos - respondeu Lee.- Devia ser 
por vaidade.
Sorriu a Adam e disse a Will:
- Sabe que desenterraram um mastodonte nos gelos da Sib-
ria? Estava l h milhares de anos e a carne ainda se mantinha 
boa.
- Um mastodonte?
- Sim, um mamute, uma espcie de elefante que h muito 
tempo desapareceu da superfcie da Terra.
- E a carne ainda estava boa?
- Tenra como uma costeleta de porco - respondeu Lee. 
Meteu o ovo de madeira sob o joelho pudo de uma meia pre-
ta.
- Mas que interessante! - disse Will. 
Adam riu-se.
- O Lee ainda no me assoa o nariz, mas  s o que falta. 
Eu sei que tenho a mania dos rodeios. Na verdade, estou farto de 
descansar e quero fazer qualquer coisa para me entreter.
- Ento, porque no explora o seu rancho?
- Isso no me interessa. Veja se compreende, Will, eu no 
sou um homem  procura de emprego. O que eu procuro  uma 
coisa com que me entreter.
Will abandonou a sua reserva prudente: 
- Em que lhe posso ser til?
- Se lhe disser uma ideia que tive, talvez me possa dar a sua 
opinio. Voc conhece bem os negcios.
- Estou s suas ordens - disse Will.
- Tenho andado a estudar o problema da refrigerao - disse 
Adam. - Surgiu-me uma ideia e no consigo livrar-me dela. Vou 
para a cama com ela e no dia seguinte no me larga. Nunca vi nada 
que fosse to maador. A ideia parece-me interessante, mas deve 
ter os seus defeitos.
Will descruzou as pernas e puxou as calas que o estavam a 
incomodar.
- V, diga o que tem para dizer - pediu ele. - Quer um 
charuto?
Adam no ouviu a oferta e no compreendeu, portanto, o que 
ela significava.
- O pas est em vias de se transformar - disse Adam. 
Pouco falta para que a gente passe a viver duma maneira muito
diferente. Sabe qual , no Inverno, o maior mercado para as laranjas? 
- No. Qual ?
- A cidade de Nova Iorque. Foi o que li. No acha que os 
seus habitantes devem sentir vontade de comer legumes frescos 
no Inverno? Ervilhas, alfaces, couves-flores? Numa grande parte 
do pas, as pessoas nem lhes vem a cor durante meses e meses 
a fio. Ora, no vale do Salinas, ns temos hortalia durante todo o 
ano.
- Isto aqui no  a mesma coisa que l - disse Will. - Qual 
 a sua ideia?
- A minha ideia  esta: o Lee obrigou-me a comprar um fri-
gorfico e eu interessei-me pelo caso. Guardei l dentro os mais 
variados legumes e experimentei diversas tcnicas. Pois fique 
sabendo, Will, que se meter uma alface em gelo modo e depois 
embrulhar tudo em papel-manteiga, passadas trs semanas a alfa-
ce ainda est to fresca como no primeiro dia.
- Continue - disse prudentemente Will.
-J sabe que os caminhos de ferro construram vages para 
o transporte de fruta? Fui v-los. So muito bem concebidos. Sabe 
que podamos expedir alfaces para a costa Leste em pleno Inver-
no?
- Qual  o seu papel no meio disso tudo? - perguntou Will. 
- Eu tinha pensado comprar a fbrica de gelo de Salinas e 
tentar uma primeira experincia.
- Isso custava-lhe uma pequena fortuna.
- Eu tenho a pequena fortuna - disse Adam. 
Will Hamilton beliscou o lbio inferior.
- Gostava de perceber o que terei eu a ver com o assunto - 
observou ele. - Mas no, eu percebo at bem de mais. 
- Que quer dizer?
- Veja se me compreende - disse Will.- Quando algum 
me pede uma opinio, j sei onde quer chegar. Quer que eu con-
corde. Se me interessa manter a amizade, digo-lhe logo que a ideia 
 excelente e que a ponha em execuo. No seu caso, d-se a 
circunstncia de eu lhe ter afeio e de o senhor ser amigo da 
famlia. Portanto, vou falar-lhe com toda a franqueza.
Lee largou o que estava a fazer, ps o cesto no cho e mudou 
de culos.
Adam perguntou:
- Parece contrariado. Porqu?
-  que eu fao parte do raio duma famlia de inventores disse 
Will. - Na minha casa faziam-se invenes para o almoo em vez 
de fazerem o almoo. Todos tinham tantas ideias que se esqueci-
am de arranjar dinheiro para a mercearia. Assim que juntvamos 
uns tostes, o meu pai ou o Tom gastavam-nos logo a brevetar 
qualquer coisa. Eu sou o nico da famlia, exceptuando a minha 
me, que nunca teve ideias e que conseguiu ganhar algum dinhei-
ro. O Tom tinha ideias para ajudar a viver as pessoas e algumas 
delas at roavam pelo socialismo. Se o senhor agora me disser 
que no est interessado em ganhar dinheiro, atiro-lhe com esta 
cafeteira  cabea.
- Para ser franco, no estou muito interessado.
- Basta, Adam! Olhe que me pe furioso. Se est disposto a 
perder quarenta ou cinquenta mil dlares enquanto o diabo esfre-
ga um olho, ponha o seu projecto em execuo. Olhe que o estou 
a prevenir. Veja se esquece essa loucura. O melhor  enterr-la e 
no se fala mais nisso.
- Mas que defeito lhe pe?
- Todos. A gente do Leste no est habituada a comer legu-
mes no Inverno. Portanto, no ir passar a compr-los. Se os va-
ges tiverem uma avaria e forem metidos num desvio, o senhor 
perde toda a remessa. E o mercado est controlado. Valha-me Deus!
At me d um aperto no corao quando vejo uns fedelhos a quere-
rem armar em negociantes s porque tiveram uma ideia. 
Adam suspirou.
- Quem o ouvir h-de dizer que o Sam Hamilton era um crimi-
noso.
Will olhou para Adam, que parecia estupefacto. De sbito, 
Will sentiu-se envergonhado. Abanou lentamente a cabea.
- No quero dizer mal dos meus - disse ele.- Era tudo boa 
gente, mas isso no exerce qualquer influncia no que eu j lhe 
disse.  melhor deixar a refrigerao em paz.
Adam voltou-se para Lee.
- Ainda sobrou algum bocado da torta de limo que fez para 
o jantar?
- No me parece - respondeu Lee. - Tenho a impresso de 
que ouvi ratos a andarem na cozinha. Amanh, os travesseiros 
dos gmeos devem cheirar a limo. Mas temos meia garrafa de 
usque.
- Ah! sim? Ento,  melhor beb-lo.
- Acho que fui um bocadinho exagerado - disse Will, ten-
tando troar de si mesmo. - Um copito, agora, talvez no me 
fizesse mal.
Tinha a cara congestionada e a voz levemente velada. 
- Estou a ficar gordo.
Aps o segundo copo, Will descontraiu-se. Confortavelmente 
sentado, leu a cartilha a Adam:
- H coisas que nunca mudam de valor. Se pretende fazer 
um investimento, olhe em torno de si. A guerra na Europa vai du-
rar ainda muito tempo. Uma guerra significa gente que tem fome. 
No  inteno minha meter-me a adivinhar, mas no ficaria sur-
preendido se ns entrssemos na guerra. Desconfio muito do Pre-
sidente Wilson. Todo ele  teorias e palavras sonoras. Se entrar-
mos na guerra, vo fazer-se fortunas com os alimentos que no 
se deterioram. Tomemos por exemplo o arroz, a cevada, o trigo, o 
feijo, tudo produtos que no precisam de gelo. Conservam-se 
sozinhos e as pessoas podem viver com eles. Se plantar feijo no 
seu rancho, os gmeos no tero que se preocupar com o futuro. O 
feijo vale actualmente trs cntimos e, se formos para a guerra, 
no me admiraria muito que chegasse aos dez cntimos. V guar-
dando o feijo e espere pela oportunidade. Se quer ganhar dinheiro, 
semeie feijo.
Will partiu com a conscincia em paz. A vergonha que tinha 
sentido desvanecera-se com o bom conselho que dera.
Aps a sua partida, Lee foi buscar um grande bocado de torta 
de limo e partiu-a ao meio.
- Ele est a ficar gordo - disse Lee.
- Mas eu tinha-lhe dito que s pretendia entreter-me. 
- E a fbrica de gelo?
- Acho que vou compr-la.
- Isso no o impede de semear os feijes - disse Lee.


2

J o ano ia quase no fim quando Adam efectuou a sua grande 
experincia. Foi uma sensao num ano de sensaes, tanto lo-
cais como internacionais. Durante os preparativos, os homens de 
negcios referiam-se a Adam como um homem de viso, um 
espirito desempoeirado, uma mentalidade progressiva. A partida 
dos seis vages de alfaces metidas no gelo fez-se sob os auspcios 
da Cmara de Comrcio. Os vages levavam grandes cartazes 
que diziam: Alfaces do vale do Salinas. Mas ningum quisera in-
vestir um tosto na aventura.
Adam deu provas duma energia que ele prprio desconhecia. 
Juntar, escolher, embalar, gelar e carregar as alfaces constituiu 
um trabalho penoso. No havia material adequado. Foi necess-
rio improvisar tudo, contratar muitos operrios e ensinar-lhes o 
ofcio. Todos davam a sua sentena, mas ningum queria ajudar. 
Todos afirmavam que Adam enterrara uma fortuna no negcio, 
mas ningum sabia qual era o montante. Adam tambm no. S 
Lee  que sabia.
A ideia parecia vivel. As alfaces seguiam consignadas em 
condies vantajosas a comerciantes de Nova Iorque. O comboio 
partiu e todos voltaram para casa. Se a tentativa resultasse, muita
gente estaria disposta a investir dinheiro. At o prprio Will Hamil-
ton perguntou a si mesmo se no teria feito asneira.
Se a srie de incidentes tivesse sido preparada por um inimigo 
omnipotente e impiedoso, no teria sido mais eficaz. Quando o 
comboio chegou a Sacramento, uma avalancha de neve fechou as 
Sierras ao trfego durante dois dias, e os seis vages foram meti-
dos num desvio at que a neve derretesse. No terceiro dia, o com-
boio atravessou as montanhas e o calor que fez no se assemelhava 
a nada do que era costume naquela altura do ano. Em Chicago, 
houve confuso nas ordens - a culpa no era de ningum, so 
coisas que acontecem - e os seis vages de alfaces de Adam 
ficaram numa gare de triagem durante cinco novos dias. No  pre-
ciso prosseguir, nem os pormenores so necessrios. A Nova Iorque 
apenas chegaram seis vages de alfaces podres, boas, quando 
muito, para deitar fora. E ainda tiveram de pagar aos descarre-
gadores.
Adam leu o telegrama dos consignatrios e deixou-se cair numa 
poltrona. Na cara tinha um sorriso estranho que no se apagava.
Lee manteve-se afastado, julgando que Adam se recomporia. 
Nas ruas da cidade, os gmeos ouviam os comentrios que fervi-
lhavam: Adam era um imbecil. Esses sonhadores que tudo sa-
bem parece que tm um faro especial para se meterem em sari-
lhos. Os homens de negcios felicitaram-se por no terem queri-
do correr risco nenhum. De resto, quem herdava a fortuna s sa-
bia dar cabo dela. E se queriam uma prova, bastava olhar para a 
maneira como Adam explorava o rancho. O dinheiro e um imbecil 
nunca viviam muito tempo juntos. Talvez lhe servisse de lio. E 
dizer que ele elevara para o dobro a produo da fbrica de gelo!
Will Hamilton recordou a toda a gente que, no s fora con-
trrio ao projecto, como previra em pormenor tudo o que aconte-
ceria. No se queria gabar, mas que se h-de fazer quando algum 
no faz caso da opinio de um negociante srio? E s Deus sabia 
como ele andava farto de ideias loucas! Palavra puxa palavra, todos 
se lembraram de que Sam Hamilton nunca tivera muito juzo. Quan-
to a Tom Hamilton, tambm no lhe ficava atrs.
Quando Lee concluiu que j passara o tempo suficiente, no 
esteve com meias medidas. Sentou-se diante de Adam e entrou a 
matar:
- Como  que se sente?
- Bem.
- No se vai enfiar novamente no seu buraco, pois no?
- Porque  que pensa isso? - perguntou Adam.
- Porque est com a mesma cara com que andava dantes. E
tem o mesmo olhar de sonmbulo. Sente-se ferido no seu amor-
-prprio?
- No - disse Adam. - S quero saber se fiquei arruinado. 
- No de todo. Ainda lhe restam nove mil dlares e o rancho. 
- Tenho uma divida de dois mil dlares - disse Adam. 
- J a inclu nas contas.
- E tenho de pagar o novo aparelho de refrigerao. 
-J est pago.
- E ainda me restam nove mil dlares?
- E o rancho - acrescentou Lee. - Talvez seja melhor ven-
der a fbrica.
O rosto de Adam contraiu-se e o sorriso vago desapareceu.
- Ainda tenho esperanas - disse ele. - Foi tudo uma srie 
de acidentes. Prefiro ficar com a fbrica. O frio conserva. E, depois, 
a fbrica sempre rende alguma coisa. Talvez eu venha a ter outra 
ideia.
- Ento, veja se descobre uma coisa que no saia muito 
cara - disse Lee. - No gostava de ficar sem o meu fogo de gs.


3

Os gmeos sofreram profundamente com o revs do pai. Ti-
nham quinze anos e j sabiam h tanto tempo que eram filhos 
dum homem rico, que a ferida custou a cicatrizar. Se ao menos 
aquilo no tivesse sido uma espcie de carnaval... Mas no. Fora 
em cheio. No conseguiam esquecer os enormes cartazes cola-
dos nos vages de mercadorias, reviam com horror todos os 
pormenores do grande acontecimento. E se os comerciantes tro-
avam de Adam, os filhos ainda foram mais cruis. De um dia para 
o outro, os gmeos passaram a ser tratados por Aron e Cal Alface
ou, mais simplesmente, por Ps de Alface. Aron discutiu a ques-
to com Abra.
-  mais um obstculo - disse ele.
Abra transformara-se numa encantadora rapariguinha. Os sei-
os arredondavam-se com o fermento dos anos e o rosto reflectia a 
serenidade clida da beleza. J no era apenas bonita. Tinha a 
fora e a firmeza femininas.
Abra examinou o semblante inquieto de Aron e perguntou: 
- Que obstculo  esse?
- Agora somos pobres.
- De qualquer maneira, terias de trabalhar.
- Sabes que quero continuar a estudar?
- Pois continua, que eu te ajudarei. O teu pai perdeu o dinhei-
ro todo?
- No sei.  o que se diz.
- Quem  que diz? - perguntou Abra.
- Toda a gente. Talvez os teus pais no consintam que eu 
case contigo.
- Nesse caso, no lhes digo nada.
- No pareces duvidar de coisa nenhuma.
- Pois claro que no duvido. D-me um beijo. 
- Aqui? Na rua?
- Porque no?
- Podem ver-nos.
- Eu quero que nos vejam - disse Abra. 
Aron replicou:
- No. H coisas que no se fazem em pblico. 
Ela ps-se  frente dele e cortou-lhe a passagem. 
- Olha para mim. Vais beijar-me e  j. 
- Porqu?
Ela respondeu lentamente:
- Para que todos fiquem sabendo que eu sou a Sr.a P de 
Alface.
Aron deu-lhe um beijo fugaz e envergonhado, obrigando-a a 
passar logo para o seu lado.
- Talvez fosse prefervel que eu renunciasse - disse ele. 
- Que tu renunciasses a qu?
- J no sou bastante bom para ti. Agora, no passo dum
pobre tipo igual aos outros. Julgas que no compreendi a atitude do 
teu pai?
- s idiota - disse Abra.
Mas franziu ligeiramente as sobrancelhas, porque tambm vira 
a atitude do pai.
Entraram na pastelaria Bell e sentaram-se a uma mesa. Na-
quele ano, era moda tomar sumo de aipo. No ano anterior, usara-se 
o sorvete de gengibre.
Abra soprou delicadamente pela palhinha, provocando algu-
mas bolhas, e pensou na mudana de atitude do pai desde o malo-
gro das alfaces congeladas. Ele dissera-lhe:
- Porque no sais com outro rapaz? Sempre variavas. 
- Eu estou noiva de Aron.
- Noiva? -troara o pai. - Desde quando,  que  moda as 
crianas ficarem noivas? No sejas tola. Olha que h mais peixes 
no mar.
Depois lembrou-se de que lhe tinham dado a entender que 
certas famlias no podiam ocultar eternamente um escndalo e 
que certas honorabilidades estavam sujeitas a cauo. Estes remo-
ques tinham coincidido com o revs de Adam que, segundo se 
dizia, perdera toda a sua fortuna.
Abra debruou-se na mesa.
- O que ns podamos fazer  to simples que tu at te vais 
rir de no teres pensado nisso mais cedo.
- O que ?
- Podamos explorar o rancho do teu pai. O meu pai diz que 
 uma bela terra.
- No - disse Aron apressadamente. 
- Porqu?
- Porque no quero ser lavrador e no quero que sejas a 
mulher dum lavrador.
- Eu hei-de ser a mulher do Aron, seja ele o que for. 
- Mas eu no quero deixar de estudar. 
- J te disse que te ajudarei - repetiu Abra. 
- E onde ias buscar o dinheiro?
- Roubava-o - disse ela.
- Eu quero sair desta cidade. Todos fazem pouco de mim. J 
no posso aguentar mais.
- Eles num instante esquecem.
- Isso  o que resta saber. No estou disposto a passar mais 
dois anos naquela escola.
- Queres ir para longe de mim, Aron?
- No. Mas porque foi ele meter o nariz em coisas de que no 
entendia?
- No censures o teu pai. Se o negcio tivesse resultado, 
toda  gente lhe faria salamaleques.
- Mas falhou e sou eu quem apanha pela tabela. Nem tenho 
coragem para levantar a cabea. Oh! meu Deus, se soubesses 
como o odeio!
Abra disse com severidade:
- Aron, probo-te que fales dessa maneira.
- E quem me diz que ele no me mentiu a respeito da minha 
me?
O rosto de Abra tornou-se escarlate.
- Tu merecias um par de aoites - disse ela. - E se estivs-
semos ss, era eu mesma quem tos dava. - (Abra examinou o 
rosto deformado pela fria, pelo orgulho ferido e, subitamente, 
resolveu mudar de tctica.) - Porque no lhe perguntas acerca 
da tua me? Vai ter com ele e pergunta-lhe.
- No posso. Prometi-te.
- Tu s me prometeste no repetir o que eu tinha dito.
- Se eu lhe perguntar, ele h-de querer saber onde foi que ouvi 
dizer.
- Muito bem. - disse ela. - Tu no passas duma criana 
mimada. Ests desligado do teu juramento. Vai perguntar-lhe. 
- No sei se devo.
- H dias em que sinto vontade de te matar - disse ela -, 
mas... Aron... Gosto tanto de ti. Amo-te tanto.
Vindos do bar, ouviram-se uns risinhos estpidos. Aron e Abra 
tinham elevado a voz e haviam sido escutados por quem os espi-
ava. Aron corou. Os olhos marejaram-se-lhe de lgrimas. Saiu a 
correr e desapareceu na rua.
Abra pegou calmamente na bolsa, ajustou a saia e sacudiu-a 
com a mo. Dirigiu-se ao Sr. Bell e pagou-lhe a despesa. Na altura 
em que se encaminhava para a porta, foi detida por umas risadas 
sonsas.
- Deixem-no em paz - disse ela friamente.
Saiu, e os seus passos ritmavam uma frase, sempre a mes-
ma: Gosto tanto de ti, Aron.
Subitamente, ps-se a correr, julgando poder apanhar Aron, 
mas no conseguiu encontr-lo. Telefonou para casa dele. Lee res-
pondeu que Aron ainda no tinha chegado. Mas Aron estava metido 
no quarto s voltas com o seu ressentimento. Lee vira-o encafuar-
-se no quarto e fechar a porta.
Abra percorreu as ruas de Salinas na esperana de o encon-
trar. Estava furiosa com ele mas, ao mesmo tempo, sentia-se es-
pantosamente s. Aron nunca a deixara com tal violncia. Abra 
desaprendera a estar s.
Cal, esse, tivera de se habituar  solido. Nos primeiros tem-
pos tentara juntar-se a Abra e a Aron, mas eles no apreciavam a 
sua companhia. Cheio de cimes, procurara atrair a rapariga, mas 
falhou redondamente.
Os estudos pareciam-lhe fceis e sem grande interesse. Aron 
era obrigado a trabalhar com mais afinco para aprender e, por 
consequncia, possua uma noo mais elevada dos seus deve-
res. O respeito que dedicava aos estudos no condizia com a qua-
lidade do ensino. Cal no se interessava pelas actividades 
desportivas da escola. A sua inquietao crescente fazia-o sair de 
casa todas as noites. Adolescente ensimesmado, andava sempre 
envolto em trevas.



CAPTULO XXXVIII

1

Cal, como toda a gente, sempre sentira necessidade de afei-
o e carinho. Se fosse filho nico ou se Aron fosse diferente, Cal 
teria podido manter relaes normais e fceis com as outras pes-
soas. Mas notara desde pequeno que todos eram atrados pela 
beleza e pela simplicidade de Aron. Como  natural, esforava-se 
por despertar a ateno e a amizade do prximo tentando imitar o 
irmo. Mas o que era encantador na ingenuidade do louro Aron, 
tornava-se desagradvel e suspeito em Cal, sempre sombrio e 
desconfiado. Os simuladores nunca so convincentes. Onde Aron 
era aceitado, Cal era repelido, apesar de dizer e fazer precisa-
mente as mesmas coisas.
Do mesmo modo que alguns piparotes no focinho dum ca-
chorro o intimidam, tambm as crianas se tornam desconfiadas 
e arredias quando so tratadas com maus modos. O cachorrinho 
encolhe-se, rola-se no cho e rasteja, enquanto que a criana pro-
curar disfarar o acanhamento sob a capa da indiferena ou da 
bravata. Basta que a criana seja repelida uma vez, para que pas-
se logo a ver essa atitude em toda a parte, mesmo quando no 
existe, ou, o que  muito pior, para que a provoque, preparando-se 
de antemo para a defrontar.
Em Cal, a evoluo fora to lenta que ele nem sequer a estra-
nhava. Para se defender do mundo, erguera  sua volta uma mu-
ralha de indiferena. E se a muralha tinha frestas, devia ser nos 
stios onde se encontrava com Aron e Lee e, mais especialmente, 
com Adam. A segurana de Cal residia na indiferena do pai. Mais
vale ser ignorado do que notado com animosidade.
Pequeno ainda, Cal descobrira um segredo; se se aproximas-
se sem rumor do lugar onde o pai se encontrava sentado, e se se 
debruasse ligeiramente sobre o joelho paterno, a mo de Adam 
levantava-se automaticamente e ia afagar-lhe o ombro.  muito pro-
vvel que o fizesse distrado, mas a carcia despertava uma tal onda 
de felicidade que a criana raramente a utilizava, excepto nos mo-
mentos em que lhe era necessria. Era um encantamento de que 
dependia. Era o cerimonial simblico duma adorao canina.
As coisas no se modificam com uma mudana de cenrio. 
Em Salinas, Cal no tinha mais amigos do que em King City. Dis-
punha de parceiros, exercia uma certa autoridade, era admirado, 
mas no tinha amigos. Vivia sozinho e caminhava solitrio.


2

Lee sabia que Cal saa de casa  noite e que s voltava muito 
tarde, mas nada dizia por ser impotente para remediar a situao. 
Os polcias de giro encontravam s vezes o rapaz. O sargento 
Heiserman tocou no assunto ao prefeito, que, no s lhe assegu-
rou que Cal no se entregava  vadiagem, como tinha fama de ser 
um excelente aluno. O sargento conhecia Adam Trask. Como o 
filho no partia vidros e no provocava escndalos, disse aos po-
lcias que andassem de olho bem aberto e que s interviessem no 
caso de o rapaz cometer algum desacato.
O velho Tom Watson encontrou Cal certa noite e perguntou-
-lhe:
- Porque  que andas a passear a uma hora destas?
- Eu no fao mal a ningum - respondeu Cal, na defensi-
va.
- Isso sei eu. Mas j devias estar na cama. 
- No tenho sono - respondeu Cal.
O velho Tom achou que a resposta no formava sentido, pois 
toda a sua vida tivera sono. O rapaz assistia s partidas de fan-tan
no bairro chins, mas nunca jogava. Era um mistrio, mas muitas 
coisas simples constituam um mistrio para Tom Watson, e ele 
preferia no as aprofundar.
Durante as passeatas nocturnas, Cal recordava-se muitas ve-
zes da conversa que ouvira no rancho entre Lee e o pai. Queria 
saber a verdade. A pouco e pouco, foi acumulando as informaes: 
uma frase escutada na rua, uma aluso numa loja. Aron no as 
teria notado, mas Cal dava-lhes um sentido. Sabia que a me no 
estava morta. Ficara sabendo tambm, desde a primeira conversa 
atravs do falatrio, que Aron sofreria muito quando conhecesse a 
verdade.
Uma noite, Cal encontrou Rabbit Holman que descia de San 
Ardo  cidade para apanhar a carraspana semestral. Rabbit aco-
lheu Cal com efuso, como  costume dos camponeses quando 
encontram um conhecido em lugar afastado. Rabbit, enquanto me-
tia  boca o gargalo da garrafa, foi contando a Cal tudo o que lhe 
passou pela cabea. Vendera uma parte da sua terra por bom preo 
e vinha a Salinas para celebrar o acontecimento com uma pardia 
em cheio. As tipas haviam de ficar a saber o que era um homem.
Cal, sentado a seu lado, ouvia calmamente. Quando viu que 
Rabbit estava quase sem usque, foi ter com Louis Schneider e 
pediu-lhe que lhe comprasse outra garrafa. Rabbit largou a gar-
rafa e, quando tornou a pegar nela, reparou que estava cheia.
- Tem graa - disse ele -, julgava que estivesse vazia.
A partir desse instante, Rabbit esqueceu no s quem era 
Cal, mas tambm qual a sua idade. Lembrava-se, contudo, de 
que ele era o seu melhor amigo.
- Ouve uma coisa, George. Vou beber s mais um ou dois 
golos, e depois vamos os dois s pegas. No me digas que ests 
liso, a despesa  por minha conta. J te disse que vendi quarenta 
acres de terra? Tambm, no valiam nada. - (Depois de uma 
pausa, acrescentou): - Escuta, Harry. A gente hoje no vai s 
putas baratas, vamos antes  casa da Kate. Sai caro, dez dlares, 
mas a gente est-se nas tintas. Elas at tm um circo. J foste ao 
circo, Harry? Aquilo  um circo do camandro. A Kate sabe as li-
nhas com que se cose. Olha l, George, lembras-te de quem  a 
Kate?  a mulher do Adam Trask, a me daqueles gmeos do 
catano. Que Deus me valha! Nunca me hei-de esquecer daquele
dia em que ela lhe pregou com uma bala no canastro e se ps a 
andar. Deu-lhe cabo do ombro, mas conseguiu safar-se. Talvez no 
valesse nada como mulher, mas como puta  de respeito!  bestial. 
Sabes porque  que se diz que uma puta d uma boa mulher? 
Porque j sabe tudo e no tem vontade de aprender mais nada. 
Ajuda-me a levantar, Harry. Que estava eu dizendo?
- Estavas a falar no circo - disse Cal em voz sumida.
- Ah! pois. Quando vires o circo da Kate at te saltam os 
olhos c para fora. Tu sabes o que elas fazem?
Cal postou-se de maneira que Rabbit no lhe visse a cara. 
Rabbit contou-lhe o que elas faziam. Cal sentiu-se agoniado. No 
era, porm, do circo mas sim dos espectadores. Ao ver a expres-
so de Rabbit, imaginava a cara de todos aqueles homens reunidos 
no circo de Kate.
Atravessaram o matagal que crescia no jardim e subiram os 
degraus da entrada. Cal era crescido para a idade mas, mesmo 
assim, ps-se no bico dos ps. O homem que abriu a porta no lhe 
prestou grande ateno. A casa era escura, parcamente iluminada 
pelos candeeirinhos disseminados, e Cal imiscuiu-se no grupo dos 
homens que esperavam com impacincia.


3

Cal desejava acumular provas, frases, obscuros materiais que lhe 
serviriam um dia. Aps a visita  casa de Kate, veio-lhe uma
vontade desesperada de se desfazer de tudo o que armazenara.
Certa noite, Lee, que escrevia  mquina, ouviu bater  porta
de mansinho. Mandou entrar Cal. O rapaz sentou-se  beira da
cama, e Lee enfiou o corpo magro na poltrona Morris. Sempre
achara divertido que uma poltrona pudesse dar-lhe tanto prazer.
Cruzou as mos em cima da barriga, como se usasse mangas
chinesas, e aguardou com pacincia. Cal observava qualquer coi-
sa por cima da cabea de Lee. Quando falou, f-lo baixinho e de-
pressa.
- J sei onde est a minha me e o que ela faz. At a vi.
A mente de Lee formulou uma prece convulsiva, pedindo so-
corro.
- Que queres tu saber? - perguntou ele.
- Ainda no pensei nisso. Ando a ver se descubro. Prometes 
que me dizes a verdade?
- Prometo.
As perguntas que borbulhavam no esprito de Cal eram to 
espantosas que ele mal sabia qual escolher. 
- O meu pai sabe?
- Claro.
- Porque foi que ele disse que ela tinha morrido? 
- Para te evitar um desgosto.
- Que fez o meu pai para que ela o deixasse?
- Amou-a de corpo e alma. Deu-lhe tudo o que lhe podia dar. 
- Nunca lhe bateu?
- Que eu saiba, no. No era homem para bater. 
- Porque fez ela aquilo, Lee?
- No sei.
- No sabes ou no queres dizer? 
- No sei.
Cal manteve-se calado durante tanto tempo que Lee se ps a 
coar os pulsos com a ponta dos dedos. Sentiu-se aliviado quan-
do Cal falou de novo. O tom da voz mudara. Agora, era suplicante. 
- Lee, tu conheceste-a. Como era ela? Lee suspirou e desen-
clavinhou as mos.
- S posso dizer o que penso. E posso estar 
enganado. 
- Que  que tu pensas?
- Cal - respondeu Lee - tenho passado muitas horas a 
reflectir no assunto e continuo sem saber nada. Tenho a impres-
so de que ela no  como as outras pessoas. Falta-lhe qualquer 
coisa. A bondade, talvez, ou a confiana. S podemos compreen-
der as pessoas quando somos capazes de as sentir em ns mes-
mos. Ora, a ela, no sou capaz de a sentir. Assim que me ponho a 
pensar nela, tudo comea a ficar escuro. No sei o que ela queria, 
nem qual era o seu objectivo. Era uma mulher que nutria um pro-
fundo dio, contra quem ou contra qu, ainda hoje o ignoro.  um
mistrio. E era um dio doentio. No era fria ou raiva, era um dio 
que nada tinha a ver com o corao. Talvez esteja a praticar um erro 
falando-te desta maneira.
- Mas eu preciso de saber.
- Para qu? Dantes, no te sentias melhor?
- Sentia, sim. Mas agora j no posso parar.
- Tens razo - disse Lee.- Quando desaparece a primeira
inocncia, no se pode parar, a no ser que se seja um hipcrita ou
um imbecil. Nada mais te posso dizer, visto nada mais saber. 
Cal pediu:
- Ento, fala-me do meu pai.
-  fcil - disse Lee. (Mas logo se calou) - No estar 
ningum a ouvir-nos?  melhor baixarmos a voz. 
- Fala-me dele - pediu Cal.
- Creio que o teu pai traz em si, mas aumentado, o que falta 
 tua me. Na minha opinio, - a bondade e a confiana dele so 
to grandes que se tornam to incmodas como se fossem vcios. 
Esto sempre a pregar-lhe rasteiras e a cortar-lhe a passagem.
- O que foi que ele fez quando ela se foi embora?
- Cessou de viver - disse Lee.- Continuou a andar, mas 
estava morto. S h pouco tempo  que regressou a uma meia 
vida.
Lee viu uma expresso estranha e nova no rosto de Cal. Os 
olhos estavam mais abertos e a boca, geralmente fechada e rgida, 
descontrara-se. Pela primeira vez, naquele rosto, e apesar da dife-
rena de tez, Lee via Aron. Os ombros de Cal tremiam ligeiramente, 
como fazem os msculos depois dum esforo prolongado.
- Que se passa, Cal?
- Eu gosto do meu pai.
- Tambm eu. Talvez seja por isso que eu nunca fui capaz de 
o deixar. Ele no  inteligente no sentido literal da palavra, mas  
um bom homem. Talvez seja o melhor de todos os homens que eu 
conheci at hoje.
Cal ergueu-se de sbito.
- Boa noite, Lee.
- Espera um instante. Falaste no assunto a algum? 
- No.
- E ao Aron? No serias incapaz de o fazer.
- E se ele vier a saber?
- Nesse caso, ters de ficar a seu lado para o ajudares. No 
te vs j embora. Depois de sares deste quarto, talvez nunca mais 
tenhamos oportunidade de voltar a falar a ss. E talvez passes a 
gostar menos de mim por saberes que eu sei a verdade. Diz-me 
uma coisa... Tens dio  tua me?
- Tenho - disse Cal.
- Bem me parecia - disse Lee. - Creio que o teu pai nunca 
a odiou. A nica coisa que sentiu foi uma grande dor.
Cal recuou lentamente para a porta e enterrou as mos nos 
bolsos.
- Odeio-a porque sei qual foi o motivo que a levou a partir. E 
sei-o... porque a sinto dentro de mim.
Baixara a cabea e falava em voz dilacerada. 
Lee levantou-se de um salto.
- Basta! - disse ele com dureza.- Ouve-me bem. Ai de ti se 
te torno a apanhar a pensar dessa maneira! No h dvida nenhu-
ma que a tens dentro de ti, que te corre nas veias todo o mal que h 
nela. D-se o mesmo com toda a gente. Mas tu tens outra coisa. 
Levanta a cabea e olha para mim.
Cal levantou a cabea e olhou-o com cansao. 
- Que  que tu queres?
- Tu tens outra coisa. Ests a ouvir-me? Se no fosse isso, 
no tinhas feito a pergunta. E nunca escolhas o caminho mais fcil. 
S os preguiosos  que gostam de se desculpar com a ances-
tralidade. V se reages! Agora, olha-me bem para ver se nunca 
mais me esqueces. Seja o que for que tu fizeres, ser um acto 
teu... e nunca da tua me.
- Achas que sim, Lee?
- Acho, sim, e tu tambm fars bem em achar se no que-
res que te faa num bolo.
Aps a partida de Cal, Lee instalou-se na poltrona. Que terei 
eu feito  minha calma oriental?, pensou ele.


4

Cal, ao descobrir a me, procedeu mais a uma verificao do 
que a uma descoberta. Sabia, h muito, que a nuvem lhe pairava 
por cima da cabea, mas desconhecia-lhe a forma. A reaco que 
teve foi dupla. Sentia-se mais forte agora que estava a par dos fac-
tos. Podia avaliar gestos e expresses, e interpretar vagas aluses. 
Podia, at, desenterrar e reconstituir o passado. Mas nada disso 
lhe consolava o sofrimento.
O seu corpo ia caminhando para a maturidade e era sacudido 
pelos ventos variveis da adolescncia. Num dia, mostrava-se dedi-
cado, puro e devotado; na manh seguinte, comprazia-se no mal; 
passado outro dia, rastejava de vergonha e surgia purificado.
A descoberta aguou-lhe os sentidos. Convenceu-se de que 
tal herana fazia dele um ser nico. No conseguia acreditar nas 
palavras de Lee ou conceber que outros rapazes passassem pelos 
mesmos tormentos.
O circo de Kate no se lhe desvanecera da memria. Sempre 
que pensava nele, sentia-se percorrido pela chama da puberdade 
para, logo a seguir, ser dominado pela nusea.
Passou a observar o pai com mais ateno e descobriu nele 
uma tristeza e um desapontamento que Adam talvez nunca tivesse 
sentido em tal quantidade. O resultado dessa descoberta foi um 
amor apaixonado pelo pai, uma vontade de o proteger e de preen-
cher o vcuo deixado pelos sofrimentos passados. Cal imaginava 
intolerveis esses sofrimentos idos. Certo dia, entrou na casa de 
banho precisamente na altura em que Adam tomava banho e viu-lhe 
a cicatriz produzida pela bala. Se bem que no o desejasse fazer, 
perguntou:
- Que cicatriz  essa, pap?
A mo de Adam pareceu querer tapar a cicatriz.
-  um velho ferimento que me fizeram na campanha contra 
os ndios. Um dia ainda te hei-de contar.
Cal, que observava o pai, vira-o rebuscar no passado  pro-
cura duma mentira. Cal no odiava a mentira, mas sim a necessi-
dade que havia de mentir. Mentia de bom grado por razes con-
cretas, mas ser obrigado a mentir parecia-lhe vergonhoso. Teve von-
tade de gritar: Eu sei quem te feriu e no tem mal nenhum. Mas 
limitou-se a dizer:        @.
- Gostava que me contasses.
Aron tambm passou pelas mesmas dificuldades, mas as suas 
reaces eram menos violentas. Os sentidos no o atormentavam 
com tanta estridncia. As paixes adquiriram uma feio religiosa. 
Descobriu que tinha vocao para ministro da igreja e que era esse 
o seu futuro. Assistia a todos os servios da igreja episcopal, pu-
nha flores no altar e passava muito tempo na companhia do Sr. 
Rolf, o jovem pastor de cabelo encaracolado. Aron tomou co-
nhecimento das coisas deste mundo atravs dum homem que no 
possua nenhuma experincia e que s era capaz de ensinar gene-
ralidades, como todas as pessoas sem experincia.
Aron foi confirmado na igreja episcopal e cantava no coro to-
dos os domingos. Abra seguiu-o. Ela sabia que aquelas coisas 
eram necessrias mas destitudas de importncia.
Era natural que Aron convertido pretendesse converter Cal.
Principiou por orar silenciosamente por Cal, mas acabou por 
se lhe dirigir directamente. Censurou-lhe a falta de f e pediu-lhe 
que se modificasse.
Cal talvez estivesse disposto a fazer um esforo se o irmo 
tivesse sido mais inteligente, mas Aron atingira aquele vrtice de 
pureza apaixonada em que todo o resto da humanidade nos parece 
maculada. Aps alguns sermes, Cal achou que o irmo era insu-
portavelmente, aborrecido e disse-lho. Ambos respiraram de alvio 
quando Aron resolveu abandonar o irmo  condenao eterna.
A religiosidade de Aron adquiriu, como era inevitvel, uma fei-
o sexual. Falou a Abra na necessidade da abstinncia e resolveu 
viver uma vida de celibato. Abra, prudentemente, concordou, espe-
rando que aquela loucura fosse passageira. O celibato era a nica 
condio que ela conhecera at quele momento, embora desejas-
se casar com Aron e ter filhos. Apesar do seu silncio, comeou a 
alimentar um dio instintivo, e talvez justificado, pelo Reverendo 
Rolf.
Cal via o irmo triunfar de pecados que ele nunca cometera. 
Sentiu vontade de lhe dizer quem era a me, para ver a reaco, 
mas logo reprimiu esse desejo. Sabia que Aron no poderia resis-
tir  revelao.



CAPTULO XXXIX


1

De vez em quando, Salinas soltava pequenos arrotos de mora-
lidade. O processo nunca variava. Os arrotos eram sempre idnti-
cos. Do alto do plpito ou atravs duma nova e ambiciosa presiden-
te da Liga Cvica Feminina, era lanada a ofensiva. Na generalidade 
dos casos, a vtima era o jogo e j se vai ver porqu. Toda a gente 
podia discutir o assunto, o que j no acontecia com a prostituio. 
Tratava-se dum pecado evidente, e a maioria das casas de jogo 
pertenciam a chineses. Poucas probabilidades havia de pisar os 
calos a um parente. E a histria repetia-se sempre do mesmo modo.
Depois de incendiar a Igreja e a Liga, o fogo alastrava aos dois 
jornais da cidade. Os artigos de fundo exigiam uma limpeza  cidade. 
A polcia respondia que no queria outra coisa, mas que lutava com 
falta de crditos. Em geral, aproveitava a oportunidade para pedir 
uma dotao mais elevada, o que s vezes dava resultado.
Quando se chegava  fase dos editoriais, toda a gente sabia 
que as cartas estavam na mesa. A fase seguinte era regulada 
com a preciso e a mincia dum bailado. A polcia preparava-se, 
as casas de jogo preparavam-se e os jornais tambm se prepara-
vam para imprimir editoriais vitoriosos. Depois, seguia-se a rusga 
que ia direita ao objectivo sem provocar danos. Vinte ou mais chi-
neses importados de Pajaro, uns tantos saloios, e cinco ou seis 
inocentes caixeiros viajantes caam nas malhas da polcia, eram 
inscritos nos cadastros, encarcerados e soltos de manh aps o 
pagamento duma multa. Depois daquele banho lustral, a cidade
respirava e as casas de jogo perdiam uma noite de negcio, alm 
das multas.
Um dos triunfos do ser humano  saber o que se passa e, 
mesmo assim, no acreditar...
Numa noite de Outono, em 1916, Cal assistia ao jogo do fan-
tan na casa do Lim Meia-Dose quando foi apanhado numa rusga. 
Na escurido, ningum o reconheceu e o sargento ficou bastante 
atrapalhado quando, na manh seguinte, foi dar com ele numa 
clula. Telefonou logo a Adam que estava a tomar o pequeno almo-
o.
Adam fez o trajecto a p, libertou o filho, atravessou a rua para 
ir buscar a correspondncia ao correio e levou Cal para casa.
Lee pusera os ovos de Adam em banho-maria e preparara 
mais dois para Cal.
Aron atravessou a casa de jantar, de caminho para a escola. 
- Queres que espere por ti? - perguntou ele a Cal. 
- No - respondeu Cal.
Baixou os olhos e comeu os ovos.
Adam ainda no abrira a boca para falar, excepto quando dis-
sera Vem comigo, depois de ter agradecido ao sargento.
Cal engoliu o pequeno almoo sem apetite, lanando olhares 
de esguelha ao pai. No compreendia o que significava a expres-
so de Adam. Parecia simultaneamente embaraado, furioso, pensa-
tivo e triste.
Adam tambm no despregava os olhos da chvena de caf. 
O silncio cresceu at se tornar insuportvel. 
Lee meteu a cabea pela porta.
- Caf? - perguntou.
Adam fez que no com a cabea. Lee desapareceu e fechou 
a porta da cozinha. No silncio, apenas cortado pelo tiquetaque 
do relgio, Cal deixava-se dominar pelo medo. Sentia despren-
der-se do pai uma fora de que ele nunca suspeitara. Formiguei-
ros percorriam-lhe as pernas, mas tinha receio de as mexer para 
restabelecer a circulao. Deixou cair o garfo no prato, para fazer 
barulho, e o rudo foi tragado pelo silncio. O relgio deu nove 
horas que tambm foram tragadas. Com o medo nascia o ressen-
timento. Cal era como a raposa que, ao cair na armadilha, fica 
furiosa com a pata entalada.
De repente, Cal pulou, sem saber que ia pular, e gritou, sem 
saber que ia gritar.
- Faa o que lhe apetece fazer! Vamos! e no se fala mais 
nisso!
O grito angustiado tambm foi sorvido pelo silncio.
Adam ergueu lentamente a cabea. Cal nunca tinha olhado o 
pai nos olhos. H muita gente que nunca olhou o pai nos olhos. A 
ris de Adam era azul-clara com linhas escuras que convergiam 
para a pupila. No fundo dos dois olhos, Cal avistou a prpria ima-
gem deformada, como se dois Cal estivessem a olhar para ele.
Adam disse devagar:
- Eu tra-te, no  verdade?
Era pior do que um ataque.
- Que queres dizer? - perguntou Cal.
- Foste apanhado numa casa de jogo. No sei como l foste 
parar, nem porqu, nem o que l fazias.
Cal tornou a sentar-se desajeitadamente e fitou o prato. 
- Tu jogas ao fan-tan?
- No, pap. S olho.
- J l tinhas ido?
- J, sim, muitas vezes.
- Que vais l fazer?
- No sei.  noite apetece-me mexer... como s mulheres da 
vida.
Pensou em Kate e o gracejo de mau gosto pareceu-lhe hor-
rvel.
- Quando no consigo dormir, vou passear- disse ele. - 
para ver se me estafo.
Adam pesou cada uma das suas palavras antes de falar.
- O teu irmo tambm costuma ir passear?
- Oh! no! Nem isso lhe passava pela cabea. Ele no ...
nervoso.
- Vs tu, eu nada sei a respeito de vocs os dois - disse 
Adam.
Cal desejaria atirar os braos ao pescoo do pai, abra-lo, e 
ser abraado por ele. Desejaria uma grande demonstrao de sim-
patia e de amor. Pegou na argola de madeira do guardanapo e 
enfiou nela o dedo.
- Bastava perguntares para saberes - disse ele.
- Mas nunca perguntei. Tenho sido to mau pai como foi o 
meu.
Cal nunca ouvira Adam falar com aquela voz. Era pungente, 
lancinante, como se Adam tropeasse em certas palavras que se 
recusavam a ser pronunciadas.
- O meu pai fez uma forma e obrigou-me a entrar nela  
fora - disse Adam. - Eu era uma m pea, mas no podia ser 
refundido. Ningum pode ser refundido. E continuei a ser uma m 
pea.
Cal disse:
- No fiques triste. J sofreste bastante.
- Achas? Talvez... Mas da pior maneira, sem dvida. No
conheo os meus filhos e no sei se conseguirei conhec-los. 
- Eu digo-te tudo o que quiseres. Basta perguntares. 
- Por onde devo comear? Pelo princpio?
- Ests zangado comigo? Ficaste aborrecido por eu ter sido
preso?
Com grande surpresa de Cal, Adam riu-se.
- Tu s estavas l, no  verdade? No fizeste mal nenhum, 
pois no?
- Talvez fizesse mal em l estar. 
Cal procurava o castigo.
- Tambm eu j l estive uma vez - disse Adam. - E fiquei 
na cadeia durante um ano por ter l estado. 
Cal tentou digerir esta heresia.
- No acredito - disse.
- H ocasies em que eu tambm no. Mas o que eu sei  
que, quando me evadi, assaltei uma loja e roubei roupa.
- No acredito - repetiu Cal sem convico.
Mas o calor, a intimidade do momento eram to deliciosos 
que se agarrou a eles. Respirou devagar para no diminuir o ca-
lor.
Adam disse.
- Lembras-te do Samuel Hamilton? Claro que te lembras. 
Ainda tu no passavas dum beb, disse-me ele que eu era um 
mau pai. At me bateu para que eu nunca o esquecesse.
- Aquele velho?
- Ele era rijo. Hoje  que eu compreendo o que ele pretendia 
dizer. Eu sou o que foi o meu pai. Ele proibiu-me que fosse uma 
pessoa e eu no soube ver que os meus filhos eram seres huma-
nos. Era isto o que o Samuel pretendia explicar-me.
Fitou Cal nos olhos e sorriu. Cal sentiu tanta afeio pelo pai 
que at lhe doeu.
Cal disse:
- Ns no pensamos que tu sejas um mau pai.
- Pobres crianas - disse Adam. - Como haveriam de sab-
-lo? Vocs nunca tiveram outro.
- Estou satisfeito por ter ido parar  cadeia - disse Cal.
- Tambm eu, tambm eu. - (Adam riu-se.) -J estivemos 
ambos presos, portanto  assunto que no tem segredos para 
ns. - (Invadia-o uma alegria crescente.) - Sers capaz de me 
dizer que gnero de rapaz s tu?
- Sou, sim, pap.
- A srio?
- Sim.
- Ento, dize. Sabes,  preciso assumir certas responsabili-
dades quando se  um indivduo. Isso no consiste unicamente em 
ocupar o lugar do ar no espao. Quem s tu?
- No ests a brincar? - perguntou Cal timidamente.
- No estou. Garanto-te que  a srio. Fala-me de ti... enfim, 
se quiseres.
Cal comeou:
- Pois bem!... eu... - (Deteve-se.) - Custa muito quando 
se experimenta.
- Julgo que deve ser... impossvel. Fala-me do teu irmo. 
- Que queres saber dele?
- O que tu pensas. No me podes dizer mais nada. 
Cal disse:
- Ele  bom. Nunca faz nada que seja mau nem tem maus 
pensamentos.
- Agora ests a falar de ti.
- Como?
- Admites que fazes e pensas coisas ms. 
As faces de Cal ruborizaram-se.
-  verdade.
- Muito ms?
- Sim, pap. Queres que te conte?
- No, Cal. j compreendi. A tua voz e os teus olhos dizem 
que lutas contigo mesmo. Mas no tenhas vergonha.  horrvel ter 
vergonha. O Aron costuma ter vergonha?
- Ele nada faz para isso.
Adam inclinou-se para a frente.
- Tens a certeza?
-Completamente.
- Dize-me, Cal... tu protege-lo?
- De que maneira?
- Suponhamos que ouvias dizer uma coisa m, cruel ou feia; 
serias capaz de lha ocultar?
- Acho que sim.
- Ele  demasiado fraco para suportar o que tu podes su-
portar?
- No  isso, pap. Ele  bom, de verdade. Nunca faz mal a 
ningum. Nunca diz mal seja de quem for. Ele no  mau por 
natureza. Nunca se queixa e  valente. No gosta de jogar  pan-
cada, mas f-lo sempre que  necessrio.
-Tu gostas do teu irmo, no  verdade?
- Gosto, sim. E s vezes fao-lhe mal. Engano-o, induzo-o 
em erro. s vezes at o firo sem motivo.
- E depois sentes-te infeliz?
- Pois .
- O Aron nunca se sente infeliz?
- No sei. Quando me recusei a ir  igreja, pareceu ficar 
desesperado. E uma vez, quando a Abra se zangou e lhe disse 
que o odiava, ele ficou com um ar desgraado. Chegou a adoecer 
e a ter febre. No te recordas? O Lee mandou chamar o mdico.
Adam comentou com espanto:
- Mas como consegui eu viver com vocs e ignorar tudo 
isso? Porque se zangou a Abra?
- No sei se devo dizer.
- Ento, no digas.
- No foi nada de importante. Sabes, pap, o Aron quer ser 
pastor. O Sr. Rolf falou ao Aron e o Aron disse que nunca se casa-
ria e que talvez se retirasse do mundo.
-Como um frade?
- Sim, pap.
- E a Abra no gostou disso?
- No gostou? Ficou doida varrida. s vezes pe-se assim. 
Pegou na caneta do Aron, atirou-a para o passeio e desf-la a pon-
taps. E depois disse que tinha desperdiado metade da sua vida 
por culpa do Aron.
Adam riu-se.
- Que idade tem ela?
- Vai fazer quinze anos. Mas, nalgumas coisas, parece mais 
velha.
- Estou a ver. E que fez o Aron?
- No disse nada, mas pareceu ficar ofendido. 
Adam disse:
- Podias ter aproveitado a oportunidade para lhe roubares a 
Abra.
- A Abra pertence ao Aron.
Adam olhou intensamente o filho nos olhos e, depois, cha-
mou: - Lee! - ( como no obteve resposta, chamou mais uma 
vez): - Lee! - (Depois, acrescentou): - No o ouvi sair. Apetecia-
-me mais caf.
Cal deu um salto.
- Vou faz-lo.
- Mas tu devias estar na escola - disse Adam. 
- No quero l ir.
- Mas devias. O Aron foi.
- Sou feliz - disse Cal.- Prefiro ficar contigo.
Adam baixou a cabea e olhou as mos.
- Vai fazer o caf - disse ele numa voz cheia de timidez.
Enquanto Cal estava na cozinha, Adam examinou-se com 
espanto. Uma espcie de apetite contraa-lhe os nervos e os ms-
culos, os dedos tinham vontade de agarrar, as pernas de correr. 
Lanou um olhar vido  sala. Viu as cadeiras, os quadros, as 
rosas vermelhas do tapete, e muitas coisas novas que pareciam 
animadas de vida prpria, mas amistosa. Sentia vontade de viver 
os minutos seguintes, agradveis e calorosos, como se deves-
sem trazer-lhe o xtase. Dentro dele estava nascendo uma ma-
drugada que seria o preldio dum dia calmo e doirado. Juntou as
mos atrs da cabea e estiraou as pernas.
Na cozinha, Cal observava com impacincia a gua que pas-
sava atravs do caf, mas sentia-se feliz por ter de esperar. Um 
milagre deixa de o ser, assim que se torna familiar. Os termos em 
que se encontrava com o pai j no o admiravam, mas o prazer 
mantinha-se. O veneno da solido e a inveja mordente de quem no 
 amado j o haviam abandonado; sabia-se purificado e pacfico. 
Tentou despertar um velho dio para se pr  prova, e verificou que 
j no sabia odiar. Teve vontade de servir o pai, de lhe oferecer um 
enorme presente, de realizar uma tarefa gigantesca em sua honra.
A cafeteira deitou por fora e Cal perdeu alguns minutos a lim-
par o fogo. E pensou l para consigo que, na vspera, no teria 
feito aquilo.
Adam sorriu-lhe quando o viu chegar com o caf fumegante. 
Cheirou-o e disse:
- Deita um cheiro que era capaz de me fazer levantar da tum-
ba.
- A cafeteira deitou por fora - disse Cal.
- O caf s ganhou com isso - disse Adam.- Mas onde se 
ter metido o Lee?
- Talvez esteja no quarto. Queres que v ver?
- No. Se l estivesse, teria respondido.
- Quando sair da escola, poderei ir para o rancho? 
- J andas a fazer projectos? E o Aron?
- Ele quer continuar os estudos. No lhe digas que te contei.
Espera que ele te diga e finge que ficas surpreendido.
- Muito bem - disse Adam.- Mas tu tambm no queres
continuar a estudar?
- Acho que poderei ganhar dinheiro no rancho, pelo menos 
o bastante para pagar os estudos do Aron. 
Adam bebeu o caf.
-  uma ideia generosa - disse. - No sei se deva dizer-to, 
mas quando h pouco te perguntei que espcie de rapaz era o 
Aron, tu defendeste-o to mal que cheguei a julgar que o odiavas.
- J o odiei - disse Cal com veemncia.- E tambm lhe fiz 
mal. Posso dizer-te uma coisa? Agora, j no o odeio. Nunca mais 
odiarei ningum. Acho que nunca mais odiarei ningum, nem mesmo 
a minha me...
Calou-se, admirado por ter dado aquele passo em falso, e logo
o seu espirito se imobilizou numa atitude defensiva.
Adam no pestanejou. Continuou a olhar a direito. Depois, pas-
sou a mo pela testa e acabou por dizer calmamente: 
- Tu sabes tudo a respeito da tua me. 
No era uma pergunta.
- Sei... sim, pap.
- Absolutamente tudo?
- Sim.
Adam empertigou-se na cadeira.
- O Aron est ao par?
- No. Oh! no. Ele no sabe nada.
- Porque dizes isso assim?
- No teria a coragem de lho dizer.
- Porqu?
Desamparado, Cal disse:
- No me parece que fosse capaz de suportar. No tem mal-
dade que chegue. - (E apeteceu-lhe continuar): - Nem tu. 
Mas calou-se.
Adam deu mostras de cansao e abanou a cabea.
- Ouve, Cal. Achas que o Aron poder continuar a ignor-lo? 
Pensa bem no que te pergunto.
Cal respondeu:
- Ele nunca vai aos stios onde poderiam inform-lo. Ele no  
como eu.
- E se algum lhe dissesse?
- No acreditaria. Dava cabo de quem lhe dissesse uma 
coisa dessas. Pensava que era um mentiroso. 
- Estiveste na casa dela?
- Estive, sim, pap. Eu precisava de saber. 
E prosseguiu logo, muito comovido:
- Se o Aron sasse da cidade para ir para a Universidade, se 
nunca mais c voltasse...
- Sim,  possvel, mas ainda tem de passar aqui dois anos 
- respondeu Adam abanando a cabea.
- Talvez eu lhe pudesse pedir para se despachar e para aca-
bar tudo num ano. Ele  inteligente.
- Tu s mais do que ele...
- No sou da mesma maneira - disse Cal.
Adam pareceu crescer a ponto de encher toda a sala. Tinha a
severidade estampada no rosto e o olhar era agudo e penetrante. 
- Cal - disse ele bruscamente.
- Pap?
- Tenho confiana em ti.


2

A modificao das relaes com o pai originou um fermento de
felicidade em Cal. Passou a andar com mais ligeireza, com a ex-
presso iluminada por um sorriso. Exteriorizou-se.
Lee, que reparara na mudana, perguntou-lhe:
- No ters, por acaso, arranjado uma namorada? 
- No. Quem  que precisa duma namorada? 
- Toda a gente - respondeu Lee.
Depois, Lee perguntou a Adam:
- O que  que se passa com o Cal?
- Ele sabe tudo a respeito dela - respondeu Adam.
- No me diga! - (Lee sentiu-se aliviado). Lembra-se de lhe 
ter dito que era preciso contar-lhes a verdade. 
- Eu no contei nada. Ele j sabia.
- Ora vejam! - disse Lee. - Mas com certeza que no  
por isso que ele assobia enquanto estuda e que atira a boina ao ar 
quando anda. E o Aron?
- Esse  que me preocupa. No queria que soubesse.
- Agora talvez j seja tarde de mais.
- Talvez eu pudesse ter uma conversa com o Aron- disse
Adam.
Lee examinou Adam.
- Tambm o acho mudado.  possvel!
Cal no se contentava em assobiar, em atirar a boina ao ar e 
em despachar rapidamente os seus deveres escolares. Em seu 
novo jbilo, nomeou-se guardio da felicidade paterna. Quando 
dissera que no odiava a me, no tinha mentido. Mas ela ferira 
Adam. O que j fizera uma vez, poderia tornar a faz-lo. Prometeu
a si mesmo informar-se o mais que pudesse de tudo o que se 
referisse a ela. Um inimigo que se conhece  menos perigoso, e 
no se corre o risco de se ser surpreendido.
 noite, sentia-se atrado pela casa do outro lado do caminho 
de ferro. Em certas tardes, escondia-se nos matagais que cres-
ciam no passeio da frente. Via sair as mulheres, solenemente ves-
tidas de escuro. Saam sempre aos pares e Cal seguia-as com os 
olhos at  esquina de Castroville Street, onde viravam  esquer-
da para a Main Street. Verificou que, se se ignorasse de onde 
vinham, no se poderia dizer quem eram. Mas no era por essas 
mulheres que esperava. Queria ver a me  luz do dia. Acabou por 
descobrir que Kate saa todas as segundas-feiras,  uma e meia.
Cal obteve dispensas para faltar  escola nas segundas-feiras, 
mediante a apresentao de exerccios excelentes. Respondeu s 
perguntas de Aron dizendo que estava a preparar uma surpresa que 
devia manter-se secreta. Esclarea-se que Aron no se mostrou 
muito interessado. Imerso em si mesmo, depressa esqueceu.
Cal, depois de ter seguido Kate numerosas vezes, acabou por 
aprender o itinerrio de cor. Ela ia sempre aos mesmos stios: 
primeiro, ao banco de Monterey, onde gastava um quarto de hora 
atrs das grades brilhantes que protegiam a seco dos cofres-
-fortes; depois, percorria a Main Street observando as montras; en-
trava nos estabelecimentos Porter e Irvine, olhava os vestidos e, s 
vezes, fazia uma compra: alfinetes-de-ama, um vu, um par de lu-
vas; cerca das duas e um quarto, entrava no instituto de beleza de 
Minnie Franken onde passava uma hora, e saa com os cabelos 
frisados e um leno de seda enrolado na cabea.
s trs e meia, subia os degraus que levavam ao consultrio 
do Dr. Rosen. Em seguida, detinha-se na confeitaria Bell e com-
prava um quilo de chocolates sortidos. Era sempre a mesma coi-
sa. Quando saa da confeitaria Bell, encaminhava-se directamen-
te para Castroville Street e para casa.
Vestia como toda a gente, podendo ser confundida com qual-
quer burguesa de Salinas que fizesse as suas compras numa tar-
de de segunda-feira. Mas usava sempre luvas, o que era raro em 
Salinas.
Sob as luvas, as mos pareciam enchumaadas. Kate mo-
via-se como se fosse protegida por uma campnula de vidro. No
dirigia a palavra a ningum, dir-se-ia no ver ningum. s vezes, um 
homem voltava a cabea quando ela passava, mas prosseguia logo 
o seu caminho com um ar perturbado. Mas, para a maioria dos 
transeuntes, ela deslizava como um ente invisvel.
Cal seguiu Kate durante vrias semanas, procurando no se 
tornar notado. E, como Kate andava sempre olhando a direito, ele 
estava convencido de que ela no suspeitava de nada.
Assim que Kate entrava no seu jardim, Cal prosseguia o seu 
caminho com um ar desprendido. Seria incapaz de dizer ao certo 
porque era que a seguia, a no ser que era para saber tudo a seu 
respeito.
Na oitava semana, seguiu-a como de costume, mas no con-
tinuou o seu caminho quando ela entrou no jardim.
Esperou um instante e, depois, empurrou tambm a porta 
desconjuntada.
Kate estava escondida atrs dum alfeneiro. Friamente, per-
guntou-lhe:
- O que  que quer?
Cal ficou varado. O tempo parecia ter parado. Nem sequer 
ousava respirar. Muito novo ainda, aprendera a dominar-se para 
recuperar a calma. Ps-se a observar pormenores que nada tinham 
a ver com o principal objectivo. Reparou na maneira como o vento 
acamava as folhinhas do alfeneiro, observou a vereda traada por 
passos numerosos, e os ps de Kate que se conservavam afastados 
da lama, escutou uma locomotiva da Pacfico Sul que se esganiava 
em apitadelas agudas, provou o ar fresco na penugem que lhe 
despontava na cara, sem contudo nunca perder Kate de vista. Viu 
pela forma e pela cor dos olhos, pelo cabelo e at pelo jeito dos 
ombros - pareciam encolhidos - que Aron se lhe assemelhava 
muito. Ainda no conhecia bastante bem a prpria cara para 
reconhecer as suas feies naquela boca, nos dentinhos e nas 
mas do rosto muito afastadas. Assim ficaram uma eternidade, 
separados pelas lufadas de vento do sul.
Kate disse:
- J no  a primeira vez que me segue. Que quer? 
Ele baixou a cabea.
- Nada.
- Quem lhe pediu para me seguir?
- Ningum... minha senhora.
- No quer dizer, no  verdade?
Cal ouviu a sua prpria frase com estupefaco. Pronunciou-a 
antes de pensar em cont-la:
- A senhora  minha me e eu queria saber como era.
Era a verdade exacta e saltara como a chicotada duma ser-
pente.
- Como? O que ? Quem  voc?
- Chamo-me Cal Trask - disse ele.
Notou que se operava nela uma ligeira modificao. As posi-
es inverteram-se. Kate conservava a mesma expresso, mas Cal 
compreendeu que ela se pusera na defensiva.
Kate observou-o atentamente, esmiuando as feies uma a 
uma. Uma imagem confusa e obscura de Charles surgiu do pas-
sado. Subitamente, disse:
- Vem comigo.
Deu meia volta e meteu pela vereda, tendo o cuidado de no 
pisar a lama. Cal s hesitou um momento antes de a acompanhar. 
Recordava-se da grande sala escura, mas o resto era-lhe estranho.
Kate precedeu-o at ao fim do corredor e no seu quarto. Ao 
passar diante da cozinha, gritou:
- Ch. Duas chvenas.
No quarto, deu mostras de ter esquecido o visitante. Despiu o 
casaco, puxando as mangas com os dedos enluvados e desajei-
tados. Depois, dirigiu-se para uma porta recm-aberta na parede, 
no canto da sala onde se encontrava a cama. Abriu a porta e en-
trou.
- Vem c - disse ela.- Traz a tua cadeira.
Ele penetrou por sua vez na sala nua que parecia uma caixa. 
No havia janelas. As paredes eram cinzento-escuras. Um tapete 
cinzento cobria o cho. Os nicos mveis da sala eram uma larga 
poltrona com almofadas de seda cinzenta, uma mesa de leitura, 
inclinada, e um candeeiro de p com um quebra-luz espesso. Com 
a mo enluvada, Kate puxou o cordo do comutador, descrevendo 
um largo circulo com o polegar e o indicador, como se a mo fosse 
artificial.
- Fecha a porta - disse ela.
O candeeiro projectava um crculo na mesa de leitura e apenas
espalhava uma dbil claridade na sala. Dir-se-ia que o cinzento 
absorvia a luz e a destrua.,.
Kate instalou-se nas fofas almofadas e tirou lentamente as lu-
vas. Os dedos das duas mos estavam envoltos em ligaduras. Vio-
lentamente, disse:
- No olhes dessa maneira.  artritismo. Bom, queres ver?
Desatou a ligadura embebida em leo que envolvia o indicador 
direito e estendeu o dedo deformado para a luz.
- Aqui tens, olha - disse ela. - Agora j sabes o que  o 
artritismo.
Fez uma careta de dor ao ligar novamente o dedo.
- Estas luvas doem-me tanto - disse ela. - Senta-te. 
Cal instalou-se na borda da cadeira.
- Tambm virs a ter - disse Kate. - A minha tia-av tinha e
a minha me comeava a ter...
Calou-se. A sala estava completamente silenciosa. Ouviu-se 
um bater discreto  porta.
- s tu, Joe? - gritou Kate. - Deixa o tabuleiro no meu 
quarto. Joe, ests a?
A porta foi atravessada por um murmrio. Kate despejou numa 
voz montona:
- A sala est cheia de lixo. Limpa-a. A Anne no arrumou o 
quarto. Torna a avis-la. Diz-lhe que  a ltima vez que a avisas. A 
Eva quis ser esperta ontem  noite. Eu trato dela. No te esque-
as de dizer ao cozinheiro que, se ele nos tornar a servir cenouras 
esta semana, vai logo para a rua. Ests a ouvir?
A porta deixou transpirar novo murmrio.
- Mais nada - disse Kate. - Cambada de porcos! - murmu-
rou. - Eram capazes de apodrecer na prpria porcaria se a gente 
no andasse com o olho em cima deles. Vai l fora buscar o ch.
O quarto estava vazio quando Cal abriu a porta. Regressou  
salinha contgua e colocou em equilbrio na mesa uma grande 
bandeja de prata com um bule, duas chvenas finas como papel, 
um aucareiro, um jarrinho de leite e uma caixa de chocolates.
- Serve o ch - disse Kate. - Doem-me as mos.
Meteu um chocolate na boca.
- Reparei que estavas a olhar para esta sala - continuou 
ela depois de ter engolido a guloseima. - A luz faz-me mal aos
olhos. Costumo vir descansar para aqui.
Reparou na espreitadela rpida que Cal lhe lanara aos olhos e 
acrescentou num tom sem rplica:
- A luz faz-me mal aos olhos.
Depois, bruscamente:
- O que ? No queres ch?
- No, minha senhora - respondeu Cal. - No gosto de 
ch. Ela pegou na fina chvena com os dedos ligados. 
- Bem. O que  que queres?
- Nada, minha senhora.
- Querias olhar-me?
- Sim, minha senhora.
- Ests contente?
- Sim, minha senhora.
- E que ar tenho eu?
Dirigiu-lhe um sorriso ignbil e mostrou os dentinhos aguados. 
- Est bem - respondeu Cal.
- J devia calcular que no dirias nada. Onde est o teu irmo. 
- Deve estar na escola, ou em casa.
- Como  ele?
- Parece-se consigo.
- Deveras?
- Ele quer ser pastor - disse Cal.
- ptimo - disse Kate. - Parece-se comigo e quer entrar 
para a Igreja.  lugar onde pode causar muitos estragos. Os ho-
mens que aqui vm pem-se em guarda, enquanto que na igreja se 
descobrem.
- Ele quer mesmo ser pastor - disse Cal. 
Kate inclinou-se para ele. O seu olhar era vivo. 
- Enche a minha chvena. O teu irmo  parvo? 
-  muito simptico - disse Cal.
- Perguntei-te se era parvo?
- No , no, minha senhora.
Ela voltou a mergulhar nas almofadas e ergueu a chvena. - E 
o teu pai?
- No quero falar nele - disse Cal.
- Ah! no? Ento  porque gostas dele? 
- Gosto dele, gosto.
Kate perscrutou o jovem rosto e foi sacudida por um estranho 
espasmo, uma espcie de dor no peito. Mas voltou logo a dominar-
-se.
- Queres um chocolate? - perguntou.
- Quero, sim, minha senhora. Porque foi que fez aquilo? 
- Que foi que eu fiz?
- Deu um tiro de revlver no pap e abandonou-nos. 
- Foi ele quem lhes disse isso?
- No, ele no nos disse nada.
Kate ps uma das mos em cima da outra e retirou-a logo 
como se o contacto tivesse despertado uma queimadura. Depois, 
perguntou:
- O teu pai nunca recebe raparigas - ou mulheres novas l 
em casa?
- No - disse Cal. - Porque  que disparou e se foi embo-
ra?
Todos os msculos do rosto de Kate endureceram como se 
fossem repuxados por um fio invisvel. Ao levantar a cabea, mos-
trou um olhar implacvel.
- Pareces-me bastante adiantado para a idade, mas no o 
bastante. Era melhor que te fosses embora, que fosses jogar ao 
berlinde e assoasses o nariz.
- s vezes consigo irritar o meu irmo - disse ele. - Fao-
o estrebuchar e at chorar. Ele no percebe como  que eu consi-
go isso. Sou mais esperto do que ele. Mas no quero tirar provei-
to.  uma coisa que me pe doente.
Kate falou como se respondesse a uma pergunta.
- Eles julgavam-se inteligentes. Olhavam-me e pensavam 
conhecer-me. Eu  que os conhecia. Enganei-os a todos. E quan-
do eles imaginavam que podiam dar-me conselhos, ento  que 
eu os enganava melhor. Charles, garanto-te que os enganei bem.
- O meu nome  Caleb - disse Cal. - Caleb chegou  Terra 
da Promisso. Foi o que me disse o Lee, e vem na Bblia.
- O chins! - disse Kate. (E prosseguiu com violncia): O 
Adam pensou que podia fazer de mim o que quisesse. Quando 
me encontrou ferida e toda desfeita, mandou-me entrar, serviu-me e 
deu-me de comer. Fez tudo para me prender a ele. A maior parte 
das pessoas deixam-se prender assim. E ficam reconhecidas, con-
traem uma dvida. Que par de algemas. Ningum me pode prender. 
Eu fui esperando, esperando at sentir-me forte e, depois, libertei-
-me. No me apanham na esparrela - disse. - Eu ia olhando para 
ele e ia esperando.
Na sala cinzenta, o silncio foi mobilado pela respirao ar-
quejante de Kate.
- Porque disparou contra ele? - perguntou Cal.
- Porque se tinha atravessado no meu caminho. Podia t-lo 
morto, mas no o fiz. S queria que ele me deixasse passar.
- Nunca se arrependeu de se ter ido embora?
- No, meu Deus! Mesmo quando era pequena, j podia fazer 
tudo o que me apetecia. Eles nunca percebiam como  que eu me 
arranjava. Nunca. Estavam sempre certos de terem razo. Nunca 
souberam. Nunca ningum soube.
Kate parecia estar a desenhar o seu retrato diante dos prprios 
olhos.
- Tu s da minha raa. Talvez te pareas comigo. Porque 
no, afinal?
Cal levantou-se e apertou as mos atrs das costas. Em se-
guida, perguntou:
- Quando era pequena... - (Depois, deteve-se para orde-
nar os pensamentos). - Nunca teve a impresso de que lhe falta-
va alguma coisa? Como se os outros conhecessem qualquer coi-
sa e a senhora no? Como se no quisessem revelar-lhe um se-
gredo? J sentiu isso alguma vez?
Enquanto ele falava, o rosto de Kate petrificou-se e, assim 
que ele se calou, ela aproveitou para cortar o fio que os unia, di-
zendo:
- Ento no querem ver que me ponho a discutir com mi-
dos!
Cal desenlaou as mos e escondeu-as nos bolsos.
- A falar com fedelhos - disse ela. - Devo estar doida. 
Cal tinha o rosto contrado e os olhos esbugalhados. 
Kate disse:
- O que  que tens?
Ele manteve-se imvel, com a fronte inundada de suor e os 
punhos fechados.
Kate, por hbito, tentou cravar a faca brilhante mas rgida da
crueldade. Riu docemente:
- Eu poderia ter-te dado coisas interessantes como isto... - 
(Mostrou as mos disformes). - Mas se s epilptico, no  a 
mim que o deves.
Fitou-o, aguardando o choque e procurando adivinhar a inquie-
tao que se ia apoderar dele.
Cal falou alegremente.
- Pronto- disse ele - vou-me embora. Estou contentssimo. 
O Lee tinha razo.
- Que foi que ele disse?
- Eu estava com medo de a ter em mim. 
- E tens-me - disse Kate.
- No tenho, no. Eu sou eu. No preciso de ser a senhora. 
- Como sabes? - perguntou ela.
- Sei, acabou-se. S agora o percebi. Se sou mau, a mal-
dade  minha.
- O teu chins encheu-te a cabea de teias de aranha. Por-
que me ests a olhar assim?
Cal respondeu:
- No  verdade que a luz lhe faz mal aos olhos. No fundo, o 
que tem  medo.
- Sai daqui - vociferou ela. - Sai j daqui para fora.
- Vou-me embora. (Cal levou a mo  maaneta da porta). 
- No a odeio - disse ele - mas estou contente por ver que tem 
medo.
Kate tentou gritar Joe, mas a voz estrangulou-se.
Cal abriu a porta e saiu, batendo-a com fora.
Joe estava na sala, conversando com uma das mulheres. 
Ouviram passos leves e rpidos. Quando ergueram a cabea, j 
uma silhueta imprecisa chegara  porta e se esgueirara para a 
rua. O pesado batente estremeceu. Depois, apenas escutaram 
passos na escada e o rudo abafado de dois ps que tocavam no 
cho aps um salto.
- O que  isto?- perguntou a rapariga.
- S Deus sabe - retorquiu Joe. - H dias em que julgo ter 
vises.
- Tambm eu - respondeu a rapariga. - J te disse que a 
Clara tem as ndegas todas picadas?
- Pudera! Ela que no abuse da seringa - disse Joe. - Mas 
c na minha opinio, quanto menos um tipo sabe, menos se cha-
teia.
- L isso  verdade - aquiesceu a rapariga.



CAPTULO XL

1

Kate afundou-se nas almofadas da poltrona. Ondas nervosas 
percorriam-lhe o corpo, eriando os plos  medida que passavam 
e deixando atrs de si um frio que queimava.
De mansinho, ps-se a falar consigo mesma:
- Acalma-te. No  nada. V se no pensas. Ranhoso inde-
cente!
Subitamente, veio-lhe  ideia a nica pessoa que receara e 
odiara simultaneamente. Era Samuel Hamilton com a sua barba 
branca, as bochechas cor-de-rosa e os olhos risonhos que pareci-
am levantar a pele para ver o que ela tapava.
Com o indicador disforme, Kate tirou o fio de ouro que usava ao 
pescoo e de onde pendiam duas pequeninas chaves de cofre-forte, 
um relgio de ouro e um tubozinho de ao. Com mil cuidados, 
desenroscou a tampa do tubo e, depois de ter afastado os joelhos, 
fez cair no tecido esticado da saia uma pequena cpsula de gelatina. 
Olhou-a  transparncia: continha seis cristais de morfina, a conta 
certa. Tornou a meter a cpsula no interior do tubo, enroscou a 
tampa e escondeu o fio de ouro entre a pele e o vestido.
As ltimas palavras de Cal ecoavam interminavelmente: Tem 
medo, tem medo. Disse a frase em voz alta para lhe destruir o 
sentido. As palavras ritmadas desvaneceram-se mas, em com-
pensao, logo se formou uma vigorosa imagem que ela deixou 
desenvolver-se para a poder observar  vontade.


2

Era antes da construo da salinha. Kate entrara de posse da 
herana de Charles. Convertera o cheque em notas que arrecadara 
no seu cofre do banco de Monterey.
Foi pouco mais ou menos nessa poca que sentiu as primei-
ras dores nas mos. O dinheiro que tinha chegava e sobejava para 
abandonar o negcio, mas no queria vender a casa  pressa. E 
depois, preferia esperar at ficar curada.
Nunca mais voltou a sentir-se completamente bem. Nova Iorque 
parecia ficar muito longe.
Certo dia, recebeu uma carta assinada por uma Ethel. Quem 
seria? Fosse quem fosse, s podia ser doida para cair na asneira 
de pedir dinheiro. H centenas de Ethel. H uma a cada esquina 
das ruas. Aquela escrevia mal em papel quadriculado.
Pouco tempo depois, Ethel veio visitar Kate que teve dificul-
dade em a reconhecer. Sentada atrs da secretria, mostrou-se 
prudente, desconfiada e senhora de si.
- H muito tempo que a gente no se via - disse Kate. 
Ethel respondeu como o soldado que, cinquenta anos depois, 
vai visitar o sargento que lhe deu ordens.
- Isto vai mal - disse ela.
Engordara bastante e assemelhava-se a um barril cingido por 
arcos de banha. A roupa era limpa, usada e pobre.
- Onde vive agora? - perguntou Kate, ansiosa por que a ou-
tra dissesse onde queria chegar.
-Tenho um quarto no Hotel Pacfico Sul.
- Ento j no trabalha em nenhuma casa?
- Nunca mais pude voltar ao trabalho. A senhora no me 
devia ter posto na rua. - (Limpou a uma luva de algodo as lgri-
mas que lhe assomavam ao canto dos olhos).- Isto vai o pior 
possvel - disse ela.- As dificuldades principiaram quando che-
gou o novo juiz. Apanhei trs meses, eu que no tinha cadastro... 
Pelo menos aqui. Quando sa do chilindr, pregaram-me um 
esquentamento. Eu no sabia o que tinha, e peguei-o a um tipo 
porreiro que trabalhava na polcia. Ele ficou danado e saltou em 
cima de mim. Desfez-me o nariz, partiu-me quatro dentes e o tal 
juiz novo obrigou-me a amochar com mais seis meses. Kate, est
a ver a minha sorte? Em seis meses perdem-se todas as relaes 
e os amigos esquecem-se de ns. Nunca mais consegui trabalhar.
Kate esboou um aceno de cabea falsamente simptico. A 
Ethel estava-se a preparar para vibrar o golpe do costume. Antes 
que ela o pudesse fazer, Kate abriu a gaveta da secretria, agar-
rou nalgumas notas e estendeu-as a Ethel.
- Eu nunca abandono uma amiga - disse ela.- V para 
outra cidade e veja se recomea pelo princpio. s vezes  bom 
para quebrar o azar.
Ethel contou as notas e afastou-as com o desdm de quem 
afasta uma vaza de pquer... Quatro dez. Quarenta dlares! Com 
certa emoo, articulou:
- Pensava que tivesse outra coisa para me oferecer. 
- Porqu?
- Ento no recebeu a minha carta? 
- Qual carta?
- Ah! - disse Ethel. - Deve ter-se extraviado no correio. So 
to desorganizados! Enfim, a minha esperana era que me tomas-
se  sua conta. Ando to em baixo. At parece que sinto um peso 
na barriga. - (Suspirou e, depois, falou to depressa que Kate 
compreendeu que ela decorara o discurso). -Talvez se recorde de 
que eu sou muito dada aos palpites. Estou sempre a adivinhar coi-
sas que ho-de acontecer. Quando sonho com alguma coisa, d 
sempre certo. Conheo um tipo que me disse que eu devia dedicar-
-me aos negcios. Ele at diz que eu sou um autntico mdium. 
Lembra-se?
- No - respondeu Kate.
- Ai no? Se calhar  porque no reparou. Todas as minhas 
colegas sabiam. Eu disse-lhes uma data de coisas que acontece-
ram.
- Mas onde quer chegar?
-  que tive um sonho. Lembro-me dele porque foi na mes-
ma noite em que morreu a Faye. - (Ergueu os olhos para a cara 
impassvel de Kate. Depois, prosseguiu): - Nessa noite estava a 
chover e tambm chovia no meu sonho. Seja como for, estava 
tudo molhado. Eu vi-a sair em sonhos pela porta da cozinha. Ha-
via nuvens, mas a Lua aparecia de vez em quando. Tenho a certeza 
de que era a senhora. Foi at ao fundo do jardim e fez qualquer
coisa. No sei o que foi. Depois, voltou sem fazer barulho. E de-
pois... E depois, morreu a Faye.
Deteve-se, aguardando alguma coisa, mas o rosto de Kate 
mantinha-se inexpressivo. Ethel continuava  espera. Kate con-
servou-se silenciosa.
- Como j lhe disse, sempre tive confiana nos meus sonhos. 
 engraado, no havia nada no fundo do jardim, a no ser uns 
frasquinhos partidos e a borracha dum conta-gotas.
Kate disse preguiosamente:
- Nessa altura, levou-os a um mdico. E que foi que ele en-
controu nos frascos?
- Nunca fiz tal coisa.
- Mas devia ter feito.
- No gosto de arranjar sarilhos a ningum. J me bastam 
os que tenho. Guardei os cacos num sobrescrito e escondi-o.
Kate perguntou afavelmente:
- E vem pedir-me um conselho?
- Sim, minha senhora.
- Pois vou dizer-te o que penso - prosseguiu Kate. - No 
passas duma velha puta estafada que j no regula dos miolos.
- No vai dizer-me que estou doida...
- Talvez no estejas. Mas ests doente e cansada. J te dis-
se que nunca abandonava as amigas. Podes voltar para c, claro 
que no  para tornares a trabalhar, mas sempre poders dar uma 
ajuda, limpar a casa e ajudar o cozinheiro. Dou-te cama, mesa e 
roupa lavada, mais algum dinheiro para os teus alfinetes. Que achas?
Ethel deu dois ou trs passos hesitantes.
- No, minha senhora. No me apetece... dormir aqui. No 
carrego o envelope comigo. Fique sabendo que o confiei a um 
amigo.
- O que  que tu esperavas?
- Pensei que estivesse disposta a compreender de que lado 
est o seu interesse e que me desse cem dlares por ms para 
me ajudar a endireitar a vida e a tratar da sade.
- Tu moras no Hotel Pacfico Sul?
- Sim, minha senhora. O meu quarto fica no corredor ao 
lado do escritrio, o guarda-nocturno  muito meu amigo e nunca 
dorme durante o servio. Um tipo estupendo.
Kate disse:
-  escusado molhares as calas, Ethel. S deves pensar 
numa coisa: quanto vai custar o teu tipo estupendo? Espera um 
instante.
Kate contou seis novas notas de dez dlares e entregou-as a 
Ethel, que perguntou:
- Manda-me o dinheiro no dia um de cada ms ou prefere 
que venha c busc-lo?
- Est descansada que l ir ter - disse Kate. - Acho que
devias mandar analisar os frascos -acrescentou.
- S farei tal coisa se for obrigada a isso.
Ethel arrebanhou as notas. Exultava de alegria. Triunfara. Era
a primeira vez que a vida lhe sorria.
Depois de se ter ido embora, Kate foi ao fundo do jardim. 
Aps tantos anos, ainda restava um montinho no sitio onde a terra 
fora revolvida.
Na manh seguinte, o juiz escutou distraidamente o resumo 
das actividades nocturnas, e perguntou ao quarto queixoso: 
- Quanto lhe roubaram?
O homem de cabelos castanhos respondeu: 
- Uns cem dlares.
O juiz voltou-se para o agente que efectuara a priso. 
- Quanto lhe encontraram?
- Noventa e seis dlares. Ela comprou usque, cigarros e 
jornais ao guarda da noite a pelas seis da manh. 
Ethel gritou:
- Eu nunca vi esse tipo na minha vida! 
O juiz ergueu a cabea.
- Condenada duas vezes por prostituio e hoje por roubo. 
Est-nos a sair muito cara. Saia desta cidade antes do meio-dia. 
- (Virou-se para o polcia): - O xerife que a v pr fora da minha 
comarca.- (Depois, falando novamente para Ethel):- Se a torno 
a ver aqui, aplico-lhe a pena mxima, e isso significa que vai parar 
a San Quentin. Percebeu?
Ethel pediu:
- Senhor juiz, desejava falar-lhe a ss. 
- Porqu?
-  preciso. Trata-se duma maquinao.
-  sempre uma maquinao - disse o juiz.- O caso que 
se segue.
Enquanto o xerife adjunto levava Ethel para o outro lado da 
ponte que atravessa o rio Pajaro, o queixoso flanava pela Castroville 
Street e, na altura em que ia entrar em casa de Kate, mudava de 
ideias e arrepiava caminho para a barbearia Kenoe.


3

A visita de Ethel no afligiu muito Kate. Sabia que no fariam 
caso das acusaes duma prostituta. E a anlise dos fragmentos 
de vidro no revelaria nenhuns vestgios de veneno. Quanto a Faye, 
j quase a esquecera e aquela cena no era mais do que um inci-
dente desagradvel.
Contudo, gradualmente, a recordao do facto foi-se avolu-
mando. Uma noite, quando conferia a conta do merceeiro, sentiu-
-se varada por uma ideia fulgurante. Foi tudo to rpido que des-
viou, os olhos da soma. Porque seria que aquela angstia tinha o 
rosto sombrio de Charles? E o olhar admirado e alegre de Samuel 
Hamilton? Porque tinha tido um arrepio?
Voltou a mergulhar nas contas. Mas a cara de Charles debru-
ava-se por cima do seu ombro. Doam-lhe os dedos. Arrumou a 
factura e vagueou pela casa. Era uma noite silenciosa... uma noite 
de tera-feira. No havia espectadores em nmero suficiente para 
organizar o circo.
Kate sabia qual era o sentimento que infundia nas pensio-
nistas: o terror. Ela assim o quisera. Odiavam-na mas isso no 
tinha importncia. As mulheres confiavam em Kate. Desde que 
respeitassem as regras, Kate tomaria conta delas e proteg-las-
-ia. No contrato no se fazia referncia ao amor nem ao respeito. 
Kate nunca as recompensava e s avisava as infractoras duas 
vezes antes de as despedir. As mulheres tinham a certeza de no 
serem castigadas sem motivo.
Quando viam chegar Kate, as raparigas assumiam um falso ar 
de naturalidade. Kate sabia por que era e no se surpreendia. Mas,
naquela noite, tinha a impresso de no estar szinha. Acom-
panhava-a Charles, ora a seu lado, ora atrs dela.
Atravessou a sala de jantar, entrou na cozinha e abriu o fri-
gorfico. Em seguida, levantou a tampa do caixote de lixo para ver 
se no haveria desperdcio. Fazia aquilo todas as noites.
Assim que saiu da sala, as mulheres interrogaram-se com o 
olhar e encolheram os ombros. Elose, que falava com Joe, o ho-
mem dos cabelos castanhos, disse:
- Que se passa?
- Nada. Porqu?
- No sei. Ela tinha um ar nervoso.
- H qualquer coisa que no corre bem. 
- O que ?
- Eh l! - disse Joe. - Eu no sei nada e tu tambm no 
sabes nada.
- J percebi. No tenho nada a ver com a vida dos outros. 
- Tens toda a razo. Assim mesmo  que . 
- No me interessa saber nada.
- Muito bem dito.
Kate tornou a atravessar a sala depois do seu giro pela casa. 
- Vou deitar-me - disse ela a Joe. - No me incomodes 
sem motivo.
- Deseja alguma coisa?
- Desejo, sim. Faz-me ch. Passaste a ferro o teu vestido, 
Elose?
- Sim, minha senhora.
- Ningum diria.
- Pois no, minha senhora.
Kate no tinha sono. Ps todos os papis em ordem. Quando 
Joe lhe levou o ch, pediu que colocasse o tabuleiro ao lado da 
cama.
Enterrada nas almofadas, saboreando o ch, Kate reflectia. 
Charles? Era isso mesmo.
Charles era inteligente e Sam Hamilton tambm o era a seu 
modo. Fora isso que dera lugar  angstia. Eles eram inteligentes. 
Sam e Charles tinham morrido, mas havia outros. Lentamente, foi 
estudando o assunto.
Se eu tivesse desenterrado os frascos, o que  que teria pen-
sado e o que  que teria feito? Encheu-se logo de medo. Porque  
que os frascos estavam partidos e enterrados? No era veneno! 
Porque os enterrara ento? Imbecil! Devia t-los atirado para a vale-
ta ou para o caixote de lixo. O Dr. Wilde j morrera. Mas talvez 
tivesse um ficheiro? Ela no sabia de nada. Se tivesse encontrado 
os frascos e se soubesse o que eles continham, no teria pergun-
tado a algum: Qual  o efeito do leo de crton sobre o organis-
mo? Que acontece se ministrarmos pequenas doses com frequn-
cia? A pessoa interrogada saberia responder. Muitas outras pes-
soas poderiam sab-lo.
E se ouvisse falar numa rica proprietria que morreu depois 
de ter legado tudo a uma nova pensionista? Kate sabia perfei-
tamente qual seria a sua primeira reaco. Que grande asneira 
ter afastado a Ethel! Agora, ningum a conseguiria achar. Devia 
ter pago  Ethel e obrig-la a devolver os cacos do frasco. Onde 
estariam? Num sobrescrito... Mas onde? Como se poderia encon-
trar a Ethel?
A Ethel no tardaria a conhecer os motivos da expulso. Era 
estpida mas poderia falar a algum que o no fosse. E se ela 
contasse a histria: a doena de Faye, os sintomas, o testamen-
to?
Kate arquejava e tinha a pele toda arrepiada. Mais valia partir 
para Nova Iorque ou para outro lado qualquer. Era escusado vender 
a casa. No precisava de dinheiro. At tinha de mais. Ningum 
conseguiria descobri-la. Pois sim, mas se fugisse e se algum que 
no fosse parvo ouvisse a histria de Ethel? No ligaria imediatamente 
uma coisa  outra?
Kate levantou-se e tomou uma forte dose de sonfero.
Fora a partir de ento que o medo nunca mais a largara. Qua-
se ficou contente por saber que as dores provinham do artritismo. 
Uma voz maldosa murmurara-lhe que aquilo talvez fosse o casti-
go.
Da em diante, passou a ter repugnncia em sair. Sabia que 
os homens a olhavam e a conheciam. E se um deles tivesse a 
cara de Charles ou os olhos de Samuel? Viu-se obrigada a fazer 
um esforo para sair uma vez por semana.
Mandou construir a salinha cinzenta. Explicou que a luz lhe 
fazia mal aos olhos e, a pouco e pouco, acabou por acredit-lo.
Doam-lhe sempre os olhos aps um passeio pelas ruas. Cada vez 
era maior o tempo que passava encafuada na salinha.
H pessoas, como Kate, por exemplo, que conseguem sus-
tentar simultaneamente duas teses contrrias. Ela acreditava que 
a luz lhe fazia mal aos olhos, mas sabia, ao mesmo tempo, que a 
salinha cinzenta era um esconderijo, uma caverna subterrnea, 
um stio onde os olhares no a podiam lobrigar. Um dia em que 
estava sentada na sua poltrona, veio-lhe  ideia mandar abrir uma 
sada secreta. Mas logo renunciou instintivamente. Deixaria de es-
tar protegida. Se ela pudesse sair, tambm qualquer coisa poderia 
entrar, essa coisa que deslizava no jardim, trepava pelas paredes e 
a espreitava pelas janelas. Kate teve de fazer um esforo cada vez 
maior para sair nas tardes de segunda-feira.
Quando Cal comeou a segui-la, teve um medo terrvel. E 
quando se escondeu atrs do alfeneiro para o apanhar de surpresa, 
j se sentia  beira do pnico.
Mas, naquela noite, a sua cabea descansava nas fofas almo-
fadas e as plpebras fechavam-se deliciosamente sob a aco do 
sonfero.



CAPTULO XLI

1

Assustada e seduzida ao mesmo tempo, a Amrica cami-
nhava imperceptivelmente para a guerra. J havia mais de ses-
senta anos que as pessoas no eram sacudidas pela emoo. A 
luta contra a Espanha, em Cuba, fora mais uma expedio do que 
uma guerra. O Presidente Wilson fora reeleito em Novembro e, da 
plataforma do comboio presidencial, prometera manter-se  mar-
gem dos conflitos europeus. Mas todos lhe aconselhavam firmeza, 
o que significava, inevitavelmente, a guerra. O comrcio prosperava 
e os preos subiam. O pas era percorrido por enviados da 
Intendncia britnica que adquiriam vveres, tecidos, metais e pro-
dutos qumicos. O pulso do pas batia a ritmo acelerado. Todos se 
preparavam para a guerra, mas ningum queria acreditar nela. No 
vale do Salinas prosseguia a vida rotineira como se nada estivesse 
para acontecer.


2

Cal ia para as aulas com Aron.
- Tens um ar cansado - disse Aron. 
- Achas?
- Ontem  noite, ouvi-te entrar, j eram quatro horas. Que 
andas tu a fazer at to tarde?
- Passeio e penso. Que dirias se deixssemos a escola e se 
voltssemos para o rancho?
- Para fazer o qu?
- Para ganharmos dinheiro para o pap.
- S quero acabar o curso para me ir logo embora. Quem me
dera sair desta cidade. Toda a gente faz pouco de ns. 
- Isso  imaginao tua.
- No , no. No fui eu quem perdeu o dinheiro. No fui eu 
que tive a ideia idiota das alfaces. Apesar disso,  de mim que 
troam. Eu nem sei se o dinheiro que temos chega para eu tirar o 
curso.
- O pai no fez de propsito.
- Mas, mesmo assim, perdeu tudo.
Cal disse:
- S te falta mais um ano para ires para a Universidade. 
- Julgas que no sei isso?
- Se trabalhares a valer, talvez possas fazer exame este Ve-
ro e entrar para a Universidade no Outono. 
Aron deu uma volta:
- Isso  impossvel.
- No me parece. Fala ao director. Tenho a certeza de que o 
Reverendo Rolf te ajudava.
Aron disse:
- Quero sair desta cidade e nunca mais c voltar. Continuam 
a chamar-nos Ps de Alface e a fazer pouco de ns. 
- E a Abra?
- Depois se v.
- Que dir se te fores embora?
- Ela far o que eu quiser.
Cal reflectiu um momento:
- Ouve. Vou tentar ganhar algum dinheiro. Se fizeres um 
esforo e se fores a exame com um ano de antecedncia, ajudar-
-te-ei a continuar os estudos.
- Eras capaz disso?
- Claro que era.
- Vou j falar com o director.
Aron apressou o passo. Cal chamou-o.
- Aron! Espera. Escuta. Se ele te disser que  possvel, no 
contes nada ao pap.
- Porqu?
-  para lhe fazermos uma surpresa agradvel. 
- Que vantagem tem isso?
- No tem?
- No. Parece uma parvoce.
Cal sentiu uma vontade desesperada de gritar: Eu sei quem  
a nossa me e at ta posso mostrar. 
Seria o suficiente para o meter na linha.
Cal encontrou Abra  entrada da escola. A sineta ainda no 
tinha tocado.
- O Aron anda esquisito - disse ele.
-  possvel.
- Tu deves saber porqu.
- Ele anda nas nuvens. A culpa  do Reverendo.
- Ele costuma acompanhar-te a casa?
- Costuma, mas parece que se tornou transparente. J no
toca no cho.  como se tivesse asas.
- Anda chateado com a histria das alfaces.
- Bem sei - disse Abra. - Tenho tentado acalm-lo, mas ele
deve estar convencido de que assim se torna mais interessante. 
- Que queres tu dizer?
- Nada - respondeu Abra.
Naquela noite, depois do jantar, Cal pediu licena ao pai para ir 
ao rancho na sexta-feira seguinte. Adam voltou-se para ele: 
- Para fazer o qu?
-  s para deitar uma vista de olhos.
- O Aron vai contigo?
- No, tenciono ir s.
- No tenho objeco nenhuma a fazer. E voc, Lee, tem? 
- No- respondeu Lee.
- Pensas a srio em dedicar-te  lavoura? - perguntou Lee 
observando Cal.
- Talvez. Se tu me confiasses o rancho, pap, estava dis-
posto a explor-lo.
- O arrendamento ainda dura mais de um ano.
- E depois, poderia ir para l?
- E os teus estudos?
- Nessa altura, j terei acabado.
- Logo se v - disse Adam. - Talvez tenhas vontade de ir 
para a Universidade.
Quando Cal saiu, Lee acompanhou-o. 
- Porque queres tu l ir? - perguntou. 
- Para passear.
- J percebi. No me queres meter no segredo.
Lee dispunha-se a entrar novamente em casa, mas mudou
de ideias e chamou Cal. O rapaz deteve-se. 
- Tiveste alguma contrariedade, Cal? 
- No.
- Eu tenho um p-de-meia de cinco mil dlares. Est  tua 
disposio.
- Para qu?
- No sei - disse Lee.


3

Will Hamilton gostava do seu escritrio envidraado. O campo 
das suas actividades no se confinava ao comrcio de automveis, 
mas preferia manter-se na garagem.
Costumava sentar-se na sua grande poltrona de coiro encar-
nado e passava a maior parte do tempo saboreando a vida regalada 
que conseguira alcanar. Sempre que lhe falavam no irmo Joe, 
que ganhava tanto dinheiro na publicidade, Will respondia que, em 
comparao, ele no passava duma grande r num pequeno charco.
As grandes cidades metem-me medo, dizia ele. Eu no 
passo dum rstico. E gostava de ouvir o riso provocado por esta 
frase. Aquilo s demonstrava que os amigos sabiam que ele des-
frutava uma ptima situao.
Cal foi visit-lo num sbado de manh. Perante o olhar es-
pantado de Will, explicou:
- Chamam-me Cal Trask.
- Ah! pois claro! Como est crescido! O seu pai tambm veio? 
- No, vim s.
- Ento, sente-se. No fuma, pois no? 
- S cigarros, de vez em quando.
Will ps um mao de Murads em cima da secretria. Cal pe-
gou nele, mas largou-o logo.
- Fica para mais tarde, obrigado.
Will observou o jovem rosto sombrio. Aquele rapaz agradava-
-lhe.
 inteligente, pensou. No  dos que se deixam levar. 
- Suponho que tenciona dedicar-se aos negcios - disse 
em voz alta.
- Tenciono, sim. Penso explorar o nosso rancho quando sair 
da escola.
- Isso no d nada - disse Will. - Os lavradores no ga-
nham um tosto. Os lucros vo todos para os intermedirios. A 
lavoura  um negcio desgraado.
Will sentia que Cal o examinava, o avaliava, o experimentava. 
No podia deixar de o aprovar.
Cal, embora decidido, no foi direito ao fim. 
- O senhor no tem filhos?
- No, e lastimo muito.  esse mesmo o meu maior desgos-
to. Porque pergunta?
Cal ignorou a pergunta.
- Seria capaz de me dar um conselho?
Will sentiu-se invadido por uma baforada de prazer.
- Se estiver ao meu alcance,  com muito gosto. Que deseja
saber?
Cal fez ento uma coisa que Will Hamilton aprovou, como 
homem experimentado que era. Cal empregou a candura como 
arma.
- Queria ganhar muito dinheiro e gostava que me dissesse o 
que hei-de fazer.
Will refreou a vontade de rir. A frase talvez fosse ingnua, 
mas Cal no o era.
- Isso  o desejo de toda a gente. Que entende por muito 
dinheiro?
- Vinte ou trinta mil dlares.
- Que Deus nos acuda! - exclamou Will.
E debruou-se para o rapaz. Tomou, ento, a liberdade de rir,
mas no era para troar de Cal. Este tambm se ps a sorrir.
- Pode dizer-me porque  que quer ganhar tanto dinheiro? -
perguntou Will.
- Posso, sim - disse Cal. - Vai j saber.
Pegou no mao de Murads, tirou um dos cigarros achatados 
com ponta de cortia e acendeu-o.
- O meu pai perdeu muito dinheiro.
- Bem sei - atalhou Will. - Eu bem o preveni de que era
perigoso lanar vages de alfaces naquela aventura. 
- Ah!sim? E porqu?
- No havia garantias - explicou Will. - Um comerciante 
deve proteger sempre a retaguarda. Em caso de acidente, ele no 
dispunha de nenhuns recursos, e foi o que sucedeu. Continue.
- Eu quero ganhar o dinheiro necessrio para lhe devolver o 
que ele perdeu.
Will esbugalhou os olhos.
- Porqu?
- Porque quero.
- Gosta muito dele?
- Gosto.
A cara gorda de Will contorceu-se enquanto ele era aoitado 
pelo vento duma recordao. No foi um lento regresso ao pas-
sado, mas uma imagem bem definida que lhe surgiu. Todos aque-
les anos, uma paisagem, um desespero, tudo se imobilizou e cris-
talizou como num instantneo fotogrfico. L estavam Samuel, 
irradiante, belo como o Sol, elegante como um voo de andorinha; 
Tom, chocando um fogo sombrio; Una, que cavalgava as tempesta-
des; a deliciosa Mollie; Dessie e o seu riso; George e a sua elegn-
cia e o seu perfume que enchia uma casa e, depois, Joe, o mais 
novo, o adorado. Cada um deles, sem o mnimo esforo, trouxera 
um dom  famlia.
No h ningum que no possua um cofre onde encerra as 
suas dores e cuja chave no confia a ningum. Will dissimulara o 
seu atrs das gargalhadas, e nunca deixara que o cime viesse  
tona. Pensava de si mesmo que tinha o esprito lento, conservador,
sem gnio, terra a terra. No havia sonho de envergadura que o 
fizesse elevar, no havia desespero que o esmagasse. Era o ho-
mem das coisas no seu lugar que se mantinha no circulo familiar 
graas a uma fraca contribuio: a prudncia, a lucidez e a von-
tade. Era ele quem fazia as contas, contratava os advogados, 
encomendava os funerais e, eventualmente, liquidava as factu-
ras. Os outros nem sabiam que precisavam dele. Ele conhecia a 
arte de ganhar dinheiro e de o conservar. Julgava ser desprezado 
pelos Hamilton precisamente por causa desse dom. Sempre gos-
tara deles e estava sempre disposto a pagar os erros que cometi-
am. Pensava que tinham vergonha dele e lutava desesperada-
mente para continuar a ser um deles. Fora tudo isso que detivera 
o avano do tempo.
Os olhos um pouco proeminentes estavam hmidos e fitavam 
um ponto para l de Cal. O rapaz perguntou:
- Que tem, Sr. Hamilton? No se sente bem?
Will no compreendera a famlia. Ela aceitara-o sem saber 
que havia algo a compreender. E agora aparecia-lhe aquele ra-
paz, franco, transparente, prximo. Era aquele o filho que ele de-
via ter tido, ou o irmo, ou o pai. As personagens do instantneo 
recomearam a mover-se. Will sentiu-se atrado por Cal que no 
fizera um gesto, continuando  espera.
Will obrigou o olhar a mudar de direco. No sabia quanto 
tempo durara o seu silncio.
- Estava a pensar - disse desajeitadamente. 
Mas deu logo  voz o tom severo:
- Pediu-me qualquer coisa. Eu sou um negociante. No dou; 
vendo.
- Pois.
Cal mantinha-se na defensiva, mas compreendia que Will 
Hamilton gostava dele.
Will disse:
- Vai responder-me  pergunta que vou fazer. Est disposto 
a dizer a verdade?
- Depende - disse Cal.
- Prefiro assim. No quer comprometer-se antes de conhe-
cer a pergunta.  inteligente e honesto. Muito bem. . . Sei que tem 
um irmo. O seu pai gosta mais dele do que de si?
- Como toda a gente - respondeu calmamente Cal. - Toda 
agente prefere o Aron.
- E voc?
- Eu tambm. Pelo menos...
- Que quer dizer esse pelo menos?
- s vezes acho-o estpido, mas tambm gosto dele. 
- Muito bem. E do seu pai?
- Gosto muito dele - disse Cal.
- Mas ele prefere o seu irmo?
- No sei.
- Disse que queria devolver ao seu pai o dinheiro que ele 
perdeu. Porqu?
O olhar de Cal, geralmente desconfiado, adquiriu uma acu-
dade insuportvel. Cal vivia to chegado  sua alma quanto  poss-
vel faz-lo.
- O meu pai  bom - disse ele. - E eu quero dar-lhe o que 
puder, visto no ser bom.
- Isso torn-lo-ia melhor?
- No - respondeu Cal. - Os meus pensamentos so ru-
ins.
Will nunca encontrara ningum que falasse uma linguagem to 
despida. Sentia-se embaraado diante daquela nudez, mas sabia 
qual era a segurana de Cal, desembaraado da sua armadura.
- Mais uma pergunta - disse ele. - Mas a esta no  pre-
ciso responder. Pessoalmente, acho que no responderia. Ei-la: 
suponhamos que conseguia arranjar o dinheiro e o dava ao seu pai. 
No ficaria com a impresso de que estava tentando comprar-lhe o 
amor?
- L isso  verdade.
- Era tudo o que eu queria saber.
Will deixou cair a testa hmida entre as mos. Nunca se sen-
tira to perturbado na sua vida. Cal pressentia o triunfo ao alcance
da mo. Sabia que ganhara, mas no o dava a entender.
Will endireitou a cabea, tirou os culos e limpou-os. 
- Venha da dar uma volta de carro - disse ele.
Naquela poca, Will possua um enorme Winton com um po-
tente motor coberto por uma tampa to grande que mais parecia
um longo atade. Deixaram King City pelo sul e meteram pela es-
trada municipal. A Primavera desabrochava por toda a parte, as
flores resplandeciam nos prados e os pssaros cantavam em todos
os ramos.
O pico Blanco elevava-se a Poente, todo coroado de neve, e,
no Vale, as filas de eucaliptos pareciam escorrer prata.
Quando chegou ao caminho que levava ao rancho dos Trask,
Will parou  beira da estrada. No abrira a boca desde que tinham
sado de King City. O potente motor calou-se depois de emitir um
silvo prolongado.
Will, olhando para a frente, perguntou: 
- Cal, quer ser meu scio? 
- Quero, sim, senhor.
- No costumo associar-me com quem no tem dinheiro. 
evidente que lho podia emprestar, mas isso s daria maadas.
- Eu posso arranjar o dinheiro - disse Cal. 
- Quanto?
- Cinco mil dlares.
- Acha... No acredito. 
Cal no retorquiu.
- Pensando melhor, acredito - disse Will. - Emprestado? 
- Emprestado, sim, senhor.
- Quais so os juros? 
- Nenhuns. 
- Boa ideia. E onde? 
- No lhe posso dizer.
Will abanou a cabea e riu. Estava encantado.
- Talvez no passe dum imbecil, mas creio em si. Alis, no
sou nenhum imbecil.
Ligou o motor e deixou-o aquecer. 
- Oia. Costuma ler os jornais? 
- Costumo.
- Estamos quase a entrar na guerra. 
-  o que parece.
- Assim pensa muita gente. Sabe qual  o preo actual do
feijo? Quanto  que pagam por cem sacos de feijo em Salinas? 
- No tenho a certeza, mas julgo que anda  volta de seis a
sete cntimos por quilo.
- E diz que no tem a certeza? Como  que sabe?
- Fao teno de explorar o rancho.
- Estou a ver. Mas no precisa de fazer isso. Seria tempo 
perdido. O rendeiro do seu pai chama-se Rantani.  um suo-
-italiano, que percebe do ofcio. Actualmente, est cultivando cerca 
de quinhentos acres. Se ns lhe garantirmos dez cntimos por qui-
lo e lhe dermos um sinal para a semente, est disposto a plantar 
feijo. O mesmo acontece com todos os outros lavradores da re-
gio. Poderamos contratar cinco mil acres de feijo.
Cal perguntou:
- E que vamos ns fazer do feijo a dez cntimos, quando 
s pagam por ele sete cntimos? Ah! j percebi. Mas tem a certe-
za?
Will perguntou:
- Ficamos scios?
- Sim, senhor.
- Trate-me por Will.
- Est bem, Will.
- Quando poder arranjar os cinco mil dlares? 
- Quarta-feira prxima.
- Toque.
E, solenemente, o homem gordo e o rapazinho magro troca-
ram um aperto de mo.
Will, sem largar a mo de Cal, disse-lhe:
- Agora passamos a ser scios. Eu estou em ligao com a 
Junta de Compras Britnica e tenho um amigo na Intendncia. Po-
deremos vender todo o feijo que conseguirmos desencantar a 
vinte cntimos o quilo ou mais.
- Quando poder vend-lo?
- Mesmo antes de ter sido semeado! Quer ir ao rancho falar 
com o Rantani?
- Quero, sim senhor.
Will destravou o Winton e o grande carro verde l foi aos sal-
tos pela estrada fora.



CAPTULO XLII


Os outros  que sofrem sempre com a guerra. Em Salinas, 
todos sabamos que os Estados Unidos eram a maior e a mais 
poderosa nao do mundo. Cada americano era um atirador nato e 
um americano valia dez ou vinte inimigos.
A expedio de Pershing ao Mxico, para combater Villa, con-
tribura para destruir um dos nossos mitos. Acreditvamos sincera-
mente que os Mexicanos atiravam de esguelha e que dormiam todo 
o dia. Afinal, quando as nossas tropas voltaram de orelha murcha, 
ficmos a saber que tudo isso era falso. Os Mexicanos, raios os 
partam!, sabiam atirar. E os cavaleiros de Vilia tinham destroado 
os nossos campees. No haviam sido suficientes as duas tardes 
mensais de treinos. Para mais, os Mexicanos enrolaram o nosso 
Pershing conforme lhes apeteceu. Quando a disenteria se aliou 
aos Mexicanos, foi o fim do mundo. Os nossos soldados s se 
recompuseram passados muitos anos.
Seja como for, no comparvamos os Alemes aos Mexica-
nos. A plula tornou a ser dourada. Um americano valia vinte ale-
mes. Partindo deste principio, bastava que fizssemos um gesto 
para que o Kaiser casse de joelhos.
Ele no ousaria atacar o nosso comrcio... Mas atacou. Ele 
no ousaria afundar os nossos barcos... Mas afundou. Tal atitude, 
da parte dele, era ridcula, mas como a tomou, s nos restava 
entrar na luta.
A guerra, pelo menos a princpio, s atingiu os outros. Ns, 
eu, a minha famlia, os meus amigos, ocupvamos excelentes lu-
gares donde seguamos o combate com interesse apaixonado.
A guerra atinge sempre os outros e so os outros que se 
deixam matar. Virgem Santssima!... tambm no era verdade. Os 
horrveis telegramas comearam a deslizar por debaixo das portas, 
comunicando a dor e o luto, e os mortos eram gente nossa. No 
era o facto de estarmos a seis mil milhas da fria e do estrondo que 
deixava de nos poupar.
Uma poca medonha. As Liberty Belles podiam desfilar de 
chapu branco e alvo saiote, o nosso tio podia tornar a impingir o 
discurso do 4 de Julho para vender bnus da Defesa, ns poda-
mos, na escola, brandir espingardas de pau e decorar o Manual de 
Infantaria durante a aula de educao fsica, que tudo era escusa-
do. Deus nos valha! No era por isso que Martin Hopps deixava de 
ser morto, nem o filho dos Berges, que morava do outro lado da rua, 
de ser reduzido a migalhas por um obus. Lembram-se dele, no  
verdade? Era aquele bonito rapaz por quem a minha irm mais nova 
andava apaixonada desde os trs anos de idade.
Os rapazes novos, de mala na mo, desfilavam arrastando os 
ps pela Main Strect, em direco  gare da Pacfico Sul. L iam, 
como carneiros, precedidos pela banda de Salinas que tocava Stars 
and Stripes Forever, enquanto as famlias choravam e a msica 
soava a Requiem. Os recrutas no olhavam para as mes. Faltava-
-lhes a coragem. Nunca acreditramos que a guerra pudesse che-
gar at ns.
Os boatos principiaram a fervilhar em Salinas. Umas pessoas 
tinham sido informadas por um soldado... No nos diziam a verda-
de. Os nossos homens eram enviados para a frente de batalha 
sem armas. Os transportes de tropas eram afundados e o Gover-
no ocultava-nos o facto. O poderio do exrcito alemo era to gran-
de que ns no tnhamos nenhuma probabilidade de vencer. O Kaiser 
era um tipo esperto. At j se preparava para desembarcar na 
Amrica. O Presidente Wilson ainda estaria disposto a moer a 
mesma cantiga? Com certeza que no. Em geral, as tais pessoas 
bem informadas eram as que tinham dito que um americano valia 
vinte alemes... precisamente as mesmas.
Pequenos grupos de soldados ingleses em uniforme de cam-
panha - mas tinham um ar elegante - percorriam o pas e com-
pravam tudo o que no estava pregado ao cho. E pagavam bem. 
Na sua maioria, eram mutilados, mas usavam farda apesar disso.
Entre outras coisas, adquiriam feijo, pois o feijo  fcil de trans-
portar, conserva-se bem e alimenta o soldado. O feijo - muito 
raro - valia vinte e cinco cntimos o quilo. E os lavradores arre-
pendiam-se de o terem vendido por quatro cntimos na planta, 
seis meses antes da subida de preos.
Toda a nao e o vale do Salinas mudaram de disco. Primeiro, 
tnhamos berrado que amos arrasar Heligoland, enforcar o Kaiser e 
reparar os estragos que os malandros dos estrangeiros haviam fei-
to na prpria casa. E, de repente, pusemo-nos a cantar: Na maldi-
o vermelha da guerra, ergue-se a enfermeira da Cruz Vermelha. 
Ela  a rosa da Terra de Ningum. E depois: Est, est, ligue-me 
para o Paraso, que est l o meu paizinho. E mais ainda:  a 
orao duma criana que voa para as estrelas quando cai a noite: 
 meu Deus, pede ao pap que tenha cuidado consigo. 
Parecamos um garoto espadado que leva um soco no nariz 
mal comea a zaragata. Di-lhe e s deseja que aquilo acabe de-
pressa.



CAPTULO XLIII

1

Um dia, quase no fim do Vero, Lee entrou em casa com o 
grande cesto das compras no brao. Desde que habitava em Sali-
nas, vestia-se como um conservador. Sempre que saa, punha um 
fato preto. Usava camisas brancas, altos colarinhos engomados e 
enrolava ao pescoo umas fitas pretas iguais s dos senadores 
sulistas. Cobria a cabea com um chapu de coco, como se preci-
sasse de espao para guardar uma trana. O seu aspecto era es-
plndido.
Certa vez, Adam manifestara-lhe a sua admirao e Lee res-
pondera a sorrir:
-  preciso. S uma pessoa rica se vestia to mal como o 
senhor. Os pobres tm de se vestir bem.
- Pobre! - explodira Adam. - Um destes dias,  voc quem 
nos empresta dinheiro.
- Quem sabe? - respondera Lee.
Naquela tarde, ao chegar, ps o pesado cesto no cho.
- Vou ver se fao uma sopa de abbora,  moda chinesa. 
Tenho um primo no bairro chins que me deu a receita. Ele trabalha 
numa casa de jogo.
- Pensava que no tivesse parentes - disse Adam.
- Todos os chineses so aparentados e o nome de Lee  
mais um lao que nos une. O meu primo  um Suey Dong. Ainda 
h muito pouco tempo teve de fazer uma cura de repouso, e apro-
veitou a oportunidade para aprender a cozinhar. Mete-se a abbora 
numa panela, corta-se a parte de cima com todo o cuidado e enfia-
-se l dentro uma galinha, cogumelos, avels e uma pitada de gen-
gibre. Depois, torna-se a pr a tampa na abbora e deixa-se cozer, 
a fogo lento, durante dois dias. Deve ser estupendo.
Adam estava estiraado na poltrona, com as mos enlaadas 
atrs da nuca, e sorria para o tecto.
- Muito bem, Lee. Muito bem - disse ele. 
Adam endireitou-se.
- Afinal, julgamos conhecer os nossos filhos e verificamos 
que  um engano.
Lee sorriu.
- Passou-lhe despercebida alguma particularidade da vida 
deles? - perguntou.
Adam soltou um risinho.
- S por acaso  que descobri - disse ele. - Eu j tinha 
reparado que o Aron se ausentava muito, mas pensava que andas-
se a divertir-se l por fora.
- A divertir-se? - disse Lee. - H muitos anos j que ele 
deixou de se divertir.
- Seja como for - prosseguiu Adam - encontrei esta tarde o 
Sr. Kilkenny; sabe quem , o reitor do liceu? Ele imaginava que eu 
estivesse ao par. Sabe o que  que o meu filho anda a preparar?
- No - disse Lee.
- J estudou o programa do ano que vem e vai fazer os dois 
anos num s para poder entrar para a Universidade. O Kilkenny 
est convencido de que ele passa. Que me diz a isto?
- Digo que  extraordinrio - respondeu Lee. - Porque ser 
que ele fez isso?
- Para ganhar um ano.
- E depois?
- Valha-me Deus!, Lee. Ento no v que ele  ambicioso? 
No compreende?
- No - disse Lee. - Nunca consegui compreender. 
Adam disse:
- Ele nunca deixou escapar uma palavra. At o irmo  capaz 
de no saber.
- Ele  capaz de querer fazer-lhe uma surpresa. O melhor  
no falarmos no caso.
- Deve ter razo, Lee. No imagina o orgulho que sinto. So
coisas como esta que me fazem feliz. Quem me dera que o Cal 
fosse to ambicioso como ele.
- Talvez seja - disse Lee. - Quem nos diz que tambm 
no tem um segredo?
- Tudo  possvel. A verdade  que quase no lhe temos pos-
to a vista em cima nestes ltimos tempos. Acha que seja bom para 
ele nunca estar em casa?
O Cal anda a ver se se descobre - disse Lee. - Penso que 
isso de andar a brincar s escondidas com ele mesmo nada tem de 
extraordinrio. Certas pessoas levam toda a vida nisso e nunca 
conseguem descobrir-se.
- Veja l uma coisa destas - disse Adam. - Realizar o 
trabalho de dois anos num ano! Quando nos disser, temos de lhe 
dar uma prenda.
- Um relgio de oiro.
- Isso mesmo - disse Adam. - Vou comprar um e mandar 
grav-lo. Que acha que devo mandar inscrever?
- O joalheiro logo lhe dir - respondeu Lee. - Passados os 
dois dias, tiram-se os ossos  galinha e torna-se a met-la na 
abbora...
- Que galinha?!
- O caldo de abbora - explicou Lee.
- Temos dinheiro que chegue para mand-lo para a Universi-
dade,Lee?
- Se tivermos cuidado e se ele no adquirir hbitos dispen-
diosos...
- Descanse que no adquire.
- Tambm eu pensava no os ter... e, afinal, tenho. 
E Lee olhou com admirao para o tecido do casaco.


2

A reitoria da igreja episcopal de So Paulo era um espaoso 
edifcio, que fora construdo para ministros com famlia numerosa. 
O Sr. Rolf, homem solteiro de hbitos simples, condenara quase
todas as portas. Mas, quando Aron queria estudar, o Reverendo 
punha  sua disposio uma grande sala e ajudava-o a trabalhar.
O Sr. Rolf gostava muito de Aron. Gostava da beleza anglica 
do seu rosto, das faces redondas e macias, das ancas estreitas e 
das pernas finas. Gostava de se sentar na sala onde Aron estudava 
e observar a tenso do esforo no rosto do rapaz. Compreendia que 
Aron no conseguisse estudar em casa, onde a atmosfera era im-
prpria para a concentrao do esprito. O Sr. Rolf tinha a impres-
so de que Aron era criao sua, o seu filho espiritual, o seu 
contributo  Igreja. Encaminhando-o para o celibato, julgava condu-
zi-lo para uma angra de paz e sossego.
As suas discusses eram prolongadas e ntimas.
- Eu sei que sou criticado - disse um dia o Sr. Rolf -, 
acusam-me de ser catlico por no querer admitir que a confisso 
seja um sacramento menos importante do que a comunho. Mas 
oia bem o que lhe vou dizer: estou disposto a restabelecer a con-
fisso, mas gradualmente e com muito tacto.
- Tenciono fazer o mesmo quando tiver uma igreja.
-  preciso o maior cuidado.
Aron disse:
- Gostava que houvesse na nossa Igreja... que houvesse... 
mais vale no estar com rodeios... gostava que houvesse lugares 
como os conventos dos Agostinhos ou dos Franciscanos, lugares 
onde nos pudssemos retirar. s vezes, sinto-me conspurcado. 
Desejaria abandonar o mundo e purificar-me.
- Sei o que sente - disse o Sr. Rolf com fervor - mas no 
posso concordar consigo. No creio que Jesus, Nosso Senhor, 
deseje que o seu clero viva separado do mundo. No se esquea 
de quanto Ele insistiu para que pregssemos o Evangelho, auxi-
lissemos o doente e o desamparado, e no hesitssemos em 
nos conspurcar se estivesse em jogo a salvao duma alma. Deve-
mos respeitar a integridade do Seu exemplo. - (Passou-lhe um 
claro pelo olhar e a voz tornou-se rouca, como se fizesse um 
sermo). -Talvez no devesse dizer-lhe isto e espero que no me 
acuse de orgulho. Mas a verdade  que me sinto arrebatado. Nas 
ltimas cinco semanas, uma mulher tem assistido a todos os ofci-
os nocturnos. No me parece que a possa avistar do coro. Ela 
senta-se sempre no ltimo banco, do lado esquerdo... Sim, claro
que a pode ver. Usa vu e retira-se sempre antes de eu ter tempo 
para voltar.
- Quem ? - perguntou Aron.
- Bom,  melhor dizer-lhe j porque so coisas que acabar 
por saber. Fiz umas indagaes muito discretas e... No consegue 
adivinhar... ... enfim, ela tem uma casa de m nota.
- Aqui, em Salinas?
- Aqui, sim. - (O Sr. Rolf inclinou-se para Aron). - Estou a 
ver-lhe a repulsa estampada no rosto. Temos de passar por cima 
dessas coisas. No se esquea de Nosso Senhor e de Maria Mada-
lena. Sem querer incorrer no pecado de orgulho, sempre lhe direi 
que gostaria de redimir essa criatura.
- Que vem ela c buscar? - perguntou Aron.
- Deve vir procurar o que lhe podemos oferecer: a salvao.  
preciso muito tacto. J estou a ver a cena: um dia, bate-me  porta 
e suplica que a deixe entrar - essa gente  muito tmida. Espero, 
ento, Aron, ter a pacincia e a sabedoria necessrias. Acredite no 
que lhe digo: quando acontece uma coisa dessas, quando uma 
alma perdida procura a luz, trata-se da maior e da mais maravilhosa 
experincia que a um pastor  dado viver. Ns estamos na terra 
para isso, Aron.  para isso que estamos na terra. - (O Sr. Rolf 
respirava com dificuldade). - Permita Deus que eu no falhe.


3

Adam Trask imaginava a guerra atravs das vagas recordaes 
que conservava da campanha contra os ndios. Ningum sabia o 
que era uma chacina generalizada. Lee ps-se a ler a Histria da 
Europa, tentando prefigurar o futuro pelo que sucedera no passado.
Lizza Hamilton morreu com um sorrisinho murcho e as mas 
do rosto tornaram-se surpreendentemente bicudas depois de fica-
rem lvidas.
Adam aguardava com impacincia que Aron lhe viesse comu-
nicar o resultado dos exames. O relgio de oiro macio estava 
espera debaixo duma pilha de lenos. Adam dava-lhe corda e via se 
regulava comparando-o com o seu.
Lee j tinha as suas instrues. Na noite do grande dia, assa-
ria um peru e faria um bolo.
- Tem de ser uma festa - dissera Adam. - E se comprs-
semos champanhe?
- Boa ideia - respondera Lee. - J leu alguma vez Von 
Clausewitz?
- Quem ?
-  um homem que escreve coisas bastante desanimadoras. 
S uma garrafa de champanhe?
- H-de chegar.  para fazer uma sade ao Aron.
No lhe passava pela cabea que o filho pudesse reprovar.
Uma tarde, Aron entrou em casa e perguntou a Lee: 
- Onde est o meu pai?
- Est a fazer a barba.
- Esta noite no janto em casa - informou Aron.
Na casa de banho, ps-se atrs do pai e falou  cara ensa-
boada que se reflectia no espelho.
- O Sr. Rolf convidou-me para jantar na reitoria.
Adam limpou a navalha a uma folha de papel higinico. 
- Muito bem - disse.
- Posso tomar banho?
- S me demoro mais um minuto - respondeu Adam. 
Quando Aron atravessou a sala, deu as boas-noites a toda a
gente e saiu. Cal e Adam acompanharam-no com os olhos. 
- Tornou a servir-se da minha gua-de-colnia - disse Cal.
- At aqui cheira.
- Ps-se de ponto em branco - comentou Adam.
- Ele tem razes para estar satisfeito. Praticou uma verda-
deira proeza.
- Que proeza?
- O exame. Ele no te disse? Ficou aprovado.
- Ah pois, o exame - disse Adam. - Disse-me, sim. Tra-
balhou a valer. Sinto-me muito orgulhoso. Acho que lhe vou ofere-
cer um relgio de ouro.
Cal atirou com violncia:
- Ele no te disse coisa nenhuma!
- Disse, sim, disse-me esta manh.
- Esta manh ainda ele no sabia - replicou Cal. 
E saiu.
Caminhou apressadamente atravs das trevas que se aden-
savam, atravessou a Central Avenue, passou rente ao parque e  
loja de Stonewall Jackson, indo at ao fim da rua, onde deixava de 
haver candeeiros e comeava a estrada municipal que tornejava a 
casa ds Tollot.
Por volta das dez horas, Lee saiu para ir pr uma carta no 
correio e encontrou Cal sentado no primeiro degrau da entrada. 
- Por onde andaste? - perguntou.
- Tenho andado a passear.
- Que se passa com o Aron?
- No sei.
- Ele parece andar rancoroso com algum. Queres vir comigo 
ao correio?
- No.
- Que ests tu a fazer aqui?
- Vou partir-lhe a cara.
- No faas isso - disse Lee.
- Porqu?
- Porque no podes. Ele dava cabo de ti.
- Talvez tenhas razo - disse Cal. - Que filho da me! 
- V l como falas.
Cal riu-se.
- Acho que vou contigo.
- J leste Von Clausewitz?
- Nunca ouvi falar.
Quando Aron regressou a casa, era Lee quem o esperava no 
primeiro degrau da entrada.
- Poupei-te uma sova - disse Lee. - Senta-te. 
- Vou-me deitar.
- Senta-te. Preciso de falar contigo. Porque no disseste ao 
teu pai que tinhas passado no exame?
- Ele era incapaz de compreender.
- O que tu merecias era um pontap dos rijos.
- No gosto que me falem nesses termos.
- E porque julgas tu que eu os utilizo? No perteno ao nme-
ro das pessoas que so grosseiras sem querer. Aron, o teu pai s 
vivia na expectativa dessa notcia.
- Como  que ele sabia?
- Tu prprio  que lhe devias ter dito.
- No tens nada com isso.
- Vais j ao quarto dele e acord-lo caso esteja a dormir, mas 
no creio que seja preciso, para lhe dares a novidade. 
- Isso  que no vou.
Lee perguntou baixinho:
- Aron, j alguma vez tiveste de lutar com algum duas vezes 
mais pequeno do que tu?
- Onde queres tu chegar?
- No conheo nada to embaraoso. O pequeno advers-
rio atira-se a ns e chega o momento em que temos de lhe bater. 
No h nada pior. A  que comeam as verdadeiras contrarieda-
des.
- Que ests tu a dizer?
- Se no fizeres o que te peo, Aron, vou bulhar contigo. No 
achas ridculo?
Aron tentou passar. Lee postou-se diante dele, com os punhos
fechados, mas a pose era to cmica que desatou a rir.
- No sei como h-de ser, mas vou experimentar.
Aron recuou, enervado. Por fim, resolveu sentar-se no de-
grau e Lee suspirou.
- Apre! - disse ele.- Acabou-se. Sempre evitmos uma 
coisa terrvel. Que tens tu, Aron? Antigamente, costumavas desa-
bafar sempre comigo.
Subitamente, Aron falou:
- Quero ir-me embora desta cidade nojenta.
- No digas isso.  uma cidade como outra qualquer.
- Eu no sou de c. Quem me dera nunca aqui ter vindo. 
No sei o que tenho, mas quero ir-me embora.
Lee passou-lhe o brao pelos ombros robustos.
- Ests a ficar um homem - disse ele. -Talvez seja essa a 
razo.  a altura da vida em que somos submetidos s mais duras 
provaes. Pomo-nos a olhar para dentro de ns e a contemplar-
-nos com horror. Chegamos a acreditar que os estranhos conse-
guem ver o que vai c por dentro. Tudo o que  repelente se torna
mais repelente ainda, e a pureza parece muitssimo mais pura. 
Tudo isso passa, Aronw Basta esperar um bocadinho. Bem sei que 
no te parecer muito reconfortante, pois no acreditas que seja 
possvel, mas nada mais posso fazer por ti. Faz por compreender 
que as coisas no so to boas nem to ms como parecem. Mas, 
apesar do que disse, talvez te possa ajudar. Vai deitar-te e, amanh 
de manh, levanta-te cedo e vai dar a notcia de que passaste no 
exame a teu pai. Mostra-te satisfeito. O teu pai est muito mais s 
do que tu, pois j no tem nenhuma esperana de futuro. Toma a 
iniciativa, era um dos conselhos que costumava dar Sam Hamilton. 
Faz os gestos da felicidade que talvez te sintas feliz. Faz os ges-
tos, faz... Agora, vai deitar-te. Eu vou fazer um bolo para o pequeno 
almoo. Aron... o teu pai escondeu um presente debaixo do teu 
travesseiro.



CAPTULO XLIV

1


Abra s aprendeu a conhecer a famlia Trask depois de Aron 
ter partido para a Universidade, pois ambos viviam enclausurados 
na sebe do seu amor. Quando Aron se afastou, a cerca ruiu e Abra 
afeioou-se aos outros Trask, descobrindo que tinha mais confian-
a em Adam e que gostava mais de Lee do que do prprio pai.
Pelo que respeitava a Cal, sentia-se indecisa. Umas vezes 
despertava-lhe raiva, outras pena e outras, ainda, apenas curio-
sidade. Parecia estar sempre disposto a brigar com ela. Como igno-
rava os sentimentos de Cal, no se mostrava inclinada a gostar 
dele. E ficava aliviada quando chegava a casa dos Trask e Cal no 
estava l para a olhar de soslaio a julg-la, observ-la e desviar o 
olhar assim que se via surpreendido.
Abra era uma mulher robusta, bem constituda e s esperava 
pelo sacramento do matrimnio - mas esperava. Adquiriu o h-
bito de ir a casa dos Trask quando saa da escola e de se sentar 
na cozinha para ler a Lee trechos da carta quotidiana de Aron.
Aron aborrecia-se em Stanford. Todas as cartas vinham im-
pregnadas do desejo de rever a amiga. Perdera o ar distante com 
que a tratava em Salinas. A solido e o afastamento ateavam-lhe a 
paixo. Estudava, comia, dormia e escrevia a Abra, voltando as 
costas a tudo o que no fosse o seu amor.
Quando Abra chegava a casa dos Trask, ao fim da tarde, aju-
dava Lee a descascar vagens ou ervilhas. Algumas vezes fazia 
um doce e, frequentemente, preferia ficar para jantar a ir para casa.
No havia assunto que no discutisse com Lee. As raras coisas de 
que podia conversar com o pai ou a me pareciam-lhe inspidas, 
sem interesse e inconsistentes. Com Lee, era diferente. Abra s 
gostava de contar a Lee o que era verdade, mesmo quando no 
tinha a certeza absoluta de estar dizendo a verdade.
Lee, sentado, sorria, e as suas mozinhas geis pareciam 
adejar como se estivessem animadas de vida prpria. Abra no 
compreendia que s falava de si mesma. Por isso, s vezes, en-
quanto ela falava, o esprito de Lee corria  aventura, deixava a 
cozinha, voltava como um co vadio e o chins abanava a cabe-
a, aquiescendo com um murmrio.
Lee gostava de Abra por sentir que era uma criatura forte, bon-
dosa e de temperamento ardente. Os msculos do rosto, auda-
ciosamente vincados, prometiam uma grande beleza ou, quem sabe, 
uma grande fealdade. Lee, enquanto a ouvia conversar, pensava 
nas caras redondas e delicadas dos Cantoneses. Lee devia preferir 
essa espcie de beleza pois quase sempre se prefere aquilo que 
se nos assemelha, mas no era assim. Quando pensava nos Chi-
neses, s se lembrava dos rostos dos rapazes Manchus, rostos 
arrogantes e desapiedados dum povo que herdara a autoridade.
-Talvez tenha sido sempre assim - disse um dia Abra. - No 
sei. Ele nunca me falou muito no pai. S depois de o Sr. Trask ter 
o aborrecimento das... das alfaces  que o Aron se mostrou zanga-
do.
- Porqu?
- Porque faziam pouco dele.
Lee retomou o fio  meada.
- Troaram do Aron? E porqu dele? Ele no tinha culpa 
nenhuma.
-  o que ele pensava. Quer saber o que eu acho? 
- Com certeza - disse Lee.
- Encontrei uma soluo, mas ainda no est bem definida. 
Acho que ele se sentiu sempre... digamos, mutilado... ou antes, 
incompleto, pelo facto de no ter me.
Lee arregalou os olhos e tornou logo a fech-los.
- Estou a ver - disse ele. - Pensa que se d o mesmo com 
o Cal?
- No.
- Porqu com o Aron, ento?
- Ainda no descobri. Talvez seja porque certos seres tm 
necessidades maiores, ou talvez odeiem com mais fora. O meu 
pai sempre detestou os nabos e ningum sabe porqu. Assim que 
v nabos fica furioso. Mas furioso a valer. Um dia, a minha me, 
levada no sei por que ideia, fez um pur de nabos gratinado no 
forno. O meu pai comeu um prato inteiro antes de perguntar o que 
era. A minha me respondeu-lhe que eram nabos. Quando ouviu 
aquilo, o meu pai atirou o prato para o cho, levantou-se e saiu de 
casa. Tenho a impresso de que nunca lhe perdoou.
Lee soltou uma risada.
- Pois devia perdoar-lhe, visto a sua me ter respondido que 
eram nabos. Mas suponha, Abra, que a sua me tinha respondido 
outra coisa  pergunta do seu pai, que ele tinha achado aquilo 
excelente e que tinha comido um segundo prato? Suponha que 
ele descobria em seguida a verdade? Talvez a tivesse matado.
- Nunca se sabe. Seja como for, acho que o Aron precisava 
mais duma me do que o Cal. Creio que sempre censurou o pai.
- Porqu?
- Isso no sei.  s o que penso.
- Ningum a engana, hem?
- Acha mal?
- De forma nenhuma.
- Quer que faa um doce?
- Hoje no. Ainda temos.
- Ento, que hei-de fazer?
- Pode preparar as costeletas. Janta connosco?
- Hoje no posso. Vou a um aniversrio. Acha que ele vir a 
ser pastor?
- Como quer que saiba? - disse Lee. - Talvez a ideia lhe 
passe.
- Espero que no venha a ser pastor - disse Abra.
E fechou logo a boca, admirada com o que tinha dito.
Lee levantou-se, pegou na tbua de bater a carne e numa peneira
com farinha.
- Sirva-se da faca ao contrrio - disse ele, colocando a 
carne em cima da tbua.
- Eu sei.
Abra esperava que ele no tivesse percebido, mas Lee per-
guntou:
- Porque no quer que ele seja pastor? 
- No devia ter dito isso.
- Pode dizer o que lhe apetecer, que no  obrigada a dar 
explicaes.
Lee voltou a sentar-se. Abra peneirou a farinha em cima da
carne e comeou a bater com a faca. Taque, taque, taque. 
- Eu no devia falar desta maneira. 
Taque, taque, taque.
Lee virou a cara para pr a rapariga  vontade.
- O Aron nunca est com meias medidas - disse ela en-
quanto continuava a tarefa. - Se se fizer religioso, h-de escolher 
a ordem mais asctica. Ele disse-me uma vez que os pastores no 
deviam casar.
- No era isso o que ele parecia dizer na ltima carta - 
observou Lee.
- Bem sei, mas foi antes. - (A faca imobilizou-se. No jovem 
rosto assomava um desnimo doloroso). - Lee, eu no sou sufi-
cientemente boa para ele.
- Ento, ento! Mas que ideia  essa?
- No estou a brincar. Quando ele pensa em mim, no v a 
Abra mas sim uma outra pessoa qualquer que imaginou e a quem 
eu sirvo de capa. Eu no me pareo com... com aquela que ele 
inventou.
- Como  ela?
- Pura - respondeu Abra. - Toda ela  pureza. No tem 
maldade nenhuma. Eu no sou assim.
- Ningum  assim - comentou Lee.
- Ele no me conhece nem me quer conhecer. S gosta des-
se tal fantasma branco.
Lee tirou do forno um tabuleiro de biscoitos.
- No gosta dele? Bem sei que ainda  muito nova, mas a 
idade no conta.
- Como quer que no goste se vou ser mulher dele? Mas 
desejava que ele tambm gostasse de mim. E como ser isso 
possvel se ele no me conhece? Eu imaginava que ele soubesse 
quem eu era, mas agora j sei que me enganei.
- Talvez ele esteja atravessando um perodo difcil. A Abra 
 inteligente. Porque no tenta parecer-se com o fantasma bran-
co?
- Tenho sempre receio de me trair. Posso zangar-me, ou chei-
rar mal, ou sei l o qu. Ele dava logo por isso.
- Quem sabe? - disse Lee. - No deve ser fcil conseguir 
ser ao mesmo tempo um fantasma etreo e um ente humano de 
carne e osso. No se pode impedir que os humanos cheirem mal.
Abra afastou-se da mesa.
- Lee, eu queria...
- No deixe cair farinha no cho - disse ele. - Que queria?
- Foi uma ideia que me veio  cabea. Julgo que o Aron, 
como no conheceu a me, imaginou que ela possua todas as 
qualidades que ele desejaria encontrar numa mulher.
-  muito possvel. E vai da, est convencida de que ele a 
enfeitou com essa tralha toda?
Ela fitou-o com insistncia e passou os dedos pela lmina da 
faca.
- Apetecia-lhe devolver a tralha, no  verdade? - perguntou
ele.
- Pois.
- E se ele deixar de gostar de si?
- Prefiro correr esse risco e mostrar-me tal qual sou - decla-
rou ela.
Ele disse:
- Nunca conheci ningum que andasse to metido na vida 
dos outros como eu. Ora eu no sou homem para dar conselhos 
definitivos. Arranja-me as costeletas ou no?
Abra recomeou a trabalhar.
- Acha que seja divertido abordar questes deste gnero, 
quando ainda ando na escola?
- As coisas no se poderiam passar de outra maneira - 
disse Lee. - O riso vir mais tarde, como os dentes do siso, e quan-
do tiver aprendido a rir de si, talvez tarde de mais, j estar lanada 
numa corrida desenfreada contra a morte.
As pancadas que Abra vibrava na tbua tornaram-se mais 
violentas e desordenadas.
Lee colocou cinco caroos de lima em cima da mesa e ps-
-se a desenhar figuras geomtricas - uma linha, um ngulo, um 
crculo.
As pancadas detiveram-se.
- A Sr.a Trask est viva?
O indicador de Lee manteve-se em suspenso, depois, em-
purrou um caroo e o O transformou-se num Q. Sabia que 
Abra estava a olhar para ele. Adivinhava at o pnico que dela se 
apossara pela pergunta que fizera. Procurou a resposta como um 
rato que procura a sada da ratoeira. Suspirou e renunciou. Vol-
tou-se lentamente para ela, olhou e viu que adivinhara. Numa voz 
sem timbre, disse:
- Temos falado muito, mas no me lembro de j termos falado 
de mim. - (Sorriu com timidez). - Abra, deixe que lhe fale de mim. 
Sou um criado. Sou velho. Sou chins. Tudo isto j sabe. Mas 
sinto-me cansado e sou covarde.
- No diga... - comeou ela.
- Caluda - interrompeu ele. - Sou muito, muito covarde. Ao 
ponto de no querer influir num destino.
- De que modo?
- Abra, o seu pai s detesta os nabos? 
A rapariga no quis ceder.
- Eu fiz-lhe uma pergunta.
- No ouvi pergunta nenhuma - disse ele suavemente. (E a 
voz adquiriu um tom de confidncia). - No me fez pergunta ne-
nhuma, Abra.
- Deve pensar que eu sou ainda muito nova... - principiou 
Abra.
Mas Lee atalhou:
- Trabalhei em casa duma mulher de trinta e cinco anos que 
era feia e estpida. Se tivesse seis anos, teria feito o desespero 
dos pais. Mas aos trinta e cinco anos tinha o direito de dispor duma 
fortuna e das vidas humanas que a rodeavam. No, Abra, a idade 
no tem nada a ver com o caso. E se eu tivesse qualquer coisa a 
dizer... era a si que diria.
A rapariga sorriu.
- Eu sei ser m - disse ela. - Quer que experimente? 
- No, por amor de Deus!
- Ento, no quer que eu tente compreender?
- Faa o que lhe apetecer, mas no quero imiscuir-me nisso. 
O homem, por muito bom que seja, tambm  fraco e negativo, e 
carrega consigo todos os pecados que pode suportar. Ora eu j 
tenho bastantes pecados que me aflijam. Talvez no sejam gran-
des pecados, em comparao com outros, mas os que tenho che-
gam-me perfeitamente. Peo-lhe que me perdoe.
Abra estendeu a mo e tocou na de Lee. Lee olhou para a 
marca branca que fora deixada pela farinha na pele lisa e esticada.
Abra disse:
- O meu pai preferia ter um filho. Acho que ele detesta os 
nabos e as raparigas. Anda sempre a contar a toda a gente que me 
ps um nome ridculo.
Lee sorriu-lhe.
- Voc  um encanto de rapariga. Se vier jantar amanh, 
compro-lhe nabos.
Abra perguntou timidamente:
- Ela est viva?
- Est - respondeu Lee.
Ouviu-se bater a porta da entrada e Cal entrou na cozinha. 
- Bom dia, Abra. O meu pai est c?
- Ainda no veio - respondeu Lee. - Porque trazes esse
ar to radiante?
Cal mostrou-lhe um cheque.
- Toma,  para ti.
- Lee olhou para a quantia.
- Eu no te exigi juros - disse.
- Assim  melhor. Pode ser que ainda me venha a fazer falta. 
- No me queres dizer como o arranjaste? 
- No, ainda no. Tenho uma boa ideia... 
- Os olhos de Cal voltaram-se para Abra. 
- Vou para casa - anunciou ela.
Cal disse:
- Mais vale preveni-la. Resolvi fazer a tal coisa no dia de Ac-
o de Graas e a Abra h-de estar c assim como o Aron. 
- Qual coisa? - perguntou Abra.
- O presente ao meu pai.
- O que ?
- No posso dizer. Logo vs nesse dia.
- O Lee j sabe?
- J, mas esse no conta nada.
- Acho que nunca te vi to satisfeito - disse Abra. - Tenho 
at a impresso de que nunca te vi satisfeito.
Havia qualquer coisa em Cal que a atraa. Mal saiu, Cal sen-
tou-se.
- No sei se lho d antes ou depois do jantar. 
-  melhor depois - disse Lee.
- Sempre  verdade que tens o dinheiro? 
- Quinze mil dlares.
- Dinheiro honesto?
- Queres saber se o roubei?
- Pois claro.
- Ento fica sabendo que  dinheiro honesto - disse Cal. 
lembras-te de quando tivemos champanhe por causa do Aron? Pois 
bem! Havemos de t-lo outra vez. E at podamos enfeitar a sala. A 
Abra ajudava-nos.
- Ests convencido de que o teu pai aceita o dinheiro? 
- Porque no?
- Espero que no te enganes - disse Lee. - Como vo 
esses estudos?
- Fracos. Vou ver se ganho o tempo perdido - disse Cal.


2

Quando terminaram as aulas, no dia seguinte, Abra correu atrs 
de Cal e apanhou-o.
- Bom dia, Abra. O teu doce estava estupendo.
- Ficou muito seco. Devia estar mais solto.
- O Lee anda perdido de amores por ti. O que foi que lhe
fizeste?
- Eu gosto muito do Lee - disse ela. - (Depois): - Tenho 
uma coisa a pedir-te, Cal.
- O que ?
- Tu conheces bem o Aron, no conheces? 
- Porqu?
- Parece que s pensa nele.
- Isso no  novidade. Zangaste-te com ele?
- No. Quando se ps a falar da Igreja e do celibato, tentei 
lutar contra ele, mas ele no quis.
- No me digas que ele j no queria casar contigo. Mas que 
disparate!
- Pois, agora, escreve-me cartas de amor, mas no  a mim 
que as dirige.
- Ento?
- Parecem escritas a si mesmo.
Cal disse:
- Descobri o esconderijo debaixo do choro. 
Ela no pareceu admirada.
-  verdade?
- Ests aborrecida com o Aron?
- No. No consigo atingi-lo. Eu no o conheo.
- Vai tendo pacincia. Deixa ver se ele se descobre.
- Gostava de saber se ele chegar a descobrir-se. Achas que
tenho andado enganada desde o princpio?
- Como queres que saiba?
- Cal - perguntou ela -  verdade que passeias de noite e 
que vais para stios de m fama?
-  - respondeu ele. -  verdade. Foi o Aron quem te dis-
se?
- No, no foi o Aron. Porque vais a lugares desses? 
Cal continuou a caminhar ao lado dela e no respondeu. 
- Dize-me, anda.
- Que tens tu com isso?
-  por seres mau?
- Achas que sou?
- Eu tambm no sou boa - disse ela.
- Tu s doida - disse Cal. - O Aron logo te tira essa ideia 
da cabea.
- Achas que consegue?
- Pois claro - disse Cal. - No tem outro remdio.



CAPTULO XLV


1

Joe Valery ia vivendo menos mal, de olho alerta e ouvido apu-
rado, e expondo o cachao o menos possvel. Armazenara os seus 
dios a pouco e pouco, primeiro por uma me desmazelada e, de-
pois, por um pai choramngo que lhe batia. Fora-lhe fcil transferir 
as sementes de dio para o professor que o castigara, para o pol-
cia que o prendera e para o padre que lhe pregara um sermo. 
Muito antes de um primeiro magistrado se ter interessado por ele, 
j Joe possua um sortido completo de dios que iam atingir toda a 
gente conhecida.
Mas o dio no pode viver sozinho. Tem de caminhar a par do 
amor, servindo de mola real, de aguilho ou de estimulante. Joe 
passou a amar Joe. Reconfortou, lisonjeou e estremeceu Joe. Cons-
truiu muros para proteger Joe do mundo hostil. E, insensivelmente, 
Joe transformou-se em tabu. Se Joe tinha desgostos, era porque o 
mundo queria mal a Joe. Mas quando Joe atacava o mundo, era 
uma vingana bem merecida - sim, essa corja de malandros no 
merecia outra coisa. Joe embalava o seu amor e aperfeioou uma 
srie de regras dispostas pela seguinte ordem:

1 - No acredites em ningum. Todos te querem mal. 
2 - Bico calado. No ds o flanco.
3 - Ouvidos bem abertos. Se os gajos disserem alguma coi-
sa, guarda-a bem guardada que ainda te pode vira servir.
4 - So todos uns filhos da puta que comeam a afiar o dente 
mal te vem chegar.
5 - Nunca te atires de caras. Vai sempre de roda.
6 - Nunca te fies numa mulher para coisa nenhuma.
7- Confia s no dinheiro. Todos o querem. Todos se vendem.

Havia outras regras, mas no passavam de subtilezas. O seu 
sistema era bom e, como no conhecia outros, a comparao torna-
va-se impossvel. Joe sabia que era preciso ser vivao e conside-
rava-se vivao. Se o golpe resultava, era um espertalho. Se falha-
va, era uma vtima. Joe defendia-se o melhor que podia e vivia com 
um mnimo de esforo. Kate mantinha-o ao seu servio por o saber 
capaz de fazer fosse o que fosse por cupidez ou por medo. No 
tinha iluses nenhumas a respeito dele - os Joe so necessrios 
a quem trabalha.
Quando entrou para a casa de Kate, Joe procurou as fraquezas 
em que se apoiava para viver: vaidade, concupiscncia, angstia, 
remorso, histeria. Havia de descobri-las, pois Kate era uma mu-
lher. Teve, porm, um grande choque quando compreendeu que, 
se Kate tinha algum ponto fraco, era impossvel dar com ele. Aquela 
mulher pensava e agia como um homem, embora fosse mais dura, 
mais rpida e mais inteligente. Joe cometeu alguns erros e Kate 
deu-lhe uma lio para que no voltasse a repeti-los. Passou a ter 
por ela uma verdadeira admirao baseada no medo.
Quando chegou  concluso de que certas espertezas no 
resultavam com Kate, resolveu p-las inteiramente de lado. Kate 
fez dele um escravo, como sempre fizera escravas as mulheres 
que dirigia. Alimentou-o, vestiu-o, deu-lhe ordens e castigou-o.
Assim que Joe reconheceu que ela era mais forte do que ele, 
s lhe faltava dar um passo para concluir que ela era a mais forte de 
todas as criaturas. Kate possua dois dons que ele julgava indis-
pensveis: era vivaa e tinha sorte. Que mais se podia pedir? Por 
isso, fazia o seu trabalho com prazer e s receava no ser capaz 
de o fazer.
- A Kate nunca se engana - dizia Joe. - E  escusado 
armar em esperto com ela.
A opinio transformou-se num hbito. Quando se tratou de pr 
Ethel fora de aco, nem sequer fez perguntas; aquilo constitua 
parte do seu trabalho quotidiano. Ningum tinha nada com isso e 
Kate sabia o que fazia.


2

Kate nunca conseguia dormir quando tinha um ataque de 
artritismo. Ficava com as articulaes inchadas e emperradas, e 
preferia pensar noutra coisa, mesmo que fosse desagradvel, para 
esquecer o mal que lhe paralisava os dedos. Procurava recordar-
-se de todos os pormenores duma casa onde no entrava h muito 
tempo ou fitava o tecto enquanto fazia contas de somar. Certas 
vezes, evocava recordaes, a cara do Sr. Edwards, a sua roupa, a 
palavra gravada na barra dos suspensrios. Nunca prestara aten-
o mas, contudo, sabia que a marca era Excelsior.
Muitas vezes, de noite, pensava em Faye e lembrava-se dos 
seus olhos, do cabelo, do timbre da voz, da tagarelice das mos e 
duma grainha de carne no polegar esquerdo, cicatriz duma ferida 
antiga. Kate perguntava a si mesma que sentimento a ligara a Faye. 
Desprezo? Afeio? Pena? Sentia remorsos de a ter matado? Kate 
media os pensamentos como a lagarta que anda a intervalos 
regulares. E acabava por se convencer de que Faye lhe fora 
indiferente. Que se recordasse, nunca a amara ou odiara. Houve-
ra uma poca, durante a agonia, em que o rudo e o cheiro emitidos 
pela velha tinham despertado em Kate uma fria assassina: apete-
cera-lhe mat-la imediatamente para se ver livre dela.
Kate lembrava-se da ltima vez em que vira Faye, estendida 
no caixo forrado de veludo violeta, vestida de branco, com um 
sorriso na boca arranjado pelos gatos-pingados e a cara toda pinta-
da para disfarar a lividez.
Uma voz atrs de Kate dissera:
- H muitos anos que no parecia to bonita. 
A outra voz retorquira:
- Talvez fosse disso que eu precisasse.
E tinham-se ouvido duas fungadelas. A primeira voz devia 
pertencer a Ethel e a segunda a Trixie. Kate tambm se recordava 
da sua prpria reaco. Ora! uma puta morta era igual a outra pes-
soa qualquer.
Sim, a primeira voz devia ser a de Ethel. A Ethel desempenhava 
um grande papel nas divagaes nocturnas de Kate. Trazia sempre 
com ela um vendaval de medo. Ethel... essa velha puta bronca,
idiota, esse estafermo. Frequentemente, elevava-se uma voz que 
dizia a Kate:
Mais devagar! Porque  que lhe chamas puta velha? Por teres 
cometido um erro? Porque a mandaste expulsar? Se tivesses raci-
ocinado e se ficasses com ela aqui... 
Kate perguntava a si mesma onde estaria Ethel. Porque no 
pagar a uma agncia para a descobrir ou, pelo menos, para saber 
que direco havia tomado? Sim, mas depois a Ethel era capaz 
de dar  lngua e de mostrar os frascos. E, em vez de um, seriam 
logo dois a fazer chantagem. Mas que importncia tinha se, sem-
pre que a Ethel bebia uma cerveja, se punha a despejar o saco ao 
primeiro que lhe aparecesse? Pois era, mas todos pensavam que 
eram histrias da carochinha. E um detective particular...? No. 
Detectives, no.
Kate passava muitas horas na companhia de Ethel. Teria o juiz 
percebido que se tratava duma marosca com os cordelinhos todos 
 vista? Cem dlares eram uma conta demasiado certa. E o xerife? 
O Joe viera dizer que tinham levado a Ethel para a provncia de 
Santa Cruz. Teria ela dito alguma coisa ao adjunto que a acompa-
nhara? A Ethel era uma velha preguiosa. Se calhar, tinha ficado 
em Watsonville. Havia Pajaro, depois era o entroncamento ferrovi-
rio e, a seguir, o rio Pajaro, e a ponte para Watsonville, sempre 
cheia dum constante vai-e-vem de operrios: mexicanos e alguns 
hindus. A besta da Ethel era muito capaz de ter imaginado que 
conseguia ganhar a vida com os trabalhadores do caminho de ferro. 
Mas que piada se ela nunca tivesse sado de Watsonville, que s 
distava cinquenta quilmetros! Afinal, se lhe desse na gana, podia 
atravessar a fronteira e vir visitar os amigos. Talvez viesse a Salinas 
algumas vezes? Talvez estivesse em Salinas naquela altura? Os 
pasmas tinham mais que fazer do que perder o tempo com a Ethel. 
Talvez fosse boa ideia mandar o Joe a Watsonville. A Ethel talvez 
tivesse ido at Santa Cruz. O Joe podia l ir deitar uma vista de 
olhos. No levava muito tempo. O Joe era capaz de descobrir uma 
puta em poucas horas, por mais escondida que estivesse. Se a 
encontrasse, poderia obrig-la a voltar. A Ethel era uma parva. Mas, 
se a encontrasse, talvez fosse prefervel que Kate a fosse ver. Fe-
char a casa. Pr um letreiro. Encerrado. Poderia ira Watsonville, 
liquidava o assunto e voltava. Txis, no. Num autocarro. No se
costuma reparar nas pessoas que viajam de noite nos autocarros. 
Os passageiros dormem depois de terem tirado os sapatos e enro-
lado os casacos em almofada atrs da cabea. Subitamente, per-
cebeu que teria medo de ir a Watsonville. Mas tinha que tomar uma 
deciso, para pr termo a todas aquelas perguntas. Era estranho 
que no tivesse pensado no Joe mais cedo. Ele estava mesmo a 
calhar. O Joe tinha habilidade para certos trabalhinhos e, ainda por 
cima, julgava-se um alho. Portanto, no custava a manejar. Mas a 
Ethel era estpida e isso  que tornava as coisas mais complicadas.
As mos e o crebro de Kate iam-se deformando. Cada vez 
confiava mais em Joe Valery, brao direito, intermedirio e car-
rasco. Desconfiava das pensionistas, no porque fossem piores 
do que Joe, mas porque alimentavam uma histeria latente que 
poderia destruir o edifcio comum ao mnimo abalo. Kate sempre 
soubera dominar esse perigo permanente, mas a lenta petrificao 
das articulaes e o medo crescente obrigavam-na a valer-se de 
algum; Joe, neste caso.
Kate podia depositar inteira confiana em Joe, pois tinha nos 
seus arquivos um relatrio sobre um certo Joseph Venuta que se 
evadira de San Quentin um ano antes de cumprir a pena de cinco 
anos por ataque  mo armada. Kate nunca tocara no assunto a 
Joe Valery, mas estava convencida de que aquilo chegaria para o 
acalmar, caso se mostrasse atrevido.
Joe trazia-lhe todas as manhs o pequeno almoo - ch ver-
de, leite e torradas. Depois de colocar a bandeja em cima da mesa 
de cabeceira, fazia um resumo dos acontecimentos e recebia as 
instrues dirias. Joe sabia que ela dependia cada vez mais dele. 
Devagar, com toda a prudncia, ia procurando o meio de deitar mo 
ao negcio. Se ela ficasse bastante doente, talvez fosse uma boa 
oportunidade. Mas Joe tinha medo de Kate.
- Bom dia - disse ele.
- No posso sentar-me, Joe. Serve-me uma chvena de ch, 
que eu no posso segur-la.
- Doem-lhe as mos?
- Doem. Daqui a bocadinho j estarei melhor.
- Parece que passou mal a noite.
- No - disse Kate. - A noite foi boa. O novo remdio deu
resultado.
Joe levou a chvena aos lbios de Kate. Ela bebeu aos Boli-
nhos, soprando o lquido para o arrefecer.
- No quero mais - disse ela, depois de beber metade da 
chvena. - Que se passou ontem  noite?
- Estive quase para a vir acordar - disse Joe. - Apareceu a 
um gajo de King City, cheio de massa. Acho que tinha acabado de 
vender a colheita. Largou uma data de pastel: setecentos dlares 
sem contar com o que deu s pequenas.
- Como se chamava?
- No sei. Mas espero que torne a aparecer.
-  preciso tomar sempre nota do nome, Joe. J te tenho dito
isto.
- Ele era acanhado.
- Mais uma razo. Nenhuma das raparigas o enrolou? 
- No sei.
- Pois trata de saber.
- Joe achou que ela tinha gnio e sentiu-se bem. 
- Hei-de saber - garantiu. - No custa nada.
Kate examinou-o com o olhar, perscrutando-o e avaliando-o.
Joe compreendeu que se ia passar qualquer coisa.
- Gostas do teu lugar? - perguntou ela baixinho. 
- Ai, no, que no gosto!
- Pois podias arranjar um lugar bem melhor ou... pior.
- Gosto de c estar - repetiu ele, pouco  vontade, pro-
curando descobrir que falta teria cometido. - Sinto-me como peixe
na gua.
Kate humedeceu os lbios com a ponta da lngua aguada. 
- Podamos trabalhar juntos. 
- Como quiser - disse ele com um sorriso encorajador.
Joe sentiu-se invadido por uma lufada de satisfao. Pacien-
temente, esperou at que ela se decidisse.
- Joe, eu no gosto de ser roubada. 
- Eu no lhe tirei nada. 
- Eu tambm no te acusei. 
- Quem foi, ento?
- J l chegamos, Joe. Lembras-te daquela ranhosa que tive-
mos de pr a andar?
- Refere-se  Ethel-no-sei-qu?
- Sim. Ela foi-se embora levando uma coisa. Quando dei por 
isso, j era tarde de mais.
- O que era?
A voz tornou-se cortante:
- No tens nada com isso, Joe. Tu no s parvo nenhum. Se
eu te pedisse para a encontrares, onde a irias procurar?
Joe fez trabalhar a matria cinzenta com rapidez, pondo de
parte o raciocnio e apelando para a experincia e para o instinto. 
- Ela ficou muito abatida e no se deve ter afastado muito.
Esses estupores nunca vo para muito longe.
- Muito bem raciocinado. Achas que esteja em Watsonville? 
- Talvez. Ou em Santa Cruz. Seja como for, aposto que no
passou de San Jos.
Kate afagou os dedos.
- Queres ganhar quinhentos dlares, Joe? 
- Quer que a descubra?
- Sim, mas mais nada. Quando souberes onde est,  pre-
ciso que ela no suspeite de nada. Arranja-me s a morada, com-
preendeste? Apenas desejo saber onde est.
- Muito bem - disse Joe. - Ela deve ter-lhe levado uma boa 
maquia.
- Isso no  da tua conta.
- Est bem, minha senhora - disse ele.- Quer que v j? 
- Sim,  melhor andares depressa, Joe. 
- Talvez custe um bocado. J passou muito tempo. 
- Arranja-te como puderes.
- Vou a Watsonville esta tarde.
- Est bem, Joe.
Kate ficou pensativa. Sabia que tinha ainda qualquer coisa a 
dizer, mas receava continuar. Por fim, resolveu-se:
-Joe, naquele... dia... Depois do julgamento... ela no disse 
nada?
- No. S disse que era tudo premeditado.  o que todos 
dizem.
Joe lembrou-se ento duma coisa em que no reparara nesse 
momento e tornou a ouvir a voz de Ethel:
Senhor juiz, precisava de lhe falar a ss. Tenho uma coisa 
para lhe dizer.
Joe procurou manter uma expresso impassvel para no ser 
obrigado a repetira frase.
Kate perguntou:
- O que foi?
No soubera dissimular. Procurou uma resposta.
- H qualquer coisa - disse ele para ganhar tempo. - Es-
tou a ver se me lembro.
- Trata de te lembrares!
A voz era aguda e ansiosa.
- Ento?...
Joe j descobrira.
- Ouvi-a dizer aos chuis... Espere... Ela perguntou-lhes por-
que  que no podia ir para o Sul, e disse-lhes que tinha famlia 
em San Lus Obispo.
Kate inclinou-se para ele.
- E depois?
- Os chuis responderam-lhe que era muito longe.
- Tens boa memria, Joe. Onde vais primeiro?
- A Watsonville - respondeu ele. - Tenho um amigo em
San Lus. Vou telefonar-lhe para que ele tambm faa buscas por
minha conta.
- Joe - disse ela secamente - no quero que isto transpire. 
- Por quinhentos dlares, faz-se trabalho rpido e perfeito.
Sentia-se satisfeito consigo mesmo, embora Kate o exami-
nasse de novo com os olhos semicerrados. A frase seguinte quase 
lhe virou o estmago do avesso.
- A propsito, Joe... O nome de Venuta diz-te alguma coisa? 
Tratou de responder antes que a voz se lhe estrangulasse. 
- Absolutamente nada.
- Volta assim que puderes. Diz  Helen para subir. Ela fica a 
substituir-te.


3

Joe fez a mala, foi  estao e comprou um bilhete para 
Watsonville. Em Castroville, primeira estao do percurso, desceu 
do comboio e esperou quatro horas pelo expresso de San Francis-
co, o Del Monte, que pra em Monterey. A, alugou um quarto no 
Hotel Central, sob o nome de John Vicker, tornou a sair, foi comer 
um bife ao restaurante Pop Ernst, comprou uma garrafa de usque e 
voltou para o quarto.
Tirou os sapatos, o casaco, o colete, o colarinho e a gravata e 
estendeu-se na cama de ferro, colocando o usque e um copo ao 
alcance da mo. A luz do candeeiro instalado  cabeceira da cama 
no o incomodava. Nem sequer dava por ela. Com mtodo, come-
ou por beber meio copo de usque para desentorpecer o crebro, 
depois, juntou as mos atrs da cabea, cruzou as pernas e ps-
-se a comparar ideias, impresses e suposies.
No se sara mal da conversa e tinha-a ludibriado. Mas como  
que ela sabia que ele se tinha evadido? Teve vontade de partir para 
Reno ou talvez para Seattle. Um porto sempre  mais seguro. E 
depois - mas espera: deixa-me pensar um instante.
A Ethel no roubara nada, mas devia saber qualquer coisa. A 
Kate tinha medo da Ethel. Quinhentos dlares era muita massa s 
para desencantar uma puta velha. Em primeiro lugar, o que a Ethel 
queria dizer ao juiz era verdade. Em segundo lugar, a Kate tinha 
medo do que ela dissesse. Mas que inferno! E o cadastro? Joe 
no estava interessado em regressar a San Quentin para cumprir 
o ano, mais o castigo pela evaso.
Mas no fazia mal pensar no caso. Suponhamos que tinha de 
apostar quatro anos contra... digamos dez mil dlares. Valeria a 
pena? Pergunta ociosa. A Kate j sabia h muito tempo e nunca o 
denunciara. Talvez, no fundo, a Kate confiasse em Joe.
Talvez a Ethel no passasse duma carta furada.
Agora... um instante s. Vejamos. Talvez fosse a grande opor-
tunidade. Que devia fazer com o jogo de que dispunha? A Kate no 
faltavam recursos. Teria envergadura para jogar com ela? Seria melhor 
jogar a cartada ou passar?
Sentou-se e encheu o copo. Apagou a luz e ergueu o estore. 
Enquanto bebia o uisque, observou, num quarto do outro lado da 
rua, uma mulher magra metida num roupo a lavar as meias numa 
bacia. Joe sentia o lcool a latejar nas fontes.
Talvez fosse a sua grande oportunidade. H quanto tempo es-
perava por ela! S Deus sabia o dio que tinha quela putfia de 
dentinhos afiados! Mas era preciso cuidado.
Abriu a janela sem fazer barulho, pegou numa caneta que es-
tava em cima da mesa e atirou-a aos vidros da janela em frente. 
Sentiu-se divertido com o susto da mulher, que correu o estore mal 
viu do que se tratava.
Bebido o terceiro copo, a garrafa ficou vazia. Joe teve vontade 
de descer  rua e de ir visitar a cidade, mas preferiu obedecer  
regra que sempre se impusera: nunca sair do quarto quando se 
bebe.  assim que se evitam as maadas. E as maadas signifi-
cam os chuis, os chuis significam a verificao dos documentos e 
isso significaria, mais certo do que a morte, um passeio a San 
Quentin e, desta vez, no o mandariam trabalhar numa estrada 
para o recompensar do seu bom comportamento. Ps de parte a 
ideia de ir dar uma volta.
Joe dispunha de outro prazer que reservava para os momen-
tos de solido, mas ele no sabia que era um prazer. O quarto de 
hotel era um local propicio. Estendido na cama, rememorou a in-
fncia infeliz e a adolescncia tormentosa. Raio de azar... nunca 
tivera sorte nenhuma. S os figures  que tm sorte. Claro que 
conseguira fazer certos trabalhinhos sem ser fisgado, mas... e a 
mala cheia de navalhas? Os pasmas saltaram em cima dele e 
filaram-no. A partir dessa altura passara a ter cadastro e a polcia 
nunca mais o largara da mo. Em Daly City, se um gajo qualquer 
se cortava com um punhado de framboesas, era logo o Joe quem 
pagava as favas. E na escola fora a mesma coisa. Os professores 
estavam contra ele, o director estava contra ele. Era de mais. Joe, 
o indesejvel, pusera-se a cavar.
 fora de repisar tantas iluses perdidas, comeou a encher-
-se de tristeza at que as lgrimas lhe vieram aos olhos. Ps-se a 
chorar pensando na criana desgraada que fora e no homem em 
que se tinha tornado - olhem para ele - um falhado, um tipo que 
trabalhava numa casa de putas enquanto outros tinham os seus 
lares e os seus carros. Eles,  noite, sentiam-se felizes e tranqui-
los, e depois fechavam as janelas na cara do pobre Joe. Chorou de 
mansinho at adormecer.
Na manh seguinte, levantou-se s dez horas e foi tomar um 
copioso pequeno almoo ao restaurante Pop Ernst. Depois, embar-
cou num autocarro para Watsonville e jogou trs partidas de bilhar 
com um amigo a quem telefonara. Joe, aps ter ganho a ltima
partida, arrumou o taco e estendeu duas notas de dez dlares ao 
adversrio.
-  escusado - disse o amigo. - Guarda o teu dinheiro. 
- Fica com ele - disse Joe.
- Mas eu no te prestei servio nenhum.
- Pelo contrrio. Disseste-me que ela no estava c e, se
havia algum que me pudesse informar, eras tu.
- No me queres dizer porque  que andas  procura dela? 
- Wilson, j te disse e torno a repetir que no sei nada. Tra-
ta-se apenas dum servio.
- Pois eu no sei mais nada. Espera l... Ouvi dizer que h 
um congresso de... deixa ver... de cirurgies-dentistas ou l o que 
. E j nem sei se ouvi dizer que ela ia l, ou se fui eu que imaginei. 
Devo estar a perder a memria. Telefona para Santa Cruz. No co-
nheces l ningum?
- Tenho alguns conhecimentos - disse Joe.
- Vai ter com o H. V. Maliler. Hal Maliler. Ele tem uma sala de 
bilhar e nas traseiras faz-se batota.
- Obrigado - disse Joe.
- Vamos, Joe, guarda o teu dinheiro.
- O dinheiro no  meu...  para comprares um charuto.
O autocarro dep-lo a duas portas de distncia dos bilhares. 
Era a hora do jantar, mas continuava-se a jogar. Joe teve de espe-
rar uma hora. Por fim, Hal saiu da mesa para ir aos lavabos. Joe foi 
atrs dele. No custa nada travar conhecimento nos urinis. Hal 
examinou Joe com os olhos plidos, aumentados por lentes espes-
sas. Abotoou a braguilha, ajustou as mangas de alpaca e endirei-
tou a pala verde.
- A gente logo conversa depois de acabar o jogo - disse ele. 
- Queres jogar?
- J tens parceiro, Hal?
- S um.
- Ento vou ser teu parceiro.
- So cinco dlares por hora - disse Hal. 
- E dez por cento se eu ganhar?
- Entendido. A banca  dum tipo aloirado que d pelo nome 
de Williams.
 uma hora da manh, Hal e Joe entraram no Grill Barlow.
- Duas costeletas e batatas fritas. Queres sopa? - pergun-
tou Hal a Joe.
- No. Nem batatas fritas. Do-me azia.
- A mim tambm - disse Hal - mas sempre vou comendo. 
O que eu tenho  falta de exerccio.
Hal era um tipo silencioso, excepto,  hora das refeies. S 
abria a boca quando a tinha cheia.
- De que se trata? - perguntou ele atravs da costeleta. 
- Dum trabalhinho. Eu recebo cem dlares e passo-te vinte 
e cinco? Convm?
- Precisas de provas, de documentos?
- No. Era prefervel, mas c me arranjarei sem eles.
- Bem. Ento, ouve. A tipa veio pedir-me para eu a deixar 
trabalhar na minha casa mediante uma comisso. A gaja no va-
lia nada, nem sequer me rendeu vinte dlares por semana. O mais 
certo era eu nunca ter sabido o que lhe aconteceu, se no fosse o 
Bill Primus que a tinha visto na minha casa e que me veio fazer 
perguntas quando a encontraram. O Bill  um tipo porreiro. Aqui, a 
policia  tudo gajada fixe.
Ethel no era m mulher - desmazelada, porca, mas um 
bom corao. S desejava ser tratada com dignidade e que lhe 
dessem importncia. No era esperta nem bonita e, portanto, no 
tinha sorte. Ficaria aflita se soubesse que, quando a tiraram da 
areia onde as ondas a tinham deixado, a saia arregaada lhe deixa-
ra as coxas  vela.
Hal prosseguiu:
- Os pescadores de sardinha estavam cheios de massa e 
foram fazer uma pndega l a casa. Eu estou mesmo a ver como 
as coisas se passaram: um dos tipos meteu-a no barco e depois 
atirou com ela pela borda fora. No percebo como  que teria con-
seguido cair  gua.
- Talvez se tenha atirado do cais?
- Ela? - disse Hal, apesar das batatas fritas. - Macacos 
me mordam se no era preguiosa de mais para se matar! Queres 
ver o corpo?
- Se tu dizes que  ela,  porque  - disse Joe.
E ps uma nota de vinte dlares e outra de cinco em cima da 
mesa.
Hal enrolou as notas como um cigarro e meteu-as no bolso do 
colete. Em seguida, cortou um bocado de carne e levou-o  boca.
- Garanto-te que  ela - disse. - Queres uma dose de 
torta?
Joe tencionava dormir at ao meio-dia, mas acordou s sete 
horas. Deixou-se ficar na cama, pois s queria voltar a Salinas de-
pois da meia-noite. Precisava de tempo para reflectir.
Quando se levantou, aproximou-se do espelho e mimou a 
expresso que tencionava arvorar. Queria mostrar-se desapon-
tado, mas no muito. Com Kate, era preciso desconfiar. O melhor 
seria deix-la falar e procurar uma sada. O diabo  que ela nunca 
se abria. Joe teve de admitir que Kate lhe infundia um pavor terrvel.
A sua prudncia ditava-lhe: Volta para casa, conta-lhe tudo e 
empocha os teus quinhentos dlares.
Mas respondeu com raiva  prudncia: E a sorte? Quantas 
ocasies j tive? Quando se tem uma oportunidade,  preciso  
agarr-la. Terei de ser um chuleco toda a vida? Tenho mas  de 
fazer um jogo cerrado. Vou deix-la falar. Isso no tem mal ne-
nhum. Se der mau resultado, posso dizer-lhe depois que acabei de 
receber a informao. 
Olha que ela  mulher para te pr  sombra enquanto o dia-
bo esfrega um olho.
S se eu no jogar cerrado. Que tenho a perder? J alguma 
vez tive uma oportunidade destas?


4

Kate sentia-se melhor. O novo remdio parecia dar resultado. 
A dor acalmara-se e tanto as articulaes como os dedos j no 
estavam to inchados. Dormira bem naquela noite, coisa que no 
lhe sucedia h muito tempo. Apeteceu-lhe um ovo escalfado para o 
pequeno almoo. Levantou-se, vestiu um robe, pegou num espelho 
de mo e voltou para a cama. A, encostada s almofadas, ps-se 
a estudar a cara.
O repouso operara maravilhas. A dor contrai as maxilas, d 
aos olhos um falso brilho angustioso e incha levemente os ms-
culos das tmporas, das faces e, at, do nariz. Assim fica o rosto 
do doente que luta contra a doena.
Mas que diferena naquele rosto repousado! Tinha menos 
dez anos. Abriu a boca e examinou os dentes. J ia sendo tempo 
de os mandar limpar. Sempre fora muito cuidadosa com eles. S 
tinha uma ponte de ouro no stio onde faltavam os trs molares. 
Estou com um ar extraordinariamente jovem, pensou Kate. Uma 
boa noite de sono e logo readquiria toda a sua vitalidade. Era essa 
outra coisa que os enganava a todos. Julgavam-na frgil e delica-
da. Sorriu para a imagem - delicada como uma ratoeira de ao. 
Mas no havia cuidados que no tivesse consigo. Nada de lcool 
e nada de drogas. E, recentemente, at pusera de parte o caf. O 
resultado estava  vista. Tinha uma expresso anglica. Inclinou 
ligeiramente o espelho para no ver as rugas que tinha debaixo do 
queixo.
De repente, pensou noutra fisionomia anglica que se asse-
melhava  sua - mas como se chamava o rapaz? Alec? No? 
Estava a v-lo, de cruz alada, caminhando lentamente, com a so-
brepeliz branca orlada de renda, de cabea baixa e com os cabelos 
que resplandeciam  luz dos crios. Havia nele algo de mara-
vilhosamente longnquo, puro e inacessvel. De resto, j alguma 
coisa ou algum atingira ou conspurcara Kate? Com certeza que 
no. S a couraa sofrera escoriaes. Por dentro, mantinha-se 
intacta, to pura e brilhante como esse rapaz... Mas como se cha-
mava ele?
Sorriu-se. Era me de dois rapazes e parecia uma criana. Se 
algum a visse com o loirinho, desconfiaria de alguma coisa? Ima-
ginou-se ao lado dele, deixando que os outros adivinhassem os 
laos que os uniam. Que faria o... Aron - era esse o nome dele - 
se soubesse a verdade? O irmo, esse, sabia. O filho da puta - 
no, isso tambm era de mais, at eram capazes de acreditar. 
Bastardo? Tambm no. Ele nascera dum sagrado matrimnio. Kate 
riu-se, encantada.. Mas que engraado!
O outro, o*moreno, preocupava-a. Parecia-se com Charles. A 
Charles tivera ela respeito - e o Charles acabaria por a matar se 
tivesse podido.
Que remdio maravilhoso! No s acabava com a dor como 
dava coragem. Dentro em pouco, venderia tudo, iria para Nova Iorque 
e realizaria o seu projecto. E dizer que tivera medo da Ethel! Era 
preciso ter estado muito doente! Medo daquele traste estpido! E 
se a matasse s  fora de bondade? Assim que o Joe a 
encontrasse, porque no haveria de lev-la para Nova Iorque e mant-
-la ao alcance da mo?
Kate teve uma ideia divertida. Seria um crime cmico e um 
caso insolvel. Chocolates! Caixas de chocolates! Pacotes de bom-
bons! Toucinho cozido, do mais gordo, vinho do Porto e manteiga 
com fartura! Todos os pratos a nadarem em manteiga e em creme 
desnatado. Nada de legumes e nada de fruta. E distraces nenhu-
mas. Fica em casa, querida. Pois claro, ento no havia de confiar 
em ti? Olha pelas coisas. Tu ests cansada. Vai-te deitar. Deixa-
me encher-te o copo. Trouxe-te bombons. Porque no os comes na 
cama? Se no te sentes bem, toma um clister. Que ricas nozes, 
no achas? A refinadssima cadela estoirava em seis meses. E a 
bicha solitria? Nunca teriam assassinado ningum com a bicha 
solitria? Como se chamava aquele homem que morreu de sede... 
Tntalo?
Kate babava-se de prazer. Antes de se ir embora, ofereceria 
uma festa aos filhos. Uma festinha simples com uma sesso de 
circo para terminar, s para os queridinhos - as suas jias. E 
ento lembrou-se do lindo rosto de Aron, to semelhante ao seu. 
A recordao despertou-lhe uma dor estranha no peito, uma es-
pcie de vertigem. Aron era uma criatura indefesa, incapaz de se 
proteger. Mas o moreno podia ser perigoso. Medira foras com ele 
e fora vencida. Antes de se ir embora, havia de lhe dar uma lio. 
Talvez... pois claro, porque no?... uma boa blenorragia o ensinas-
se a ter juzo.
Mas no queria que Aron descobrisse a verdade a seu res-
peito. Talvez ele a fosse visitar a Nova Iorque? Nesse caso, era 
capaz de pensar que ela sempre tinha vivido numa elegante casi-
nha do East Side. Iriam os dois ao teatro,  pera, e as pessoas 
ficariam admiradas com a sua beleza, tomando-os umas vezes por 
irmos e, outras, por me e filho. Eram to parecidos! Tambm 
iriam juntos ao enterro da Ethel. Seria necessrio encomendar um 
caixo especial e contratar seis matules para carregar com tama-
nho peso. Kate divertia-se tanto que no ouviu Joe bater  porta. 
Farto de esperar, o rapaz espreitou pela nesga da porta e avistou a 
expresso jovial de Kate.
- O pequeno almoo - disse ele. (E empurrou a porta com o 
canto da bandeja, fechando-a com o joelho). - Quer que ponha l 
dentro? - perguntou ele designando com o queixo a salinha 
cinzenta.
- No, aqui. E traz-me um ovo escalfado e torradas com 
canela. O ovo que coza quatro minutos e meio para no ficar muito 
encruado.
- A senhora parece estar muito melhor.
- E estou - disse ela. - O novo remdio  miraculoso. Mas 
que cara a tua, Joe. No te sentes bem?
- No tenho nada. (Joe colocou a bandeja em cima da mesa, 
diante da grande poltrona). - Quatro minutos e meio?
- Sim. E se encontrares uma boa ma, das rijas, tr-la tam-
bm.
- Nunca a vi nesse estado desde que a conheo.
Na cozinha, enquanto esperava que o ovo cozesse, sentiu-se 
ligeiramente apreensivo. E se ela soubesse? Cuidado! No fim de 
contas, ela no o podia censurar por ignorar qualquer coisa. No 
era um crime. De regresso ao quarto, Joe disse:
- No havia mas, mas o cozinheiro recomendou-me esta 
pra.
- Melhor ainda - disse Kate.
Viu-a cortar a casca do ovo e introduzir a colher na gema. 
- Que tal?
- Est ptimo - disse Kate. - Mesmo como eu gosto.
- Est com um aspecto esplndido - disse ele.
- Sinto-me perfeita. Agora, tu  que me pareces esquisito.
Que h?
- Patroa, no h algum que necessite tanto de quinhentos 
dlares como eu...
Kate emendou:
- No h ningum...
- Como?
- Nada. Que ests tu para a a querer dizer? Que no a 
encontraste, no  verdade? Se, de facto, a procuraste com cui-
dado, podes estar descansado que recebes os teus quinhentos 
dlares. Conta l o que se passa.
Kate pegou no saleiro e sacudiu-o em cima do ovo.
Joe repetiu a mmica que estudara diante do espelho do hotel.
- Muito agradecido - disse. - Estou sem cheta e vai-me 
fazer arranjo. Para comear, estive em Pajaro e em Watsonville. 
Em Watsonville deram-me uma pista e fui at Santa Cruz, mas ela 
j tinha tornado a desaparecer.
Kate provou o ovo e ps mais sal.
- Mais nada?
- No - respondeu Joe. Depois de procur-la ao acaso, dei 
um salto at San Lus. Disseram-me que a tinham visto, mas que 
se tinha posto na alheta.
- Sem deixar vestgios? No fazes ideia do stio para onde 
possa ter ido?
Joe ps-se a brincar com os dedos. Tudo dependia das pala-
vras que iria proferir e sentia relutncia em diz-las.
- Ento? - disse ela. - Sabes alguma coisa? Fala. 
- O que sei pouco interessa. Nem sei que pensar.
- No penses. Fala, que eu me encarrego de pensar - disse
ela com secura.
- Talvez no seja verdade.
- Por amor de Deus!
- Tive uma conversa com o ltimo tipo que a viu. Chama-se 
Joe como eu...
- E no te disse tambm o nome da av? - perguntou Kate 
com sarcasmo.
- Esse tal Joe contou-me que, numa noite em que ela estava 
com um carregamento de cerveja, lhe disse que ia voltar para Sali-
nas e ajustar umas certas contas. Depois, ela esfumou-se. O tipo 
no sabia mais nada.
Kate no conseguia disfarar a aflio. Joe leu-lhe na cara a 
apreenso, o medo, o desespero e o pnico. Acertara em cheio. 
Fosse o que fosse, no havia dvida de que estava ali a sua grande 
oportunidade.
Kate ergueu a cabea:
-  desnecessrio tornar a pensar nesse estafermo - disse 
ela. - Vais receber os teus quinhentos dlares, Joe.
Ele respirou devagar, receando distra-la. Kate acreditara.
E, o que era melhor, estava acreditando em coisas que ele nun-
ca dissera. Tinha de sair daquele quarto o mais depressa possvel. 
- Muito obrigado, minha senhora - disse ele em voz muito
baixa, encaminhando-se silenciosamente para a porta.
J tinha a mo na maaneta quando Kate perguntou num tom
falsamente indiferente:
- A propsito, Joe...
- Minha senhora?
- Se ouvires dizer alguma coisa, no te esqueas de me 
prevenir.
- Claro. Quer que continue a indagar? 
- No.  escusado. No vale a pena.
Mal fechou a porta do quarto  chave, Joe sentou-se, cruzou 
os braos, sorriu de contentamento e tratou logo de estabelecer o 
seu plano. O melhor seria deix-la chocar a histria durante, diga-
mos, uma semana. Quando ela ficasse mais sossegada, voltaria 
novamente  baila com a Ethel. Ignorava o alcance e a potncia da 
sua arma, mas tinha uma vontade enorme de se servir dela. E Joe 
teria rebentado a rir se soubesse que Kate estava sentada, de olhos 
fechados, na poltrona da sala cinzenta, com a porta fechada  cha-
ve.



CAPTULO XLVI


No  frequente chover no vale do Salinas em Novembro. O 
acontecimento  to raro que tanto o Journal como o Index lhe 
costumam consagrar um artigo de fundo. Basta uma noite de chuva 
para que as colinas se cubram de verdura e o ar rescenda a tudo o 
que  bom. Mas a chuva nessa poca do ano no traz nenhum 
benefcio especial  lavoura, a no ser que se prolongue, o que  
extremamente invulgar. Na maior parte dos casos, d-se o regres-
so da seca. Os rebentos murcham ou so queimados pela geada e 
l se vai a futura colheita.
Os anos de guerra foram chuvosos. Muita gente dizia que a 
inconstncia do tempo era devida aos tiros de canho que se dis-
paravam em Frana, opinio esta que chegou a ser seriamente 
debatida pelos jornais.
No envimos muitas tropas para Frana durante este primeiro 
Inverno, mas treinmos intensamente milhes de homens que para 
l deveriam seguir.
A guerra, por muito horrvel que fosse, era apaixonante. Os 
Alemes no tinham sido detidos. Pelo contrrio, haviam retomado 
a iniciativa, avanando metodicamente sobre Paris. S Deus sa-
bia quando poderiam ser sustidos, caso isso fosse possvel. Se 
nos restava alguma esperana de salvao, estava nas mos do 
General Pershing. O seu magnfico perfil marcial surgia todos os 
dias nos jornais. Tinha uma queixada de granito e no se lhe notava 
uma prega no capote. Era o padro do verdadeiro soldado. Nin-
gum sabia ao certo o que ele pensava.
Ns s sabamos que no podamos perder, apesar de tudo 
indicar que caminhvamos para a derrota. J no se conseguia
arranjar farinha branca, a no ser que se comprasse quatro vezes 
mais farinha escura. As pessoas de maiores posses faziam po e 
biscoitos de farinha branca e davam s crianas papas de farinha 
escura.
Na velha sala de armas, a Milcia, constituda por homens com 
mais de cinquenta anos, envergando estranhos uniformes, exerci-
tava-se duas vezes por semana. Todos davam ordens uns aos ou-
tros e havia discusses interminveis para saber quem devia co-
mandar. William C. Burt faleceu na sala de armas durante uma 
cena de pancadaria; o corao no aguentou.
Havia ainda os Homens- Minuto, assim chamados porque fazi-
am discursos de um minuto a favor da Amrica nos cinemas e nas 
igrejas. Tambm usavam farda.
As mulheres enrolavam ligaduras, ostentavam uniformes da Cruz 
Vermelha e consideravam-se Anjos da Caridade. Todas tricotavam 
qualquer coisa para algum. Estavam na moda os punhos de l, 
destinados a evitar que o vento entrasse nas mangas dos solda-
dos, e os capuzes de l s com um buraco na frente para se poder 
olhar. Estes ltimos pretendiam evitar que os capacetes de metal 
gelassem na cabea.
Todos os pedaos de coiro de qualidade eram aproveitados 
para fabricar botas e os elegantes cintures Sam Browne, reser-
vados apenas aos oficiais. Estes cintures compunham-se de um 
largo cinto e de uma correia que atravessava o peito e passava sob 
a dragona esquerda. Creio que eram copiados pelos dos Ingleses, 
que j haviam certamente esquecido a sua primitiva funo, isto , 
segurar uma pesada espada. As espadas s se usavam nas para-
das, mas nenhum oficial queria morrer no campo de batalha sem 
um cinturo Sam Browne. Os de melhor qualidade custavam vinte e 
cinco dlares.
Os Britnicos ensinaram-nos muitas coisas e no os teramos 
copiado se no fossem magnficos combatentes. Os homens come-
aram a usar o leno na manga e certos tenentes aperaltados j 
no se mostravam em pblico sem o pingalim na mo. Apenas 
houve uma moda a que resistimos mais tempo por nos parecer 
extremamente idiota: o relgio de pulso.
Tambm tnhamos os nossos inimigos internos e exercamos 
uma aturada vigilncia. San Jos praticava a caa ao espio e Sa-
linas no se deixaria ficar para trs - Salinas era uma grande 
cidade.
O Sr. Fenchel Pinha oficina de alfaiate, em Salinas, h mais de 
vinte anos. Era um homenzinho gorducho com um sotaque bastan-
te cmico. Trabalhava todo o dia na sua loja de Alisal Street e,  
noite, regressava a p  sua casa da Central Avenue. Passava o 
tempo a pintar as paredes e a cerca branca que delimitava o jardim. 
Ningum dera pelo seu sotaque at ao dia em que rebentou a guerra. 
De repente, todos compreendemos. Era um sotaque alemo. 
Finalmente, tnhamos um alemo muito nosso. No lhe serviu de 
nada arruinar-se na compra de Bnus da Defesa. Que maneira to 
fcil de disfarar!
A Milcia no queria prend-lo. Introduzir um espio na sede 
da Defesa Nacional? Nunca! E quem estaria disposto a usar um 
fato cortado pelo inimigo? Ningum! O Sr. Fenchel continuou a ir  
oficina, mas passava o dia a alinhavar e a coser o mesmo bocado 
de pano.
Fomos extremamente cruis com o Sr. Fenchel. Ele era o nos-
so alemo. Todos os dias o vamos passar  nossa porta e tempo 
houvera em que cumprimentava todos os homens, todas as mulhe-
res, todas as crianas e todos os bichos, e em que todos retribu-
am, Mas, agora, j ningum lhe falava e, quando penso nele, torno 
a ver a sua pobre cara em que se estampavam a tristeza, a solido 
e o amor-prprio ferido.
A minha irm mais nova e eu desempenhmos um papel no 
caso do Sr. Fenchel.  uma dessas amargas recordaes que eu 
no consigo evocar sem sentir um aperto na garganta e a testa 
coberta de suor. Uma noite, quando estvamos no nosso jardim, 
vimo- lo avanar pelo passeio do outro lado. Levava o impecvel 
chapu preto muito direito na cabea. No me lembro se estva-
mos combinados, mas no seria para admirar, dado o brio com que 
efectumos o ataque.
Mal ele se aproximou, a minha irm e eu atravessmos a rua.
O Sr. Fenchel levantou a cabea quando viu que nos dirigamos
para ele e que nos detnhamos  beira do passeio. 
Assomou-lhe um sorriso aos lbios e disse: 
- Poa nte, Chon, poa nte, Mary.
Ns no nos mexemos e, de repente, gritmos em coro:
- Hoch der Kaiser!
Estou a ver-lhe a cara, os grandes olhos azuis, o olhar ino-
cente e estupefacto. Ele quis dizer qualquer coisa, mas desatou a 
chorar. Nem sequer tentou defender-se, dizer que no era alemo. 
Deixou-se ficar quieto e continuou a soluar. Ento, a Mary e eu 
virmos as costas e tornmos a entrar no nosso jardim. Sentamo-
-nos horrivelmente culpados. Ainda hoje nos sentimos.
Mas ns no tnhamos idade suficiente para acometer o Sr. 
Fenchel. Por isso, foram homens vigorosos - uns trinta que to-
maram conta do caso. Numa noite de sbado, reuniram-se num 
bar e, formados a quatro, subiram a Central Avenue gritando: 
Hurra! Hurra! Depois, arrancaram a cerca branca do Sr. Fenchel 
e pegaram fogo  casa. Os filhos da puta do grandssimo Kaiser 
que fossem gozar para a terra deles! E agora Salinas j podia pedir 
meas a San Jos.
Isto teve o condo de excitar os de Watsonville. Para que 
no nos ficssemos a rir, pegaram num polaco que tomaram por 
um boche e mergulharam-no em alcatro, cobrindo-o depois de 
penas. A verdade  que o homem tambm tinha sotaque.
Ns, em Salinas, fizemos o que se faz inevitavelmente quan-
do h guerra, e pensmos como se costuma pensar. Soltmos 
brados de alegria quando os comunicados oficiais eram bons, e 
morramos de medo quando as notcias eram ms. Todos tinham 
um segredo que confiavam sem mencionar a origem. O nosso pa-
dro de vida mudou como  hbito em tais conjunturas, os salrios 
e os preos treparam. Quando se falou em racionamento, todos 
nos pusemos a comprar e a armazenar vveres. Pacatas senhoras 
da melhor sociedade arrepelavam-se umas s outras por causa 
duma latinha de tomates.
Mas nem tudo era maldade, mesquinhez ou histeria. Tam-
bm houve herosmo. Muitos homens, que no eram obrigados a 
alistar-se, foram para a guerra. Outros, que recusavam combater 
por motivos de conscincia moral ou religiosa, sofreram o inevit-
vel calvrio. Alguns, deram tudo o que tinham, pois tratava-se da 
ltima guerra e, se a ganhssemos, seria como se arrancssemos 
um espinho da carne do mundo e no se tornaria a repetir tamanha 
insensatez. . .
A morte no campo de batalha no se reveste de dignidade. Na
maioria dos casos, consiste numa pavorosa confuso de carne e 
sangue oferecendo um espectculo assaz repugnante. Mas existe 
uma grande e quase serena dignidade no desgosto, nesse desgosto 
impotente e desesperado que se abate sobre uma famlia quando 
se recebe um telegrama. No h nada a dizer, nada a fazer, s 
resta uma esperana - espero que no tenha sofrido - e  a 
esperana mais atroz que se possa imaginar.  bem certo que 
algumas pessoas, atenuado o desgosto, o substituram por uma 
espcie de orgulho muito mais arrogante e embaraoso. Algumas, 
mesmo, at dele tiraram proveito depois da guerra.  tudo quanto 
h de mais natural, assim como  natural que um homem cujo 
ofcio  ganhar dinheiro o ganhe com a guerra. No se censurava 
um homem por isso, mas esperava-se que investisse uma parte 
dos lucros em Bnus da Defesa. Em Salinas, julgvamos ter inven-
tado tudo isso, incluindo o desgosto.



CAPTULO XLVII 


1

Na casa dos Trask, ao p da padaria Reynaud, Lee e Adam 
penduraram na parede um mapa da frente de batalha e semea-
ram-no de alfinetes de cabea colorida. Tinham a impresso de 
participar na guerra. Quando morreu o Sr. Kelly, Adam Trask foi 
convidado a substitu-lo na Junta de Recrutamento. Adam era o 
homem indicado. Tinha uma honrosa folha de servios e a fbrica 
de gelo no lhe roubava muito tempo.
Adam Trask j estivera na guerra - uma pequenina guerra 
de manobras e emboscadas - mas, de qualquer modo, vivera 
essa experincia que consiste em infringir as leis e matar o maior 
nmero possvel de homens. Adam s muito vagamente se recor-
dava da sua guerra. Certas imagens tinham-lhe ficado gravadas na 
memria: um rosto, um monte de corpos queimados, uma carga de 
cavalaria de sabre desembainhado, o som arrepiante e irregular das 
salvas de carabina, a voz fria dum clarim na noite. Mas no passa-
vam de ilustraes nas pginas de um livro, gravuras estticas, 
confusas e mal desenhadas.
Adam cumpriu o seu novo dever com regularidade e tristeza. 
No conseguia escapar  sensao de que estava enviando para 
a morte os rapazes que apurava para o servio. E como se sabia 
fraco, tornou-se cada vez mais rigoroso e menos propenso a acei-
tar desculpas e alegaes que poderiam justificar a passagem  
reforma de determinados indivduos. Levava as listas para casa, 
ia visitar os pais e, na realidade, realizou muito mais trabalho do 
que se lhe poderia exigir. Parecia um daqueles juzes que lavram
sentenas de morte e tm horror  forca.
Henry Stanton observava Adam tornando-se cada vez mais 
calado e soturno. Henry gostava de rir - o riso fazia-lhe falta. Um 
colega de cara bisonha punha-o doente.
- Descontraia esses nervos - disse ele um dia a Adam. - 
Parece que resolveu carregar sozinho com o peso da guerra. Afinal 
de contas, voc no tem responsabilidade nenhuma. A sua tarefa 
consiste em obedecer a uma srie de regras. Siga as regras e 
deixe o resto. No  voc quem dirige a guerra.
Adam desceu o estore de madeira para esconder o sol do fim 
da tarde e fitou as sombras paralelas projectadas na secretria.
- Eu sei - disse ele com lassido - Oh! se sei. S me 
apoquento quando a resoluo depende de mim, quando depen-
de do meu prprio juzo. Apurei o filho do juiz Kendal e ele, afinal, 
morreu na instruo.
- Isso no  consigo, Adam. Porque no bebe uns copos 
antes de se deitar? Ou v ao cinema, para mudar de ideias. - 
(Henry enfiou os polegares nas cavas do colete e entornou-se na 
cadeira).- E j que estamos a falar no assunto, Adam, deixe-me 
dizer-lhe que os rapazes no ganham nada com os seus escrpu-
los. Eu at o vi recrutar homens que seriam dispensados por mim 
do servio.
- Bem sei - disse Adam. - S gostava de saber quanto 
tempo isto ainda vai durar.
Henry lanou-lhe um olhar penetrante, tirou um lpis do bolso 
do colete e ps-se a tamborilar com ele nos incisivos superiores. 
- Percebo o que quer dizer.
Adam olhou-o com espanto.
- O que  que eu quero dizer? - perguntou.
- Peo-lhe que no seja susceptvel. S agora  que me dou
conta da minha felicidade. No h nada como ter filhas.
Adam percorreu com o dedo uma das sombras que atraves-
savam a secretria.
- Pois  - disse ele numa voz dbil, acompanhada por um 
suspiro.
- Os seus filhos s tero de se apresentar daqui a bastante 
tempo.
- Pois .
Adam percorreu uma linha luminosa e, depois, penetrou numa 
zona de sombra.
- No gostaria nada de... - principiou Henry. 
- De qu?
- Gostava de saber o que sentiria se tivesse de decidir a 
sorte de dois filhos.
- Eu demitia-me - disse Adam.
- Compreendo perfeitamente. Um pai talvez se sentisse ten-
tado a dispensar os filhos.
- No - disse Adam. - Demitia-me precisamente porque 
seria incapaz de os livrar, mesmo que eles o merecessem.
Henry juntou as mos e p-las em cima da secretria.
- No - disse ele. - Tem razo. - (Henry gostava de se 
divertir e, sempre que podia, evitava as discusses a srio que, 
para ele, eram sinnimo de aborrecimento). - Que tal se d o 
Aron em Stanford?
- Muito bem. Manda-me dizer que  difcil, mas que ir at ao 
fim. J me prometeu vir passar o Dia de Aco de Graas connosco.
- Gostaria de o ver. Uma noite destas, encontrei o Cal na rua. 
A esse no lhe fazem o ninho atrs da orelha.
- Pois sim, mas no conseguiu acabar o curso um ano an-
tes.
- Talvez no estivesse interessado nisso. Eu, por exemplo, 
no frequentei a Universidade. E voc?
- Tambm no. Estive na guerra.
- Isso  uma experincia magnfica.
Adam levantou-se vagarosamente, tirou o chapu do cabide de 
chifre de veado e disse:
- Boa noite, Henry.


2

De regresso a casa, Adam ia pesando as suas responsabili-
dades. Ao passar diante da padaria Reynaud, viu Lee a sair com 
um po doirado.
- Apetecia-me po de alho - disse Lee.
- Pois eu gosto dele com carne - disse Adam. 
-  o que temos para ojantar. Havia correio? 
- Esqueci-me de olhar para a caixa.
Entraram em casa e Lee encaminhou-se para a cozinha. Pou-
cos instantes depois, Adam foi ter com ele e sentou-se  mesa.
- Lee - perguntou - se mandarmos um homem para a 
guerra e o matarem, seremos responsveis?
- V para a frente - disse Lee. - Prefiro sempre ouvir de 
uma s vez tudo o que tm a dizer-me.
- Suponha que surge uma pequena dvida, mas que, ape-
sar disso, mandamos o homem para a guerra e l o matam?
- Estou a ver. O que  que o apoquenta? A responsabilidade 
ou a censura?
- No se trata de recear a censura.
- s vezes a responsabilidade  pior.
- Tenho andado a pensar naquele dia em que o Sam Hamilton 
e voc tiveram uma interminvel discusso acerca duma palavra. 
Que palavra era?
- Agora compreendo. A palavra era Timshel. 
- Timshel! E voc disse...
- Eu disse que essa palavra conferia grandeza ao homem que 
soubesse tirar partido dela.
- Recordo-me que o Sam Hamilton se sentiu muito recon-
fortado.
- Porque a palavra o libertou - disse Lee. - Dava-lhe o direi-
to de ser um homem com um destino diverso do dos outros ho-
mens.
- Isso corresponde  solido.
- Como tudo o que  valioso.
- Como era a tal palavra?
- Timshel... Tu podes...


3

Adam aguardava com impacincia o Dia de Aco de Gra-
as, data marcada para a visita de Aron. Embora o filho se tivesse
ausentado havia muito pouco tempo, j o esquecera e formava dele 
uma imagem diferente; como todos os que amam, transformava o 
objecto amado. Com Aron ausente, os silncios eram a 
consequncia desse afastamento e com ele se relacionavam to-
dos os pequenos dissabores. Adam falava no filho, orgulhava-se 
dele e contava mesmo a quem isso no interessava que Aron era 
inteligente e que fizera dois anos num s. Queria transformar o Dia 
de Aco de Graas numa autntica festa para demonstrar ao ra-
paz que tinham sabido apreciar os seus esforos.
Aron vivia num quarto mobilado, em Paio Alto, e percorria 
todos os dias, a p, o caminho at  Universidade. Andava desgos-
toso. Esperara entrar num mundo vago e maravilhoso. Imaginara 
rapazes de olhar franco, raparigas imaculadas, envergando togas 
acadmicas e encaminhando-se para um alvo templo no cimo 
duma colina. Os rostos eram luminosos, as vozes entoavam um 
cntico radioso e a cena passava-se  tardinha. No sabia onde 
fora desencantar aquela viso da vida escolar. Talvez fosse nas 
ilustraes de Gustave Dor para o Inferno de Dante. A Universi-
dade construda por Leland Stanford em nada se parecia com isso. 
Era um cubo de pedra castanha erguido no meio dum prado. Ao 
lado, havia uma igreja ornada de mosaicos italianos; as aulas ti-
nham mveis de pinho envernizado e eram um universo como outro 
qualquer onde campeavam os srdidos e mesquinhos antagonis-
mos humanos, de mistura com alardes de fraternidade e quedas 
espectaculares. Quanto aos supostos anjos, no passavam de pli-
dos adolescentes com calas sebentas de bombazina. Uns enfro-
nhavam-se nos estudos. Outros j praticavam os vcios dos pro-
genitores.
Aron, que sempre supusera no ter lar, sentia agora saudades 
pungentes do seu. No quis adaptar-se  nova vida, nem participar 
dela. Aps o que sonhara, o banz e as palhaadas dos estudan-
tes pareceram-lhe horrveis. Trocou o dormitrio da Universidade 
por um sinistro quarto mobilado onde se poderia entregar a outro 
sonho mais recente.
Depois das aulas, regressava logo a casa para viver no meio 
das recordaes que pusera a descoberto. A vivenda contgua  
padaria Reynaud era objecto de constantes e saudosas peregri-
naes. Lee era o melhor dos amigos e dos conselheiros, o pai era
um dolo, o irmo um encanto, e Abra... Abra era um sonho 
imaculado. Criado o sonho, irrompeu a paixo.  noite, terminado o 
estudo, Aron mergulhava na carta quotidiana como se entrasse num 
banho perfumado.  medida que essa imagem de Abra ia ficando 
mais radiosa, mais pura e mais bela, Aron ia sentindo um prazer 
crescente em se considerar perverso. Freneticamente, lanava no 
papel jubilosas abjeces a respeito de si prprio, at que se deita-
va purificado, como se sasse dum acto sexual. Bastava-lhe des-
crever os seus desejos para renunciar a eles. O resultado eram 
cartas banhadas de melancolia, mas uma melancolia to elevada 
que deixava Abra apreensiva. Ela era incapaz de perceber que a 
sexualidade de Aron enveredara por um caminho normal.
Aron cometera um erro. Embora o admitisse, tinha de suportar 
as consequncias. Assim que voltasse a casa, adquiriria a certe-
za. Talvez nunca mais regressasse  Universidade. Lembrou-se de 
que Abra sugerira que fossem viver para o rancho, e era esse, agora, 
o seu sonho. Ps-se a recordar os frondosos carvalhos e o ar puro, 
o vento perfumado que descia dos montes e a ramaria a tremular. 
Abra esperava-o debaixo duma rvore. Era ao anoitecer. L, aps o 
trabalho, como  evidente, viveria em pureza e em paz com o mun-
do, dele separado pelo pequeno vale. E,  noite, ficaria ao abrigo de 
tudo quanto  vil...



CAPTULO XLVIII 


1

No fim de Novembro, a Negra morreu e foi enterrada na auste-
ridade, conforme pedira no seu testamento. Esteve exposta duran-
te um dia na capela funerria da casa Muller, encerrada num caixo 
de bano e prata, onde o seu perfil severo e magro parecia ainda 
mais asctico  luz dos quatro enormes candelabros dispostos a 
cada canto do atade.
O marido, um preto de baixa estatura, acocorou-se como um 
gato junto ao seu ombro direito, e ali se deixou estar vrias horas 
to imvel como ela. No houve flores, nem coroas, nem sermes, 
nem lgrimas. Mas apareceu uma estranha coleco de homens, 
que entraram no bico dos ps e deitaram uma olhadela  defunta: 
advogados, operrios, empregados de escritrio e de banco, mui-
tos deles j com mais de meia idade. Depois, vieram, uma a uma, 
as pequenas da Negra, por decoro e porque dava sorte.
Com a morte da Negra desaparecia uma instituio de Sali-
nas. A cidade perdia o templo onde se adorava o fatal e escuro 
sexo com o mesmo desespero e a mesma selvajaria dum sacrifcio 
humano. Ficava a casa de Jenny com o seu estardalhao de garga-
lhadas. Na casa de Kate, os homens continuariam a deleitar-se em 
xtases malficos que os deixavam transtornados, fracos e assus-
tados com a prpria perversidade. Mas nunca mais se assistiria  
sombria comunho que tanto se assemelhava a uma oferenda da 
liturgia vudu.
O enterro, tambm por exigncia do testamento, apenas foi 
constitudo pelo carro funerrio e por um automvel onde seguia
amarfanhado o homenzinho preto. O dia estava cinzento e, mal a 
casa Muller desceu o caixo com roldanas lubrificadas e silenciosas, 
a carreta desapareceu e foi o prprio marido que teve de atirar a 
terra para o coval com uma p nova. O porteiro do cemitrio, que 
aparava a relva um pouco mais longe, ouviu um gemido levado pelo 
vento.
Joe Valery fora beber um copo com Butch Beavers e apro-
veitaram a ocasio para deitar uma vista de olhos  Negra. Butch 
estava cheio de pressa, pois tinha de ir a Natividad para leiloar um 
rebanho de Herefords de cabea branca por conta dos Tavernetti.
Ao sarem da casa morturia, Joe encontrou Alf Nichelson - 
o estarola do Alf Nichelson - um dos raros sobreviventes duma 
era remota. Alf era o homem dos sete ofcios: carpinteiro, cana-
lizador, ferreiro, electricista, estucador, amola-tesouras e remen-
do. Alf, que sabia fazer de tudo e trabalhava sem descanso, nun-
ca conseguira amealhar fortuna. Era um homem que sabia tudo 
sobre todos, desde que o mundo era mundo.
No tempo em que fora novo, havia dois gneros de pessoas 
que tinham acesso a todas as casas e a todas as bisbilhotices: a 
costureira e o homem-que-dava-uma-ajuda. Alf conhecia todas as 
histrias de todas as casas que ficavam dos dois lados da Main 
Street. Era um bisbilhoteiro inveterado, insaciavelmente curioso e 
vingativo, embora sem maldade.
Olhou para Joe e tentou recordar-se onde j o tinha visto. 
- Eu conheo-te - disse ele. - Espera, no me digas. 
Joe recuou. Desconfiava das pessoas que o conheciam. 
- J sei. Tu trabalhas em casa da Kate.
Joe soltou um suspiro de alvio. Receava que Alf o tivesse co-
nhecido mais cedo.
- Isso mesmo - concordou ele rapidamente.
- Nunca me esqueo duma cara - disse Alf. - Vi-te l em 
casa quando andava a fazer a salinha cinzenta. Para que era que 
ela queria aquilo? Nem sequer tinha janela!
- Ela gosta de estar s escuras - explicou Joe. - Tem 
dores nos olhos.
Alf fungou. Podiam dizer-lhe as coisas mais simples que ele 
no acreditava. Se algum desse os bons-dias a Alf, ele procuraria 
logo descortinar o sentido oculto dessa palavra. Convencera-se de
que toda a gente dissimulava um segredo e de que s ele o poderia 
decifrar.
Com um aceno da cabea, designou a casa Muller.
- Mais uma - disse ele. - J desapareceram quase todos os 
pioneiros. Quando a Jenny se for, ser o fim. E j falta pouco.
Joe sentia-se nervoso. Apetecia-lhe ir-se embora, e Alf bem o 
sabia. Alf descobria sempre quais eram as pessoas que se que-
riam furtar  sua companhia. Talvez fosse esse o motivo que o leva-
va a armazenar tanta coscuvilhice; quem no escutaria um homem 
que conhecia tantas histrias saborosas a respeito dos vizinhos? 
No corao de todos ns, h uma bisbilhoteira em embrio. Ningum 
gostava de Alf, mas todos lhe davam ouvidos. O mexeriqueiro 
compreendeu que Joe ia invocar um pretexto para se afastar. 
Subitamente, lembrou-se de que havia j muito tempo que no sabia 
novidades de Kate. Talvez pudesse trocar algumas velhas histrias 
por outras mais recentes.
- Bons tempos que nunca mais voltam - prosseguiu ele. 
Nessa altura, eras tu um petiz.
- Tenho de me encontrar com um tipo meu amigo - disse 
Joe.
Alf fingiu que no tinha ouvido.
- Olha a Faye, por exemplo - disse ele. - Aquilo  que era 
uma mulher. - (E acrescentou entre parntesis): - Dantes era a 
Faye quem mandava na barraca. Ningum sabe como foi que a 
Kate lhe sucedeu.  um mistrio que chegou a levantar suspeitas.
Alf teve a satisfao de perceber que o tipo a quem Joe mar-
cara um encontro ia ter de esperar um bom bocado.
- Que suspeitas? - perguntou Joe.
- Ora! Tu sabes o que so os boatos. Se calhar no tinham 
fundamento nenhum. Mas a verdade  que tudo aquilo foi bastante 
esquisito.
- Queres tomar qualquer coisa? - perguntou Joe.
- J no era sem tempo - respondeu Alf - H quem diga 
que os funerais do vontade de ir para a cama com uma mulher. 
Eu devo estar a ficar velho; a mim, s me do sede. A Negra 
tambm era um caso srio. Se eu contasse o que sei... H trinta e 
cinco... no, h trinta e sete anos que a conhecia.
- Quem era a Faye? - perguntou Joe.
Entraram no bardo Griffin. Era um homem que tinha horror ao 
lcool e que desprezava soberanamente os alcolicos. Amo e se-
nhor absoluto do seu bar, havia certos sbados em que chegava a 
recusar uma rodada de vinte copos aos fregueses que, na sua 
opinio, j estavam demasiado tocados. O negcio corria-lhe s 
mil maravilhas e frequentava-se o seu bar limpo e sossegado para 
efectuar transaces ou para discutir sem receio de ser interrom-
pido.
Joe e Alf sentaram-se  mesa redonda do fundo e cada qual 
bebeu trs canecas de cerveja. Joe foi posto ao corrente do ver-
dadeiro e do falso, do que era fundado e infundado, das suspeitas 
e das insinuaes. De toda aquela trapalhada confusa, extraiu algu-
mas ideias. Devia haver algo de equvoco na morte da Faye. Kate 
talvez fosse mulher de Adam Trask. No se mostrou interessado 
por isto - o Trask talvez estivesse disposto a pagar. Quanto  
histria da Faye, ainda estava muito quente para lhe tocar. Preci-
sava de pensar no assunto - mas a ss.
Ao cabo de duas horas de tagarelice, Alf estava danado. O Joe 
no se tinha descado. Em troca do que ficara a saber, no havia 
fornecido a mnima ideia nem a mnima indicao. Alf concluiu ento: 
se um tipo no quer abrir a boca  porque pretende esconder algu-
ma coisa. A quem hei-de pedir informaes dele?
Finalmente, Alf disse:
- Sabes, eu gosto muito da Kate. De vez em quando, arran-
ja-me trabalho, paga-me bem e sem demoras. Tudo o que con-
tam a respeito dela deve ser mentira. Mas, se pensarmos melhor,  
uma mulher muito estranha. E tem um destes olhares! No achas?
- Eu no me tenho dado mal - afirmou Joe.
A perfdia de Joe teve o condo de enraivecer Alf que resolveu 
vingar-se com uma alfinetada:
- Uma vez, passou-me uma ideia esquisita pela cabea. Eu 
estava a fazer a salinha sem janela e ela olhou-me com aquele 
olhar frio. Vai da, pus-me a matutar que se ela soubesse tudo o 
que eu sei dela e me oferecesse um copo ou uma fatia de bolo... 
pois sim! dizia-lhe logo: No minha senhora, muito obrigado.
- Pois eu entendo-me muito bem com ela - repetiu Joe. - E 
agora tenho de ir estar com o tal tipo.
Joe encaminhou-se para casa, pois queria pensar em sossego
no seu quarto. Sentia-se apreensivo. De repente, ps-se de p, 
examinou a mala da roupa e abriu todas as gavetas. Receava que 
algum lhe tivesse revistado o quarto. Uma desconfiana, sem mais 
nem menos. Mas estava tudo em ordem. Contudo, ficou nervoso. 
Procurou dar uma arrumao s coisas que acabara de saber.
Bateram  porta e Thelma entrou, de olhos inchados e nariz 
vermelho.
- Gostava de saber o que  que deu  Kate. 
- Ela tem andado doente.
- No me refiro a isso. Estava eu na cozinha a beber um
copo de leite, quando ela chegou e me deu uma bofetada.
- Tens a certeza de que no havia usque no teu leite?
- No. Juro-te que era s leite com baunilha. Ela no tem o
direito de me tratar deste modo.
- Mas tratou-te, no tratou?
- Pois sim, mas eu  que no estou disposta a aturar uma 
coisa destas.
- Ai no, que no ests! Agora, pisga-te!
Thelma fitou-o com o seu belo olhar sombrio e misterioso.
Recuperada a calma, j se sentia mais forte. 
- Joe - perguntou ela - tu s realmente um filho da puta ou
apenas finges ser?
- Que tens tu com isso?
- Nada, seu filho da puta!


2

Joe resolveu agir devagar, com muita cautela e s depois de 
madura reflexo.
Agora que tenho os cordelinhos na mo, no posso des-
perdi-los. 
Foi receber ordens ao quarto de Kate, mas apenas lhe viu as 
costas. Ela estava sentada  secretria, com a pala verde em cima
dos olhos, e nem sequer se voltou para ele. Aps ter dado as or-
dens numa voz seca, prosseguiu:
- Joe, no sei se tens tomado conta da casa como deve ser. 
Eu estive doente, mas agora j me sinto melhor. 
- Passa-se alguma coisa?
-  muito possvel. Tenho a impresso de que a Thelma esta-
va a beber usque em vez de leite com baunilha. No gosto que ela 
beba usque. A deve andar desmazelo teu.
Joe procurou uma desculpa.
- Tenho tido muito que fazer!
- Muito que fazer?
- Pois claro. Tenho andado s voltas com o seu caso. 
- Que caso?
- Ento, no sabe? A Ethel.
- Deixa l a Ethel!
- Est bem - disse Joe. (Depois, sem querer, acrescen-
tou): - Vi ontem um tipo que me disse que a tinha encontrado.
Se Joe no a conhecesse, no teria feito a pequenina pausa, 
no lhe teria concedido os rgidos dez segundos de silncio, ao 
cabo dos quais ela perguntou:
- Onde?
- Aqui.
Kate rodou lentamente a cadeira giratria e encarou-o.
- Eu no te devia ter deixado trabalhar s escuras, Joe. Custa 
muito confessar um erro, mas, s vezes, no h outro remdio. 
Escusado ser lembrar-te que fiz com que a polcia pusesse a 
Ethel fora da comarca. Pensava que ela me tivesse feito algum 
mal. - (A voz adquiriu um tom melanclico). - Afinal, tinha-me 
enganado. S mais tarde  que compreendi. Agora sinto remorsos 
por lhe ter causado dissabores sem nenhuma necessidade. Quem 
me dera encontr-la e ajud-la a esquecer. s capaz de achar 
estranho este meu desejo.
- No acho, no.
- Ento v se a encontras, Joe. S me sentirei melhor quan-
do tiver recompensado essa pobre desgraada. 
- Vou tentar descobri-la.
- Joe, se precisares de dinheiro,  s dizer-me. Se a encon-
trares, repete-lhe o que te disse. Se ela no quiser vir c, pergunta-
-lhe para onde posso telefonar. Precisas de dinheiro?
- Para j, no. Mas vou ter que me ausentar muitas vezes de 
casa.
- Muito bem. Podes ir, Joe.
Joe estava delirante de alegria. No corredor, cruzou os braos 
e abraou os ombros, como se quisesse conter a satisfao que 
se apoderara dele. Por pouco, era capaz de pensar que fora tudo 
imaginado por ele. Atravessou a sala quase s escuras e cheia de 
murmrios, abriu a porta da rua e contemplou o cu onde as estre-
las apareciam e desapareciam entre as nuvens arrastadas pelo vento.
Joe pensou no pai. Recordava-se de qualquer coisa que o ve-
lhote lhe tinha dito: Desconfia das almas caridosas, aconselhara 
o pai.  preciso muita cautela com essas damas que andam sem-
pre de mo estendida. 
Joe murmurou:
- Uma alma caridosa! Sempre a julguei mais forte do que 
isso.
Lembrou a conversa que acabara de ter com ela e pesou cada 
uma das palavras para ter a certeza de que no eram uma faca de 
dois gumes. No, no era nada disso. Tornou a pensar no que Alf 
lhe dissera: Se ela me oferecesse um copo ou uma fatia de bolo...


3

Kate continuava sentada  secretria. Ouvia o vento que asso-
biava nos alfeneiros, e tanto o vento como a escurido estavam 
cheios de Ethel, gorda, flcida, viscosa como uma alforreca. Kate 
sentiu-se tremendamente exausta.
Entrou na salinha cinzenta, fechou a porta e sentou-se no es-
curo, escutando as pequeninas dores que marinhavam pelos dedos 
como formigas. O sangue latejava-lhe nas fontes. Apalpou a cpsu-
la pendente do fio de ouro e esfregou na cara o tubinho de metal 
ainda morno do contacto com os seios. A coragem voltou a pouco
e pouco. Foi lavar a cara, pintou-se, penteou-se e tufou o cabelo. 
Depois, desceu at  sala, mas deteve-se  porta, como de costu-
me, para escutar.
Duas mulheres e um homem estavam a conversar, mas todos 
se calaram quando Kate entrou e disse:
- Helen, precisava de falar contigo se no estivesses ocupa-
da.
A rapariga acompanhou-a at ao quarto. Era uma loira des-
lavada com uma pele cor de osso encerado.
- Que h, minha senhora? - perguntou ela receosamente. 
- Senta-te. No h nada de especial. Tu foste ao enterro da 
Negra?
- No queria que fosse?
- Isso no interessa. Foste ou no?
- Fui, sim, minha senhora.
- Conta-me.
- O qu?
- Tudo de que te lembrares. Como foi?
Helen respondeu nervosamente:
- Foi horrvel e magnfico ao mesmo tempo. 
- Que queres tu dizer?
- No sei. No havia flores, nem coisa nenhuma. Mas havia... 
uma espcie... uma espcie de dignidade. A Negra estava estendi-
da num caixo preto com quatro enormes candelabros at parecia 
nem sei como dizer.
- J disseste, deixa l. Como ia ela vestida? 
- Vestida?
- Sim. No a enterraram toda nua, pois no? 
Helen tentou concentrar-se.
- No sei - acabou por dizer. - No me lembro. 
- Foste ao cemitrio?
- No, minha senhora. Ningum foi a no ser ele. 
- Quem?
- O homem dela.
Kate perguntou depressa, quase com demasiada pressa: 
- Tens fregueses esta noite?
- No, minha senhora. Hoje  vspera do Dia de Aco de 
Graas. O negcio est fraco.
- J me tinha esquecido - disse Kate. - Podes ir-te embo-
ra.
Mal a rapariga saiu, aproximou-se da secretria. E enquanto 
examinava a conta discriminada do canalizador, ia afagando com a 
mo esquerda o fio pendurado ao pescoo: aquilo dava-lhe uma 
vaga sensao de conforto e de segurana.



CAPTULO XLIX 


1

Lee e Cal procuraram dissuadir Adam de ir  estao esperar 
o expresso San Francisco-Los Angeles.
- Porque no deixas ir antes a Abra sozinha? - perguntou 
Cal. -  a primeira pessoa que ele deve querer ver.
- Se fssemos todos, ele at era capaz de no dar por ns 
- acrescentou Lee.
- Eu quero v-lo sair do comboio - disse Adam. - Ele deve 
estar muito mudado.
Lee disse:
- S se foi embora h dois meses;  impossvel que tenha 
mudado ou envelhecido.
- Pois eu ia jurar que sim.
- Se tu fores, teremos todos de ir - disse Cal.
- No tens vontade de ver o teu irmo? - perguntou Adam 
com severidade.
- Claro que tenho. Mas ele  que no deve ter vontade de me 
ver... pelo menos, em primeiro lugar.
- Tem, sim - disse Adam. - No subestimes o teu irmo. 
Lee levantou as mos em sinal de desistncia: 
- Ento, vamos.
-  formidvel - disse Adam. - Quantas coisas no ter 
ele aprendido? S queria saber se j fala de outra maneira. Sabe, 
por acaso, Lee, que no Leste os estudantes costumam adoptar a 
linguagem da Universidade que frequentaram?  fcil distinguir um 
estudante de Harvard dum estudante de Princeton. Pelo menos,  
o que se diz.
- Hei-de apurar o ouvido - disse Lee. - Sempre gostava de 
saber que dialecto usam em Stanford.
O chins e Cal trocaram um sorriso, mas Adam no achou 
graa nenhuma.
- Ps fruta no quarto dele? No se esquea de que ele adora 
a fruta.
- Pus pras, mas e uvas moscatis.
-  verdade, ele gosta muito de uvas moscatis. Agora me 
lembro.
Empurrados por Adam, chegaram  estao meia hora antes 
da tabela do comboio. Abra j l se encontrava.
- Amanh no posso ir almoar, Lee - disse ela. - O meu 
pai quer que fique em casa. Irei logo depois do jantar, assim que 
estiver despachada.
- Parece-me um pouco ansiosa - observou Lee. 
- E voc no est?
- Tambm estou, sim. Espreite l para a linha para ver se o 
sinal j est verde.
A pontualidade dos comboios constitui motivo de orgulho e de 
apreenso para muita gente. Quando o sinal passa do encarnado 
ao verde e surge o farol da locomotiva pondo em relevo todos os 
pormenores da estao, os homens costumam consultar o relgio 
e dizer: Chega  tabela. 
A sensao de orgulho  acompanhada de alvio. A noo da 
importncia do segundo nas actividades humanas tem aumentado 
cada vez mais. Pouco falta para que o segundo seja substitudo 
pelo dcimo de segundo, depois, pelo centsimo, at ao dia -
custa-me a crer que ele chegue - em que o homem extenuado h-
de dizer: E depois, no fim de contas, o que  uma hora na vida 
dum homem? Mas esta preocupao da fraco de segundo no 
 ridcula. Um facto que se produz demasiado cedo ou demasiado 
tarde pode escangalhar o mecanismo moderno e as consequentes 
perturbaes propagar-se-o, como crculos num charco para onde 
se atirou uma pedra.
O expresso, lanado a toda a velocidade, penetrou na gare 
como se no tivesse a inteno de parar. A mquina e os furges j 
tinham passado quando se ouviu o silvo dos freios de ar comprimi-
do.
Do comboio desceu muita gente, especialmente parentes que 
vinham visitar a famlia naquele dia de festa, ajoujados ao peso da 
bagagem e das prendas. A famlia de Aron no o descobriu logo. O 
rapaz parecia ter crescido.
Aron trazia um chapu de copa achatada com fita estreita, 
extremamente elegante. Assim que avistou a famlia, desatou a 
correr e tirou o chapu. Tinha os cabelos loiros cortados  esco-
vinha. Os olhos brilhavam-lhe e o grupo riu de prazer ao v-lo.
Aron largou a mala e ergueu Abra nos braos. Depois de a 
colocar no cho, estendeu as mos a Adam e a Cal. Finalmente, 
empunhou Lee pelos ombros e abraou-o com risco de o sufocar.
De regresso a casa, todos falavam ao mesmo tempo: Como 
ests? Pareces vender sade.  Abra, tu ests esplndida.  
Porque cortaste o cabelo?  a moda.  Tinhas um cabelo to 
bonito.  Percorreram rapidamente a Main Street.  esquina da 
Central Avenue, passaram diante da montra da padaria Reynaud, 
onde se amontoavam as belas carcaas doiradas, e a dona ace-
nou-lhes com a mo enfarinhada. Finalmente, entraram em casa.
Adam perguntou:
- H caf, Lee?
- Deixei-o ao lume antes de sair.
As chvenas tinham ficado prontas. Subitamente, compreen-
deram que estavam todos novamente reunidos, Aron e Abra no 
div, Adam na sua poltrona debaixo do candeeiro, Lee que servia o 
caf, e Cal de p, de braos cruzados, na moldura da porta. Con-
servaram-se calados por j ser muito tarde para as banalidades e 
muito cedo ainda para outra coisa qualquer.
Adam rompeu o silncio:
- Quero que me contes tudo. Tiveste boas notas?
- S fao exame no ms que vem, pap.
- Estou certo de que hs-de ter boas notas.
Mesmo contra vontade, Aron esboou uma careta de impa-
cincia.
- Amanh logo falamos - disse Adam. - Tu deves estar 
cansado.
- Apostava o contrrio - disse Lee. - Ele deve ter  vontade 
de ficar s.
Adam olhou para Lee e disse:
- Evidentemente... evidentemente. Queres que nos vamos 
deitar?
Abra resolveu o problema.
- Eu no posso ficar muito tempo - disse ela. - Acompa-
nhas-me a casa, Aron? Amanh logo nos vemos todos outra vez.
Durante o trajecto, Aron sentia arrepios apesar de ir acon-
chegado ao brao de Abra.
- Vamos ter geada - disse ele.
- Gostaste de voltar a casa?
- Gostei. Tenho muitas coisas a dizer-te. 
- Boas?
- Isso depende de ti.
- Ests com um ar muito srio.
- O caso  srio.
- Quando te vais embora?
- No domingo  noite.
- Ento, temos muito tempo  nossa frente. Eu tambm pre-
ciso de falar contigo. Ainda temos o dia de amanh, sexta, sbado 
e todo o domingo. No te importas de no entrares esta noite em 
minha casa?
- Porqu?
- Depois te explico.
- Eu queria saber j.
- O meu pai anda com uma crise.
- Contra mim?
- Sim. Amanh no posso jantar contigo. Mas tenciono co-
mer pouco em casa. No te esqueas de pedir ao Lee para me 
guardar alguma coisa.
A timidez apoderara-se novamente de Aron. Abra podia senti-
-lo pelo brao que se soltara, pelo silncio e pela cabea levantada.
- No te devia ter dito isto esta noite.
- Fizeste bem - respondeu ele devagar. - Diz-me com 
franqueza: continuas a gostar de mim?
- Continuo.
-  tudo o que pretendo saber. Vou-me embora, adeus. Ama-
nh nos tornaremos a ver.
Abra ficou um instante  porta, guardando nos lbios o gosto 
do beijo fugaz e sentindo-se um pouco vexada por ele ter concordado
em se ir embora to depressa. Depois, troou de si mesma, pois 
era ridculo ficar vexada quando se obtinha o que se pedia. Os pas-
sos afastavam-se rapidamente e Abra entrou em casa. Devo estar 
doida. No passou tudo de imaginao minha.


2

No seu quarto, depois de ter dado as boas-noites aos demais, 
Aron sentou-se  beira da cama e contemplou as mos cruzadas 
entre os joelhos. Sentia-se abandonado, incapaz de se defender da 
ambio do pai. At quela noite nunca avaliara a amplitude dessa 
ambio e perguntava a si mesmo se no lhe faltariam as foras 
para se libertar. No conseguia ordenar as ideias. A casa parecia 
hmida e fria. Arrepiou-se, levantou-se e abriu de mansinho a porta 
do quarto. A luz de Cal estava acesa. Bateu  porta e entrou sem 
esperar pela resposta.
Cal estava sentado diante duma secretria nova, entretido a 
recortar papis de cor. Ao ouvir entrar Aron, tapou apressadamente 
qualquer coisa com o mata-borro.
Aron sorriu-se.
- Presentes? - perguntou.
- Sim - respondeu Cal, sem acrescentar mais nada. 
- Posso falar contigo?
- Evidentemente. Mas fala em voz baixa se no queres que 
o pap aparea. Ele tem sempre medo de perder alguma coisa.
Aron sentou-se na cama, mantendo-se calado durante tanto 
tempo que Cal lhe perguntou:
- H alguma coisa? Tiveste alguma contrariedade?
- No, no tive. Queria falar contigo. Cal, eu no quero vol-
tar para a Universidade.
Cal teve um sobressalto e voltou-se:
- Que dizes? Porqu?
- No gosto daquilo.
- Espero que ainda no tenhas dito nada ao pap? Ele ficava
desapontado. J basta que eu tambm no queira ir. Que tencionas 
fazer?
- Gostava de ir viver para o rancho.
- E a Abra?
- Foi ela quem me fez a proposta.
Cal observou-o atentamente.
- No sabes que o rancho est arrendado? 
- Sei, sim.
- E sabes que a lavoura no d nada?
- Eu de pouco preciso. Contento-me com o suficiente para 
viver.
- Isso para mim no me chegava - disse Cal. - Tenciono 
ganhar muito dinheiro e hei-de consegui-lo.
- De que maneira?
Cal sentia-se mais velho e mais maduro do que o irmo. Mais 
forte, tambm.
- Se continuares a estudar, durante esse tempo montarei eu
um negcio. Quando tiveres terminado, fao-te meu scio. Cada
um de ns dirigir um ramo diferente. Seria uma boa ideia. 
- Que necessidade tenho eu de voltar  Universidade? 
- Porque assim quer o nosso pai.
- No  razo.
Cal lanou um olhar feroz ao irmo. Analisou os cabelos loi-
ros, os olhos muito abertos e, de sbito, compreendeu porque  
que o pai preferia Aron. Apressadamente, disse:
- Espera por amanh. Mais valia que terminasses o perodo e 
que no fizesses nada por enquanto.
Aron ergueu-se e encaminhou-se para a porta. 
- Para quem  a prenda?
- Para o pap. Amanh, depois do jantar, logo vs. 
- No estamos no Natal.
- Pois no - disse Cal. - Mas ainda h-de ser melhor do 
que no Natal.
Assim que Aron saiu do quarto, Cal afastou o mata-borro e 
tornou a contar as quinze notas novinhas em folha. O banco de 
Monterey mandara-as vir de propsito de San Francisco e s de-
pois de ter procedido a indagaes. Causava escndalo que um 
garoto de dezassete anos pudesse ter tanto dinheiro e que andas-
se com ele, ainda por cima. Os banqueiros no gostam de ver o 
dinheiro a passear, mesmo que a viagem tenha um objectivo sen-
timental. Fora necessrio que Will Hamilton afirmasse que o di-
nheiro pertencia a Cal, que ele o ganhara honradamente e que 
podia fazer dele o que lhe apetecesse.
Cal embrulhou as notas em papel de seda e atou-as com uma 
fita encarnada, tentando, desajeitadamente, fazer o lao. O em-
brulho era to pequeno que se poderia pensar que continha um 
leno. Depois de o esconder debaixo das camisas, no armrio, foi-
-se deitar. Mas no conseguiu conciliar o sono. Estava ansioso. 
Apetecia-lhe que o dia seguinte j tivesse decorrido e que o presen-
te j estivesse nas mos do dono. Ps-se a imaginar o que tencio-
nava dizer:
 Isto  para ti.
O que ?
Um presente.
A partir daqui, no conseguia prever o que se passaria. Deu 
voltas e reviravoltas na cama e, mal amanheceu, vestiu-se e saiu de 
casa com pezinhos de l.
Na Main Street, o velho Martin conduzia a carroa da lim-
peza. A edilidade inscrevera no oramento municipal a aquisio 
dum veculo automvel para aquele servio, e o velho Martin tinha 
esperanas de vir a ser o condutor, mas referia-se sempre  novi-
dade com um cnico desengano. Os novos  que tiravam proveito 
de tudo. A carroa do lixo dos Bacigalupi passou por ele e Martin 
lanou-lhe um olhar cheio de rancor. Aquilo, sim,  que era neg-
cio. Aqueles, j estavam cheios dele.
Na rua no se avistava vivalma, excepto alguns ces que 
farejavam junto s portas fechadas e um simulacro de actividade 
no restaurante San Francisco. O txi novo de Pet Bulene espe-
rava  porta pois, na vspera, tinham prevenido Pet de que as 
irms Williams tomariam o comboio da manh para San Fran-
cisco.
O velho Martin chamou Cal.
- Eh! amigo! Tens um cigarro?
Cal deteve-se e apresentou-lhe o mao de Murads.
- Cigarros de luxo - comentou Martin. - Tambm no tenho 
lume.
Cal deu-lhe lume tendo o cuidado de no inflamar as barbas de 
Martin.
O velho soltou um suspiro de dilacerar a alma.
- Os novos  que tiram proveito de tudo - disse ele. - Tenho 
a certeza de que no mo deixam conduzir.
- O qu? - perguntou Cal.
- Ora o que h-de ser? O novo carro da limpeza. Ento tu 
no sabes? Mas por onde tens andado?
Parecia-lhe incrvel que um ser humano, a no ser que aca-
basse de chegar duma ilha deserta, ignorasse a compra do carro 
da limpeza. Mas esqueceu-se logo de Cal. Talvez os Bacigalupi 
estivessem dispostos a dar-lhe trabalho. Ganhavam dinheiro em 
barda. J tinham trs carros e um camio novo.
Cal virou para Alisai Street, entrou no correio e olhou para o 
apartado 632. Estava vazio. Regressou vagarosamente a casa e 
encontrou Lee na cozinha entretido a rechear um enorme peru.
- Passaste toda a noite fora? - perguntou Lee.
- No, fui dar um passeio.
- Ests enervado?
- Estou.
-  natural. No teu lugar, eu tambm estaria. Custa muito 
dar, mas ainda custa mais receber. Achas isto ridculo? Queres 
caf?
- Pois sim.
Lee limpou as mos e encheu duas chvenas de caf. 
- Como achaste o Aron?
- Achei-o bem.
- Conseguiste falar com ele?
- No - respondeu Cal.
Assim era mais fcil. Lee quereria saber o que ele tinha dito.
Ora, aquele dia no pertencia ao Aron, mas sim a Cal. Marcara-o
no calendrio e pretendia aproveit-lo o mais possvel. 
Aron entrou com uma cara ainda ensonada. 
- A que horas  o almoo, Lee?
- No sei... s trs e meia, quatro horas. 
- No podias adi-lo para as cinco?
- Se no fizer desarranjo ao Adam. Porqu?
- Porque a Abra no pode vir antes disso. Eu queria pedir
uma coisa ao pap e gostava que ela estivesse presente.
- Havemos de dar um jeito - prometeu Lee.
Cal levantou-se precipitadamente e correu para o quarto. Sen-
tou-se  secretria, acendeu o candeeiro e deixou-se invadir por 
uma vaga sensao de angstia a que no faltava um certo res-
sentimento. Sem se dar ao menor esforo, Aron roubara-lhe o seu 
dia. Pelos vistos, seria o dia de Aron. Depois, subitamente, en-
cheu-se de vergonha, e mergulhou a testa nas mos. Estou com 
cimes. Sou ciumento,  o que sou. Mas no quero ter cimes. E 
repetiu: Ciumento, ciumento, ciumento, como se a palavra per-
desse a virulncia com a repetio. J que fora to longe, resolveu 
prosseguir na senda da punio: Porque  que dou o dinheiro ao 
meu pai? Para bem dele? No. S para o meu. Foi o Will Hamilton 
quem disse...  uma tentativa para o comprar. Tudo isto  ignbil. 
Tudo em mim  ignbil. Aqui estou eu cheio de cimes do meu 
irmo. Sim, o melhor  chamarmos as coisas pelo seu nome. 
Porque no hei-de ser honesto? Eu bem sei porque  que o meu pai 
gosta do Aron.  por ele ser parecido com ela. O meu pai nunca a 
conseguiu esquecer. Talvez ele nem o saiba, mas  a verdade. 
Gostava de saber se ele d por isso. Pronto, agora tambm tenho 
cimes dela. Mais valia que pegasse no meu dinheiro e me pusesse 
a andar. No fao falta a ningum. No seria preciso muito tempo 
para que se esquecessem de que eu at tinha existido... Todos, 
excepto o Lee. E, mesmo esse, no sei se gosta de mim. Se calhar, 
no gosta. Cal dava punhadas na testa. O Aron tambm ter de 
lutar assim contra si mesmo? No me parece. Mas que sei eu? E 
se lhe perguntasse? No me respondia, pela certa.
Cal oscilava entre a raiva de si mesmo e o d por si mesmo. 
Ouviu-se, ento, uma voz desdenhosa: Se s honesto, porque 
no confessas que gostas de te infligir essas torturas? Essa  que 
 a verdade. Porque no te limitas a seres o que s e a fazeres o 
que desejas? Cal ficou perplexo. Gostava de se torturar? Era evi-
dente. Pelo facto de se aoitar a si mesmo, evitava que outros o 
fizessem em seu lugar. Concentrou-se. O melhor  entregar o di-
nheiro, mas sem ligar muita importncia. No esperar por nada e 
no prever coisa nenhuma. D-lo e esquec-lo. E esquecer logo. 
Dar... dar. Dar este dia ao Aron. Porque no? Ergueu-se de um 
salto e precipitou-se para a cozinha.
Aron mantinha aberta a pele do peru enquanto Lee metia o 
recheio. O fogo estoirava de calor.
Lee disse:
- Ora vejamos, nove quilos, a quarenta minutos por quilo, 
faz nove vezes quarenta. Portanto, trezentos e sessenta minutos. 
Seis horas. Das onze ao meio-dia; do meio-dia  uma...
Ps-se a contar pelos dedos.
Cal disse:
- Quando estiveres despachado, Aron, vamos dar uma volta. 
- Onde? - perguntou Aron.
- Pela cidade. Queria pedir-te uma coisa.
Cal levou o irmo aos estabelecimentos Berges & Garrisire,
importadores de vinhos e licores que ficavam do outro lado da rua. 
- Tenho algum dinheiro - disse Cal - e pensei que gostas-
ses de comprar vinho para o almoo. Vou dar-te o dinheiro. 
- Que gnero de vinho?
- Tem de ser uma festa a srio. Levamos champanhe. Ser 
a tua prenda.
Joe Garrisire disse-lhes:
- Vocs ainda so muito novos. Lamento, mas no posso 
vender-lhes vinho.
Cal disse:
- J sei o que vamos fazer. Ns pagamos e depois manda 
entregar o vinho ao meu pai.
- Muito bem - disse Joe Garrisire. - Tenho um Oeil de 
Perdrix que  uma especialidade.
E deu um estalo com a lngua como se estivesse a prov-lo. 
- O que  isso? - perguntou Cal.
-  um champanhe da mesma cor do olho da perdiz, um 
pouco mais escuro que o rosado, mas muito seco. Cada garrafa 
custa quatro dlares e meio.
- No  caro de mais? - perguntou Aron.
- Claro que  - respondeu Cal a rir-se. - Mande entregar 
trs garrafas, Joe. - (Depois, dirigindo-se a Aron): -  a tua pren-
da.


3

Parecia a Cal que o dia nunca mais passava. Apetecia-lhe sair 
de casa, mas no havia maneira de se resolver. s onze horas, 
Adam foi para a Junta de Recrutamento, embora estivesse fecha-
da, para estudar as fichas duma nova batelada de recrutas.
Aron mostrava-se perfeitamente calmo. Estava sentado na sala, 
entretido a olhar os bonecos das aventuras cmicas de velhos n-
meros da Revista das Revistas. Da cozinha vinha um cheiro de 
peru assado que enchia toda a casa.
Cal foi ao quarto, tirou o presente da gaveta e p-lo em cima da 
secretria. Tentou escrever um carto para lhe juntar. Para o meu 
pai, da parte do Ca/eb. Para Adam Trask, da parte de Caleb Trask. 
Rasgou os dois cartes aos bocadinhos e atirou-os para a retrete, 
puxando, em seguida, a corrente do autoclismo.
Comeou a reflectir: Porque lho hei-de dar hoje? Amanh 
tambm podia falar com ele calmamente e dizer-lhe: Aqui tem 
isto, indo-me logo embora. Seria mais fcil. No, acrescentou 
em voz alta. Quero que os outros estejam presentes. Assim  
que seria. Mas respirava com dificuldade e sentia a humidade nas 
palmas das mos. Era o medo. Tornou a pensar na manh em que 
o pai o fora buscar  cadeia. Que calor, que intimidade! Isso  que 
ele devia recordar: a confiana do pai. Ele at afirmara: Tenho 
confiana em ti. Ao evocar estas palavras, Cal sentiu-se melhor.
Cerca das trs horas, ouviu os passos de Adam e um rumor de 
conversa na sala. Cal desceu na altura em que o pai dizia:
- Os tempos mudaram. S alcana sucesso o homem que se 
especializar.  por isso que eu estou to satisfeito por tu conti-
nuares a estudar.
Aron replicou:
- Estive a pensar nisso e pergunto...
- No penses mais. A primeira escolha que fizeste foi a me-
lhor. Olha para o meu caso. Tenho conhecimentos superficiais so-
bre muitas matrias, mas no conheo nenhuma o bastante para 
poder ganhar a vida.
Cal sentou-se sem fazer rudo. Adam no deu por ele. Estava 
absorvido na conversa.
-  natural que um homem queira ver o filho bem sucedido - 
prosseguiu Adam. - Talvez eu esteja em melhor posio do que tu 
para o saber.
Lee enfiou a cabea pela porta.
- A balana da cozinha deve estar escangalhada. O peru vai 
ficar pronto antes do que eu pensava. Aposto que o bicho no pesa-
va nove quilos.
- Deixe-o ficar ao p do lume - disse Adam. (Depois, con-
tinuou): - O velho Sam Hamilton tinha razo quando dizia que j 
passara a poca dos filsofos universais. O peso da sapincia  
grande de mais para um s crebro. Ele dizia que tempos viriam 
em que o homem se limitaria a explorar uma parcela, mas que a 
conheceria a fundo.
- Pois - disse Lee do limiar da porta - mas tambm o 
deplorava. Ele antevia essa poca com horror. 
- Srio? - perguntou Adam.
Lee entrou na sala. Segurava a colher do molho na mo direi-
ta, mantendo a esquerda por debaixo. Mas, ao entrar na sala, es-
queceu-se da precauo que tomara e brandiu a colher. Alguns 
pingos de gordura caram no tapete.
- J que me fez a pergunta, sempre gostava de saber se era 
ele que tinha horror ou se sou eu que tenho horror por ele.
- No se exalte - disse Adam. - J no se lhe pode dizer 
nada sem que leve a coisa  conta de insulto pessoal.
- Talvez o saber se tenha tornado demasiado vasto, mas 
quem sabe se o homem tambm no se tornou demasiado pe-
queno - disse Lee. -  muito possvel que  fora de se ajoelhar 
diante dos tomos ele acabe por ter uma alma do tamanho do que 
adora. Pode ser que o especialista no passe dum covarde que 
tem medo de olhar para o que existe fora da sua gaiola. Pense s 
no que perde o seu especialista: todo um mundo que palpita do 
outro lado das grades.
- Mas ns estvamos a falar da maneira como um homem 
pode ganhar a vida.
- Ganhar dinheiro! - disse Lee. - Se  essa a sua finalidade, 
no custa nada a atingir. Mas, salvo raras excepes, no  dinhei-
ro o que as pessoas procuram. O que elas querem  luxo, amor e 
admirao.
- Bom, bom. Tem alguma coisa a dizer aos estudos? Era 
disso que estvamos falando.        w
- Desculpem - disse Lee. - Tm razo. Num instante me 
excito. Se na Universidade o homem puder aprender a conhecer 
os seus semelhantes, nada tenho a objectar. Ser assim, Aron?
- No sei - disse Aron.
Ouviu-se um som sibilante na cozinha.
- Ai as miudezas do peru que esto a deitar por fora! - gritou 
Lee correndo para a porta.
Adam acompanhou-o com um olhar afectuoso. 
- Que bom homem! Que bom amigo!
Aron disse:
- Espero que viva cem anos.
- Quem te diz que ele j no os fez? - retorquiu-lhe o pai. 
Cal perguntou:
- Como vai a fbrica de gelo, pap?
- Assim-assim. Paga as despesas e deixa um pequeno lu-
cro. Porqu?
- Tive uma ou duas ideias que poderiam aumentar o ren-
dimento...
- Hoje no - disse apressadamente Adam. - Segunda-fei-
ra, se ainda te lembrares, mas hoje no. No imaginam como me 
sinto bem. Tenho uma sensao... como dizer... de plenitude. Tal-
vez seja apenas o resultado duma boa noite de sono e duma prof-
cua viagem  casa de banho. Talvez seja tambm por estarmos 
todos reunidos - (E sorriu a Aron.) - S com a tua ausncia  
que tivemos a noo do que representavas para ns.
- Nos primeiros dias, cheguei a crer que no aguentava 
-confessou Aron.
Abra entrou, ligeiramente ofegante. Tinha as faces coradas e 
um aspecto radiante.
- J viram? O pico do Toro est coberto de neve.
- J vimos, j - disse Adam. - Dizem que  de bom aug-
rio para o ano que vem. Oxal assim seja.
- S petisquei umas coisas - disse Abra. - Queria ter fome 
aqui.
Durante todo o almoo, Lee no parou de se queixar. Acusou o 
fogo de gs de no dar um calor to bom como os antigos foges
de lenha. Acusou os perus modernos de no serem iguais aos 
perus dos velhos tempos. E acabou por se rir com toda a gente 
quando lhe redarguiram que se estava a portar como uma velha  
cata de elogios.
Assim que veio o pudim de ameixas para a mesa, Adam serviu 
o champanhe. Beberam cerimoniosamente, fazendo brindes com 
um ar mundano; cada um deles bebeu  sade dos outros e Adam 
endereou uma breve saudao a Abra quando as taas se esten-
deram para ela.
Os olhos de Abra brilhavam e, debaixo da mesa, Aron segu-
rava-lhe na mo. O vinho desfizera o nervosismo de Cal que j no 
tinha receio do presente.
Quando acabou de comer a fatia de pudim, Adam declarou: 
- Este dia ser a nossa mais bela recordao.
Ento, Cal rebuscou no bolso de dentro, tirou o embrulho com
o laarote e p-lo diante do pai.
- O que  isto?
-  um presente.
Adam estava encantado.
- No estamos no Natal e oferecem-me prendas. Estou com 
curiosidade em saber o que .
- Um leno - disse Abra.
Adam tirou a fita e desdobrou o papel de seda. Ao ver o di-
nheiro, pareceu ficar aparvalhado.
Abra perguntou:
- O que ? - E levantou-se para ir ver.
Aron estendeu a cabea. Lee, da porta, tentava disfarar a
inquietao e olhava para Cal que se revia no seu triunfo. 
Vagarosamente, Adam passou os dedos pelas notas. A sua
voz parecia vir de muito longe.
- O que  isto? O que...
No foi capaz de dizer mais nada.
Cal engoliu em seco.
-... Fui eu que o ganhei... para ti... para substituir o dinheiro 
das alfaces.
Adam endireitou lentamente a cabea: 
- Ganhaste-o? Como?
- O Sr. Hamilton... e eu... com o feijo. - (As palavras se-
guintes saram em tropel): - Comprmos o feijo na terra a dez 
cntimos e quando os preos subiRam...  para ti. Quinze mil dla-
res.  para ti.
Adam juntou as notas, acertou-as e tornou a embrulh-las. 
Depois, lanou um olhar desesperado a Lee. Cal captou uma im-
presso... uma ameaa de calamidade, de destruio. Pairava no 
ar um mal-estar incrvel. Ouviu o pai declarar:
- Tu vais devolver este dinheiro.
- Devolv-lo? A quem?
-  pessoa de quem o recebeste.
-  Junta de Compras Britnica? Eles no o querem. Pagam 
vinte e cinco cntimos pelo feijo que compram em todos os pa-
ses.
- Ento, vais devolv-lo aos produtores que roubaste.
- Roubei? - berrou Cal.- Mas ns pagmos-lhes quatro 
cntimos acima do preo corrente. Ningum os roubou.
Cal sentia-se suspenso no espao e os segundos pareciam 
interminveis.
O pai levou muito tempo a responder. Dir-se-ia que havia gran-
des traos-de-unio entre cada palavra que proferia.
- Ando eu a mandar rapazes para a guerra. Sou eu que assi-
no para eles irem, uns para morrerem e outros para perderem as 
pernas ou os braos. Raros so os que voltam ilesos. E tu, meu 
filho, ainda queres que eu venha a lucrar com uma coisa dessas?
- Fiz isto por ti - disse Cal. - S pretendia recompensar o 
prejuzo que sofreste.
- No me interessa o dinheiro, Cal. Quanto s alfaces... a 
minha inteno no era obter lucro. Era um jogo. Queria ver se 
conseguia expedir as alfaces para a outra costa e perdi. Mas no 
quero o teu dinheiro.
Cal no desviava os olhos da sua frente e sentia os olhares 
de Lee, de Aron e de Abra que lhe queimavam as faces. Mantinha-
-se suspenso dos lbios do pai.
- Agradeo-te muito teres pensado em dar-me um presente 
- prosseguiu Adam. - A tua inteno...
- Vou pr o dinheiro de parte. Vou guard-lo para ti - atalhou 
Cal.
- No. Nunca hei-de quer-lo. Teria ficado to contente se tu
tivesses dado... o que me deu o teu irmo... o orgulho que sinto 
pelo que est fazendo, a alegria de o ver progredir. O dinheiro, por 
honrado que seja, nunca poder valer uma coisa dessas. - 
(Soergueu ligeiramente as plpebras e perguntou): - Ficaste abor-
recido? Deixa l, meu filho. Se quiseres oferecer-me uma prenda, 
d-me uma vida boa. A isso  que eu dou apreo.
Cal tinha a impresso de sufocar. O suor escorria-lhe pela 
testa e a lngua sabia-lhe a sal. Levantou-se com tanta violncia 
que atirou a cadeira ao cho. Mal podendo respirar, precipitou-se 
para fora da sala.
Adam gritou-lhe:
- No fiques zangado comigo.
Todos o deixaram em paz. Cal sentou-se  secretria, jul-
gando que ia chorar, mas as lgrimas no vieram. Evaporavam-se 
ao tomarem contacto com o braseiro que lhe enchia a cabea.
Passados momentos, a respirao tornou-se mais regular e 
deixou-o apto a pensar com uma certa calma. Tentou lutar contra 
o dio que o habitava, procurou repeli-lo, mas depressa fraquejou 
e o dio, destilado, penetrou nas veias, envenenando-lhe todos os 
nervos. Principiava a no ter mo em si.
Por fim, a luta e o medo deram lugar a uma sensao de 
doloroso triunfo. A mo apoderou-se de um lpis e comeou a 
desenhar espirais no mata-borro. Quando Lee entrou, uma hora 
mais tarde, havia centenas de espirais que se tinham tornado cada 
vez mais pequenas. Cal no ergueu a cabea.
Lee fechou a porta sem fazer rudo.
- Trouxe-te caf - disse ele.
- No quero... Pois sim, deixa ficar. Obrigado pela lembrana, 
Lee.
Lee disse:
- Pra. Pra com isso, peo-te.
- Parar com qu?
Lee estava embaraado.
- J uma vez te disse quando tu me perguntaste:  uma coisa 
que est em ti. Os teus actos s de ti dependem. 
- No percebo o que ests a dizer.
Lee tornou:
- No me ouves? julgas que no adivinho o que vai em ti? Cal,
ser verdade que no percebes a que estou a referir-me?
- Estou a escutar-te, Lee. Que queres dizer?
- Ele no podia agir de outra maneira, Cal. O feitio dele  
assim. No tem por onde escolher. Mas tu tens, compreendes? 
Tu tens por onde escolher.
As espirais tinham-se tornado to pequenas que no passa-
vam de simples manchas.
Cal disse com frieza:
- Ests a dar muita importncia a uma coisa que no a tem. 
Deves estar enganado. Quem te ouvisse diria que matei algum. 
Vai-te embora, Lee. Vai-te embora.
O silncio assenhoreou-se do quarto e, quando Cal se voltou, 
j o chins tinha desaparecido. Em cima da cmoda, fumegava 
uma chvena de caf. Cal bebeu o lquido escaldante e desceu 
para a sala.
O pai atirou-lhe um olhar de quem pedia desculpa. 
Cal disse:
- Peo perdo, pap. No imaginava que tivesse essa reac-
o. - (Pegou no mao de notas que estava em cima da chamin 
e meteu-o na algibeira do casaco.) - Vou ver o que posso fazer. - 
(Depois, com muita naturalidade): - Para onde foram os outros?
- A Abra tinha de se ir embora e o Aron foi acompanh-la. O 
Lee tambm saiu.
- Vou tomar ar - disse Cal.


4

Estava-se em Novembro e j era de noite. Cal foi at  porta e 
avistou a sombra de Lee que se recortava na parede branca da 
padaria francesa, do outro lado da rua. Lee estava sentado nos 
degraus e parecia inchado sob o espesso sobretudo.
Cal tornou a atravessar a sala.
- O champanhe d sede - disse.
O pai no levantou a cabea.
Cal escapuliu-se pela porta da cozinha e atravessou a horta de 
Lee. Saltou por cima da cerca, rodeou o charco e desembocou na 
Castroville Street, entre a padaria Lang e a loja do canalizador.
Encaminhou-se para Stone Street, onde se ergue a igreja ca-
tlica, voltou  esquerda, passou diante da casa dos Carriaga, da 
dos Wilson, da dos Zabala, e tornou a voltar  esquerda para a 
Central Avenue, depois da casa dos Steinbeck. Dois quarteires de 
casas mais adiante, voltou novamente  esquerda, depois da esco-
la do West End.
Os choupos que marginavam o ptio de recreio estavam quase 
desnudados, mas o vento empurrava ainda algumas folhas ama-
relecidas.
Cal caminhava como se levasse antolhos. No sentia a cor-
rente de ar gelado que descia dos montes. Trs casas  sua frente, 
avistou o irmo  luz dum candeeiro, avanando na sua direco. 
Cal reconheceu-o pelo andar e pela silhueta.
Cal afrouxou o passo e, quando se aproximou de Aron, disse:
- Viva! Andava  tua procura.
Aron disse:
- Lamento o que se passou esta tarde.
- Tu no podias fazer nada. O melhor  esqueceres.
Deu meia volta e os dois rapazes puseram-se a andar lado a
lado.
- Queria que me acompanhasses - disse Cal. - Tenho uma 
coisa para te mostrar.
- Oque?
- Ah!  uma surpresa. Mas tem muito interesse. Principal-
mente para ti.
- Leva muito tempo?
- No.  um instante.
Atravessaram a Central Avenue em direco  Castroville 
Street.
Em geral, era o sargento Axel Dane quem abria a Junta de 
Recrutamento de San Jos s oito da manh mas, se chegava 
atrasado, era o cabo Kemp quem se encarregava disso, e este no 
era homem para se queixar. Axel era um caso vulgar. Alguns anos 
de servio no exrcito americano entre as guerras contra a Espanha
e a Alemanha tinham-no tornado incapaz tanto para a vida civil como 
para a guerra. Por esse motivo  que ocupava o seu posto na Junta 
de Recrutamento de San Jos. Alm disso, namorava a filha mais 
nova dos Ricci.
Kemp no contava tantos anos de servio, mas j conhecia 
todas as regras bsicas: entender-se bem com o sargento e evitar 
os oficiais na medida do possvel. As raras descomposturas do 
sargento Dane no o afligiam.
Dane entrou no escritrio s oito e meia e deparou com o 
cabo Kemp a dormir em cima da secretria e com um rapaz que o 
aguardava, de ar completamente esgotado. Dane lanou um olhar 
ao rapaz, antes de se dirigir a Kemp e de lhe pr uma mo no 
ombro.
- Acorda, querido - disse ele. - J ouo o rouxinol na ma-
drugada que desponta.
Kemp levantou a cabea dos braos, espirrou e limpou o na-
riz s costas da mo.
- Santinho! - disse o sargento. - Pe-te de p que temos 
um fregus.
Kemp esfregou os olhos ensonados.
- A guerra que espere - disse.
Dane examinou o rapaz com mais ateno.
- Meu Deus! mas que beleza! Oxal tenham cuidado com 
ele. Se calhar, o nosso cabo julga que ele deseja pegar em armas 
contra o adversrio? Pois desengane-se; apenas foge ao amor.
Kemp, sentiu-se aliviado. O sargento j no devia estar em 
jejum.
- Julga que foi alguma boneca que lhe fez mal? - (O cabo 
estava sempre disposto a afinar pela msica do sargento.) - Nesse 
caso, seria melhor mand-lo para a Legio Estrangeira, no acha?
- Talvez ande a fugir ao passado.
Kemp disse:
- Eu vi essa fita. Por sinal, havia um sacana dum sargento... 
- Pura inveno - redarguiu Axel Dane. - Em sentido, man-
cebo. Tem dezoito anos?
- Sim, senhor.
Dane voltou-se para o subordinado.
- Que pensas?
- Que se lixe! - disse Kemp. - Se tm o tamanho, tambm 
tm a idade.
O sargento disse:
- Fica ento assente: dezoito anos. E daqui ningum sai. 
Est de acordo?
- Estou, sim, senhor.
- Preenche este impresso. Conta pelos dedos o ano em que 
nasceste e escreve-o aqui. E trata de no o esqueceres.



CAPTULO L


1

Kate ficava imvel, horas a fio, olhando  toa, o que era um 
tormento para Joe. Aquilo significava que estava pensando e, como 
o rosto nada exprimia, Joe no tinha acesso aos seus pensamen-
tos. O homem andava deveras preocupado; temia perder a sua 
primeira grande oportunidade.
O seu plano era simples- atazan-la at ela perder a cabea. 
Nessa altura, agiria conforme as circunstncias o exigissem. Mas 
que fazer se ela se contentasse em fitar a parede? E j estaria de 
cabea perdida, ou no?
Joe sabia que ela no se deitava e, quando lhe perguntava se 
queria o pequeno almoo, abanava a cabea to impercepti-
velmente que no se chegava a perceber se o tinha ouvido ou 
no.
Joe acautelava-se o mais possvel: No tentes nada. Anda 
de ouvidos e de olhos bem abertos e deixa o resto.  As pensio-
nistas sabiam que se passava qualquer coisa, mas todas forne-
ciam verses diferentes e inverosmeis.
A verdade  que Kate no pensava. No seu crebro, apenas 
adejavam impresses tal como os morcegos se debatem num re-
cinto sem sada. Via a expresso do belo rosto loiro e os seus 
olhos arregalados de horror. Ouvia as palavras grosseiras que ele 
proferira, dirigidas mais a ele do que a ela. E via o irmo moreno, 
encostado  porta e torcendo-se de riso.
Kate tambm rira - primeiro reflexo de autodefesa. Que faria o 
filho? Que teria ele feito depois de se ter ido embora?
Ainda sentia pesar sobre si o olhar cruel de Cal na altura em 
que ele fechava a porta.
Porque teria ele trazido o irmo? Que quereria? Que procuraria? 
Se ela soubesse, teria agido de acordo com as circunstncias. 
Mas no sabia. A dor tornava a enviar as formigas devoradoras que, 
depois de se terem apoderado das mos, atacavam uma nova re-
gio do corpo: a anca direita. A dor h-de penetrar lentamente at 
ao centro e, mais cedo ou mais tarde, todas as dores se juntaro 
como os ratos numa cloaca.
Por mais conselhos que desse a si mesmo, Joe no pde con-
ter-se mais naquele dia. Pegou num bule, bateu discretamente  
porta do quarto e entrou. Kate continuava na mesma posio.
- Trouxe-lhe ch.
- Pe-no em cima da mesa - disse ela. (Depois):- Obri-
gada, Joe.
- A senhora no se sente bem?
- Voltaram-me as dores. O remdio j no d resultado. 
- Quer que faa alguma coisa?
Kate ergueu e estendeu as mos:
- Corta-as... pelos pulsos. - (O esforo obrigou-a a fazer 
uma careta de dor). - Uma pessoa at fica desesperada - quei-
xou-se ela.
Joe nunca a ouvira falar num tal tom de fraqueza e o instinto 
avisou-o de que chegara o momento de passar ao ataque.
- Eu bem sei que no quer ser incomodada, mas soube uma 
coisa a respeito daquela... pessoa.
Percebeu, pelo tempo que ela levou a responder, que acerta-
ra no alvo.
- Que pessoa? - perguntou ela baixinho. 
- O estafermo.
- Ah! referes-te  Ethel?
- Pois.
- J comeo a estar farta da Ethel. Que h de novo?
- Vou-lhe contar como as coisas se passaram. Pela parte 
que me toca, no entendo patavina. Estava eu na tabacaria Kellog 
quando me apareceu um tipo. Chamas-te Joe? - disse ele, e eu 
respondi-lhe: Porqu?; Tens andado  procura de algum - 
diz-me ele. Despeja o saco - digo-lhe eu. A cara do gajo no
me dizia nada. Vai da, sai-se-me com esta: A tal pessoa disse-
-me que queria falar contigo.  Pois que me venha falar - respon-
di-lhe eu. O tipo, ento, deitou-me um destes olhares cheios de 
inteno e disse-me: Se calhar j esqueceste o que disse o juiz. 
Acho que se referia  expulso.
Observou a expresso de Kate. Estava calma e plida, e no 
desviava os olhos da parede.
- E depois pediu-te dinheiro? - perguntou Kate.
- No. Nem isso. Disse-me uma coisa que no fazia senti-
do. Perguntou-me: O nome de Faye no te diz nada? Coisa 
nenhuma - respondi-lhe eu. O tipo ento disse-me: Talvez fi-
zesses bem em falar-lhe.  Talvez - respondi eu. E fui-me embo-
ra. Isto para mim no tem ps nem cabea e  por isso que lhe 
pergunto.
- O nome de Faye diz-te alguma coisa? - perguntou Kate. 
- No me diz absolutamente nada.
A voz tornou-se muito suave:
- O qu? Ento no sabias que a Faye era a dona desta 
casa?
Joe sentiu uma dor de barriga. Pobre besta! Se no era melhor 
ter ficado calado. Procurou emendar a asneira.
- Ah! sim...  possvel... tenho a impresso de que j ouvi 
dizer... mas estava convencido de que era um nome parecido com 
Faith.
Este sbito alarme fez bem a Kate. Esqueceu a dor e a cabe-
a loira. Agora tinha com que se entreter. Lanou-se ao ataque 
com uma espcie de jbilo.
Ouviu-se um risinho abafado:
- Faith! Serve-me ch, Joe.
No deu mostras de notar o tremor da mo que fazia com que 
o bico do bule batesse na borda da chvena. No o olhou, nem 
mesmo quando ele ps a chvena  sua frente e recuou logo para 
fora do seu campo visual. Joe suava de medo.
Kate pediu em voz suplicante:
- Joe, serias capaz de me ajudar? Se eu te desse dez mil 
dlares, achas que serias capaz de arranjar coisas?
Aguardou um segundo antes de virar a cabea e de o fitar nos 
olhos.
Joe tinha o olhar hmido e lambia os lbios. Quando viu o mo-
vimento de Kate, recuou um passo, como se ela lhe tivesse batido. 
Kate no desviou os olhos.
- Apanhei-te com a boca na botija, Joe. 
- No percebo.
- Ento, vai para o teu quarto e tenta perceber. Quando des-
cobrires, volta c outra vez. Tu s pessoa para compreenderes 
muitas coisas. No te esqueas de mandar c a Therese.
Joe tinha pressa de sair daquele quarto, onde acabava de ser 
vencido. Dera cabo de tudo. Teria deixado escapar a sua grande 
oportunidade? E aquela cria que ainda tinha a lata de lhe dizer: 
Obrigada, pelo ch. Foste muito amvel. 
A sua vontade era bater com a porta, mas no teve coragem.
Kate levantou-se com dificuldade por causa da dor no quadril. 
Sentou-se  secretria e pegou numa folha de papel. Custava-lhe 
segurar na caneta. Movendo todo o brao, escreveu: Caro Ralph, 
pede ao xerife que verifique as impresses digitais de Joe Valery. 
Tu conhece-lo:  o Joe que trabalha em minha casa. Tua, Kate. 
Estava a dobrar a folha de papel quando Therese entrou com ar 
medroso.
- A senhora chamou por mim? Fiz alguma coisa? No posso 
fazer melhor, minha senhora. Ultimamente no me tenho sentido bem.
- Chega c - disse Kate. (Enquanto a rapariga aguardava ao 
lado da secretria, Kate endereou e selou o envelope). - Queria 
que me fizesses um recado. Vais  confeitaria Bell e compras uma 
caixa de dois quilos e meio de bombons sortidos e outra de um 
quilo. A maior  para ti e para as tuas colegas. Depois, passas pela 
drogaria Krough e compras-me duas escovas de dentes e um tubo 
de pasta dentfrica.
- Sim, minha senhora.
Era evidente o alvio de Therese.
- Tu s boa pequena - prosseguiu Kate. - Tenho andado 
a observar-te. Eu estou doente, Therese. Se tu te portares bem, 
ficars a substituir-me enquanto eu estiver no hospital.
- A senhora... vai para o hospital?
- Ainda no sei bem, querida. Mas vou precisar de ti. Aqui 
tens dinheiro para os bombons. E no te esqueas das escovas de 
dentes.
- Sim, minha senhora. Muito agradecida. Posso ir j?
- Vai, sim. E sai sem fazeres barulho. Quero que os bom-
bons sejam uma surpresa.
- Vou sair pelas traseiras.
Therese encaminhou-se para a porta. Kate tornou a cham-la. 
- Ah! j me esquecia. No te importas de deitar esta carta no 
correio?
- Com certeza, minha senhora. Mais nada? 
- No, querida. Mais nada.
Assim que a rapariga saiu, Kate poisou os braos e as mos 
em cima da secretria de forma que cada um dos dedos retorcidos 
ficasse apoiado. Agora  que era. Talvez o tivesse sempre sabido. 
Claro. Mas no valia a pena pensar j naquilo. Ficaria para depois. 
Iam levar o Joe, mas haveria algum mais e, depois, a Ethel conti-
nuava a existir. Mais dia menos dia... Era escusado pensar j na-
quilo. O raciocnio deteve-se perante uma coisa que surgiu de re-
pente e logo desapareceu. Surgira-lhe precisamente na ocasio 
em que pensara no filho de cabelos loiros. A recordao fora des-
pertada por aquele rosto onde se lia o espanto, o pavor e o deses-
pero.
Ela no passava duma petiza com uma cara to bonita e to 
pura como a do filho... sim, era apenas uma garotinha. Mas j 
sabia que era mais bonita e mais inteligente do que as outras. 
Porm, s vezes, enchia-se de terror, julgando-se cercada por uma 
floresta de inimigos do tamanho de rvores. Nessas ocasies, no 
havia pensamento, palavra ou olhar que no fosse destinado a 
mago-la, e ela nem sequer tinha onde se esconder. Chorava, en-
to, de susto, ao ver-se metida naquele beco sem sada. Depois, 
certo dia, leu um livro - aos cinco anos j sabia ler. Lembrava-se 
perfeitamente da capa castanha, rasgada, do ttulo a letras pra-
teadas e das folhas sujas. Era Alice no Pais das Maravilhas.
Kate mexeu lentamente as mos e ergueu-se um pouco para 
aliviar os braos. Recordava-se das ilustraes, Alice tinha cabelos 
compridos. Mas o que modificara a sua vida fora a garrafa com o 
rtulo onde se lia: Bebe-me. Fora com Alice que aprendera aqui-
lo.
Quando ficava cercada pela floresta de inimigos, no a apa-
nhavam desprevenida. No bolso, tinha um frasco de gua aucarada,
e o rtulo com cercadura encarnada dizia: Bebe-me. Bastava 
beber um golo para se tornar muito pequena, to pequena quanto 
quisesse. Os inimigos bem a podiam procurar. Cathy estava debai-
xo duma folha ou escondida num formigueiro. E ria-se. No conse-
guiam encontr-la. No havia porta que a encerrasse, no havia 
porta que fosse capaz de lhe impedir a entrada, pois podia passar 
por debaixo de todas as portas.
E Alice nunca a abandonava, Alice companheira de todos os 
jogos, Alice que gostava dela e que tinha confiana nela. Alice era 
sua amiga e estava sempre disposta a receb-la no reino do mins-
culo.
Era to agradvel... to agradvel que quase valia a pena sen-
tir-se desgraada. E, depois, havia sempre outra coisa de reserva. 
Uma ameaa e uma certeza. Se bebesse todo o contedo do fras-
co, evaporar-se-ia, desapareceria e deixaria de existir. Mas havia 
ainda melhor: quando deixasse de ser, nunca teria sido. Que mara-
vilhosa certeza! s vezes, na cama, bebia a quantidade necessria 
de Bebe-me para ficar do tamanho duma pulga. Mas nunca de-
saparecera, porque nunca fora preciso. Tinha aquilo de reserva, sem 
que ningum soubesse.
Kate abanou tristemente a cabea, recordando-se da garo-
tinha. Porque teria ela esquecido o maravilhoso truque? J a salva-
ra de tantos desastres! A luz filtrada pelas folhas dum trevo era to 
bonita! Cathy e Alice passeavam abraadas pela cintura no meio 
da erva da altura duma torre... a erva era a melhor amiga do mundo. 
E Cathy nunca precisara de beber todo o bebe-me porque tinha 
Alice a seu lado.
Kate descansou a testa no mata-borro, entre as mos defor-
madas. Tinha frio, sentia-se s e desolada. Por mais que quises-
se, fora obrigada quilo. Ela era diferente. Tinha algo mais que os 
outros. Levantou a cara e nem sequer tentou limpar as lgrimas 
que lhe escorriam pelas faces. Era verdade. Era mais forte do que 
os outros. Tinha qualquer coisa que eles no tinham.
O rosto sombrio de Cal flutuou diante dela, exibindo um sorriso 
cruel. Sentia-se esmagada por um peso enorme que lhe fazia pres-
so nos pulmes.
Eles tinham qualquer coisa que ela no tinha. E no sabia o 
que era. Uma vez ciente disso, ficou pronta. Compreendeu que es-
tava pronta h muito tempo, que talvez o tivesse estado desde sem-
pre. O crebro funcionava como um crebro de pau, o corpo movia-
-se aos saces, como se fosse uma marioneta mal accionada, mas 
fez tudo o que tinha a fazer.
Era meio-dia, pois as raparigas palravam na sala de jantar. 
Aquelas mandrionas acabavam de se levantar da mesa.
Kate teve dificuldade em girar a maaneta da porta at que a 
conseguiu rodar entre as palmas das mos.
As raparigas pararam subitamente de rir e olharam-na. O cozi-
nheiro entrou vindo da cozinha.
Kate era um fantasma doente, disforme e assaz horrvel. En-
costou-se  parede da casa de jantar e sorriu-se. O que assustou 
ainda mais as raparigas, pois os lbios de Kate pareciam abertos 
para soltar um grito.
- Onde est o Joe? - perguntou ela. 
- Saiu, minha senhora.
- Oiam - disse ela. - H muito tempo que no durmo. Vou 
tomar um sonfero e no quero ser incomodada. No me levem o 
jantar. Quero dormir enquanto me der na gana. Digam ao Joe que 
no quero ver ningum, sob pretexto nenhum, at amanh de manh. 
Perceberam?
- Sim, minha senhora.
- Boa noite. Bem sei que  de dia, mas  caso para dizer boa 
noite.        '
- Boa noite, minha senhora - respondeu o coro obediente.
Kate voltou-se e dirigiu-se para o quarto caminhando como 
um caranguejo.
Fechou a porta, olhou  sua volta, e sentou-se  secretria.Desta vez, 
apesar da dor, obrigou a mo a escrever em letra bem
clara: Lego tudo o que tenho a meu filho Aron Trask. Datou e
assinou: Catherine Trask. Os dedos largaram a caneta. Levan-
tou-se e deixou o testamento bem em evidncia sobre a secretria.Encheu 
uma chvena de ch frio, levou-a para a salinha cin-
zenta e p-la em cima da mesa de leitura. Em seguida, sentou-sediante do 
toucador, penteou-se, espalhou um pouco de rouge pelo rosto, aplicou
uma ligeira camada de p e pintou os lbios com acor habitual: encarnado 
esmaecido. Depois, limpou e limou as unhas.
Quando fechou a porta da saleta cinzenta, a claridade exterior
desapareceu e apenas ficou o cone de luz projectado pelo candeei-
ro de leitura na mesa. Ajeitou as almofadas e sentou-se. Escorou a 
cabea numa posio confortvel. Sentia-se contente como se fos-
se para uma festa. Pegou no fio de ouro, desenroscou o tubinho e 
sacudiu-o. A cpsula caiu-lhe na mo. Kate sorriu-lhe.
- Come-me - disse ela.
E meteu a cpsula na boca.
Pegou na chvena de ch.
- Bebe-me - disse ela, engolindo o ch frio e amargo.
S queria pensar em Alice... to pequena, e que a esperava. 
Debruados sobre ela, havia outros rostos que a observavam: o 
pai, a me, Charles, Adam, Samuel Hamilton e, depois, Aron e, 
at Cal que lhe sorria. Ele no teve necessidade de falar, pois o 
brilho dos olhos afirmava: Tu ignoraste uma coisa: havia neles 
algo que no foste capaz de descobrir. 
S a Alice  que contava. Na parede cinzenta da frente, havia 
um buraco deixado por um prego. A Alice devia l estar escondida. 
Passaria o brao pela cintura de Cathy e Cathy passaria o brao 
pela cintura de Alice. Afastar-se-iam as duas, as melhores amigas 
do mundo, do tamanho de cabeas de alfinete.
Os braos e as pernas comeavam a ficar entorpecidos. A 
dor fugia das mos. As plpebras pesavam como chumbo. Boce-
jou.
Pensou ou disse ou pensou que disse: A Alice no sabe que 
vou voltar ao passado. 
Os olhos fecharam-se e foi sacudida por uma nusea. Tornou a 
abrir os olhos e olhou aterrorizada  sua volta. O quarto cinzento 
escureceu e o cone de luz transformou-se em gua corrente. Os 
olhos cerraram-se mais uma vez e as mos crisparam-se como 
se agarrassem pequeninos seios. O corao pulsou com soleni-
dade, a respirao afrouxou, Kate comeou a diminuir, a diminuir 
e desapareceu - como se nunca tivesse existido.


2

Depois de Kate o ter mandado embora, Joe foi ao barbeiro. Era 
o seu remdio contra as preocupaes. Cortou e lavou o cabelo,
deu-se ao luxo duma massagem ao couro cabeludo e  cara, apli-
cou uma mscara de lama, arranhou as unhas e engraxou os sapa-
tos. Geralmente, este pequeno tratamento e a aquisio duma nova 
gravata eram suficientes para retemperar as foras de Joe. Mas, 
desta vez, ao sair do barbeiro, depois de ter dado uma gorjeta de 
cinquenta cntimos, continuava a sentir-se deprimido.
Cara que nem um rato. Kate apanhara-o com a boca na botija. 
A rapidez com que ela reagira deixara-o desorientado. E aquela 
mania que ela tinha de os deixar adivinhar o que queria dizer, ainda 
piorava mais as coisas.
O sero principiou tristemente, mas dezasseis membros e 
dois candidatos do Sigma Alpha Epsilon, de Stanford, entraram de 
roldo vindos de San Juan. Vinham todos em plena forma.
Florence, que tinha de fumar durante o seu nmero de circo 
estava cheia de tosse. A cada tentativa que fazia, punha-se a tos-
sir e desistia. Alm disso, o pnei garanho estava com diarreia.
Os estudantes berravam e davam palmadas nas costas uns 
dos outros para manifestarem a sua alegria. Finalmente, acaba-
ram por roubar tudo o que no estava aparafusado ao cho.
Assim que saram, duas das mulheres encetaram uma dis-
cusso montona e Therese descobriu os primeiros sintomas dum 
cavalo duro. Oh! senhores! Que noite!
E pensar que ao fundo do corredor, atrs da porta fechada, 
estava aquele ser secreto e malfico. Joe foi escutar antes de se 
deitar, mas no ouviu nada. Encerrou a casa s duas e meia e 
deitou-se s trs horas. Mas no conseguiu dormir. Sentou-se na 
cama, leu sete captulos da Vitria de Barbara Worth e, mal ama-
nheceu, foi at  cozinha fazer caf.
Bebeu com os cotovelos apoiados na mesa e segurando a 
chvena com ambas as mos. No havia maneira de compreender 
porque  que aquilo acabara mal. Talvez ela tivesse sabido que a 
Ethel estava morta. Era necessrio agir com calma. Tomou, ento, 
uma deciso e resolveu mant-la com firmeza. Iria v-la s nove 
horas e trataria de abrir bem os ouvidos. Talvez no tivesse percebi-
do bem na vspera? O melhor seria pr os pontos nos ii e deixar-se 
de fantasias. Pedir, suponhamos, mil dlares e dar s de vila-diogo 
e, se ela dissesse que no, pr-se a cavar na mesma. J estava 
saturado de trabalhar com fmeas. Talvez pudesse encaixar-se numa
casa de jogo de Reno... trabalhinho a horas certas e nada de gajas. 
Quem sabe se no poderia arranjar um apartamento e mobil-lo 
com grandes poltronas e um canap? Era escusado estar a cansar 
a mioleira naquela cidade de merda. Talvez, at, tivesse toda a 
vantagem em sair daquele Estado. Pensou mesmo em partir logo, 
dois minutos para fazer a mala, passassem bem suas pcoras. 
Trs ou quatro minutos quando muito. Sem dizer gua-vai a nin-
gum. Quase se sentiu tentado a faz-lo. Talvez a marosca da Ethel 
no fosse to boa como ele julgara, mas mil dlares sempre eram 
alguma coisa. Mais valia esperar.
O cozinheiro apareceu muito mal disposto. Tinha um furncu-
lo do tamanho dum ovo de pomba, e as dores eram insuportveis, 
de modo que no queria ver ningum na cozinha.
Joe voltou ao quarto, leu um pouco mais e arranjou a mala.
Estava resolvido a ir-se embora, fosse qual fosse o resultado.
s nove horas, bateu  porta de Kate e abriu-a. A cama estava 
vazia. Poisou a bandeja, encaminhou-se para a saleta cinzenta, 
bateu vrias vezes e chamou. Finalmente, abriu a porta.
O cone da luz iluminava a mesa de leitura. A cabea de Kate 
estava profundamente mergulhada nas almofadas.
- Dormiu aqui toda a noite - disse Joe.
Aproximou-se, viu os lbios descorados e os olhos brancos, 
entre as plpebras semicerradas. Percebeu que ela estava morta.
Abanou a cabea e saiu apressadamente da saleta para se 
assegurar de que deixara fechada a porta que dava para o cor-
redor. Rapidamente, passou revista  cmoda, gaveta por gaveta, 
abriu as malas de mo, o cofrezinho ao p da cama - e imobili-
zou-se. Ela no tinha nada. Nem mesmo o raio duma escova com 
cabo de prata.
Voltou  sala cinzenta e examinou a morta. Nada. Nem um 
anel, nem um broche, nem coisa nenhuma. Depois, viu um fio de 
ouro pendurado ao pescoo e puxou-o: um relgio de ouro, um 
tubinho e duas chaves com os nmeros 27 e 29.
-  ento a que guarda a massa, sua puta?
Tirou o relgio do fio e meteu-o no bolso. Sentia vontade de lhe 
esmurrar as ventas. Mas lembrou-se da secretria.
O testamento em duas linhas atraiu-lhe logo a ateno. Talvez 
fosse negcio. Guardou-o na algibeira. Na gaveta superior da se-
cretria encontrou um punhado de papis, facturas e recibos; por 
debaixo, aplices de seguros; a seguir, uma agenda com o 
curriculum vitae de todas as raparigas. Enfiou-a no bolso. Extraiu o 
elstico que segurava um mao de sobrescritos castanhos, abriu 
um e tirou uma fotografia. Nas costas estavam escritos, com a 
caligrafia ntida de Kate, um nome, uma morada e um ttulo.
Joe riu com gosto. Ali estava a sua grande oportunidade. Abriu 
mais dois ou trs envelopes. Uma mina de oiro!  Uma verdadeira 
reforma para a velhice! Olhem-me s para o cu deste conselheiro 
municipal. Tornou a pr o elstico no mao. Em seguida, descobriu 
oito notas de dez dlares e um molho de chaves. Meteu tudo na 
algibeira. Na altura em que abria outra gaveta, cheia de papel de 
carta, de lacre e de tinta, ouviu bater  porta. Entreabriu-a:
- Est um tipo  tua procura - disse o cozinheiro.
- Quem ?
- Sei l.
Joe deitou um olhar ao quarto, saiu, fechou a porta  chave e 
guardou-a no bolso. Talvez se tivesse esquecido de alguma coisa.
Oscar Noble estava parado na sala da frente, com o habitual 
chapu cinzento e a capa de oleado abotoada at ao pescoo. 
Tinha olhos cinzentos-claros, da mesma cor do bigode. A sala es-
tava meio s escuras. Ainda ningum se lembrara de abrir as per-
sianas.
Joe entrou despreocupadamente e Oscar perguntou: 
- s tu, Joe?
- Quem  que est a?
- O xerife deseja falar-te.
Joe teve a impresso de que lhe aplicavam um saco de gelo 
na barriga.
- Vem prender-me? - perguntou ele. - Traz um mandato 
de captura?
- Nada disso - respondeu Oscar. -  por causa duma infor-
mao. Anda comigo.
- Ora essa - disse Joe. - Porque no? 
Quando chegaram  rua, Joe sentiu um arrepio. 
- Devia ter trazido o sobretudo.
- Queres ir busc-lo?
- No vale a pena - disse Joe.
Enquanto desciam a Castroville Street, Oscar perguntou: 
- Tens cadastro?
Joe conservou-se silencioso.
- Tenho - disse ele finalmente.
- Motivo?
- Estava bbado. Arreei num chui.
- Isso depois se v - disse Oscar, dobrando a esquina. 
Joe saltou como uma lebre e atravessou a rua em direco ao 
bairro chins.
Oscar teve de descalar a luva e desabotoar o impermevel 
para tirar o revlver. Disparou uma s vez e falhou o alvo.
Joe continuou a correr aos ziguezagues. J percorrera cerca 
de cinquenta metros e aproximava-se dum espao vazio entre duas 
casas.
Oscar acercou-se dum poste telefnico, firmou o cotovelo es-
querdo, apoiou o pulso direito na mo esquerda e desfechou segun-
do tiro em direco  esquina do beco, precisamente na altura em 
que l entrava Joe. O fugitivo deu uma cambalhota no ar e estatelou-
-se.
Oscar entrou no caf Filipino para telefonar. Quando saiu, j 
se aglomerava uma poro de gente em torno do cadver.



CAPTULO LI

1

Em 1903, Horace Quinn venceu o Sr. R. Keef nas eleies 
para o cargo de xerife. H bastante tempo j que desempenhava 
as funes de adjunto principal. A maior parte dos eleitores pen-
sou, e com razo, que se era ele quem fazia todo o trabalho, tam-
bm era justo que gozasse as vantagens inerentes ao posto de 
xerife, lugar onde se manteve at 1919. Para ns, que tnhamos 
crescido no Condado de Monterey, xerife e Quinn eram me-
ros sinnimos. Nem sequer podamos imaginar que, um dia, viria a 
ser substitudo. Mas a idade no perdoa. Alm disso, manquejava 
devido a um antigo ferimento. Sabamos que era um homem intrpi-
do, pois dera o corpo ao manifesto em numerosos recontros com 
bandidos. Para mais, tinha fsico de xerife: uma larga cara 
vermelhusca, bigode branco em forma de cornos e ombros pos-
santes.  medida que envelhecia, foi ficando barrigudo, o que o 
tornava ainda mais imponente. Usava um belssimo chapu 
Stetson, e um casaco Norfolk; nos ltimos anos do seu mandato, 
trazia a pistola num coldre guardado sob a axila. O antigo coldre 
pendurado  cintura pesava-lhe demasiado na barriga. Em 1903, j 
ele conhecia bem o Condado. Em 1917, no havia nada que ele 
ignorasse. Fazia parte integrante do vale do Salinas do mesmo 
modo que as montanhas que o rodeavam.
A partir da poca afastada em que Adam fora ferido, Quinn 
nunca mais largara Kate de vista. Quando Faye morrera, suspei-
tara de Kate mas chegara  concluso de que era quase impossvel 
faz-la condenar. Um xerife sensato no tenta o impossvel. Afinal 
de contas, no passavam de duas meretrizes.
Nos anos que se seguiram quele acontecimento, Kate fez 
jogo franco com ele e acabou por lhe despertar um certo respeito. 
J que tem de haver bordis, mais vale manter relaes vantajosas 
com as donas. Sempre que Kate descobria um homem procurado 
pela polcia, tratava de denunci-lo. O xerife Quinn e Kate entendi-
am-se na perfeio.
No sbado aps o Dia de Aco de Graas, por volta do meio-
-dia o xerife Quinn entretinha-se a examinar os papis encontrados 
nos bolsos de Joe Valery. A bala de 38 atravessara o corao e 
tinha despedaado duas costelas.
O buraco por onde sara era do tamanho dum punho. Os enve-
lopes castanhos estavam feitos num bolo pelo sangue derramado. 
O xerife molhou-os com um leno para os separar.
Leu o testamento que, pelo facto de estar dobrado, s ficara 
manchado de sangue pelo lado de fora.
Examinou as fotografias e suspirou profundamente. Em cada 
sobrescrito jaziam a honra dum homem e o sossego duma vida. 
Bem utilizadas, aquelas fotografias poderiam ter provocado meia 
dzia de suicdios. Mas Kate estava deitada na mesa de mrmore 
da casa Mller, com as veias cheias de formol, enquanto o estma-
go se encontrava num frasco, em casa do juiz de instruo.
Depois de ter observado todas as fotografias, Quinn marcou 
um nmero telefnico.
- Pode vir ao meu gabinete? Ah! sim? Ento, deixe o almoo 
para depois! Sim,  muito importante. Fico  sua espera.
Alguns minutos mais tarde, quando o homem sem nome en-
trou no gabinete da velha cadeia por detrs do tribunal, o xerife 
Quinn estendeu-lhe o testamento.
- O senhor, que  advogado, diga-me se este papel tem va-
lor.
O visitante leu as duas linhas e respirou profundamente pelo 
nariz.
-  quem eu penso?
- .
- Se ela se chamava Catherine Trask, se a letra  dela e se
Aron Trask for seu filho, o testamento  ouro de lei.
Quinn afagou a ponta do bigode com o reverso do indicador. 
- O senhor conhecia-a, no  verdade?
- Conhecia-a, no  bem assim. Apenas sabia quem era. 
Quinn fincou os cotovelos na mesa e inclinou-se para a frente. 
- Sente-se. Precisamos de falar.
O visitante aproximou uma cadeira. Sentou-se e comeou a 
brincar com um boto do casaco.
- Kate fazia chantagem consigo? - perguntou o xerife. 
- Porqu? Mas que pergunta!
-  uma pergunta de amigo. Bem sabe que ela j morreu e 
que no tem mais nada a temer.
- No percebo onde quer chegar. Ningum me faz chantagem. 
Quinn extraiu uma fotografia dum envelope, virou-a como se
fosse uma carta e p-la em cima da secretria.
O visitante ajeitou os culos e comeou a respirar com difi-
culdade.
- Valha-me Deus! - exclamou em voz aturdida. 
- O senhor no sabia que ela a tinha?
- Sabia, sim. Ela j me tinha avisado. Por amor de Deus, 
Horace, que vai fazer com isso?
Quinn tirou-lhe a fotografia.
- Que vai fazer, Horace?
- Queim-las. - (O xerife pegou nos envelopes e juntou-os 
num mao.) - Com esta arma infernal podia-se aniquilar todo o 
Condado.
Quinn escreveu uma lista de nomes numa folha de papel. 
Depois, levantou-se apoiando-se na perna boa, e encaminhou-se 
para a salamandra que servia para aquecer o gabinete. Amarro-
tou o Salinas Morning Journal, pegou-lhe fogo e introduziu-o na 
salamandra. Assim que todo o papel se incendiou, atirou-lhe para 
cima o mao de envelopes e fechou a porta do fogo. O fogo cre-
pitou e avistou-se uma chama amarelada pelo visor da salamandra. 
Quinn esfregou as mos, como se estivessem sujas.
- Os negativos tambm arderam - disse ele. - Fiz uma 
busca em casa dela e no h mais cpias nenhumas.
O visitante tentou falar mas apenas conseguiu emitir um mur-
mrio roufenho.
- Obrigado, Horace.
O xerife regressou  secretria e pegou na lista.
- Vai-me fazer um favor. Aqui tem uma lista. Vai prevenir to-
dos estes cavalheiros de que queimei as fotografias. Eu sei que os 
conhece a todos. Se a coisa vier de si, no lhes custar tanto 
engolir a plula. Ningum  santo. Chame- os a todos de parte 
diga-lhes o que aconteceu. Olhe.
Foi at ao fogo, abriu-o e remexeu as cinzas at se trans-
formarem em cisco.
- Diga-lhes... isto.
O visitante olhou para o xerife e Quinn compreendeu que no 
haveria poder no mundo que pudesse impedir esse homem de o 
odiar. Dali em diante, haveria sempre um obstculo entre ambos, 
embora no o quisessem admitir.
- Horace, no sei como agradecer-lhe.
E o xerife disse tristemente:
- No tem importncia. Era o que eu esperaria que me fizes-
se um amigo.
- Que indecncia! - disse o visitante em surdina.
E Horace Quinn percebeu que uma parte do insulto lhe era 
destinada. Percebeu tambm que j no seria xerife por muito 
tempo. Aqueles homens sentiam-se culpados e no descansariam 
enquanto o no derrubassem, o que era lgico. Suspirou e sentou-
-se.
- V acabar de almoar - disse ele. - Eu tenho muito que 
fazer.
 uma menos um quarto, o xerife Quinn virou a esquina da 
Main Street e da Central Avenue. Na padaria Reynaud, adquiriu um 
po branco ainda quente que exalava um maravilhoso odor de trigo 
levedado.
Agarrado ao corrimo, subiu os degraus da entrada da casa 
dos Trask.
Lee abriu a porta com uma rodilha atada  cintura. 
- Ele ainda no chegou - disse.
- Deve estar a chegar. Telefonei-lhe para o escritrio e pediu-
-me que esperasse.
Lee recuou e conduziu o xerife para a sala.
- Deseja uma chvena de caf? - perguntou. 
- Nunca recuso.
- Fi-lo agora mesmo - disse Lee dirigindo-se para a cozinha. 
Quinn examinou o confortvel aposento. J no se importava
de perder o cargo. Um mdico dissera-lhe certo dia: Gosto de 
trazer uma criana ao mundo porque, se cumprir bem a minha obri-
gao, concorro para criar uma atmosfera de jbilo.  O xerife pen-
sara com frequncia nessa observao. Se cumprisse bem a sua 
obrigao, concorreria para levar a dor a algum. E o facto de ser 
indispensvel j no lhe parecia motivo suficiente. Em breve se re-
formaria, quer quisesse quer no.
Todos os homens imaginam a reforma como uma espcie de 
evaso, de possibilidade de fazerem o que nunca puderam fazer-
uma viagem ou a leitura dos livros que no tiveram tempo de ler. 
Durante muitos anos, o xerife acalentara a ideia de passar o tempo 
livre pescando, caando, passeando na serra de Santa Lucia e 
acampando  beira dos rios entrevistos. Mas agora, que esse tem-
po j se avizinhava, perdera de todo a vontade de o gozar. Dormir no 
cho seria doloroso para a perna aleijada. Lembrava-se de quanto 
custava a carregar com um veado e, depois, com toda a franqueza, 
nunca apreciara caa. Tanto fazia que Madame Reynaud a puses-
se a abeberar em vinho e a enchesse de temperos; o resultado era 
sempre o mesmo - no se notava a diferena entre um bocado de 
carne e um sapato velho cozinhado daquela maneira.
Lee comprara uma mquina de fazer caf. Quinn ouviu a gua 
a ferver no globo de vidro e desconfiou de que o chins lhe menti-
ra. O caf no estava feito.
Os anos de rduo labor tinham aguado o esprito do velho 
xerife. Aprendera a observar e era capaz de evocar um rosto e de 
perscrut-lo, assim como de recordar cenas completas e conver-
sas trocadas. Era at capaz de toc-las como um disco ou de 
pass-las como um filme. Ao pensar na caa, pusera-se a exami-
nar a sala e chegara  concluso de que havia ali qualquer coisa 
que no estava certa: poltronas forradas de tecido de ramagens, 
cortinas de renda, pano de mesa de croch e as almofadas do 
canap forradas com um tecido de padro vistoso e impudente. Era 
uma sala feminina numa casa onde s havia homens.
Pensou na sua prpria sala. Tudo o que l estava, excepto o 
porta-cachimbos, fora escolhido e comprado pela Sr.a Quinn. De 
resto, pensando melhor, tambm fora ela quem comprara o porta-
cachimbos. Era uma sala feminina. Mas a sala dos Trask era de-
masiado feminina. Uma sala de mulher concebida por um homem.
Passava as marcas. Devia ser obra do Lee. O Adam, se calhar, 
nem dava por isso.
Horace Quinn recordou-se do interrogatrio que fizera a Adam 
muitos anos antes, a um Adam na agonia e de olhar aterrorizado. 
Adam tinha a honestidade no sangue. Pela vida fora, muitas haviam 
sido as oportunidades de se encontrarem. Ambos pertenciam  
Maonaria, fazendo parte da mesma loja e ocupando os mesmos 
graus. Horace substitura Adam no posto de Mestre da Loja e am-
bos usavam as insgnias na lapela. No entanto, Adam afastara-se 
da comunidade, erguendo um muro intransponvel atrs do qual se 
mantinha prisioneiro. Mas naquele dia, no dia do interrogatrio, a 
parede ainda no estava de p.
Por intermdio da mulher, Adam travara conhecimento com o 
mundo dos vivos. Horace imaginou Kate ligada aos tubos de formol, 
cinzenta e lavada, com agulhas espetadas na garganta.
Adam no desejava nada e, portanto, era incapaz de actos 
desonestos. S se  desonesto quando h necessidades a satisfa-
zer. O xerife perguntou a si mesmo o que se passaria atrs da pare-
de: que angstias, que prazeres, que mgoas no iriam por l?
Mudou de posio na cadeira para aliviar a perna aleijada. A 
casa estava em silncio. Apenas se ouvia o rudo da mquina de 
caf. Adam levou muito tempo a chegar do escritrio. O xerife 
pensou divertido:
Estou a ficar velho e  coisa que no me desagrada.  
Adam entrou a sorrir e estendeu-lhe a mo: 
- Bom dia, Horace... Trouxe a ordem de priso?
Se no estava realmente alegre, a imitao era perfeita.
- Como vai isso? - perguntou Quinn. - H bocado, falaram-
-me numa chvena de caf...
Lee, na cozinha, ps-se a fazer barulho com a loia. 
Adam perguntou:
- Nada de grave? Horace?
- No meu cargo as coisas so sempre graves. Se no se 
importa, prefiro esperar pelo caf.
- No se incomode por causa do Lee. Ele ouve sempre tudo. 
Mesmo atravs das portas fechadas. No tenho segredos para ele, 
at porque seria impossvel.
Lee entrou com a bandeja. Arvorava um sorrisinho satisfeito
e, depois de ter servido o caf e de se ter ido embora, Adam tornou 
a perguntar:        iw
- Nada de grave, Horace?
- Acho que no. Adam, voc ainda estava casado com aque-
la mulher?
Adam ficou hirto.
- Estava, sim - disse ele. - Porqu? 
- Suicidou-se na noite passada.
O rosto de Adam contraiu-se e as lgrimas assomaram-lhe 
aos olhos. Por instantes, tentou ainda manter a boca fechada mas 
acabou por renunciar e deixou cair a cabea entre as mos, pon-
do-se a chorar.
- Minha pobre querida.
Quinn tornou a sentar-se. Passados momentos, Adam ergueu 
a cabea.
- Desculpe, Horace.
Lee entrou e entregou uma toalha a Adam, que enxugou os 
olhos e tornou a devolver a toalha.
- No esperava por isto - disse Adam. (Parecia estar en-
vergonhado. ) - Que devo fazer? Vou reclamar o corpo e enterr-
-lo.
-  escusado - disse Horace. - A no ser que tenha von-
tade de o fazer. Mas no foi para isso que eu c vim.
Tirou do bolso o testamento dobrado e estendeu-o a Adam, 
que esboou um gesto de repulsa.
-  o... sangue dela?
- No. Nem pensar nisso. Leia.
Adam leu as duas linhas e ficou a contemplar o papel como se 
olhasse para muito longe.
- Ele no sabe... que ela  me dele. 
- Voc nunca lhe disse?
- No.
- Valha-me Deus! - exclamou o xerife.
Adam prosseguiu com uma espcie de convico:
- Tenho a certeza de que ele no aceitaria nada que viesse
dela. O melhor  rasgarmos este papel e esquec-lo.
- Receio que seja impossvel - disse Quinn. - J cometi
algumas ilegalidades. Ela tinha um cofre-forte. Escuso de lhe dizer
onde obtive o testamento e a chave. Estive no banco sem sequer 
esperar pelo mandato do tribunal.
No queria dizer a Adam que desconfiara de que houvesse 
mais fotografias no banco.
- O velho Bob deixou-me abrir o cofre. Estamos sempre a 
tempo de negar que o fizemos. Havia mais de cem mil dlares em 
dinheiro. Tambm havia aces, mas absolutamente mais nada.
- Mais nada?
- Isto ... um contrato de casamento.
Adam deixou-se cair na cadeira. Aps ter dado alguns passos 
no mundo exterior, voltava para trs da sua parede. Viu o caf e 
bebeu um golo.
- Que conselho me d? - perguntou numa voz indiferente.
- S lhe posso dar a minha opinio pessoal - respondeu 
Quinn. - No  obrigado a acat-la. Mande chamar imediatamente 
o seu filho. Conte-lhe tudo em pormenor. Diga-lhe porque foi que 
nunca lhe contou nada at agora. Que idade tem ele?
- Dezassete anos.
- J  um homem. Mais dia, menos dia, ter de saber a verda-
de. Mais vale que venha a saber tudo de uma s vez.
- O Cal est ao corrente - disse Adam. - Gostava de sa-
ber porque seria que ela contemplou apenas o Aron.
- Isso s Deus sabe! Ento, que resolve?
- Como no tenho ideia nenhuma, vou seguir a sua. No se
importa de ficar comigo?
- Certamente.
- Lee! - chamou Adam. - Diga ao Aron que preciso de 
falar com ele. Ele veio dormir a casa, no veio?
Lee deteve-se  porta. As pesadas plpebras fecharam-se um 
instante e tornaram a abrir-se.
- Ainda no chegou. Talvez tenha voltado para a Univer-
sidade?
- Nesse caso, avisava-me. Sabe, Horace, todos ns bebe-
mos anteontem muito champanhe. Onde est o Cal? 
- No quarto - disse Lee.
- Diga-lhe que venha c. Ele h-de saber onde pra o irmo. 
Cal tinha a cara cansada e os ombros descados, mas a sua 
expresso era dura, fechada, desconfiada e agressiva.
Adam perguntou-lhe:
- Sabes onde est o teu irmo?
- No, no sei - disse Cal.
- No lhe puseste a vista em cima?
- No.
- H duas noites que no vem a casa. Onde se meteu ele? 
- No fao a menor ideia. Ningum me paga para tomar conta 
dele.
Adam baixou a cabea, encolheu-se na cadeira e pareceu es-
tremecer com um arrepio. No fundo dos seus olhos cintilou uma luz 
azul, extraordinariamente brilhante. Numa voz surda, disse:
-Talvez tenha voltado para a Universidade. - (As palavras 
pareciam articuladas por lbios gretados e a voz tinha o timbre dum 
sonmbulo.) - Achas que voltou para a Universidade?
O xerife Quinn levantou-se.
- No temos pressa nenhuma. Veja se descansa, Adam. Foi 
um grande choque.
Adam ergueu os olhos para ele:
- Um choque... Ah! pois. Obrigado, George, muito obrigado! 
- George?
- Muito obrigado - disse Adam.
Aps a sada do xerife, Cal regressou ao quarto. Adam enter-
rou-se na cadeira e adormeceu logo a seguir. Pouco depois, 
ressonava de boca aberta.
Lee observou-o um instante antes de voltar para a cozinha. 
Levantou a cesta do po e pegou num pequeno volume encader-
nado a pele, cujo ttulo em letras prateadas estava quase comple-
tamente apagado. Era uma traduo inglesa das Meditaes de 
Marco Aurlio. Lee limpou os culos de aros de ao. Abriu o livro e 
folheou-o. Depois, sorriu, procurando tranquilizar-se cons-
cienciosamente.
Mexendo os lbios, foi lendo devagar: Tudo dura apenas um 
dia, tanto o que lembra como o que  lembrado.
Observa constantemente que todas as coisas ocorrem me-
diante mudana, e acostuma-te a considerar que nada h que a 
natureza do universo ame mais do que transformar o que  naquilo 
que se lhe assemelha. Pois tudo quanto existe , de certo modo, a 
semente daquilo que vir a ser.
Lee lanou um olhar ao fundo da pgina: Em breve morrers e, 
contudo, ainda no s simples nem te livraste de perturbaes; 
nem sequer da suspeita de seres ferido por causas externas; to-
pouco te sentes bondosamente disposto a encarar todas as coi-
sas, pois nem usas de sabedoria agindo com equidade.
Lee ergueu os olhos e respondeu ao livro como teria respon-
dido a um dos seus venerveis parentes.  certo, disse ele, mas 
que dureza. Desculpe. Mas no se esquea de que tambm disse: 
Toma sempre o caminho mais curto, pois  o caminho natural. 
No o esquea.  Deixou escorregar as pginas ao longo do polegar 
e parou na pgina de guarda onde se lia, escrito a lpis: Samuel 
Hamilton.
Lee sentiu-se melhor.. Perguntou a si mesmo se Samuel teria 
procurado o livro, se saberia que ele lho tinha roubado. Lee achara 
que era o meio mais puro de se apropriar dele. Com a ponta dos 
dedos, acariciou o coiro suave antes de tornar a meter o livro debai-
xo da cesta do po. Depois, reflectiu: Com certeza que sabia.
Quem mais  que lhe poderia ter roubado o Marco Aurlio? Voltou
para a sala e puxou uma cadeira para perto de Adam que continu-
ava a dormir.


2

Fechado no quarto, Cal estava sentado  secretria com a 
cabea mergulhada nas mos. A nusea dava-lhe tonturas e o 
cheiro agridoce do usque impregnava-lhe os poros e a roupa, cor-
ria-lhe pelas veias misturado com o sangue.
Cal nunca sentira necessidade de beber. A visita a casa de 
Kate no lhe aliviara o sofrimento e a vingana no correspondera 
a um triunfo. As suas recordaes no passavam de nuvens em 
turbilho, de fragmentos de som, de viso e de sensao. No con-
seguia definir o que era verdade e o que tinha imaginado. Ao sarem 
da casa de Kate, poisara a mo no ombro do irmo sacudido pelos 
soluos, e Aron atirara-o ao cho com um murro. Aron ficara de p
no escuro e, depois, largara a correr, chorando como uma criana 
infeliz. Cal lembrava-se dos soWos rouquenhos e dos passos 
desordenados. Cal deixara-se ficar estendido no stio onde caira, 
ao lado do grande alfeneiro, no jardim de Kate. Ouvira as locomoti-
vas a arfar e a apitar, e o som abafado dos vages nas calhas. 
Fechara os olhos mas, ao ouvir passos ligeiros, tornara a abri-los. 
Algum se debruara para ele, talvez Kate, mas a silhueta afasta-
ra-se sem rumor.
Cal levantara-se a seguir, limpara a roupa e afastara-se em 
direco  Main Street, surpreendido por ainda ter nimo para can-
tar: H uma rosa que cresce na Terra de Ningum, nunca se viu tal 
maravilha...
Na sexta-feira, Cal andou todo o dia ao deus-dar.  noite, 
Joe Laguna comprou-lhe a garrafa de usque. Cal ainda era muito 
novo. Joe no se teria importado de fazer companhia a Cal, mas 
deu-se por satisfeito com o dlar que o rapaz lhe deu para comprar 
a garrafa de zurrapa.
Cal encaminhou-se para o beco atrs da casa dos Abbot e 
sentou-se no recanto sombrio de onde avistara a me pela primeira 
vez. Vencendo a nusea e a repugnncia, bebeu quase toda a gar-
rafa de usque. Vomitou duas vezes, mas continuou a beber at que 
a terra se ps a danar e os candeeiros encetaram uma valsa ma-
jestosa.
A garrafa escorregou-lhe das mos e Cal mergulhou na in-
conscincia, continuando a vomitar. Um co vadio de plo raso e 
ar muito srio, percorreu o beco de rabo no ar, parando em cada 
pedra. Quando deu pela presena de Cal, evitou-o com um gran-
de desvio. Da a pouco, Joe Laguna encontrou Cal e ps-se a 
farej-lo tambm. Depois, pegou na garrafa cada ao lado da per-
na de Cal e olhou-a contra a luz. Ainda tinha um resto no fundo. 
Procurou a rolha e no a encontrou. Ento, afastou-se com o pole-
gar metido no gargalo para que o precioso lquido no se der-
ramasse.
De madrugada, Cal foi acordado pela geada. Abriu os olhos 
para um mundo de pesadelo e arrastou-se at casa como um bone-
co desarticulado. A casa ficava prxima. Bastava sair do beco e 
atravessar a rua.
Lee ouviu-o entrar, tropear em todos os mveis e atirar-se
para cima da cama. A cabea de Cal parecia prestes a explodir, 
mas a lucidez era perfeita. Perdera a resistncia  dor e sentia-se 
incapaz de se proteger contra a vergonha. Defendeu-se conforme 
pde: tomou um banho gelado e esfregou o corpo com um pedao 
de pedra-pomes, cuja queimadura lhe pareceu benfica.
Sabia que tinha de confessar a falta a seu pai e pedir-lhe per-
do. Sabia que tinha de se humilhar perante Aron, no s hoje, 
mas at ao fim dos seus dias. No entanto, quando o chamaram e 
se viu perante o xerife Quinn e o pai, voltou-lhe a fria dum co 
faminto e projectou sobre tudo o que o rodeava o dio que sentia 
por si mesmo - sim, era apenas um co vicioso desprezado por 
todos e a todos desprezando...
Mal regressou ao quarto, sentiu-se novamente assaltado pela 
culpa sem que dispusesse de armas para a combater.
Subitamente, teve receio pelo que pudesse suceder a Aron. 
Talvez estivesse ferido? Aron no podia defender-se. Devia ir procur-
-lo, encontr-lo e reconstruir o mundo que destruira. Mesmo que 
tivesse de dar a sua vida em troca. Ento, implantou-se nele uma 
ideia do sacrifcio, como em toda a conscincia culpada. Talvez um 
sacrifcio pudesse trazer Aron de volta...
Cal pegou no embrulho achatado escondido debaixo das cami-
sas. Procurou e encontrou um pires que colocou em cima da se-
cretria. Aspirou avidamente o ar fresco da manh. Agarrou numa 
das notas, dobrou-a ao meio, riscou um fsforo e deitou-lhe fogo. 
O papel retorceu-se e escureceu. A chama subiu e s quando 
estava quase a tocar-lhe nos dedos  que Cal largou a nota no 
pires. Pegou noutra nota e inflamou-a. Quando ia na sexta, Lee 
entrou sem bater.
- Cheirou-me a fumo - disse ele. (Mas, ao ver o que Cal 
fazia, exclamou): - Oh!
Cal voltou-se, disposto a lutar. Mas Lee cruzou as mos na 
barriga e, deixou-se ficar, calado e atento. Cal queimou nota aps 
nota, at que ardessem todas; em seguida, esmagou as cinzas 
para as transformar num p negro, e ficou aguardando os coment-
rios de Lee. Mas Lee no falou nem buliu.
Finalmente, Cal disse:
- Avia-te. Queres falar comigo? Ento, fala!
- No - disse Lee. - Ests enganado. Se no tens vontade
de falar comigo, fico s mais um instante e depois vou-me embora. 
Vou-me sentar ali.
Sentou-se numa cadeira, enlaou as mos e esperou. Ilumi-
nava-o uma espcie de sorriso interior e tinha a expresso a que se 
chama impenetrvel.
Cal virou-lhe as costas.
- Sou capaz de ficar sentado mais tempo do que tu.
- Noutra competio qualquer talvez tu me vencesses. Mas 
em teimosia, no me parece.
Passados alguns instantes, Cal lanou com azedume: 
- Podes comear o sermo.
- No  essa a minha inteno.
- Ento, o que  que vieste cheirar aqui? Sabes muito bem o 
que fiz e tambm sabes que me embebedei ontem  noite.
- Do primeiro crime j eu suspeitava; quanto ao segundo, 
cheirou-me.
- Cheirou-te?
- Tu fedes que tresandas.
- Foi a primeira vez - disse Cal - e no gostei.
- Eu tambm no gosto - disse Lee. - O meu estmago 
no suporta o lcool. E, depois, torna-me brincalho. Intelectual, 
mas brincalho.
- Que queres dizer?
- Posso dar-te um exemplo. Quando era novo, jogava ao 
tnis, no s porque gostava, mas tambm porque  uma exce-
lente distraco para um criado. Pode aproveitar-se das asneiras 
do patro e ganhar alguns dlares em vez de simples agradecimen-
tos. Uma vez, num dia em que tinha abusado da ginjinha, deu-me 
para desenvolver a teoria de que o animal mais rpido e mais 
esquivo do mundo era o morcego. Fui apanhado a meio da noite no 
campanrio da igreja metodista de San Leandro. Tinha uma raqueta 
na mo e teimava em explicar ao agente da policia que me prendeu 
que estava a aperfeioar o meu estilo com os morcegos.
Cal riu com tanto gosto que Lee lamentou que a sua histria 
no fosse verdadeira.
Cal disse:
- Pois eu sentei-me atrs dum poste e bebi que nem um 
porco.
- Sempre os animais...
- Tinha medo de meter uma bala na cabea se no me embe-
bedasse - interrompeu Cal.
- Tu nunca farias uma coisa dessas. Falta-te envergadura 
disse Lee. - A propsito, onde est o Aron? 
- Fugiu a correr no sei para onde.
- Esse tem alguma envergadura!
- Eu sei. Achas que se ter suicidado? 
Lee disse com desdm:
-  espantoso! Sempre que algum deseja tranquilizar-se, 
pede a um amigo que partilhe a sua opinio.  a mesma coisa que 
perguntar a uma peixeira se o peixe  fresco. Como queres que te 
responda?
Cal perguntou:
- Porque fiz eu isto?
- No compliques as coisas - respondeu Lee. - Tu bem 
sabes porqu. Ficaste a detest-lo por o teu pai te ter magoado. 
No custa nada a perceber. E agiste com baixeza.
- Mas porqu? Eu no quero fazer mal a ningum. Ajuda-me, 
Lee.
- Espera, pareceu-me ouvir o teu pai. 
Lee precipitou-se para a porta.
Cal ouviu vozes em baixo e, depois, Lee tornou a entrar.
- Ele vai ao correio. Ns nunca recebemos correio de tarde. 
Alis, ningum recebe. Pois, apesar disso, todos os homens de 
Salinas vo ao correio de tarde.
- Talvez bebam um copito pelo caminho.
- Deve ser antes um hbito. E uma espcie de repouso. Vo 
passear e ver os amigos.- (Em seguida, Lee acrescentou): 
- Cal, ando preocupado com o teu pai. Tem um ar aparvalhado. 
Ah! j me esquecia: sabes, a tua me matou-se ontem  noite.
- Ah! pois - disse Cal. (Riu com escrnio.) - Espero que 
tenha sofrido. No! No era isso o que eu queria dizer. Nem o que 
queria pensar. No! de forma nenhuma.
Lee coou um ponto da cabea e acabou por co-la inteira-
mente, o que lhe dava o ar de estar imerso em profunda meditao. 
Finalmente, perguntou:
- Sentiste um grande prazer em queimar todas as notas?
- Acho... que sim.
- E tambm sentes prazerem te castigares como o fazes? 
Gozas com o teu desespero?
- Lee!
- Muito presunoso s tu! Sentes-te maravilhado com o tr-
gico espectculo oferecido por Caleb Trask. Caleb o magnfico! Ca-
leb o nico! Caleb, cujo sofrimento est a pedir um novo Homero. J 
ters pensado que no passas dum ranhoso, s vezes mesquinho, 
outras incrivelmente generoso, com um comportamento indecente 
e uma alma inocente? Talvez possuas mais energia - mas s 
energia - do que muitos outros, mas, fora isso, s igual a todos os 
outros ranhosos. Ser caso que te tomes a srio? Estars conven-
cido de que s uma personagem sublime l porque a tua me era 
rameira? E se acontecesse alguma coisa ao teu irmo, estarias 
disposto a arcar com as responsabilidades de assassino? Ranho-
so!
Cal foi vagarosamente sentar-se  secretria. Lee observa-
va-o, contendo a respirao, como um mdico que aguarda o efeito 
da injeco. Cal, transparente, exprimia tudo o que sentia. A raiva 
ante o insulto, a vontade de brigar, o vexame e, por fim... um princ-
pio de acalmia.
Lee suspirou. Trabalhara com afinco, com ternura, e parecia 
ter sido bem sucedido. Em voz baixa, disse:
- Ns somos um povo violento, Cal. Achas estranho que me 
inclua no vosso nmero? Sim, devemos descender de gente in-
quieta, de loucos, de criminosos, de heris e de fanfarres, mas 
tambm corre nas nossas veias o sangue dos bravos, dos indepen-
dentes e dos generosos. O sangue de todos aqueles que mo 
quiseram morrer de fome nas terras esgotadas do velho mundo.
Cal voltou para Lee um rosto descontrado. Sorriu e Lee com-
preendeu que no conseguira enganar inteiramente o rapaz. Cal 
sabia que Lee lhe administrara um remdio, um excelente rem-
dio, e estava-lhe grato.
Lee prosseguiu:
-  por isso que eu me incluo no vosso nmero. Todos ns 
herdmos o mesmo, embora os nossos pais viessem de terras 
diferentes. Os Americanos, por mais mestiados que sejam, apre-
sentam quase todos os mesmos traos de carcter.  uma raa
seleccionada acidentalmente. Ns somos inutilmente bravos e pol-
tres. Somos meigos e cruis como as crianas. Temos a mania 
de atirar a nossa amizade  cara das pessoas e, ao mesmo tempo, 
desconfiamos dos estranhos. Gostamos de nos gabar e deixamo-
-nos impressionar com qualquer coisa. Somos sentimentais e rea-
listas, mundanos e materialistas. Apesar disso, conheces mais 
alguma nao que se deixe arrastar tanto por ideais como a nos-
sa? Comemos exageradamente e no temos o gosto nem o senti-
do das propores. Desperdiamos a nossa energia. Nos velhos 
continentes, dizem de ns que passamos directamente da barbrie 
 decadncia, sem o apogeu intermdio da cultura. Ser possvel 
que os nossos crticos no consigam descobrir a chave nem a lin-
guagem da nossa cultura? Aqui tens o que todos ns somos, Cal. 
E tu no diverges muito disto.
- Continua - disse Cal, sorridente.- Vai falando.
- No  preciso - disse Lee. - J acabei. Quem me dera
que o teu pai voltasse para casa. Ando preocupado com ele. 
E Lee sorriu com nervosismo.
Lee foi dar com Adam encostado  parede, ao lado da entrada. 
Tinha os ombros descados e o chapu em cima dos olhos. 
- Que tem, Adam?
- No sei. Sinto-me cansado, muito cansado.
Lee pegou-lhe pelo brao e conduziu-o para a sala. Adam 
deixou-se cair na poltrona e Lee tirou-lhe o chapu. Adam esfre-
gou as costas da mo esquerda com a mo direita. Tinha um olhar 
luminoso, muito estranho, mas fixo. Os lbios estavam secos, in-
chados, e a voz parecia vir de muito longe. Esfregava a mo com 
violncia.
-  estranho - disse ele. - Desmaiei no correio. Nunca me 
tinha acontecido uma coisa assim. O Sr. Pioda ajudou-me a levan-
tar. Pouco mais durou do que um segundo. Nunca tinha desmaiado.
Lee perguntou:
- Havia correspondncia?
- Sim... sim, acho que havia. - (Levou a mo esquerda ao 
bolso e tornou a tir-la.) - Parece que tenho a mo entorpecida - 
disse ele como que a pedir que o desculpassem.
E vasculhou o bolso com a mo direita, extraindo um postal 
com franquia militar.
- Estava convencido de que j o tinha lido - disse ele. Devo 
t-lo lido. - (Levou o postal aos olhos e, depois, deixou-o cair em 
cima dos joelhos.) - Lee, preciso de arranjar culos. Nunca me 
tinham feito falta, mas j no consigo ler. As letras pem-se a dan-
ar diante dos olhos.
- Quer que eu leia?
-  engraado... vou ter de arranjar culos. Que diz o postal?
Lee leu: Querido pap, estou no exrcito. Disse que tinha de-
zoito anos. Tudo ir bem. No te apoquentes. Aron.
-  estranho - disse Adam - tenho a impresso de j o ter 
lido, mas devo estar enganado.
E continuou a esfregar a mo.



CAPTULO LII

1

Medonho e sombrio foi aquele Inverno de 1917-1918! Os Ale-
mes tudo destruam  sua passagem. Os Ingleses tiveram trezen-
tas mil baixas em trs meses. Vrias unidades francesas amotina-
ram-se. A Rssia sara da guerra. As divises alems da frente 
leste, repousadas e reequipadas, eram lanadas na frente ociden-
tal. A guerra parecia perdida.
S em Maio  que conseguimos dispor de doze divises pron-
tas para o combate, o Vero j principiara quando as nossas tropas 
comearam a atravessar o Oceano em nmero aprecivel. Os ge-
nerais aliados lutavam entre si. Os submarinos afundavam os nos-
sos navios de transporte.
Todos aprendemos que a guerra no  uma carga herica e 
rpida, mas sim uma operao lenta e incrivelmente complicada. 
Os nossos nimos andaram muito abatidos naquele Inverno. Per-
dramos o entusiasmo e no tnhamos ainda aprendido a obsti-
nao.
Ludendorff parecia invencvel. Nada o detinha. Lanava ata-
ques sucessivos contra os exrcitos esgotados da Frana e da 
Inglaterra. Tnhamos medo de chegar tarde de mais e de nos ver-
mos ss perante os temveis Alemes.
As pessoas procuravam esquecer a guerra, buscando a eva-
so no sonho, no vcio ou numa alegria artificial. Os videntes e 
cartomantes estavam na moda e os cabars faziam uma fortuna. 
Alguns, para fugirem ao medo circundante e ao desencorajamento, 
fechavam-se dentro de si mesmos com as suas alegrias e as suas
tragdias ntimas. No  de estranhar que hoje nos tenhamos es-
quecido de tudo isso - Lembramos a primeira guerra mundial como 
se fosse uma rpida vitria, com bandeiras e fanfarras, paradas, 
multides ululantes, combatentes aclamados e desordens nos ba-
res com as bestas dos Ingleses que estavam convencidos de ter 
ganho a guerra. Como esquecemos depressa esse Inverno em que 
Ludendorff reinava e em que muita gente se preparava para aceitar 
uma derrota!


2

Adam Trask sentia-se desamparado. No precisou de se demitir 
porque lhe concederam uma licena por motivo de doena. Passa-
va horas a esfregar as costas da mo com uma escova rija molhada 
em gua quente.
-  a circulao - dizia ele. - Assim que o sangue come-
ar a circular, ficarei bom. O que me apoquenta so os olhos. Nun-
ca tinha tido nada na vista e, agora, preciso de ir ao mdico. Usar 
culos, eu! Vai custar-me a habituar. Vou hoje ao oculista, mas 
sinto-me ainda um pouco tonto.
Na verdade, sentia-se mais tonto do que pretendia admitir. 
No podia caminhar dentro de casa sem se apoiar s paredes. Lee 
ajudava-o a levantar-se da poltrona ou da cama e a atar os atacado-
res dos sapatos, pois ele no podia servir-se da mo esquerda 
entorpecida.
Referia-se a Aron quase todos os dias.
- Compreendo perfeitamente que um rapaz se queira alistar 
- dizia ele. - Se o Aron tivesse pedido a minha opinio, pro-
curaria dissuadi-lo, mas seria incapaz de o proibir. Voc sabe que 
 esta a minha maneira de pensar, Lee.
- Sei, sim.
- O que eu no percebo  porque se foi embora sem dizer 
palavra. Porque no escreve? Julgava conhec-lo melhor. Ter es-
crito  Abra? Com certeza que lhe escreveu.
- Hei-de lhe perguntar.
- Pergunte. V j perguntar.
- Os treinos so muito fatigantes. Pelo menos,  o que di-
zem. Talvez seja por isso que no tem tempo para escrever. 
- Um postal escreve-se num instante.
- Quando estava na tropa, tambm escrevia ao seu pai?
- Julga que me atrapalha com essa pergunta? No escrevia, 
no; mas eu tinha uma razo. No queria alistar-me. Foi o meu pai 
quem me obrigou. Fiquei ofendido com ele. Como v, tinha uma 
boa razo. Mas o Aron... estava a ir to bem na Universidade. Eles 
at escreveram a pedir noticias. Leu a carta? Ele no levou roupa 
nenhuma, nem sequer o relgio de oiro.
- Onde est no precisa de roupa nem de relgios de oiro. L 
s o deixam usar coisas castanhas.
- Tem razo. Mas no compreendo. Tenho de fazer alguma 
coisa pelos meus olhos; voc no pode passar o tempo todo a ler 
em meu lugar. - (Os olhos preocupavam-no deveras). - Vejo as 
letras, mas no consigo formar as palavras.
Era frequente pegar num jornal ou num livro, segur-lo, diante 
dos olhos e p-lo de parte.
Para o impedir de pensar noutra coisa, Lee lia-lhe todos os 
jornais e, muitas vezes, Adam adormecia. Ao acordar, perguntava:
- Lee? s tu, Cal? Nunca tive dores nos olhos. Amanh, vou 
mandar examin-los.
Em meados de Fevereiro, Cal entrou na cozinha e disse:
- Lee, ele est sempre a falar no mesmo. O melhor  lev-lo 
ao oculista.
Lee estava a fazer compota de alperche. Afastou-se do fogo 
para fechar a porta da cozinha, e aproximou-se de Cal. 
- Convm evitar que ele l v.
- Porqu?
- Aquilo deve ter outra origem e, se ele a descobrir, poder 
ficar ainda mais abalado. Precisa de descansar mais uns tempos. 
Apanhou um choque muito grande. Primeiro, tem de se recompor. 
Prefiro passar os dias a ler-lhe os jornais.
- Que te parece que seja?
- No sei bem. Talvez o Dr. Edwards pudesse passar um dia... 
por acaso.
- Faz como quiseres - disse Cal.
- Tornaste a ver a Abra?
- Tornei, sim. Mas ela evita-me.
- V se descobres um meio de te aproximares.
- Pois claro. Atiro-a ao cho, dou-lhe um murro e obrigo-a a 
responder. Mas no estou para isso.
- H outros processos. s vezes, a barreira  to frgil que 
basta tocar-lhe para que caia. Tens de falar com ela. Diz-lhe que 
preciso de v-la.
- No.
- Deves sentir-te muito culpado.
Cal no respondeu.
- No gostas dela?
Cal no respondeu.
- Se mantiveres essa atitude, s poders ir de mal a pior. 
Mais valia que abrisses o corao.
- Queres que diga ao meu pai o que fiz? Se me aconselhas 
isso, obedecerei.
- No, Cal, por enquanto, no. Mas ter de ser, quando ele 
estiver melhor. Ter de ser por causa de ti. um fardo demasiado 
pesado, que acabaria por te esmagar e por te matar.
- Talvez eu merea morrer.
- Basta! - disse Lee com secura. - No h forma mais
mesquinha de indulgncia para consigo mesmo. Basta! 
- E o que hei-de fazer para esquecer? 
Lee mudou de assunto.
- No percebo porque  que a Abra no veio c. 
- J no tem motivos para vir.
- N, ela no costuma proceder desse modo. A anda mis-
trio. No a tens visto?
Cal franziu as sobrancelhas.
- J te disse. Parece que tambm ests maluco. J tentei
falar-lhe por trs vezes mas esquiva-se sempre.
- Acho estranho. Ela  uma mulher franca e sensata.
-  uma rapariga - disse Cal. - Tem piada ouvir-te cha-
mar-lhe mulher.
- No digas isso. Algumas j nascem mulheres. A Abra tem 
o encanto, a coragem, a fora e o senso comum da mulher. Ela 
compreende as coisas e aceita-as. Estou convencido de que no
h nela mesquinhez, nem maldade, nem futilidade, a no ser que 
se trate da futilidade que contribui para realar a beleza.
- Parece que tens muita considerao por ela.
- A considerao suficiente para saber que ela seria incapaz 
de nos trair. A Abra faz-me muita falta. Pede-lhe que me venha ver.
- J te disse que no me quer falar.
- Pois, ento, corre atrs dela. Diz-lhe que a quero ver, que 
me faz falta.
Cal perguntou:
- E se falssemos dos olhos do pap? 
- No.
- E se falssemos do Aron?
- No.


3

No dia seguinte, Cal tentou encontrar Abra e s ao sair do liceu 
 que a viu  sua frente, de regresso a casa. Enfiou a correr por uma 
rua transversal, depois seguiu pela paralela e, quando imaginou 
que ela deveria ter chegado ao fundo da rua, dobrou a esquina.
- Bom dia - disse ele.
- Bom dia. Tinha a impresso de te ter visto atrs de mim. 
-  verdade. Fui dar a volta ao quarteiro para te encontrar de 
frente. Preciso de te falar.
Ela olhou-o com gravidade.
- No era preciso andares a correr.
- Tentei falar-te na escola, mas tu evitaste-me.
- Tu parecias completamente doido e eu no queria falar a 
um doido.
- Notava-se muito?
- Sim, pela cara e pela maneira como andavas. Hoje, j es-
ts com um ar diferente..
- Tens razo.
- No te importas de levar os meus livros? - perguntou ela a 
sorrir.
Cal respondeu calorosamente:
- Com todo o prazer.
Meteu os livros debaixo do brao e ps-se a caminhar ao lado 
de Abra.
- Lee pediu-me para te dizer que gostava de te ver. 
Abra estava encantada.
- A srio? Ento diz-lhe que irei. Como est o teu pai?
- No vai l muito bem. Sofre da vista.
Prosseguiram em silncio mas, pouco depois, Cal no se con-
teve mais:
- Sabes o que sucedeu ao Aron?
- Sei. Abre o meu livro de histria e v na primeira pgina.Cal 
encontrou um bilhete postal.

Querida Abra.
Sinto-me impuro e indigno de ti. 
Perdoa-me. Alistei-me no exrcito. 
No vs visitar o meu pai. 
Adeus.

Cal fechou o livro com violncia.
- Filho da me! - disse ele num sussurro. 
- O qu?
- Nada.
- Eu ouvi o que tu disseste.
- Sabes porque se foi embora?
- No. Mas, se quisesse, sabia. Bastava procurar. Mas no 
quero. No estou disposta... A no ser que tu queiras dizer-me. 
De sbito, Cal perguntou:
- Abra... tu detestas-me?
- No. Mas sei que tu me detestas um pouco. Porqu? 
- Porque tenho medo de ti.
- No h razo nenhuma.
- Eu fiz-te mais mal do que tu pensas. E tu s a noiva do 
meu irmo.
- Tu fizeste-me mal? Eu no sou a noiva do teu irmo.
- Muito bem - disse ele com coragem. - Vou contar-te. E 
no esqueas que foste tu que me pediste. A nossa me era uma
prostituta que tinha uma casa nesta cidade. H muito tempo que 
eu o sabia. Na noite de Aco de Graas, levei l o Aron e mostrei-
-lhe a me.
Abra atalhou,
- E que fez ele?
- Ficou furioso, quase como louco. Depois de a descompor e 
de termos sado, deu-me um murro e fugiu. A nossa querida me 
suicidou-se. O meu pai... adoeceu. Agora, j me conheces e j 
tens motivos para te afastares de mim.
- Agora, j o conheo a ele - disse ela calmamente. 
- Ao meu irmo?
- Sim, ao teu irmo.
- Ele era bom. Porque disse eu que era?  bom. No  mau 
nem perverso como eu.
Tinham afrouxado o passo. Abra deteve-se. Cal tambm. A 
rapariga olhou-o de frente.
- Cal - disse ela - h muito tempo j que eu sabia quem 
era a tua me.
- Ah! sim?
- Ouvi dizer aos meus pais quando me julgavam a dormir. 
Queria confessar-te uma coisa difcil e agradvel ao mesmo tem-
po.
- Queres mesmo confessar?
-  preciso. Ainda no h muito tempo que deixei de ser 
uma simples menina. Compreendes o que eu quero dizer? 
- Compreendo - disse Cal.
- Tens a certeza?
- Tenho.
- Pior para mim. Assim ainda vai custar mais. Devia ter dito 
isto mais cedo. Cal, eu j no gosto do Aron. 
- Porqu?
- Vou tentar explicar-te. Quando ramos crianas, vivamos 
uma histria que tnhamos inventado. Mas eu cresci e a histria j 
no me chega. Preciso de outra coisa. A histria j deixou de ser 
verdadeira.
- Mas...
- Espera, deixa-me acabar. O Aron, esse, no cresceu. Tal-
vez at fique uma criana toda a vida. Quer viver a sua histria tal
como a sonhou e no suporta de modo nenhum que ela prossiga de 
outra forma.
- Etu?
- Eu nunca estive interessada no remate da histria. A nica 
coisa que me interessa  viv-la. H muito tempo j... que ns 
ramos como dois estranhos. Ainda mantivemos a histria porque 
estvamos habituados, mas eu j no acreditava nela.
- E o Aron?
- Esse, s quer que a histria continue como ele entender, 
nem que, para isso, tenha de destruir tudo  sua volta. 
Cal baixou os olhos para o cho.
Abra perguntou-lhe:
- Acreditas em mim?
- Esforo-me por compreender.
- Quando somos crianas, julgamos ser o centro do mundo. 
Tudo o que acontece  a ns que acontece. Os outros? So fan-
tasmas postados ao p de ns com quem nos dignamos dialogar. 
Mas quando crescemos e ocupamos o lugar que nos compete, 
ficamos reduzidos ao tamanho e ao formato exactos. As coisas 
passam a dar-se com reciprocidade.  pior mas tambm no deixa 
de ser melhor. Ainda bem que me falaste no Aron.
- Porqu?
- Porque, doravante, j sei que no sou inteiramente res-
ponsvel. Ele no podia suportar a verdade acerca da me por-
que ela no fazia parte da sua histria e porque no estava de forma 
nenhuma disposto a viver uma outra. Foi por isso que esfrangalhou 
tudo  sua volta, do mesmo modo que j me tinha esfrangalhado a 
mim quando quis ser padre.
Cal disse:
- Preciso de reflectir bem nisso tudo.
- D-me os livros - pediu ela. - Diz ao Lee que irei v-lo. 
Agora j me sinto liberta. Tambm preciso de reflectir muito. Acho 
que gosto muito de ti, Cal.
- Eu no valho nada.
- Talvez seja por isso.
Cal entrou a correr em casa.
- Ela vem c amanh.
- Que agitao  essa, rapaz? - perguntou Lee.


4

Abra entrou em casa na ponta dos ps e encostou-se  parede 
para no fazer ranger o soalho. Na altura em que assentava o p no 
primeiro degrau da escada, mudou de opinio e dirigiu-se para a 
cozinha.
- At que enfim - disse-lhe a me. - No vieste directa-
mente da escola?
- As aulas, hoje, acabaram mais tarde. O pap est melhor? 
- Acho que sim.
- Que disse o mdico?
- A mesma coisa. Que tem trabalhado de mais e que pre-
cisa de repouso.
- Mas o pap no parecia nada cansado.
A me tirou trs batatas dum cesto e lanou-as na pia.
- O teu pai tem muita coragem, minha filha. Eu j devia ter 
desconfiado. Alm das suas prprias obrigaes, tem trabalhado 
imenso para o esforo de guerra, e o mdico diz que os nervos 
cederam de repente.
- Posso ir v-lo?
- Acho que ele no quer ver ningum. H bocado, telefonou 
o juiz Knudsen e o teu pai mandou dizer que estava a dormir. 
- Queres que te ajude?
- Vai mudar de vestido, querida. No quero que enxovalhes 
esse.
Abra passou diante da porta do pai no bico dos ps e entrou no 
seu quarto. O papel das paredes era agressivamente colorido e os 
mveis brilhavam sob a camada de cera. Havia fotografias dos pais 
em cima da cmoda, poemas encaixilhados pendiam das paredes 
e, no guarda-fato, tudo estava nos seus lugares. O soalho estava 
encerado e os sapatos meticulosamente arrumados. Era a me 
quem fazia tudo, quem dirigia, quem punha e dispunha de Abra.
Abra j abandonara h muito tempo a ideia de ter algo de pes-
soal no seu quarto. Ali nada lhe pertencia, excepto as suas ideias. 
Por isso, at as poucas cartas que recebera guardava na sala, 
escondidas entre pginas das Memrias de Ulysses S. Grant livro 
s por ela folheado desde que sara da tipografia.
Abra sentia-se, agora, feliz e no procurava descortinar as ra-
zes desse seu estado. Havia certas coisas que ela sabia sem 
sombra de dvida e que nunca comentava. Sabia, por exemplo, que 
o pai no estava doente e que se escondia. Adam Trask, esse, 
estava doente, pois vira-o andar na rua. Saberia a me que o marido 
estava com medo?
Abra despiu-se e vestiu a blusa de algodo que a me des-
tinara, de uma vez para sempre,  lida da casa. Escovou o cabe-
lo e passou novamente diante da porta do pai sem fazer rudo. No 
fundo da escada, abriu o livro de histria e tirou o postal de Aron. 
Na sala, sacudiu o segundo volume das Memrias e fez cair as 
cartas de Aron. Dobrou-as e, depois de erguer a blusa, entalou-as 
no elstico das cuecas. Quando chegou  cozinha, ps um avental 
para disfarar o volume.
- Vai descascando as cenouras - disse-lhe a me. - Essa 
gua j est quente?
- J.
- Ento, deita-lhe um cubo de caldo de carne. O mdico 
disse que fazia bem ao teu pai.
Assim que a me saiu para ir levar a tigela de caldo ao doen-
te, Abra abriu o incinerador, atirou as cartas l para dentro e ateou-
lhes fogo.
A me observou, ao chegar:
- Cheira aqui a fumo.
- Fui eu que deitei fogo ao lixo. J estava cheio.
- Podias ter perguntado a minha opinio. S tencionava acen-
der o incinerador amanh, para aquecer a cozinha.
- Desculpe, mam - disse Abra. - Foi falta de pensar.
- Pois devias ter pensado. Ultimamente, acho-te muito dis-
trada.
- Peo desculpa, mam.
- Mais valia que pensasses em vez de pedires desculpa.
O telefone tocou na casa de jantar. A Sr.a Bacon foi responder. 
- No, o mdico recomendou que no recebesse visitas. Nin-
gum. No. No. Ningum.
Voltou  cozinha.
- Era o juiz outra vez - disse ela.



CAPTULO LIII 


1

No dia seguinte, durante as aulas, Abra andava satisfeita s 
com a ideia de ir ver Lee.
- Disseste-lhe que eu ia visit-lo? - perguntou ela a Cal num 
intervalo.
- Comeou logo a fazer uma torta qualquer - respondeu Cal. 
Vestia uniforme: um dlman mal cortado de gola muito alta e 
polainitos nas pernas.
- Vais aos exerccios? - perguntou Abra. - Nesse caso, 
chego antes de ti. Que gnero de torta?
- No sei. Mas deixa-me um bocado. Pareceu-me que chei-
rava a morangos. No te esqueas de me deixar um ou dois boca-
dos.
- Queres ver a prenda que eu vou dar ao Lee? Olha. 
Abra destapou uma caixinha de carto.
-  um novo modelo de descascador de batatas. S tira a 
pele. No custa nada a usar.
- Com isso, ele vai dar-te a torta toda - disse Cal. (Depois, 
acrescentou): - Se eu me atrasar, espera por mim. 
- Vais levar-me a casa?
- Vou - disse Cal.
Ela fitou-o insistentemente, at ele baixar os olhos. Depois, 
correu para a aula.


2

Adam adquirira o hbito de dormir at tarde ou, antes; habi-
tuara-se a dormir com frequncia. Sonos curtos, de noite e de dia.
Lee entrou vrias vezes no quarto antes que ele acordasse. 
- Sinto-me bem esta manh - disse Adam.
- Se a isto se pode chamar manh. J so onze horas. 
- Valha-me Deus! Tenho de me levantar. 
- Para qu? - perguntou Lee.
- Para qu? Sim, de facto, para qu? Mas a verdade  que me 
sinto bem. Talvez pudesse ir at ao escritrio. Como est o tempo? 
- Frio - respondeu Lee.
Ajudou Adam a levantar-se. Os botes e os atacadores dos 
sapatos eram uma carga de trabalhos para Adam. 
Enquanto Lee o auxiliava, Adam disse:
- Tive um sonho bastante real. Sonhei com o meu pai.
- Era um homem de grande merecimento - disse Lee. - Li 
os recortes de jornais que mandou o advogado do seu irmo. Era 
um homem de grande valor.
Adam olhou calmamente para Lee.
- Sabe que era um ladro?
- Talvez fosse no seu sonho - disse Lee. - Ficou enterra-
do em Arlington. Num dos artigos, li que o Vice-Presidente e o 
Ministro da Guerra tinham assistido ao funeral. Talvez isso tivesse 
interesse para um artigo de fundo dum dos jornais c da terra. Como 
estamos em guerra, vinha a propsito. E se ns reunssemos os 
elementos necessrios?
- Ele era um ladro - disse Adam. - Naquela altura, no 
quis acreditar, mas agora tenho a certeza. Desviou os fundos do G. 
A. R.
-  incrvel - disse Lee.
Os olhos de Adam estavam marejados de lgrimas. J era 
costume. Lee disse:
- Sente-se que eu j lhe trago o caf. Sabe quem vem c 
esta tarde? A Abra!
- A Abra? Ah! pois, a Abra!  boa rapariga.
- Eu gosto dela - disse Lee com simplicidade. (Sentou Adam
diante da mesa de jogo) - Quer entreter-se com o puzzle enquanto 
eu preparo o pequeno almoo?
- No, obrigado. Esta manh, no. Prefiro pensar no meu 
sonho antes que o esquea.
Quando Lee voltou com a bandeja, Adam j adormecera na 
cadeira. Lee despertou-o, leu-lhe o jornal enquanto ele comia e, 
depois, levou-o  casa de banho.
Toda a cozinha rescendia a bolos. Alguns morangos tinham-se 
queimado e espalhavam um cheiro agradvel, agridoce e ads-
tringente.
Lee sentia-se feliz, aguardando o grande acontecimento do dia.
 O Adam est com os ps para a cova, pensou ele. Eu tam-
bm devo estar, mas no o sinto. A sensao que tenho  de ser 
imortal. Quando era muito novo, sentia-me mortal, mas acabou-se. 
A morte recuou.  E perguntava a si mesmo se seria normal pensar 
daquela maneira.
Que queria dizer Adam quando se referia s roubalheiras do 
pai? Devia fazer confuso com o sonho. Depois, Lee deixou-se ar-
rastar pela imaginao, como tantas vezes lhe acontecia. Supondo 
que era verdade - Adam, o homem mais estritamente honesto que 
se pudesse encontrar, vivera toda a vida  custa duma fortuna rou-
bada.  Lee riu-se para dentro. E o seu filho Aron, confortavelmen-
te instalado numa pureza egosta, beneficiar toda a vida dos lu-
cros dum bordel. Seria uma ironia do destino, ou estariam as foras 
assim equilibradas para que o fiel da balana se mantivesse hori-
zontal?
Lee pensou em Sam Hamilton. Batera a tantas portas. Tinha 
tantas ideias, tantos projectos, e ningum lhe dera dinheiro. Mas 
possua outra riqueza. Que mais lhe poderiam dar? A riqueza pa-
rece chegar aos pobres sob uma forma espiritual e, para restabe-
lecer o equilbrio, os ricos no passam duma corja de brutos. Lee 
perguntou a si mesmo se no estaria a ir longe de mais. Mas havia 
exemplos.
Pensou em Cal, queimando o dinheiro para se punir. Mas o 
castigo no o ferira to profundamente como o crime. Lee disse 
para consigo: Se, de facto, existe um lugar onde um dia me hei-
-de encontrar com o Sam Hamilton, quantas histrias no terei para 
lhe contar! E acrescentou:  E ele, ento!
Lee voltou ao quarto de Adam e encontrou-o a tentar abrir a 
caixa que continha os artigos necrolgicos sobre o pai.


3

Naquela tarde soprava um vento frio. Adam teimou em ir ao 
escritrio da Junta de Recrutamento. Lee vestiu-o e acompanhou-o 
at  porta.
- Se se sentir mal, sente-se mesmo no stio onde estiver.
- Est bem - anuiu Adam. - Mas hoje sinto-me bem. Tal-
vez pudesse aproveitar para examinar os olhos. 
- Deixe isso para amanh. Eu irei consigo. 
- Logo se v - disse Adam.
E ps-se a caminho, balanando os braos com um ar marci-
al.
Abra chegou com os olhos a brilhar e o nariz avermelhado 
pelo vento frio. Vinha to radiante que Lee se ps a rir de satis-
fao.
- Onde est a torta? - gritou ela. - Vamos escond-la para 
o Cal no a encontrar! - (Abra sentou-se na cozinha.) - Estou to 
contente por ter voltado!
Lee quis falar, mas engasgou-se. O que tinha a dizer era agra-
dvel, mas delicado.
- Poucas coisas tenho desejado na minha vida - comeou 
ele. - Aprendi muito cedo a ser pouco exigente;  a nica maneira 
de evitarmos as decepes.
Abra disse alegremente:
- Mas agora deseja qualquer coisa. O que ? 
- Gostaria que fosse minha filha...
Sentiu-se extremamente chocado com o que dissera, aproxi-
mou-se do fogo a gs, apagou-o e tornou a acend-lo. 
Abra respondeu docemente:
- Pois eu gostaria que fosse meu pai.
Ele olhou-a de soslaio, mas desviou logo o olhar. 
- A srio?
- A srio.
- Porqu?
- Porque gosto de si.
Lee saiu precipitadamente e foi sentar-se no seu quarto, aper-
tando as mos com fora at que a respirao se normalizasse. 
Ento, levantou-se e tirou da cmoda uma caixinha de bano com 
um drago na tampa. Voltou  cozinha e deps a caixa nas mos 
de Abra.
-  para si - disse ele numa voz sem timbre.
Ela abriu a caixa e viu um pequeno alfinete de jade verde escu-
ro trabalhado em forma de mo humana. Abra pegou na jia, levou-
-a  boca, molhou-a com a ponta da lngua, passou-a pelos lbios e 
encostou-a  cara.
- Era a nica jia da minha me - disse Lee.
Abra levantou-se, envolveu-o nos braos e beijou-o no rosto. 
Era a primeira vez que tal coisa acontecia a Lee.
- Parece que perdi a minha placidez oriental. O nico meio de 
a recuperar  fazer ch, querida. - (Fez uma ligeira pausa.) -  a 
primeira vez na minha vida que emprego esta palavra. Nunca tratei 
ningum assim.
Abra disse:
- Esta manh, quando acordei, senti-me feliz.
- Tambm eu - disse Lee. - E j sei porqu. Era por saber 
que vinha.
- Eu tambm era por isso, mas...
- Noto uma grande mudana em si - disse Lee. - J deixou 
de ser a menina que era.
- Foi por ter queimado todas as cartas do Aron. 
- Ele portou-se mal consigo?
- No. No me parece. Ultimamente, eu nunca me sentia 
suficientemente boa. H muito tempo que andava com vontade 
de explicar-lhe que era m.
- E agora que j no precisa de ser perfeita, pode ser boa, 
no  isso?
- Talvez. Acho que sim.
- Sabe quem era a me dos rapazes?
- Sei. Mas ainda no me ofereceu uma fatia de torta. E estou 
cheia de sede.
- Beba ch, Abra. Gosta do Cal?
- Gosto.
- Ele est abarrotado de tudo o que  bom e o que  mau. 
Pareceu-me que bastaria apenas um empurro com um dedo duma 
certa pessoa...
Abra baixou a cabea para a chvena de ch.
- Ele pediu-me para ir com ele ao monte Alisal quando as 
azleas estiverem em flor.
Lee pousou as mos na mesa e inclinou-se para a frente. 
-  escusado perguntar-lhe se aceitou. 
-  escusado, . Aceitei.
- No esteja tanto tempo sem voltar a esta casa.
- Os meus pais no querem que venha.
- S os vi uma vez, mas pareceram-me boa gente. s ve-
zes, convm aplicar estranhos remdios. Gostaria de saber se eles 
no modificariam a atitude quando soubessem que o Aron acabou 
de herdar cem mil dlares.
Abra abanou a cabea com gravidade, esforando-se por no 
sorrir.
- Tem razo - disse ela. - Qual ser a melhor maneira de 
lhes dar a notcia?
- Olhe, minha querida - disse Lee - se me dessem uma 
tal novidade, a primeira coisa que eu fazia era telefonar a algum. 
Talvez me enganasse no nmero.
- E diria a esse tal nmero a provenincia do dinheiro? 
- Claro que no - disse Lee.
Abra olhou para o relgio pendurado na parede.
- So quase cinco horas. Tenho de me ir embora. O meu pai 
no tem passado bem. Pensei que o Cal j estivesse de volta dos 
exerccios.
- Aparea assim que puder - disse Lee.


4

Abra encontrou Cal  sada da porta.
- Espera - disse ele, entrando em casa.
- Toma conta dos livros de Abra! - gritou-lhe Lee da cozinha.
Com a aproximao da noite, o vento tornara-se mais frio, fa-
zendo baloiar os candeeiros e bailar as sombras dos transeuntes. 
Os homens que regressavam do trabalho escondiam o queixo na 
gola do sobretudo e apressavam o passo em direco ao calor. 
Ouvia-se a msica montona que vinha do rinque de patinagem.
Cal disse:
- No te importas de segurar um instante nos livros, Abra? 
Queria desapertar a gola que me est a cortar o pescoo.
Abriu-a e suspirou de alvio. No jardim dos Berges, os ramos 
da palmeira davam palmadas secas, enquanto um gato miava sem 
interrupo diante duma porta de cozinha fechada.
Abra disse:
- Nunca hs-de dar um bom soldado. s independente de 
mais.
- Talvez - disse Cal. - Todas aquelas ordens que nos ber-
ra o velho Krag-Jorgensens me parecem ridculas. Se um dia me 
vier a interessar por elas, talvez faa um bom soldado.
- A torta estava maravilhosa - disse Abra. - Deixei ficar um 
pedao para ti.
- Obrigado. O Aron, esse, deve dar um bom soldado.
- Tambm acho. Deve ser o melhor de todos. Quando iremos 
colher as azleas?
- Nunca antes da Primavera.
- Ento, ela que venha depressa! Poderemos almoar no 
campo.
- E se chover?
- Pior para ns. Seja como for, no deixaremos de ir. 
Abra pegou nos livros e entrou no jardim da sua casa. 
- At amanh - disse.
Cal no regressou directamente a casa. Enfiou pela noite 
gelada, passou diante da escola e do rinque de patinagem que era 
constitudo por um estrado tapado com uma grande tenda de onde 
saa o som estridente duma orquestra mecnica. No havia 
patinadores. O velho proprietrio estava sentado na sua cabina e 
folheava com a ponta dos dedos um mao sebento de bilhetes de 
entrada.
A Main Street estava deserta. O vento empurrava detritos pelo
cho. Tom Meek, o guarda de servio, saiu da confeitaria Bell e 
travou conversa com Cal.
- Era melhor que abotoasse a gola, seu militar das dzias - 
disse ele.
- Ol, Tom. Faz-me doer o pescoo.
- J ningum te v a vadiar de noite.
- Pois no.
- Resolveste ter juzo?
- Quem sabe?
Tom gabava-se da sua aptido para gozar as pessoas com o 
ar mais srio deste mundo.
- No andar a mouro na costa?
Cal no respondeu.
- Ouvi dizer que o teu irmo conseguiu alistar-se. Estars tu 
apaixonado pela noiva dele?
- Ento, no havia de estar?
O interesse de Tom aguou-se.
- O Will Hamilton anda a contar por toda a parte que ga-
nhaste quinze mil dlares com o feijo. Ser verdade? 
- Claro que  - disse Cal.
- Tu no passas dum mido. Que tencionas fazer a tanto 
dinheiro?
Cal sorriu-lhe.
- Queimei-o.
- Queimaste-o, como?
- Risquei um fsforo e queimei-o.
Tom perscrutou-lhe o rosto.
- Ah! pois claro. Era o que tinhas de melhor a fazer. Eu vou 
para aquele lado. Boa noite, rapaz.
Tom Meek no gostava que fizessem pouco dele. Ora o filho 
da me, pensou ele. No querem ver que agora tambm arma em 
esperto?
Cal desceu vagarosamente a Main Street olhando para as 
montras. Gostava de saber onde estaria Kate enterrada. Se sou-
besse, iria pr um ramo de flores na sepultura. Achou graa a tal 
impulso. Estaria a ser fingido? O vento do Vale era capaz de levan-
tar uma pedra sepulcral, quanto mais um ramo de cravos... Sem 
saber porqu, lembrou-se do nome mexicano dos cravos - deviam
ter-lho dito quando era pequeno. Chamavam-lhes cravos de amor, e 
aos malmequeres, cravos de morte. Era uma palavra assim... 
claveles. Talvez fosse melhor pr malmequeres na tumba da me. 
Estou comeando a pensar como o Aron. 



CAPTULO LIV 


1

O Inverno parecia relutante em afrouxar a presso da sua gar-
ra fria, hmida e ventosa. E toda a gente dizia:
 por causa dos tiros de canho que disparam em Frana 
que do cabo do tempo em todo o mundo.,,
As sementes levaram tanto tempo a germinar no vale do Sali-
nas e as flores silvestres abriram to tarde que se chegou a recear 
que nunca mais desabrochassem.
Mas ns sabamos - ou pelo menos tentvamos convencer-
-nos - que no Dia de Maio, dia destinado aos piqueniques escola-
res nas faldas do Alisal, estariam em flor as azleas que crescem 
 beira das torrentes, pois elas faziam parte integrante desse dia 
festivo.
Mas o dia foi frio. O piquenique dissolveu-se sob uma chuva 
glacial e as azleas no tinham um nico boto. Duas semanas 
depois, continuava tudo na mesma.
Cal no previra esse contratempo quando marcara a florao 
das azleas como sinal para o passeio. Foroso era esperar.
O Ford estava recolhido no barraco dos Windham, com os 
pneus cheios e duas pilhas secas para facilitar o arranque. Lee 
tinha tudo preparado para fazer as sandes no dia a indicar, mas 
cansou-se de esperar e desistiu de comprar po de forma dia sim 
dia no.
- Deixem-se de coisas e vo de qualquer maneira - dizia 
ele.
- No posso - respondia Cal. - Estou  espera das azleas.
- E como  que sabes que j floriram?
- Os Silacci moram para aqueles lados e vm  escola todos 
os dias. Eles dizem que s deve faltar uma semana.
-  meu Deus! - disse Lee, erguendo os olhos para o cu. 
- Porque no nos concedes o piquenique?
Adam recuperava as foras a pouco e pouco. A mo esquerda 
estava mais vigorosa. Todos os dias ia aumentando o tempo que 
podia dedicar  leitura.
- As letras s se pem a danar quando estou cansado - 
dizia ele. - Ainda bem que no comprei culos. Era capaz de 
estragar a vista.
Lee abanava a cabea e sentia-se feliz. Fora a San Francisco 
procurar os livros de que precisava e encomendara pelo correio nu-
merosos exemplares de revistas.
J nada ignorava da anatomia do crebro, dos sintomas e da 
gravidade das leses e das tromboses. Estudara e fizera pergun-
tas com a mesma tenacidade de que dera provas ao espiolhar e 
analisar um verbo hebraico. O Dr. H. C. Murphy aprendera a conhe-
cer Lee e a sua impacincia profissional para com o criado chins 
transformara-se em profunda admirao pelo estudante. O Dr. 
Murphy chegara mesmo a pedir emprestadas a Lee algumas das 
suas revistas especializadas. Certo dia, confessou ao Dr. Edwards: 
Este chins j sabe mais do que eu e, pelo menos, tanto como 
voc, acerca da patologia da hemorragia cerebral.  Falava com uma 
espcie de raiva afectuosa. A profisso mdica  inconscientemen-
te irritada pela concorrncia.
Lee veio comunicar-lhe que Adam estava melhor. 
- Parece que prossegue a reabsoro. 
- Tive um doente... - comeou o Dr. Murphy. 
E contou uma histria optimista.
- Receio novo ataque - disse Lee.
- No temos outro remdio seno confiar na vontade do Todo-
-Poderoso - disse o Dr. Murphy. - Ainda no podemos remendar 
uma artria como se fosse uma velha cmara de ar. Gostava de 
saber como  que faz para lhe medir a tenso arterial?
- Aposto na dele e ele aposta na minha.  muito mais diver-
tido do que as corridas de cavalos.
- E quem  que ganha?
- Poderia ser eu - disse Lee - mas no quero. Isso estra-
gava o jogo.
- Como  que consegue mant-lo calmo?
- Isso  uma inveno minha - disse Lee. - Chamo-lhe 
tagareloterapia.
- Deve tomar-lhe o tempo todo.
- Pois toma - disse Lee.


2

No dia 28 de Maio de 1918, as tropas americanas efectuaram 
a sua primeira grande interveno na guerra mundial. A Primeira 
Diviso, comandada pelo General Bullard, recebeu ordens para 
capturar a aldeia de Cantigny. Esta, situada numa eminncia, do-
minava todo o vale do Avre. A defesa estava organizada por um 
sistema de trincheiras, de ninhos de metralhadoras e de artilharia. 
A frente tinha pouco mais de quilmetro e meio de extenso.
s seis e quarenta e cinco do dia 28 de Maio de 1918, teve 
incio o ataque com uma hora de preparao pela artilharia. To-
maram parte as seguintes tropas: o 28 de Infantaria (Coronel Ely), 
uma companhia do 18 de Infantaria (Parker), uma companhia de 
sapadores e a artilharia divisionria (Summerall), apoiadas por 
blindados franceses e lana-chamas.
O ataque teve xito completo. Os Americanos apoderaram-se das posies e 
repeliram dois poderosos contra-ataques alemes. 
A Primeira Diviso foi felicitada por Clemenceau, Foch e Ptain.


3

S no fim do ms de Maio  que os Silacci anunciaram que as 
flores rosa-salmo das azleas tinham acabado de abrir. Era quar-
ta-feira e estava a tocar para a aula das nove.
Cal precipitou-se para a aula de ingls e, na altura em que 
Miss Norris ia sentar-se  secretria, agitou o leno e assoou-se 
ruidosamente. Depois, desceu para as retretes dos rapazes e espe-
rou at que accionassem o autoclismo do lado das raparigas. Saiu 
pela porta da cave, esgueirou-se ao longo da parede de tijolos en-
carnados, escondeu-se atrs do pimenteiro e caminhou lenta-
mente at que Abra se lhe juntasse.
- Quando floriram? - perguntou ela.
- Esta manh.
- Esperamos por amanh?
Cal olhou para o belo sol doirado, o primeiro daquele ano. 
- Queres esperar?
- No - respondeu ela.
- Eu tambm no.
Partiram a correr, compraram po na padaria Reynaud e obri-
garam Lee a despachar-se.
Adam, ao ouvir gritos na cozinha, entrou. 
- Que barulho  este? - perguntou.
- Vamos fazer um piquenique - disse Cal. 
- Hoje no h aulas?
- Abra respondeu: - H, mas resolvemos fazer gazeta. Adam 
sorriu-lhe.
- Ests corada como uma rosa. Abra atirou-lhe:
- Porque no vem connosco? Vamos apanhar azleas ao 
Alisal.
- Teria muito prazer em ir - disse Adam. (Depois, acres-
centou): - No, no posso. Prometi ir  fbrica. Esto a montar 
novas mquinas. Que lindo dia!
- Havemos de lhe trazer flores - prometeu Abra. 
- Divirtam-se bem.
Assim que ele saiu, Cal disse:
- Porque no vens tu, Lee? 
Lee lanou-lhe um olhar penetrante.
- Nunca julguei que pudesses ser to parvo. 
- Venha, Lee! - insistiu Abra.
- No sejam tolos! - disse Lee.


Aprazvel  o riacho que rumoreja pelo monte Alisal, vindo da 
serra dos Gabilanes, a nascente do vale do Salinas. A gua desliza 
pelos calhaus e lava incessantemente as razes das rvores.
O aroma das azleas e das folhas verdes aquecidas pelo sol 
enchia o ar. O Ford estava parado  beira do regato, ofegante 
ainda pelo esforo despendido. No banco de trs amontoavam-se 
os ramos de azleas.
Cal e Abra estavam sentados na margem, entre os papis do 
almoo, com os ps mergulhados na gua.
- As flores murcham sempre antes de chegarem a casa 
- disse Cal.
- Mas so uma desculpa to boa. Se no fores tu, estou a ver 
que terei de ser eu...
- A fazer o qu?
Ela pegou-lhe na mo.
- Isto - disse.
- Eu no me atrevia.
- Porqu?
- No sei.
- Mas eu atrevi-me.
- As raparigas so mais atrevidas do que os rapazes. 
- Talvez seja verdade.
- Tu nunca tens medo?
- Tenho, sim - disse ela. - Tive medo de ti no dia em que 
me disseste que tinha feito chichi nas calas.
- Foi por maldade - disse ele. - No sei porque foi que fiz 
isso.
Subitamente, Cal ficou silencioso.
Ela apertou-lhe a mo.
- Sei no que ests a pensar e quero que esqueas.
Cal olhou para a gua e virou uma pedra escura com a ponta 
do p.
Abra disse:
- Julgas-te pior do que os outros? Ests convencido de que 
atrais o mal...
-  que...
- Vou dizer-te uma coisa. O meu pai est em apuros. 
- Que gnero de apuros?
- No andei a escutar s portas, mas o que ouvi chegou-me. 
Ele no est doente. Tem medo por causa de qualquer coisa que 
fez.
Cal voltou a cabea.
- Suponho que roubou dinheiro. Ele ainda no sabe se os 
scios o vo mandar prender ou se lhe vo dar tempo para devolver 
o dinheiro.
- Como sabes tu isso?
- Ouvi-os gritar no quarto. A minha me ps um disco a tocar 
para abafar as vozes.
- Tu no ests a inventar tudo isso? - perguntou ele. 
- No.  verdade.
Cal aproximou-se dela, poisou a cabea no seu ombro e enla-
ou-lhe timidamente a cintura.
- Como vs, no s o nico...
Abra deteve-se e olhou-o de soslaio.
- Agora, estou com medo - disse ela em voz dbil.


5

Nessa mesma tarde, s trs horas, Lee folheava as pginas 
dum catlogo de sementes. As ervilhas-de-cheiro eram a cores.
- Ficavam bem na cerca das traseiras. Ainda por cima, ta-
pavam o charco. S no sei se tero sol que chegue.
Ao ouvir a prpria voz, levantou a cabea e sorriu. Acontecia-
-lhe cada vez mais surpreender-se a falar em voz alta, quando a 
casa estava vazia.
-  da idade - disse ele. - A cabea a divagar... - (Deteve-
-se e ficou imvel.) -  esquisito, pareceu-me ouvir qualquer coisa. 
Terei deixado o gs aceso? No... agora me lembro. - (Apurou 
novamente o ouvido.) - Graas a Deus, no sou supersticioso. Se 
fosse impressionvel, acabaria por ouvir fantasmas a deslizar.
Tocaram  porta da rua.
- Era isto. Era isto o que eu esperava. Pois toca  vontade. 
No me deixarei guiar por pressentimentos. Podes tocar enquanto 
te apetecer.
Mas no tornaram a tocar.
Uma grande lassido apoderou-se de Lee. Os ombros desca-
ram vergados ao peso da impotncia. Procurou gracejar.
- Se l for, encontro um prospecto debaixo da porta, mas se 
me deixar aqui ficar, a minha velha cabea cansada h-de teimar 
que foi a morte que nos bateu  porta. Prefiro o prospecto.
Lee sentou-se na sala e contemplou o envelope que tinha nos 
joelhos. De repente, cuspiu-lhe em cima.
- Toma - disse ele. -  para que saibas. 
Abriu-o e p-lo logo em cima da mesa.
- No - disse ele, fitando o cho intensamente. - No te-
nho o direito. Ningum tem o direito de poupar uma experincia, por 
mais pequena que seja. A vida e a morte so-nos devidas. Todos 
temos direito ao sofrimento.
Sentiu uma contraco no estmago.
- No tenho coragem. Sou um covarde indecente. No con-
seguirei aguentar.
Foi  casa de banho, deitou trs colheres de brometo num 
copo e acrescentou gua at que o remdio encarnado ficasse 
cor-de-rosa. Levou o copo para a sala e sentou-se. Dobrou o tele-
grama e meteu-o no bolso. Depois, disse em voz alta:
- Meu Deus, odeio a covardia! Ningum imagina como odeio 
os covardes!
Tremiam-lhe as mos e escorria-lhe um suor frio pela testa.
s quatro horas, ouviu Adam a abrir a porta da entrada. Lee 
humedeceu os lbios. Ergueu-se e dirigiu-se lentamente para a porta. 
Na mo firme, levava o copo de brometo.



CAPTULO LV 


1

Todas as luzes brilhavam em casa dos Trask. A porta da rua 
ficara entreaberta e a casa estava gelada. Na sala, Lee parecia 
uma folha cada numa cadeira. Pela porta aberta do quarto de Adam 
saam vozes.
Quando Cal entrou, inquiriu:
- Que se passa?
Lee ergueu os olhos e designou com a cabea a mesa onde 
estava o telegrama aberto.
- Morreu o teu irmo - disse ele. - O teu pai teve um ata-
que.
Cal encaminhou-se para o quarto. Lee deteve-o.
- No vs. O Dr. Murphy e o Dr. Edwards esto ao p dele. 
Deixa-os ss.
Cal plantou-se diante de Lee.
-  grave? Lee,  grave?
- No sei.
Ps-se a falar como se contasse uma velha histria.
- Voltou fatigado. Mas eu tinha de lhe ler o telegrama. Era 
esse o seu direito. Durante cinco minutos, ficou a repeti-lo em voz 
alta e, depois, de repente, as palavras penetraram na cabea e 
explodiram.
- Est consciente?
Lee disse com cansao:
- Senta-te e espera, Cal. Senta-te e espera. Tens de te habi-
tuar. Eu estou a ver se consigo.
Cal pegou no telegrama e leu a frmula digna e seca.
O Dr. Edwards saiu, acenou amavelmente com a cabea, atra-
vessou a porta e fechou-a sem rudo.
O Dr. Murphy ps a maleta em cima da mesa, sentou-se e 
suspirou.
- O Dr. Edwards pediu-me que o prevenisse.
- Como est ele? - perguntou Cal.
- Vou dizer-lhe tudo quanto sabemos. Doravante, ser voc 
o chefe da famlia. Cal, sabe o que  uma hemorragia cerebral? - 
(No esperou pela resposta de Cal). -  um derramamento de 
sangue no crebro. Certas partes so atingidas. Ele j teve derra-
mamentos, mas menos importantes. O Lee sabe o que eu quero 
dizer.
- Evidentemente - disse Lee.
O Dr. Murphy deitou-lhe um olhar e dirigiu-se novamente a Cal.
- O lado esquerdo ficou paralisado. O lado direito tem uma 
paralisia parcial.  provvel que no veja nada do olho esquerdo, 
mas no podemos garantir. Por outras palavras, o seu pai est 
reduzido a completa impotncia.
- Pode falar?
- Muito pouco. S com dificuldade. No o fatigue. 
Cal tinha a garganta seca.
- Poder curar-se?
- J ouvi falar em casos de reabsoro. Mas, pessoalmente, 
nunca vi nenhum.
- Ento, vai morrer?
- No sabemos. Pode viver uma semana, um ms, um ano 
ou mesmo dois. E pode morrer esta noite. 
- Ser capaz de me reconhecer?
- Verifique por si mesmo. Vou mandar-lhe uma enfermeira e, 
depois, arranje duas que se revezaro  cabeceira do doente. - (O 
mdico levantou-se). -Tenho muita pena, Cal. Coragem! Vai preci-
sar de muita coragem. A coragem das pessoas surpreende-me, 
sempre. O Dr. Edwards vem c amanh. Boa noite.
Estendeu a mo para tocar no ombro de Cal, mas o rapaz 
recuou e dirigiu-se para o quarto de Adam.
O pai descansava, encostado s almofadas. O rosto estava 
calmo e plido, a boca mantinha-se firme, nem sorridente, nem
severa. Os olhos estavam abertos, parecendo extremamente pro-
fundos e muito luminosos. Dir-se-iam dotados duma nova acuidade. 
Quando Cal entrou no quarto, mexeram e pousaram-se nele. De-
pois de passarem pelo peito, subiram at ao rosto e ali se fixaram.
Cal sentou-se na cadeira ao lado da cama e disse:
- Lamento muito.
As plpebras subiram e desceram como as duma ave noctur-
na.
- Ouves-me? s capaz de me compreender? - (Os olhos 
no mexeram). - Sou eu - soluou Cal. - Sou eu o responsvel 
pela morte do Aron e pela tua doena. Fui eu que o levei a casa da 
Kate e lhe mostrei a me. Foi por isso que ele fugiu. Eu no quero 
agir mal, mas sinto-me arrastado.
Poisou a cabea na borda da cama para evitar o terrvel olhar, 
mas continuava a senti-lo. Sabia que aqueles olhos nunca mais o 
largariam, como se fossem uma ndoa.
Bateram  porta. Pouco depois, Lee entrou no quarto, pre-
cedendo a enfermeira, uma mulher corpulenta com bastas sobran-
celhas pretas. A mulher abriu simultaneamente a mala e a boca.
- Onde est o meu doente? Ah! aqui est. Mas que rico as-
pecto que ele tem! Que fao eu aqui? Mais valia que se levantasse 
e que tratasse de mim. Importava-se de tratar de mim? Oh! mas 
que doente to bonito!
Segurou Adam com um brao musculado e ergueu-o sem 
dificuldade enquanto, com a outra mo, virava as almofadas.
- Almofadas frescas! - disse ela.- No gosta de almofadas 
frescas? Onde  a casa de banho? Quem me arranja uma arras-
tadeira e uma bacia? Podem pr aqui um canap?
- Faa uma lista - disse Lee. - E se precisar de ajuda por 
causa dele...
- Precisar de ajuda para qu? Vamo-nos entender os dois 
muito bem, no  verdade, meu amor?
Lee e Cal retiraram-se para a cozinha. Lee disse:
- Antes de ela chegar, ia obrigar-te a comer. Percebes, como 
certas pessoas que usam a comida para todos os fins, sejam eles 
bons ou maus. Ela deve ser desse gnero. Come ou no, como te 
der na gana.
Cal sorriu-lhe.
- Se me tivesses obrigado, acho que teria adoecido. Mas, 
visto que levas as coisas para esse lado, parece-me que vou fazer 
uma sandes.
- Uma sandes no.
- Pois eu quero uma.
- D sempre resultado. Chega a ser triste. Acho mesmo in-
decente que toda a gente reaja da mesma forma.
- J no me apetece a sandes - disse Cal. - Sobrou torta? 
- Procura no cesto do po. Deve estar um pouco dura. 
- Eu gosto dela dura - disse Cal.
Ps o prato em cima da mesa e sentou-se  frente.
A enfermeira meteu a cabea pela porta.
- Mas que rica torta! - disse ela. (Pegou num bocado de 
torta, deu-lhe uma dentada e falou com a boca cheia). - Posso 
telefonar ao Krough por causa dos remdios? Onde  o telefone? 
Onde guardam a roupa? Onde est a minha cama? J acabou de 
ler esse jornal? Onde foi que disse que ficava o telefone?
Pegou noutro bocado de torta e retirou-se.
Lee perguntou em voz baixa:
- Ele falou-te?
Cal abanou a cabea da esquerda para a direita, num movi-
mento que parecia nunca mais acabar.
- Isto vai ser horrvel. Mas o doutor tem razo. Ns somos 
uns animais maravilhosos que conseguimos suportar tudo.
- Eu no. - (A voz de Cal era branca). - Eu no posso 
suportar. No, no posso. Sou incapaz. Tenho de... Tenho de...
Lee segurou-lhe no pulso com violncia.
- Ranhoso! No tens vergonha de pensar em tal coisa quan-
do te vs rodeado por tanta bondade? Em que  que o teu sofrimen-
to  mais requintado do que o meu?
- No se trata de sofrimento. Eu contei-lhe tudo. Matei o
meu irmo. Sou um assassino e ele sabe-o.
- Ele disse-te? Ento... ele disse-te?
- Era escusado. Via-se-lhe nos olhos. Disse-me com os olhos.
No h lugar onde me esconda para escapar queles olhos. 
Lee suspirou e afrouxou a mo.
- Cal, escuta-me. Os centros vitais de Adam foram atingidos. 
Tudo o que vs nos seus olhos talvez no passe do resultado da
infiltrao do sangue no seu crebro. No te recordas? Ele j no 
conseguia ler. No era por causa dos olhos, mas sim da tenso. Tu 
no sabes se ele te acusou.  uma coisa que no podes afirmar.
- Acusou-me, sim. Eu sei que me acusou. Ele disse que eu 
era um criminoso.
- Ele h-de perdoar. Prometo-te.
A enfermeira surgiu no enquadramento da porta.
- O que  que tu prometes, Ching-Chong? No me tinhas 
prometido uma chvena de caf?
- Vou faz-lo. Como est ele?
- Dorme que nem uma criana. H alguma coisa que se leia 
nesta casa?
- Que quer?
- Qualquer coisa que me faa esquecer os meus calos.
- Com o caf, levo-lhe umas histrias indecentes escritas por 
uma rainha de Frana. Talvez as ache demasiado...
- Podes lev-las com o caf - disse ela. - Porque no vais 
passar pelas brasas, catraio? O Ching-Chong e eu ficamos de ata-
laia. No te esqueas do meu livro, Ching-Chong.
Lee ps a mquina de caf em cima do fogo. Depois, disse:
- Cal?
- Que queres?
- Vai ver a Abra.


2

Cal apoiou o dedo na campainha at que se acendesse uma 
luz e fosse corrido o fecho de segurana. A Sr.a Bacon deitou-lhe 
uma mirada.
- Queria falar  Abra - disse Cal.
Estupefacta, ela abria a boca.
- Que quer?
- Ver a Abra.
- No pode ser. J est deitada. V-se embora. 
Cal repetiu com mais fora:
- J lhe disse que quero ver a Abra.
- V-se embora ou chamo a polcia.
- O que ? Quem ? - perguntou a voz do Sr. Bacon.
- No faas caso. Vai deitar-te que ests doente. Eu trato de 
tudo.
Voltou-se para Cal.
- Saia da minha porta. E se tornar a bater, telefono  polcia. 
A porta bateu, o ferrolho rangeu e a luz apagou-se.
Cal ficou imvel, sorrindo  ideia de que a polcia era repre-
sentada por Tom Meek. J o via a perguntar: 
- Ento, Cal, que andas tu a magicar? 
A Sr.aBacon gritou de dentro:
- Olhe que o estou a ver. V-se embora.
Atravessou vagarosamente o jardim e encaminhou-se para casa.
Ainda no dera vinte passos quando Abra chegou a correr ofegante. 
- Sa pela porta da cozinha - disse ela. 
- Os teus pais vo dar por isso.
- Estou-me nas tintas.
- A srio?
- Claro que estou.
- Abra, eu matei o meu irmo e o meu pai ficou paraltico por 
minha causa.
Ela agarrou-lhe o brao com as duas mos. 
Cal perguntou:
- Ouviste?
- Ouvi.
- Abra, a minha me era uma perdida.
- Bem sei. Tu j me disseste. O meu pai  um ladro. 
- O sangue da minha me corre nas minhas veias, Abra. 
- E o sangue do meu pai corre nas minhas.
Marcharam em silncio, enquanto Cal tentava recuperar o equi-
lbrio. O vento estava gelado e aceleraram o passo para se aquece-
rem. Passaram diante do ltimo candeeiro de Salinas. Para a fren-
te, s havia escurido. Debaixo dos ps, o solo era escorregadio. 
Tinham chegado ao fim da rua, ao fim da luz. A lama era pega-
josa e a erva estava coberta de geada. Abra perguntou: 
- Para onde vamos?
- Quero fugir ao olhar do meu pai. Vejo os olhos dele  minha
frente. Quando fecho os meus, continuo a v-los. Hei-de v-los sem-
pre. O meu pai vai morrer, mas os seus olhos continuaro a olhar-
-me para me dizerem que matei o meu irmo.
- Tu no o mataste.
- Matei, sim. Disseram-me os olhos do meu pai. 
- No fales assim. Para onde vamos?
- Um pouco mais adiante. H uma fonte e um choro ao lado. 
Recordas-te do choro?
- Recordo-me, sim.
Cal disse:
- Os ramos caem como uma cortina e cobrem o cho. 
- Eu sei.
-  tarde, quando fazia sol, o Aron e tu afastavam os ramos e 
entravam. E ningum podia v-los.
- Tu espreitaste-nos?
- Claro. Quero ir contigo para debaixo do choro.  s isso o 
que eu quero.
Ela parou e deteve-o.
- No - disse ela. - Tu no tens o direito. 
- No queres ir comigo?
- Se  para te esconderes, no!
- Ento, que devo fazer? Diz-me.
- Ds-me ouvidos?
- No sei.
- Vamos voltar para casa.
- Que casa?
- Para a casa do teu pai.


3

Estavam todos violentamente iluminados pelo candeeiro da
cozinha. Lee acendera o fogo para aquecer a casa. 
- Ela obrigou-me a voltar - disse Cal. 
- Por isso esperava eu.
Abra disse:
- Ele teria voltado mesmo sozinho.
- Isso  o que nunca saberemos - disse Lee.
Saiu da cozinha e voltou pouco depois. 
- Continua a dormir.
Colocou uma botija de pedra e trs pequenas xcaras de por-
celana transparente em cima da mesa.
- Lembro-me dessa botija - disse Cal. Naturalmente. - (Lee 
serviu a bebida negra). - Bebe-se um golo e deixa-se ficar na boca. 
Abra fincou os cotovelos na mesa.
- Ajude-o - pediu ela.- Voc sabe aceitar as coisas, Lee. 
Ajude-o.
- Eu no sei se as aceito - disse Lee. - Nunca tive ocasio 
de verificar. Sempre me tenho visto... cada vez menos na possi-
bilidade de enfrentar a incerteza. Eu, tive de chorar... sozinho.
- Chorar? Voc?
- Quando Samuel Hamilton morreu, o mundo extinguiu-se 
como uma vela. Tornei a acend-lo para ver as suas maravilhosas 
criaes, mas afinal s vi os seus filhos atirados uns contra os 
outros, dilacerados e destrudos, como se se tratasse duma vin-
gana. Devem conservar o ng-ka-py em cima da lngua. - (Prosse-
guiu): - Eu prprio descobri os meus erros. Julgava que os bons 
so destrudos, enquanto que os maus sobrevivem e prosperam... 
julgava que um deus furioso derramava fogo lquido para destruir ou 
purificar a sua obra de argila. Julgava ter herdado as cicatrizes dei-
xadas pelo fogo, assim como as impurezas que tinham tornado o 
fogo necessrio. Sim, julgava t-las herdado.  isso o que sentem?
- Acho que sim - disse Cal.
- Eu no sei - disse Abra.
Lee abanou a cabea.
- Mas no basta.  preciso ir mais longe. Talvez... 
Calou-se.
Cal sentia o calor do lcool no estmago. 
- Talvez o qu, Lee?
- Talvez tu venhas a compreender que  necessrio que cada 
homem de cada gerao passe pela prova do fogo. Supes que um 
artfice, mesmo j velho, perde a ambio de fazer uma chvena 
perfeita, fina, slida, translcida? - (Olhou a chvena  trans-
parncia). - Todas as impurezas so queimadas e a chvena fica 
pronta a receber um lquido glorioso ou a regressar  fornalha. En-
to, ou se amontoam as escrias, ou se obtm o que todos pre-
tendem: a perfeio. - (Despejou a chvena e disse em voz alta): 
- Ouve, Cal: achas que quem quer que presidiu  nossa criao 
estar disposto a desistir de tentar aperfeioar-nos?
- No consigo convencer-me do contrrio. Pelo menos, por 
enquanto.
Os passos pesados da enfermeira retumbaram na sala. A mu-
lher deteve-se  porta e observou Abra que continuava de cotovelos
fincados na mesa e com o rosto entalado nas mos.
- Tm uma garrafa para a gua? Os doentes esto sempre
com sede. No sei se percebem, ele respira pela boca.
- Est acordado? - perguntou Lee. - Aqui tem a garrafa. 
- Est acordado, est. E muito bem disposto. Lavei-lhe a
cara e penteei-o.  um bom doente. At tentou sorrir-me. 
Lee levantou-se.
- Vem comigo, Cal. Venha tambm, Abra.  preciso que ve-
nha.
A enfermeira encheu a garrafa na torneira do lava-loias e saiu 
 frente.
Quando entraram no quarto, Adam estava sentado, muito bem 
escorado pelas almofadas. As mos brancas repousavam de am-
bos os lados do corpo e as veias, desde os pulsos at s falanges, 
pareciam mais salientes. O rosto tinha a cor da cera e os ossos 
destacavam-se com nitidez. Respirava lentamente. Os olhos azuis 
reflectiam a luz.
Lee, Cal e Abra colocaram-se ao lado da cama e os olhos de 
Adam percorreram-nos sucessivamente enquanto os lbios tenta-
vam formar uma palavra de saudao.
A enfermeira disse:
- Olhem como est bonito!  o meu amorzinho, o meu torro 
de acar.
- Cale a boca! - disse Lee.
- No vo cansar o doente?
- Saia deste quarto - disse Lee.
- Hei-de queixar-me ao doutor.
Lee voltou-se para ela com ar resoluto.
- Saia do quarto e feche a porta. E v queixar-se ao doutor. 
- No estou habituada a receber ordens dum china. 
Cal disse:
- Saia e feche a porta.
A enfermeira bateu com a porta de forma a demonstrar a sua 
desaprovao. Adam teve um ligeiro sobressalto. 
Lee disse:
- Adam.
Os grandes olhos azuis procuraram a voz e acabaram por pou-
sar no rosto de Lee.
- Adam, no sei o que pode ouvir ou compreender. Quando 
tinha a mo entorpecida e no conseguia ler, eu tentava ajud-lo. 
Hoje, est s, entregue a si mesmo.  muito possvel que, por 
detrs desses olhos claros, haja vida e lucidez. Quem sabe se vive 
num sonho obscuro e confuso ou se s descortina a luz e o movi-
mento, como sucede aos recm-nascidos? O seu crebro foi atin-
gido e talvez seja agora um novo homem. Talvez j no seja justo, 
nem honesto. Ningum o sabe, a no ser voc. Adam, est a ouvir-
-me?
Os olhos azuis fecharam-se e tornaram a abrir-se. 
Lee disse:
- Obrigado, Adam. Eu sei quanto deve custar. Mas vou pedir-
-lhe um esforo ainda maior. Aqui tem o seu filho Caleb, o seu nico 
filho. Olhe para ele, Adam.
Os olhos claros moveram-se at encontrarem Cal. A boca de 
Cal formou uma palavra, mas no se ouviu nada. 
A voz de Lee continuou:
- No sei quanto tempo lhe resta de vida, Adam. Anos ou 
uma hora. Mas o seu filho viver. H-de casar e os seus filhos sero 
tudo o que restar de si.
Lee enxugou os olhos com os dedos.
- Ele agiu movido pela ira, Adam, por ter julgado que voc o
rejeitava. E a sua ira matou o irmo, o seu filho. 
Cal disse:
- Lee, no tens o direito...
- Tem de ser- disse Lee.-Tenho de o fazer, mesmo que o 
mate. Sou obrigado a escolher - (Sorriu tristemente e repetiu a 
frase de Samuel): - Se censura houver, a mim me cabe. - 
(Depois, endireitou-se e disse com vigor): - O seu filho sofre uma 
culpa... alheia... alheia... O fardo  grande demais para ele. No o 
esmague com o desdm, Adam. No o esmague. - (Na garganta
seca de Lee, sibilou o ar aspirado). - Adam, d-lhe a sua bno. 
No o deixe s com a sua culpa. Adam, est a ouvir-me? D-lhe a 
sua bno.
Nos olhos de Adam ateou-se um claro terrvel. Os olhos fe-
charam-se e assim se mantiveram, enquanto se formava uma ruga 
entre as sobrancelhas.
Lee disse:
- Ajude-o, Adam, ajude-o. D-lhe essa oportunidade. Liber-
te-o. -  a nica coisa que eleva o homem acima do animal. Liber-
te-o... abenoe-o!
Toda a cama pareceu estremecer. Esgotado pelo esforo, Adam 
respirou mais depressa, e, depois, lentamente. A mo direita er-
gueu-se um pouco acima do lenol e tornou a cair.
Lee tinha o olhar esgazeado. Aproximou-se da cabeceira da 
cama e limpou o rosto molhado do doente com a ponta do lenol.
Em seguida, debruou-se para aqueles olhos fechados.
- Obrigado, Adam. Obrigado, meu amigo. s capaz de mover 
os lbios? Forme o nome dele com os lbios.
As plpebras abriram-se, deixando ver os olhos extenuados. 
Os lbios afastaram-se, colaram-se, tentaram de novo. Depois, 
encheu os pulmes de ar e expeliu-o por entre os dentes. A pala-
vra murmurada pairava no ar:
- Timshel!
Fechou os olhos e adormeceu.


FIM DO SEGUNDO E LTIMO VOLUME
